A EDUCAÇÃO NO BRASIL - Simplesmente falta de escrúpulos e vergonha, nada mais

O pequeno trecho a seguir é o preâmbulo de matéria publicada no portal UOL por Rafael Targino, ao qual, por experiência de vida, adiciono alguns comentários

 

            “O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2009, divulgado na semana passada pela OCDE (Organização para a Cooperação Econômica Europeia), chegou à conclusão, depois da análise dos resultados, que sistemas considerados de sucesso gastam muito dinheiro em educação e tendem a priorizar o salário docente à formação de classes menore”.

 

            Antes de iniciar meu comentário, esclareço que não sou um velho, que nem cheguei à terceira idade. Cito isto para mostrar como as coisas mudaram para muito pior em muito pouco tempo.

 

            Quando iniciei meu ensino básico (naquele tempo primeiro ano do grupo escolar) estudava numa classe onde se misturavam alunos do primeiro ao quarto ano. Apenas um professor dava conta de todos, sem ter que se licenciar por estresse. Ao final do ano, alguns eram reprovados e os que conseguiam acesso às séries subseqüentes estavam realmente capacitados para tal.

            No segundo ano eu já sabia ler e escrever perfeitamente e conhecia bem as operações matemáticas de divisão e subtração, tendo, ainda, algumas noções das outras duas fundamentais. Ao término do quarto ano todos estavam plenamente alfabetizados, com um vocabulário extenso e conhecendo a fundo as quatro operações matemáticas elementares, aptos ao difícil exame de admissão ao ginásio, ingressando, então na primeira série ginasial, ou quinto ano dos dias atuais.

            Devo dizer que meu primeiro ano foi numa escola rural, com pouco ou nenhum conforto, sem merenda escolar e com pátio para recreio de chão te terra batida.

            A PERGUNTA: Como era possível a uma professorinha (geralmente eram jovens recém-formadas) educar tantas crianças ao mesmo tempo, em condições tão adversas?

            AS RESPOSTAS: 1- O esforço recompensado com um salário decente. Era comum aquelas moças terem dezenas de pretendentes, pois um casamento com professora dava boa qualidade de vida, status e plenas condições de formar e manter uma família com dignidade. 2- Aquelas moças vinham de um Curso Normal, de formação de professores primários (ensino médio), que superava em muito vários cursos universitários de hoje. 3- Os governantes preocupavam-se muito mais com a educação, a saúde e a segurança pública, do que com inúteis pontes, viadutos e avenidas. Priorizava-se o transporte por trilhos e os ônibus urbanos e intermunicipais, além de não haverem as centenas de outros meios espúrios de consumir dinheiro público, que todos conhecemos.

            Com o regime militar começou a avacalhação da educação e de todos os serviços públicos. O ensino tornou-se uma vergonhosa indústria de escolas particulares, exploradoras e elitizantes no ensino fundamental e ineficientes ao extremo no ensino superior.

            O restante da história é de conhecimento de todos. E temos apenas uma saída: uma revolução vigorosa com a participação de todos os segmentos sociais, da imprensa pública (que nem é tão pública assim) e de todos os intelectuais verdadeiramente envolvidos com a educação no Brasil.

 

 

          

 

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Respostas a este tópico

A questão da educação é realmente falta de vergonha na cara, dos políticos e da sociedade.

 

No passado, bucólico, a situação das professores era melhor pela valorização social e financeira, mas principalmente pela formação.

 

A escola normal e posteriormente o Magistério de Ensino Médio traziam às futuras professoras um conhecimento teórico integrado à prática. Hoje, na Universidade com a licenciatura em Pedagogia, as professoras não recebem uma formação nem de longe parecida e o currículo universitário é distante da realidade.

 

Para piorar, a defasagem salarial espanta da educação as pessoas mais capazes.

 

Por fim, temos um problema cultural, no qual a população em geral se acostumou a receber benefícios do Estado e deixou de lado muitas de suas obrigações. Hoje, a professora é vista como "aquela mulherzinha que aponta os defeitos na criação de nossos filhos."

