Sobre medicina e depressão


Por Renato Nadal Souza

Gostaria de comentar algumas coisas que foram escritas aqui, do ponto de vista de um estudante de medicina que pretende ser psiquiatra e psicoterapeuta e que tem depressão, atualmente controlada com medicamento e acompanhada com psicoterapia.

Primeiro, acredito que somente médicos ruins pensam que é possível resolver o problemasomente com medicação. Aliás, há diferentes tipos e graus de depressão, nem todas sequer requerem medicação.


Segundo, o doente não "se entope de remédios pra ficar mais bobo". Se um profissional entope o paciente de remédios, é um mau profissional -- em muitos casos não é um especialista e sequer está atualizado em relação às opões terapêuticas que existem. Quanto ao "pra ficar mais bobo", com certeza só ocorre com prescrição inadequada. Os antidepressivos podem causar desde vários efeitos colaterais até praticamente nenhum. Isso inclui a sonolência excessiva, que vai depender do tipo de medicamento, da dose e da pessoa que o utiliza. Via de regra, o antidepressivo não deixa ninguém "bobo" e não altera a personalidade de ninguém. Continuamos a ser quem somos, apenas mais capazes de levar a vida e lutar para melhorar mais e resolver os problemas que possam estar na raiz da depressão.

Concordo com a ideia do "desamparo aprendido". É uma das teorias que existem sobre a gênese da depressão. Como já comentaram acima, a depressão é uma doença complexa e estigmatizada. Felizmente, aos poucos está sendo erradicada a ideia de que  "depressão é pouca serotonina" (um neurotransmissor com várias funções no organismo), bem como a ideia de que "o deprimido é um fraco".

Por outro lado, acho difícil "passar do pessimismo ao otimismo" para uma pessoa que tenha tendência à depressão.

Gosto de algo que o falecido psiquiatra José Ângelo Gaiarsa dizia: "As pessoas hoje está chamando de depressão o que na verdade é tristeza". Penso que dá-se hoje o diagnóstico de depressão a muitos casos que são o que costumávamos chamar de tristeza, desencorajamento etc. Daí umas previsões de que a depressão será epidemia dentro de 20 anos. No meu modo de ver, o mundo atual é muito mais desafiador e competitivo, e por isso um número cada vez maior de pessoas se sente "desamparada".

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Respostas a este tópico

A depressao é a tristeza da alma.....melhor remedio é a alegria, ou algo que faça o deprimido(a)  interessar-se para voltar a vida social!!! Mas em todos os casos é muito dificil sair sozinho, já vi varios exemplos. É a doença que mais cresçe neste ultimos anos, apesar de o Brasil ter melhorado socialmente, essa doença nao para de aumentar.

Uma pessoa insatisfeita ou triste é uma situação diferente de uma depressão que se faz necessária uma ajuda química para que o equilíbrio volte.

Tratar um deprimido apenas com terapia é um risco, o psiquiatra pode impedir um suicídio. A medicação não é incompatível com a terapia, elas se completam.

Medicar um paciente não é deixá-lo apático, dormindo o tempo todo ou com cara de retardado, quando isso acontece é porque o tratamento não esta sendo adequado.

 

Pode ser útil deixar neste, um dos primeiros comentários do tópico, os links para os 5 posts destes dias em torno de depressão/ansiedade. Há muitos comentários com depoimentos e sugestões relevantes, e assim fica organizado pra quem desejar ler:

 

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/carta-ao-amigo-que-se-matou

(26 coment.)

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-fascinio-perigoso-da-morte

(14 coment.)

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/as-raizes-da-depressao

(56 coment.)

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/sobre-medicina-e-depressao

(11 coment.)

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/experiencias-de-um-ex-depr...

(20 + coment.) 

 

 

estava escrevendo sobre minha experiência de depressiva... não sei porque não consegui continuar...

pôoooo agora não tenho + depressão, mas fico irada quando cortam o q consigo escrever...

