Sobre medicina e depressão


Por Renato Nadal Souza

Gostaria de comentar algumas coisas que foram escritas aqui, do ponto de vista de um estudante de medicina que pretende ser psiquiatra e psicoterapeuta e que tem depressão, atualmente controlada com medicamento e acompanhada com psicoterapia.

Primeiro, acredito que somente médicos ruins pensam que é possível resolver o problemasomente com medicação. Aliás, há diferentes tipos e graus de depressão, nem todas sequer requerem medicação.


Segundo, o doente não "se entope de remédios pra ficar mais bobo". Se um profissional entope o paciente de remédios, é um mau profissional -- em muitos casos não é um especialista e sequer está atualizado em relação às opões terapêuticas que existem. Quanto ao "pra ficar mais bobo", com certeza só ocorre com prescrição inadequada. Os antidepressivos podem causar desde vários efeitos colaterais até praticamente nenhum. Isso inclui a sonolência excessiva, que vai depender do tipo de medicamento, da dose e da pessoa que o utiliza. Via de regra, o antidepressivo não deixa ninguém "bobo" e não altera a personalidade de ninguém. Continuamos a ser quem somos, apenas mais capazes de levar a vida e lutar para melhorar mais e resolver os problemas que possam estar na raiz da depressão.

Concordo com a ideia do "desamparo aprendido". É uma das teorias que existem sobre a gênese da depressão. Como já comentaram acima, a depressão é uma doença complexa e estigmatizada. Felizmente, aos poucos está sendo erradicada a ideia de que  "depressão é pouca serotonina" (um neurotransmissor com várias funções no organismo), bem como a ideia de que "o deprimido é um fraco".

Por outro lado, acho difícil "passar do pessimismo ao otimismo" para uma pessoa que tenha tendência à depressão.

Gosto de algo que o falecido psiquiatra José Ângelo Gaiarsa dizia: "As pessoas hoje está chamando de depressão o que na verdade é tristeza". Penso que dá-se hoje o diagnóstico de depressão a muitos casos que são o que costumávamos chamar de tristeza, desencorajamento etc. Daí umas previsões de que a depressão será epidemia dentro de 20 anos. No meu modo de ver, o mundo atual é muito mais desafiador e competitivo, e por isso um número cada vez maior de pessoas se sente "desamparada".

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Respostas a este tópico

Nassif eu acho que seu tópico merece outro  título.

sugiro:

É DURO FALAR DA DEPRESSÃO.

Bota duro nisso... Hoje em dia, ser feliz é obrigatório. Nao ser, é "ser um perdedor". Nao há muito espaço para ninguém falar de seus motivos para sentir tristeza, desânimo, etc.

Postando aqui uma matéria de  Leonardo Boff que fala sobre a depressão coletiva.

 
Crise neoliberal e sofrimento humano

O balanço que faço de 2010 vai ser diferente. Enfatizo um dado pouco referido nas análises: o imenso sofrimento humano, a desestruturação subjetiva especialmente dos assalariados, devido à reorganização econômico-financeira mundial.

Há muito que se operou a “grande transformação”(Polaniy), colocando a economia como o eixo articulador de toda a vida social, subordinando a política e anulando a ética. Quando a economia entra em crise, como sucede atualmente, tudo é sacrificado para salvá-la. Penalisa-se toda a sociedade como na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Espanha e mesmo dos USA em nome do saneamento da economia. O que deveria ser meio, transforma-se num fim em si mesmo.

Colocado em situação de crise, o sistema neoliberal tende a radicalizar sua lógica e a explorar mais ainda a força de trabalho. Ao invés de mudar de rumo, faz mais do mesmo, colocando pesada cruz sobre as costas dos trabalhadores. Não se trata daquilo relativamente já estudado do “assédio moral”, vale dizer, das humilhações persistentes e prolongadas de trabalhadores e trabalhadoras para subordiná-los, amedrontá-los e, por fim, levá-los a deixar o trabalho. O sofrimento agora é mais generalizado e difuso afetando, ora mais ora menos, o conjunto dos países centrais. Trata-se de uma espécie de “mal-estar da globalização” em processo de erosão humanística.

Ele se expressa por grave depressão coletiva, destruição do horizonte da esperança, perda da alegria de viver, vontade de sumir do mapa e até, em muitos, de tirar a própria vida. Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam  a competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis, infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico. Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às sobrecargas do trabalho.

A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano passado, numa pequisa ouvindo 400 pessoas, que cerca de um quarto delas teve  idéias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: “é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas”.  Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo e orientado para a maximalização dos lucros. Uma pesquisa de 2009 feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego. Os gestores atuais mostram-se insensíveis ao sofrimento de seus funcionários, acrescentando-lhes ainda mais sofrimento.

A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde Diplomatique de novembro do corrente ano, denunciou  que entre os motivos das greves de outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava:”metrô, trabalho, cama”, atualizando-a agora como “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer, doenças letais ou o suicídio como efeito da superexploração capitalista.