 

Justiça seja feita: a única noção de respeito que essa população tem em relação ao funcionário público é pelo PM, às 3:00 horas da manhã, no meio de uma geral e tomando cacetada na cabeça. Nesses casos, a cada pancada se escuta um sincero Sim Senhor..."

Caro Luis Fernando

 

Você parece ser bem jovem, mas enxerga muito. Sei que é feio àquele que propõe uma discussão treplicar sobre os comentários. Mas já que o fiz com duas pessoas que não entenderam muito bem o que foi dito, faço-o também com você. Torno minhas todas as suas palavras, com a certeza de que elas vão de encontro ao que foi dito e ao pensamaento da maioria grande maioria.

Prezado Cairbar,

 

Concordo com voce em parte do que foi dito! Como também já coloquei o assunto em várias oportunidades neste fórum, vou acrescentar mais algumas informações sobre a discussão.

a)- Temos que entender (já foi dito nesta discussão, mas não achei que foi de forma respeitosa), que a política salarial da Educação Básica Pública é municpal, no caso da rede mantida pelo município, estadual para a rede mantida pelo estado e federal para o Colégio Pedro II no Rio de Janeiro RJ e a rede de Colégios  Técnicos das Universidades Federais;

b) O FUNDEB - Fundo de Manutenção da Educação Básica e Valorização dos Profissionais de Educação, estabelece que no mínimo 60% (sessenta) dos recursos do Fundo devem ser para pagar o pessoal efetivo da Educação Básica. A simples palavra efetivo, dá margem para que estados e munícipios não cumpram esta regra, incluindo na folha de pagamentos da Educação Básica, pessoal lotado nas Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, mas que estão a disposição de outras Secretarias e os inativos. Calcula-se que em média este pessoal colocado a disposição é de 20% do total.

c)- Em 2009 os recursos destinados ao FUNDEB foram de 72 bilhões de reais que são repartidos entre estados e munícipios em função dos alunos matriculados nas redes municipais e estaduais. Para se ter uma idéia do tamanho do problema, a maior parte das condenações de prefeitos pela CGU nos estados é pela prestação de contas do FUNDEB e no Amapá onde o Governador, ex Governador e Secretários Estaduais foram presos recentemente, foi em função de desvios de recursos do FUNDEB.

d)- Existe um deficit já conhecido de 300 mil professores na rede de Educação Básica. Este deficit, falta de pessoal habilitado, é coberto com a admissão de pessoas não habilitadas para lecionar. Este deficit está concentrado principalmente nas áreas de matemática, química (o maior gargalo), física e biologia.

e)- Outro lado do problema é que as Universidades públicas e privadas estão acabando com os Cursos de Licenciatura, ou seja, temos um grave problema pela frente. Segundo pesquisa do IPEA de cada 40 alunos que ingressam nos Cursos de Licenciatura, apenas 14 formam e destes nem todos seguem a carreira do magistério em função do baixo salário.

f)- O brasil investe, em média, por ano / por aluno R$ 1.500,00 na Educação Básica e R$ 10.000,00 por ano / por aluno na Educação Superior. Enquanto que a média dos paises da OCDE é de R$ 8.000,00 na Básica e R$ 10.000, na Superior.

Espero ter contribuido para aprofundarmos o debate.

Aqui no Rio Grande do Sul, estado teoricamente politizado, houve uma reunião da federação dos municípios em que os trezentos e tantos prefeitos presentes lavantaram as preocupações dos seus munícepes e para surpresa de muitos a prioridade 1 eram estradas, a 2 era saúde ou segurança e lá por 4º ou 5º lugar vinha a educação.

Por enquanto que não nos dermos conta que prioridade pela educação em discurso de político (independente se PSDB ou PT) é papo furado, pois eles sabem muito bvem que a população como um todo nem está aí para educação, não sairemos do buraco.