Bem vindo Nassif ao seu PORTAL...; abraço

 

 

Tava ele ali, prestes, quando se deu conta.

 

“Faltou o bilhete!!”

 

A  mesa tava ali, a caneta (com tinta), o papel... e o tempo.

 

Tinha tempo. Por primeira vez na vida o tempo era todo dele e de mais ninguém.

 

Virginiano, olhou pras coisas, limpas, simétricas, organizadas, cuidadosamente dispostassobre a mesa.

 

À esquerda, seu livro preferido embrulhado num tecido de linho branco, a caixa de incenso e o suporte em cobre brilhante.

 

À direita, o revolver. Preto.

 

Agora, só faltava só o bilhete.

 

“Ninguémtem culpa. Nem eu.”

Achou muito hermético.

“Ninguém tem culpa, a culpa não existe.”

Muito filosófico.

“A culpa não existe, morri feliz.”

Seria difícil alguém acreditar.

 

Tava difícil!

“Não culpo ninguém, sei que todos fizeram o melhor. Eu também.”

Ainda não.

“Se meu melhor é este na hora mais importante da minha vida e não é culpável, eu medesculpo. E mais, ninguém tem culpa.”

 

Tava cada vez mais difícil.

 

Sem bilhete? Um falastraz? Nunca! Jamais! Melhor morrer!

 

Teve que sorrir com da lógica. E da idéia.

 

“A história é essa mesmo! O cara se matou porque não conseguia escrever um bilhete explicando sua morte!”

 

Desdobrou a toalha de linho branco.

 

Abriu o livro na página que os dedos escolheram.

 

Leu.

 

“Pulandona beira de um abismo, ele não tem culpa. Nem a ascenção nem a queda durammuito tempo; o que importa é evitar o mal. O Princípio Criador o está levando auma de suas grandes transformações. Ele está testando seus poderes, por issonão tem culpa nenhuma.”

 

Fechou o livro, dobrou o linho.

 

Guardou o revólver no coldre.

 

Tomouum banho rápido, sorrindo.

 

Sem culpa, nada era pesado. Nem a vida.

 

Passou o dedo pela janela embaçada.

 

Lá fora, chovia e, como sempre, algum mentiroso, afirmara que "amanhã, o dia será de sol".

 

Mas, sabia, o dia seria como ele, o dia, quisesse.

 

As folhas das árvores continuaram sendo lavadas e o "diacho do ônibus", em primeira, subiu a rua gritando.

 

Saiu pra chuva.

 

“Melhor, sair por aí espalhando pros incrédulos que a culpa não existe.”

 

Subiu a rua atrás do ônibus barulhento.

 

 

Publiquei no blog da minha família

http://familiaribeiro2010.blogspot.com/

Sugiro a leitura do livro da Maria Rita Kehl sobre o tema: O tempo e o cão.

Segue a resenha por Marion Minerbo

Este é mais um livro de Maria Rita Kehl em que reconheço, além de um estilo pessoal, a Psicanálise usada como instrumento de luta política pautada por uma ética – a da desalienação do sujeito; e isso em dois níveis que se imbricam mutuamente: o social e o individual. Nesse sentido, sua produção caracteriza uma obra. Esta obra, cujo leitor não é apenas o psicanalista, mas todos aqueles que se interessam pelas humanidades, marca, de maneira singular, sua inserção no campo da Psicanálise.

Isso não chega a surpreender, se consideramos sua biografia. Maria Rita não estudou psicanálise como alguém estuda para ser dentista, isto é, preparando-se para exercer um oficio como forma de ganhar a vida. Ela chega ao exercício clínico da psicanálise como consequência de, e em coerência com, seu engajamento ético/político como a intelectual que é. Nesse sentido, encontra em Lacan os instrumentos teóricos que lhe permitem lutar pela desalienação do sujeito – social e individual – com relação ao Outro. Em minha interpretação, a pulsão que move a obra de Maria Rita é a necessidade de oferecer ao leitor instrumentos para cair dessa posição subjetiva, abrindo mão da proteção imaginária oferecida pelo Outro.

