De vez em quando somos surpreendidos por coisas esquecidas no baú dos prazeres. Fortuitas ou fugidias, canções ficaram perdidas em milhares de CDs, LPs, DVDs espalhados pela casa, ou bilhões de músicas que foram ouvidas por aí, em lojas, salas de espera, no rádio do carro.

Ouço um CD de Makoto Ozone e sou enfeitiçado pela voz de Jon Hendricks. Não lembrava mais desse dueto incomum, mais por associar o estilo do japonês a outras combinações. Mais conhecido pela longa colaboração com o vibrafonista Gary Burton e, por conseguinte, vejo seu estilo mais próximo ao de Chick Corea, por exemplo.

Lambert, Hendricks &; Ross: the hottest group in jazz
Lambert, Hendricks & Ross. O estilo vocal de Hendricks é mais identificado com o bebop. O trio Lambert, Hendricks & Ross fez história. O diferencial era Hendricks mesmo, tornando-se conhecido por colocar letras em temas aparentemente impossíveis de serem cantados em versos. Tiveram vida relativamente breve nessa formação. O trio, formado em 1957, teve sua primeira baixa em 1962 com a saída da bela Annie Ross, não apenas superlativa nesse quesito, mas como coautora de alguns temas. Segundo Will Friedwald, Ross era o “molho” necessário ao sucesso do trio por meio dos elementos classe e sexo; algo como “Katherine Hepburn em [Fred] Astaire e [Ginger] Rogers”, Em 1966, o quase sósia do comediante Louis de Funès Dave Lambert, morreu em um acidente automobilístico. Antes disso, ambos tentaram manter o trio vivo com a ceilonesa Yolande Bavan e a canadense Anne Marie Moss, mas nenhuma das duas tinha o appeal de Ross.
Capa de Treasure
Treasure. Belo disco esse do japonês Makoto Ozone. Fala-se pouco dele: é o preço de se ficar longe do mercado americano. Gravou alguns discos pela Columbia (atual Sony) e foi pianista da banda de Gary Burton. Resolveu voltar a morar no Japão. Nesse sentido, o mercado é implacável: por mais que o mercado japonês seja grande, é importante estar presente nos centros, tocando em clubes novaiorquinos, sendo “notícia”, por uma razão ou outra, mesmo que seja no nível “Caras”. Tudo foi ficando tão perverso – ou distorcido – que a qualidade foi suplantada pelo sentido de se tornar célebre, como a máxima de Andy Warhol sobre ter os seus “quinze minutos de fama”.
Nesse disco de 2002, como o título sugere, é “treasure”, mas na forma de pequenos tesouros, pequenas peças preciosas, cada qual com especificidades de beleza; como as que o cantor Jon Hendricks participa, ou os duos de piano com Chick Corea, ou com o vibrafonista Gary Burton. São peças delicadas, em que as belezas estão em detalhes e na delicadeza em que cada um vê o outro. Se houvesse um outro título, ou um subtítulo até, poderia ter o nome de uma das mais belas composições de Chick Corea – Crystal Silence –, ou melhor, no plural, Crystal Silences. Mesmo quando sai um pouco desse clima intimista e cai num andamento mais uptempo, como Three Wishes, com a participação especial do saxofonista, precocemente falecido, Michael Brecker, ou Samba D’Rivera, deliciosamente suingada,o disco é uma coleção desses belos cristais.

A participação de Jon Hendricks pode ser inusitada no clima desse disco de Ozone; mas não é: são outras preciosidades, de outra coloração. Ouça então Rainbow’s End, grande combinação do piano e a voz do cantor e compositor.

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Respostas a este tópico

guen,

enquanto lia a entrevista do olívio dutra, destacada em outro tópico, ouvia tua música.

nossa, que coisa boa, viu?

aliás, ainda está me embalando neste fim de noite. brigada.

 

ah,o primeiro cara do retratinho, não é "o cara"... não parece o serra?! diz aí!
Acho que parece mais com o Louis de Funès, um comediante francês.

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