 

NÃO PODEMOS DISCUTIR EDUCAÇÃO ENQUANTO NÃO ENTRAR NA CABEÇA DO POVO BRASILEIRO (Classes A, B, ....E, F,....X, Y, Z) QUE SEM EDUCAÇÃO NÃO CHEGAREMOS A NADA.

Os políticos simplesmente refletem a sociedade, e a sociedade ESTÁ SATISFEITA COM A EDUCAÇÃO QUE TEM.

Rogério.

 

O que você escreveu deixou-me deveras triste. Os gaúchos são historicamente guerreiros, politizados, lutadores por justiça, etc. Nem parecem os brasileiros de outros Estados. Mas, depois que elegeram e apoiaram a famigerada Yeda...

Quanto a fazer entrar coisas boas na cabeça do povo, será um bocado difícil enquanto tivermos a mídia que temos.

Abraços

Poiszé nhonhôs,

A culpa é sempre do outro, como desde 500 anos atrás.
É a mídia, políticos sem vergonhos, ianques, imperialistas, inescrupulosos, corruptos, antipatriotas... o povo burro brasileiros dos outros estados.
Ah, se todos fossem iguais a nous... (de que estado somos?).
"Coisas boas na cabeça do povo...", puf!!! Quem sabe Shakira, ou vuvuzelas, hein?

Educação não é questão de sem vergonhice e falta de escrúpulos. É projeto político pensado, racional e objetivo. A destruição da estrutura pública de educação tá pouco se lixando pra lamúrias moralistas, faz parte de um grande, enorme negócio. Capitalismo na veia e educação a serviço da domesticação.

Educação aqui, Brasil, terceiro mundo, passa por (re)formatação política e cultural (principalmente política e principalmente cultural); e yeda, como serra, como demônios pontuais são nada mais que isso, distração. Coréia do Sul tem a maior qualificação em sistema educacional padrão, estastisticamente próxima à perfeição capitalista. Zezé não queria estar em Coréia do Sul nem morta...

Brézil, terra de contrastes e de inventores. É o que vai acontecer, a despeito da caretice moralista.

Treplicar? É bobagem, lógico. Mas às vezes é preciso. Alguém precisa saber a que os coreanos do sul se submeteram e ainda se submetem para ser o que são. Alguém precisa saber que o Brasil será sempre uma terra de contrastes e de inventores. Não se tem uma dimensão continental como temos, sem que haja uma grande pluralidade de idéias, de coisas positivas (poucas) e negativas (muitas). Talvez alguém não tenha lido Casa Grande e Senzala.

Talvez alguém já não considere a dicotomia Casa Grande/Senzala definidora o bastante, e nenhum mérito pra ninguém, mas todas as honras ao sacana do mestre Darcy, sem o cujo processo civilizatório não se ultrapassa a dependência neocolonial e o simplismo folclórico do determinismo. E sem o qual, en passant, não se discute educação sem meter pés, mãos e bunda no processo cultural.

 

Conhece-te a ti mesmo e saberás que ainda há tudo por conhecer.

Se não cabe como item relacionado como educação, que se leia como poema popular, como o poderio da invenção tropical, tropicalista, que tanta falta faz a coreanos e abu-dubaienses.

 

Manda ver, Darcy!

 

Os Povos-Transplantados contrastam com as demais configurações sócio-culturais das Américas por seu perfil caracteristicamente europeu, expresso na paisagem que plasmaram, no tipo racial predominantemente caucasóide, na configuração cultural e, ainda, no caráter mais maduramente capitalista de sua economia, fundada principalmente na tecnologia industrial moderna e nacapacidade integradora de sua população no sistema produtivo e a maioria dela na vida social, política e cultural da nação. Por isto mesmo, êles se defrontam com problemas nacionais e sociais diferentes e têm uma visão do mundo também distinta dos povos americanos das outras categorias.