Esses elementos podem ser reconhecidos, por exemplo, em seu estudo sobre o ressentimento. (Ressentimento, Casa do Psicólogo, 2004). O sujeito individual ou social atribuiu ao Outro o direito e a obrigação de zelar por sua felicidade, em lugar de assumir a responsabilidade por seu destino; em seguida, sentindo-se prejudicado, se ressente por esta não lhe ter sido dada. O ressentido se mantém ativamente nesta posição porque o ganho subjetivo é considerável: salva seu narcisismo, que poderia sair arranhado caso percebesse a covardia moral e a submissão que o levaram a ceder de seu desejo e de seu bem, sem ao menos lutar. Em lugar de se arrepender, acusa. Prefere ficar numa posição de dependência, porém protegida (ainda que prejudicado), a ser livre, mas desamparado.

Vejo o mesmo movimento pulsional subtendendo seu brilhante estudo sobre o feminino (Deslocamentos do Feminino, Imago, 2007). Resgata, no plano da história, da literatura e da teoria psicanalítica, indicadores da crise entre a mulher e as representações do feminino excessivamente restritivas que originaram o sofrimento histérico. Termina seu livro denunciando a tendência da teoria psicanalítica, ou de certo modo de conduzir as análises ainda hoje, de voltar a naturalizar o lugar do feminino, equiparando histeria e feminilidade – os recursos fálicos ainda são vistos como sintomas a serem curados. Mostra a ambivalência de Freud com relação às mulheres e ao feminino: “Freud ouviu a crise entre as mulheres e a feminilidade, e entendeu que a cura de suas histéricas equivalia a remetê-las de volta a esta mesma feminilidade da qual elas já se desajustavam, em função da multiplicidade de discursos e possibilidades de escolha surgidas na modernidade” (p. 265). Demonstra a impossibilidade teórica e prática da mulher renunciar às identificações com o pai, para ser apenas “feminina”. “Se existe uma cura para as mulheres, isto é, para o penisneid, ela passa pela (re)conquista daquilo que, sendo dos homens, não tem porque não ser das mulheres também. Não um pênis, mas uma ou algumas das infinitas faces do falo” (p. 267). Percebe-se o engajamento da psicanalista na luta para ampliar as possibilidades de cura para o sofrimento feminino.

No livro Sobre Ética e Psicanálise (Companhia das Letras, 2002), embora não seja o tema central, encontramos o embrião de seu livro mais recente, O Tempo e o cão, a atualidade das depressões. Citando Roudinesco, diz que “o depressivo sofre de uma liberdade conquistada, porque não sabe desfrutá-la” (p. 80). Além disso, afirma que a liberdade traz consigo um tanto de sofrimento, que, na atualidade, tende a ser patologizado. A angústia não é vista como parte da condição humana e da luta para afirmação de um projeto próprio; o medo de sofrer e a recusa do conflito acabam por fechar as portas que o advento da modernidade lhe abre. “A depressão, sintoma do mal-estar neste começo de milênio, como a histeria, no final da era vitoriana, é ao mesmo tempo condição e conseqüência da recusa do sujeito em assumir a dimensão de conflito que lhe é própria” (p. 80). Entende-se: para ser autor de um discurso próprio não há como escapar do “encontro com os dispositivos capilares do poder” (p. 134). Como veremos em seguida, o depressivo é aquele que se esquivou desse encontro sem ao menos tentar lutar. Percebem-se as ressonâncias com o tema do ressentimento.

Em O Tempo e o Cão Maria Rita Kehl aprofunda o estudo da atualidade das depressões. Resgatando, inicialmente, a idéia pré-freudiana de melancolia, a autora mostra que esta figura dava um sentido e um lugar social reconhecido a certa dor de ser em culturas cujo ideal era vivido como impossível por certos sujeitos. O melancólico era um marginal, alguém que não se encaixava perfeitamente nos ideais da época, e que se recriminava por isso, sentindo-se indigno do amor do outro e de si mesmo. Mas ele era também alguém que resistia e que, a partir de um saber inconsciente, fazia a crítica dos ideais daquela cultura.