Nas análises que se fazem da atual  crise, importa incorporar este dado perverso que é  o oceano de sofrimento que está sendo imposto à população, sobretudo, aos pobres, no propósito de salvar o sistema econômico, controlado por poucas forças, extremamente fortes, mas desumanas e sem piedade. Uma razão a mais para superá-lo historicamente, além de condená-lo moralmente. Nessa direção caminha a consciência ética da humanidade, bem representada nas várias realizações do Forum Social Mundial entre outras.

Leonardo Boff é autor de Proteger a Terra-Cuidar da vida:como evitar o fim do mundo, Record 2010.

Webster, esse tipo de causalidade coletiva acho até que diminuiu nos últimos anos, por causa da melhora das condições de vida da maioria e tb da alta da auto-estima dos brasileiros. O que nao quer dizer que outros aspectos de causação coletiva de sofrimento psíquico nao existam.

 

Embora eu nao tenha concordado muito com as posições que o Daniel Quireza (? nao me lembro bem do nome) tenha defendido na discussao que ele iniciou sobre a sociabilidade urbana atual, acho que esse tipo de fator influi mais na vida das pessoas daqui deste Portal e do Blog (que, posso estar enganada, sao em maioria de classe média) do que a opressao econômica em si. Mesmo em relação ao universo do trabalho, creio que os motivos maiores de descontentamento nao sejam só salariais, mas de sentido do que se faz, de contentamento ou nao em fazê-lo.

Ana Lú,

Concordo quando você afirma que houve melhora nas condições de vida da maioria e também da auto estima dos brasileiros. Entretanto, com o advento do processo de globalização a competição no mercado de trabalho está excessivamente acirrada com a exploração sem limites da força de trabalho, o que causa diversos transtornos a classe trabalhadora, inclusive a depressão. Outro aspecto que vale ressaltar é que as pessoas vão em busca de trabalho em qualquer lugar que se encontre, mesmo fora das cidades que residem, privando-se muitas das vezes do convívio familiar.

Quanto a sociabilidade urbana atual mesmo sem ter lido o post do Daniel, penso que as pessoas se encontram cada vez mais isoladas em seus APs, com baixo nível de interação entre amigos e até mesmo familiares (falo em convívio pessoal).  

Pois é. Posso estar falando por apenas um setor social, claro, mas acho que, no setor social em que me situo, esse tipo de fator para a depressao é preponderante.

Ponho aqui 2 mini-tópicos que encontrei em um blog chamado Sociologia do Absurdo. Acho que têm tudo a ver com o tema daqui.

 

7 autoexames para fazer agora

 

Uma matéria linkada no site do UOL aponta 7 autoexames para fazer AGORA (antes de dormir?). Nem li. É claro. Mas me parece mais um desses artifícios, mais ou menos conscientes, da sociedade do medo. Viva com medo. E qualquer não-medo – mesmo que seja da água do filtro de barro da sua cozinha – será reconfortante.

Suponho que, como tudo na natureza, o corpo humano seja obra de uma variedade mais ou menos concatenada de acasos. Portanto, nunca vai funcionar perfeitamente bem. Se o objetivo é achar problemas no corpo humano, problemas serão achados. O problema é o que fazer com os problemas achados. É evidente que existem inúmeros problemas de saúde, cada vez mais presentes, talvez. Mas a medicalização da vida e do cotidiano é muito mais o problema do que a solução.

A Folha.com noticiou que a venda do ansiolítico clonazepam (leia-se Rivotril) aumentou mais de 35% nos últimos quatro anos. Ninguém pode ficar triste, é doente quem fica triste.

Falta razão para ficar triste no mundo de hoje, de ontem ou de qualquer tempo? Não falta.  A questão não seria então a tristeza em si, mas o motivo da tristeza. O motivo da tristeza de hoje não seria resultado do hiato entre o mundo como ele é e a idealização do mundo (e da vida) que tenta se estabelecer?

Estamos tomando remédios para que o falso ideal de uma natureza perfeita se coadune com um real que é evidentemente imperfeito, posto que não foi planejado por nenhuma inteligência perfeita da vida.

Houve uma época em que falavam de uso de drogas como opção para fugir da realidade. Sabemos que da realidade não se foge, pois a realidade simplesmente é a realidade. Seja qual for (drogada ou não-drogada). As drogas autorizadas de hoje não seriam drogas para esconder o fato de que a realidade da vida é sempre plena de significados confusos? E que por ser plena e confusa pode ser prazerosa ou doída ou os dois ao mesmo tempo?

[A esse respeito, vale ler outro tópico aqui no Portal, http://blogln.ning.com/forum/topics/remedio-para-tdah-ajuda ]


O mundo é essencialmente sem sentido

O nome escolhido para este blog tem repercussões biográficas. Saiu de um livro chamado “Sociologia do Absurdo”. Sua primeira edição coincide com o ano de meu nascimento (1970). A segunda edição é do ano de minha entrada na faculdade de ciências sociais (1989). Mas quem leu alguma coisa desse livro conhece ou aceita a hipótese que enxerga o mundo como “essencialmente sem sentido”.  O mundo material, o suposto concerto das coisas, não tem nenhum sentido dado previamente à espera da descoberta. Todo sentido é arbitrário. É construído socialmente.