 

Faltava ainda uma teoria da cultura, capaz de dar conta da nossa realidade, em que o saber erudito é tantas vezes espúrio e o não-saber popular alcança, contrastantemente, atitudes críticas, mobilizando consciências para movimentos profundos de reordenação social. Como estabelecer a forma e o papel da nossa cultura erudita, feita à criatividade popular, que mescla as tradições mais díspares para compreender essa nossa nova versão do mundo e de nós mesmos? Para dar conta dessa necessidade é que escrevi O dilema da América Latina. Ali, proponho novos esquemas das classes sociais, dos desempenhos políticos, situando-os debaixo da pressão hegemônica norte-americana em que existimos, sem nos ser, para sermos o que lhes convém a eles.

 

Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da marginalidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.

A nação brasileira, comandada por gente dessa mentalidade, numca fez nada pela massa negra que a construira. Negou-lhe a posse de qualquer pedaço de terra para viver e cultivar, de escolas em pudesse educar seus filhos, e de qualquer ordem de assistência. Só lhes deu, sobejamente, discriminação e repressão. Grande parte desses negros dirigiu-se às cidades, onde encontra um ambiente de convivência social menos hostil. Constituíram, originalmente, os chamados bairros africanos, que deram lugar às favelas. Desde então, elas vêm se multiplicando, como a soluçào que o pobre encontra para morar e conviver. Sempre debaixo da permanente ameaça de serem erradicados e expulsos.

Composta como uma constelação de áreas culturais, a configuração histórico-cultural brasileira conforma uma cultura nacional com alto grau de homogeneidade. Em cada uma delas, milhões de brasileiros, através de gerações, nascem e vivem toda a sua vida encontrando soluções para seus problemas vitais, motivações e explicações que se lhes afiguram como o modo natural e necessário de exprimir sua humanidade e sua brasilidade. Constituem, essencialmente, partes integrantes de uma sociedade maior, dentro da qual interagem como subculturas, atuando entre si de modo diverso do que o fariam em relação a estrangeiros. Sua unidade fundamental decorre de serem todas elas produto do mesmo processo civilizatório que as atingiu quase ao mesmo tempo; de terem se formado pela multiplicação de uma mesma protocélula étnica e de haverem estado sempre debaixo do domínio de um mesmo centro reitor, o que não enseja definições étnicas conflitivas.

 

 

Zé Via de Regra.

 

Você pensa certo, mas no país errado. Talvez suas idéias pudessem ser aplicadas na França do pós-guerra ou na Espanha de Franco.

E C'est fini.

Caibar

 

O que me bato é contra a ideologia do pobrecoitadismo de parte das "elites de esquerda" sobre o povo brasileiro. Se um metalúrgico chegou a Presidente da República, porque o povo não pode tomar em suas mãos o seu próprio destino. Há um certo determinismo em todas as manifestações sobre a educação, como existisse um grande comitê de capitalistas focados com o único objetivo de impedir que o povo brasileiro saia da ignorância. Até podemos imaginar que há uma vontade política de uma parte da população que a educação não assuma as suas características de atividade que pode ajudar a libertação. Mas acho que grande parte das mazelas que temos são produto de uma acomodação a situação que vivemos.

É tudo tão difícil, que melhor não fazer nada, é tudo tão difícil que devemos tutelar, aplainar o futuro dos menos favorecidos do Brasil. A mídia nos atrapalha, o capital nacional nos impede, o capital internacional nos oprime, como somos pobrecoitadinhos, vamos deixar de lutar porque não tem saída.

Rogério

O Lula é uma grande exceção. O brasileiro é pobre coitado sim. Tanto que ainda vivemos um regime de escravidão, de exploração exacerbasda do homem pelo homem. Isso só se resolve com educação. Mas quem vai educar quem? O tal Via de Regra?

Cairbar

O que eu chamo de pobrecoitadismo é a imobilismo resultante de um conceito que nada pode ser feito além de lamentar. Não estou dizendo que as condições do povo brasileiro são boas ou até razoáveis. Mas se ele não tomar para si o desafio de mudar o seu destino, não serão ETs que farão isto.

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