Depois de Freud, a melancolia se individualiza, passando a ser analisada apenas dentro da dinâmica dos investimentos objetais nas relações edipianas. Ela passa a designar o luto impossível pela perda de um objeto com o qual o ego mantém uma relação ambivalente e eminentemente narcísica. Mas não é esse o objeto de Maria Rita; tampouco o neurótico que se deprime. É a depressão enquanto posição subjetiva.

Assim, sem desconhecer a importância dos aportes freudianos, Kehl busca recuperar a melancolia pré-freudiana, agora com o nome de depressão, como expressão de um mal-estar existencial e como analisador da cultura. O sofrimento decorrente deste mal-estar, originalmente existencial, pode se cristalizar, fixando o sujeito numa posição patológica a partir da qual vai “ler” o mundo e reagir a essa leitura.

A psiquiatria propõe a medicalização indiscriminada da depressão, entendendo-a como entidade nosológica. Em que pese a importância do tratamento medicamentoso para certos casos, Maria Rita sustenta que calar sistematicamente o sintoma equivale a enterrar, uma segunda vez, a possibilidade de o sujeito ter algum acesso às determinações inconscientes da posição que ocupa; ele perde a oportunidade de desalienar-se das injunções identificatórias do Outro.

Como se constrói a depressão enquanto posição subjetiva? A autora vê no excesso de presença do Outro, seja o materno, seja o social-cultural (o capitalismo global e a sociedade de consumo), um dos fatores que produz a demissão subjetiva. Por um lado, o Outro é intrusivo, oferece “coisas” ininterruptamente, impedindo/ocluindo o espaço/tempo em que o sujeito poderia construir fantasias, desejos, sonhos, capazes de preencher a falta. “A depressão decorre de um excesso de presença do Outro que torna claudicante a simbolização da ausência” (p. 223). Por outro lado, o Outro também faz demandas excessivas; capturado no projeto impossível de fazê-lo gozar, o sujeito acaba por desesperar – ele deixa de esperar, não tem mais esperança de vir, um dia, a realizar, ainda que parcialmente, o desejo próprio. Porém, ao contrário do que se observa em outras neuroses, em que o sujeito vive a castração como derrota, o depressivo a vive como vergonha, pois “sabe” que se esquivou da rivalidade fálica com o pai por covardia moral. “[...] ele se retirou do jogo sem nem ao menos tentar” (p. 201). Por isso, “não consegue fazer da castração condição do desejo” (p. 233).

Essas idéias me remeteram a uma paciente que, até se deprimir e buscar análise, seguira um roteiro predeterminado de estudos, no que se saíra brilhantemente. Terminada esta etapa, quando poderia colher os frutos de sua dedicação, ela se deprime. Nada mais fazia sentido; depois de tanto tempo, já não sabia o que queria. Deitada no quarto escuro, recusava-se a entrar na corrida em busca de títulos acadêmicos – tudo era vão – e pensava em suicídio. Em análise “aprende a falar” com um Outro que a escuta, que tolera e dá um sentido ao seu sofrimento. Na tentativa de abreviar o tempo da depressão, de modo a continuar se adequando ao tempo social – “preciso voltar logo para o trabalho” – faz tentativas frustras de “criar projetos” de “fora para dentro”. Naturalmente, não consegue sustentá-los. O que poderia ser um saber sobre a castração “passa do ponto”: “é tudo ilusão, nada vale a pena”. Sai da depressão apaixonando-se pela literatura, o que escuto como representação da transferência (na análise, como na literatura, há lugar para a subjetividade). Em uma sessão, cria a seguinte imagem: “eu queria estar presa na cadeia, assim ninguém poderia me pedir nada; eu ficaria com o tempo todo só para mim; poderia ler o dia inteiro”. Diante do Outro voraz, só mesmo as grades da prisão para se sentir livre.