O problema que já foi, inicialmente, compreendido como um problema de sociólogos é problema de todos. Todos tem de desenterrar diariamente significados de um mundo que não tem nenhum significado aparente e, muito menos, objetivo. Insegurança e alienação são corolários da vida.

A vida humana é conflito – com outros, com a sociedade, com a natureza e com nós mesmos. Um conflito pela definição do significado de cada situação presente. Cada situação social é problemática para aqueles que nela estão envolvidos. O problema central tem a ver com o estabelecimento de um sentido razoavelmente unívoco que permita a produção, a reprodução e a persistência estável das interações sociais que se desenrolam nos micro-mundos reais e nas suas macro-ramificações mais ou menos reais.

É evidente, e aqui deixo de seguir ortodoxamente os meus inspiradores, que nas lutas para estabelecer os significados das situações estão as relações de poder. O poder – construído sobre as mais diversas, insuspeitas e prosaicas bases – de definir as situações.

A última e não menos importante advertência é que este blog não pretende ser um blog de sociologia stricto sensu, afinal tal coisa não existe. Não existe uma sociologia e, portanto, não existe blog de sociologia. Mas este não é também um blog de sociologias. Digamos que pretende ser apenas um blog em que o mundo será olhado pelo viés do olhar sociológico. Olhar sociológico NÃO-ACADÊMICO e NÃO-DISCIPLINAR. É essencial que fique clara a última advertência: das disciplinas bastam as inescapáveis.

 

 

 

 

Trabalhei mais de 30 anos no serviço público federal (área da saúde) parte administrativa e detentor que sou de um espírito rebelde diante do mundo atual por não aceitá-lo como é, passei por um período de grande depressão e submetido ao tratamento médico convencional, com remédios caros que aumentavam mais ainda a minha depressão diante da negra situação financeiras vivida e que me acompanha até hoje, quando,  do consultório médico para a Farmácia fui espancando o meu espírito e ordenando-lhe uma separação irreversível e ao chegar à Farmácia onde fui cliente durante anos, solicitei o remédio e deixei alí um cheque predatado que apenas rolava a minha preocupação transferindo o compromisso de pagamento para dias posteriores e em minha casa, conversando com a minha Santa esposa sobre o preço do medicamento e a situação financeira, ela me disse: Voce que luta por um mundo igualitário, pr eocupado com a situação individual? Foi o bastante para que eu passasse a refletir e após 3 dias me intoxicando com os comprimidos, nem pensei em entregá-los a outra pessoa que necessitasse dos mesmos porque estaria transferindo o meu mal para o meu semelhante e joguei-os fora no lixo e isso já faz mais de 10 anos e agora, sofrendo de outra doença que o bisturi interrompeu a sua atividade (coração) estou mais sobrecarregado das causas que levaram à doença naquele tempo, porém  curado.

 

 

 

Ariston, dê uma olhada no tópico daqui mesmo do Portal que indiquei no comentário acima. Há lá reflexoes sobre isso que você diz.

 

Aliás, tenho um conselho a dar a todos aqueles que estao sentindo depressao e nao acreditam em, ou nao podem esperar por, um tratamento psicoterápico prolongado: antes de se intoxicar com remédios alopáticos, que "curam" os sintomas mas criam dependência ao remédio, e podem causar suicídio quando o paciente interrompe, tentem homeopatia. Pode nao "resolver", porque depressao faz parte da condição humana, e está difícil dar um sentido para a vida do jeito como ela está, mas ajuda um bocado.

Há falta de sentido... A falta de sentido... a-falta de sentido... Esse pequeno a é o que causa o desejo: o desejo de estar no mundo junto com os outros... conversar, trocar idéias... ser crítico, rebelde... saber se opor... dizer não àquilo que se impõe obstinadamente... admitir o impossível... sentir-se impotente... "não saber" e continuar sendo atravessado pelo pensamento de tantos antes de nós... por um método: o método dialético. O capitalismo é o sintoma. E esse sintoma deprime e esgarça, rasga a letra literalmente. Emudece a articulação das palavras.

Nas redes sociais, as palavras correm como um rio, descem pela correnteza. Algumas apodrecem ao não escapar das margens, outras descem correntezas e cachoeiras e encontram a água azul das lagoas de corais e dos peixes. Os peixes se movimentam em silêncio no ritmo do marulhar ... do demarulhar... do demuralhar... "O mar quando quebra na praia, é bonito, é bonito..."

Ivanisa, sentí receio de que voce viesse a condenar a liberdade de participação com palavras mal escritas e grotescas mas não, felizmente, só discordo de voce quando diz que algumas palavras apodrecem ao encalhar nas praias, sinto que elas ficam eternamente gravadas na lembrança das pessoas, inteiramente desnudas da pecha de sua correção. 
As lembranças são postas ao lado, Ariston. As palavras que apodrecem nas margens dos rio são o húmus da renovação cíclica, do renascimento do desejo do sujeito do inconsciente.

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