O debate enriquece, embora, na maioria das vezes, atrase. Ficaremos “trancando a pauta” cultural brasileira por séculos e séculos mais como fazem nossos deputados e senadores? Avançar e evoluir demanda ação.

Ponderar demais sobre as questões que envolvem as manifestações artísticas de um povo com identidade multifacetada, obrigatoriamente, serão também multifacetadas. E aqui mora o perigo: o “demais” é vago demais! Além do quê, subjacente a elas, com sua face única desequilibradamente parcial, opinando e preferindo, julgando e determinando (aliás, este capítulo mereceria um ensaio sobre essa coisa chata de julgar intitulado "Síndrome de Jurado do Flávio Cavalcanti"), estará sempre o homem exageradamente “ponderado” e movido por interesses pessoais. Em 90% dos casos o ponderado é um medroso que, pego de calça curta, quer ganhar um tempinho para opinar (de cima do muro).

Normal. Mas passível de reflexão.

O Novo Homem - com sensibilidade para entender até onde suas opiniões poderão ser transitórias e enriquecidas por outras, mesmo que antagônicas - ainda está por ser gerado.

Lendo a carta do ministro Juca Ferreira para explicar os critérios da Lei Ruanet ao Luis Nassif, lembrei-me de um texto onde a justificativa de um projeto começava assim:

“Se calculássemos o valor do “brend” Brasil, nosso maior Ministério seria o de Música Brasileira. O respeito que temos pelo mundo, deve-se a música que produzimos.”

Óbvio seria reconhecer que nossa musica, direta e indiretamente, forjou o povo brasileiro. Nossos cientistas, jornalistas, professores, marceneiros e farmacêuticos também foram embalados e amamentados ouvindo nossa música.

Mesmo que a mídia - e a maioria dos artistas até hoje não a prestigiem, lembrando suas origens os autores mais antigos e fundamentais - dela, e deles, ninguém escapou. Quase tudo o que ouvimos atualmente nos grandes centros, veio dos “antigamente” de nossas periferias geográficas. Foi a oralidade que, prescindindo de qualquer mídia, foi demarcando as fronteiras de nossas Culturas musicais, literárias, antropológicas. Mas o dinheiro tem memória curta.

Os Caetanos e Bethanias, assim como os Zezés e os Camargos, foram cozidos lentamente em fogos diferentes.

Uns aquecidos pelo Jackson do Pandeiro ou Patativa do Assaré.

Outros, fritos pelos Cucurrucucús e Aceves Mejias, que, aliás, também têm seu valor.

Aí, um dia, os primeiros ouviram João Gilberto (que também tinha ouvido Jackson do Pandeiro e Patativa do Assaré e chegou ao Rio e ouviu o Pixinguinha) e o resultado é esse que todos que ouvimos e conhecemos.

Os segundos, temperaram os lamentos mexicanos com Tião Carreiro, Pardinho mais os Bee Gees e fazem o sucesso que fazem.

Agora, a Céu, filha de mãe e pai especiais - ele, Edgar Poças, violonista, compositor, um sujeito de humor refinado e estudioso da nossa música, ela, a Carolina Whitaker, mulher inteligente e de extremo bom-gosto - nos aparece compondo e cantando lindamente.

Então, tudo começou lá atrás deles todos. À César que é de César. À Céu o que é da Céu.

Usar as verbas dos patrocinadores interessados em descontar seu imposto de renda para devolver às periferias, o que é delas, seria muito mais indicado. Descentralizar os espetáculos, levar a essência de nossa Cultura às milhares de comunidades essenciais desse Brasilzão seria educacional e pedagogicamente transformador.

As “antigas essências”, provavelmente, viessem a se reconhecer e identificar consigo mesmas e, assim, viriam a afirmar suas identidades de forma a não desdenharem-se a si próprias. Dessa forja, o aço sairia mas resistente e duradouro, passível, por depuração, de outras eventuas consagrações.

Não seria uma tremenda boa se o ministro se lembrasse que “naquele tempo” – no nascedouro da nossa história - não havia a indústria cultural e, quem sabe, ouvindo estes caras “antigões”, eu e você pudéssemos hoje estar cantando no Credicard Hall?

Ainda ontem, papeando sobre, um amigo me ouviu concordando.

- Com espinha ereta e tudo, o Walter Franco tava certo, mas, quem sabe, hoje fizesse uma marchinha tipo paródia.

E cantou.

-Ei! Você aí, destranca a pauta aí, destranca a pauta aí!

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Respostas a este tópico

E nessas, vamos ouvindo o que querem os filhos da pauta.
Vamos, não!

Vamos é chiando! rs

Mesmo que, as vezes, me decepcione, mostrando e dividindo as idéias com quem vem vindo, acredito no refinar do gosto. E que não refina, acho, será sempre por falta de estímulo e esclarecimento dos códigos, ou, acontece, falta daquele "algo mais"

Vamos que vamos!
Nunca entendi bem o processo de formação de pautas pela chamada indústria cultural, não sei quem faz o que e em que parâmetros escolhe o que vai "bombar". Mas sei que quanto mais tempo voce investe em conhecimento cultural multifacetado em qualquer área, quanto mais voce estuda e aprofunda o senso estético, normalmente mais voce se afasta do gosto popularesco pautado pela tal indústria cultural. Não gosto de grande parte da pauta que os "filhos da pauta" escolhem para o "sucesso" junto ao povão. O importante é que o conhecimento acima da média popular não te isole num pedestal de pedantismo ilustrado, afinal mesmo enganado, mesmo propositalmente aculturado, vox populi vox dei. Abraço.
Taí, Sérgio!

Vou caçar um texto velho que fala disso...acho que "acalhará!

Bração.

Beto

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