Passando do plano individual para o social-cultural, a autora analisa as condições de subjetivação na modernidade e traz à luz injunções contraditórias do discurso do Outro que produzem a fadiga de viver. De um lado, o sujeito deve gozar sempre para fazer gozar o Outro. De outro, os discursos sobre o que faria o Outro gozar – os ideais a serem atingidos – estão de tal modo pulverizados que se torna complicado saber em que direção persegui-los. Nesse contexto, construir uma existência singular, a partir de um desejo próprio, se torna uma tarefa hercúlea. O fracasso se manifesta pelo colapso da capacidade imaginativa: no limite, nada mais é investido imaginariamente de valor fálico. “Uma pedra é apenas uma pedra”, como diria a poeta.

A idéia de fatalismo (“não adianta, não vou conseguir mudar nada”) noção desenvolvida por Benjamin, funciona, para Maria Rita, como articulador entre o plano social e individual no estudo da posição do depressivo. “O melancólico benjaminiano vê-se desadaptado, ou excluído, das crenças que sustentam a vida social de seu tempo; mas ao contrário do empenho investigativo e criativo que caracteriza seus precursores renascentistas, sente-se abatido pelo sentimento da inutilidade de suas ações. Daí a relação entre a melancolia (pré-freudiana) e o fatalismo, sentimento de insignificância do sujeito como agente de transformações, tanto na vida privada quanto na política” (p. 100). Com esse conceito, a autora sustenta sua hipótese da relação entre depressão e demissão do sujeito.

Outro conceito articulador entre o plano social e individual da depressão é a temporalidade. O título O Tempo e o cão alude à velocidade da vida no capitalismo avançado e aos valores que são atropelados – representados pela figura do cão que atravessa, desavisado, a estrada em que trafegamos em alta velocidade. No evento real, não foi possível a Maria Rita parar o carro. O livro representa a pausa necessária para pensar este acontecimento: o tempo para a experiência.

O contraste entre a lentidão do depressivo e a velocidade da vida chama a atenção da psicanalista. A vida limitada ao fazer, à necessidade de administrar os estímulos presentes, priva o sujeito do tempo da experiência – tempo em que ele poderia se apropriar, pela via das narrativas, do tempo passado, de modo a projetar um tempo futuro. O predomínio da vivência sobre a experiência produz o sentimento de vazio. A autora constata que se perdeu o tempo “para o devaneio e outras atividades psíquicas ‘improdutivas’ que provêem um sentido (imaginário) para a vida” (p. 161). Dessa perspectiva, entende a lentidão do depressivo como uma resistência inconsciente ao tempo do Outro. É possível, embora a paciente citada acima tivesse plena consciência de sua recusa em entrar na corrida da vida acadêmica. De todo modo, se o depressivo não consegue fazer algum investimento pulsional que torne os objetos significativos, a lentidão pode ter mais a ver com o fatalismo do que com um saber inconsciente. Afinal, o tempo vazio do depressivo não é vivido por ele como tempo para o ócio criativo, mas como tédio angustiante e como fadiga de viver.

A depressão como expressão do mal-estar contemporâneo decorre do recorte efetuado pela autora a partir de Lacan. Como todo recorte, tem seu alcance – amplo, como o leitor de O tempo e o cão poderá constatar – e seus limites. Outros referenciais teóricos permitiriam fazer outras relações. Os pós-freudianos franceses que incorporaram em seu pensamento a obra de Klein, Winnicott e Bion, entendem que o mundo contemporâneo produziu um sofrimento do tipo narcísico-identitário, que corresponde aos estados-limite. Maria Rita cita rapidamente Bergeret (p. 232), autor que faz parte deste grupo.

Nessas estruturas – denominadas por Andre Green (2002) de não-neuróticas – o sofrimento psíquico está relacionado aos distúrbios na constituição do eu, especialmente da função (egoica) simbolizante, e em particular à ausência do símbolo para a ausência. Em O trabalho do negativo, (“Le clivage: du désaveu au désengagement, Le moi haïssable”) Green (1999), que se diz um ex-lacaniano, faz uma crítica feroz a Lacan. “Na França, no fim dos anos cinqüenta, qualquer reflexão sobre o moi se expunha a ataques destinados a denegrir o discurso sobre este assunto, considerado apressadamente como portador de uma ideologia normativa suspeita de conluio político com o poder. [...] A denúncia de uma ideologia [a psicanálise americana de Hartmann], cuja culpa era sobretudo a indigência teórica, havia conseguido fazer o papel da defesa ao proclamar uma verdadeira interdição de pensar a problemática do moi fora das diretrizes dadas por Lacan. Mesmo nessas condições, isso deixou de ser possível. A intimidação havia sido bem sucedida. Na verdade, se a empreitada foi desencorajada, é porque ela ameaçava o conjunto da teoria lacaniana, como o futuro demonstraria através dos trabalhos dos ex-lacanianos” (p. 166-7, tradução livre da autora). Green precisa reabilitar o moi para se dedicar a seu tema, o borderline.

No referencial teórico a que me refiro, enquanto o neurótico se debate com questões ligadas à libido objetal e ao desejo, o não-neurótico está às voltas com a libido narcísica e à sobrevivência. O eu mal constituído, com falhas importantes na função simbolizante em função do trauma precoce, está constantemente ameaçado, tanto por angústias de morte, quanto em sua autoestima. O investimento pela libido narcísica é insuficiente para garantir um narcisismo de vida. A partir disso, pode-se pensar a depressão enquanto posição tanto do lado da neurose, quando o sujeito desistiu de tentar afirmar um desejo próprio; como do lado da não-neurose, na forma melancólica (no sentido pós-freudiano), se o sujeito desespera de ser digno de amor, por si mesmo ou pelo objeto.

Quando Maria Rita fala na “fadiga decorrente da árdua tarefa de être soi-même exigida do indivíduo contemporâneo” (p. 160), penso numa condição psíquica a que denominei “depleção simbólica” (Minerbo, 2009), uma modalidade de não-neurose. É a condição psíquica daqueles que, diferentemente de Baudelaire, não conseguiram “transformar os choques da vida moderna em matéria simbólica, e, com isso, “dar forma” ao monstro disforme da modernidade” (p. 177).

Diante do “monstro sem forma”, o sujeito tem a experiência de vazio existencial, de dor de viver e de tédio. Ou ele sucumbe, e vai para “baixo das cobertas”, como diz Maria Rita, e temos a depressão. Ou, para não sucumbir, ele se defende do sofrimento por meio das mais diversas atuações. Temos as adições no sentido amplo do termo: a drogas do narcotráfico/indústria farmacêutica; a drogas naturais, como a endorfina e adrenalina (adição a esportes e a esportes radicais). Testemunhamos a proliferação de comportamentos compulsivos tais como: compulsão por sexo, por sexo virtual, consumo compulsivo, o cortar-se compulsivo, malhar, navegar na internet, além de outros comportamentos destinados à “construção da identidade” – uma

O resultado - positivo - do supre-miss.
E a quem interessar pesquisar, falar de suicídio no brasil e não citar o Neury Botega da UNICAMP é brincadeira...
Anexos

Quando eu morava na roça cansei de ver bicho morrer por causa da rejeição

 

George Nikitin/AP

Hasani, de três meses, foi rejeitado pela mãe e agora recebe carinho dos tratadores do zôo de San Francisco
Hasani, de três meses, foi rejeitado pela mãe e agora recebe carinho dos tratadores do zôo de San Francisco

Acho interessante a coincidência desse grande número de tópicos sobre a depressao, com o da socialidade da sociedade atual e o das cantigas de solidao. Acho que as pessoas estao querendo falar de algo que é difícil, e ficar citando especialistas é apenas um modo de no fundo se defender do que teria a ser dito em termos de vivência pessoal.

 

Outra coisa que acho significativa é o momento em que isso aparece. Isso, junto com outras coisas que vêm acontecendo recentemente na blogosfera me leva a pensar num certo "luto" até pela baixaria da campanha presidencial, que provocava uma adrenalina... Na falta dela, está havendo desânimo, brigas entre pessoas, etc. Caído o inimigo comum, cai o cimento que une um grupo...

Sempre com análises interessantes. Algo a ser debatido, sem dúvida.

Prezada Anarquista Lúcida,

 

          Quando, merecidamente, coerentemente, socialmente, bem colocado, nos apresenta "Caído o inimigo comum, cai o cimento que une um grupo...", minhas entranhas se contorcem, sobressaltam, se fazem presente, uma vez que, o poder da internet, assim como a capacidade de utilização de nosso cérebro, estão, muito, mas muito, aquem de suas respectivas potencialidades.

 

          Afinal, em 99% dos debates, dos embates, existentes na internet, encontramos a superficialidade de um "nome", de uma "situação específica" em momento, em circustância, que, apenas e tão somente, são analisadas neste contexto restrito. Logo, invariavelmente, NADA acrescentam, de construtivo, de revolucionário, de renovador, de esperançoso.

 

           Para muitos, que não eu, passado qualquer pleito, arrefesem-se os ânimos, pela pouca, ou nenhuma percepção, de que os REAIS Inimigos, ainda estão aí, a serem combatidos, em embates de idéias, de sentimentos, da própria necessidade de mudar o que aí esta.

 

            Para muitos, que não eu, o Brasil é racista, para outros como eu, o Brasil não tem NADA de racista, quando muito, se apresenta como tal, na busca da identificação de sua essência racista, que concretamente, pela busca é disformemente cristalizada.  

 

             Para quase todos, como eu, a consciência de qualquer tipo de segregação, de discriminação, de descriminação, ocorre em função de situação financeira, social, econômica, funcional, cultural, religiosa e/ou política.

 

             Quando, então, afirmo, estar aí, o coração de nosso Inimigo MAIOR.

 

              Tenho, me manifestado, diretamente, às Autoridades Brasileiras, no intuito, de provocar, pelo menos, uma pequena reflexão, na mesmisse, na apatia, na conveniência, na ilegalidade, na injustiça que se pratica cotidianamente no Brasil. No entenato, nossa consciência, de termos avançado quase nada, não nos provoca qualquer sentimento menor, como o desânimo, pois, sabíamos, como sabemos, que se trata de uma luta desigual, onde preparados, e desejosos, pelo embate, encontramos nosso opositor do momento, em conveniência, IGNORANDO, nossa existência, nossa proposta lúcida, limpa, cristalina, do COMBATE de idèias, conceitos e valores.

 

               Minha crença de que TODO sistema possui algum tipo de fragilidade, nem que seja pelo tempo de "piscar um olho", me induz a acreditar, que estamos vivendo este "piscar de olhos", pois, questão de âmbito internacional, como a extradição de Cesare Battisti, nos permite sonhar com a concreta CONDENAÇÃO de TODO o Plenário do Supremo Tribunal Federal por Crime de Prevaricação.

 

                Crença, que de tão forte, embasou um sentimento próprio, de que devemos ser o mais contundente possível, o mais específico possível, o mais sagaz possível, o mais amplo possível, na avaliação, na exposição das conclusões resultantes, pois, estara na correta, na precisa, na inteligente, na claresa, na razoabilidade, na factualizade, delas que poderemos MUDAR alguma coisa, qualquer coisa, por menor que seja, em prol do Objetivo Fundamental de Nossa Constituição que é o de Construirmos uma Sociedade Livre, JUSTA e Solidária.

 

                 Abraços,

                 Plinio Marcos

 

PS.: Nossos Inimígos são MUITOS, FORTES e PODEROSOS, portanto, ajude-nos a apresentá-los a TODO aquele, que mesmo ansioso, em participar, ainda não foi capaz de identificá-los.   

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