Li no Direto da Redação este texto do Jornalista URARIANO MOTA.

Recife (PE) - Enquanto escrevo, ainda não acabou o julgamento, pelo STF, das cotas para negros na Universidade de Brasília.  Às 10 e 15 do Recife numa quinta-feira, o Supremo Tribunal ainda vai se pronunciar sobre uma ação contra as cotas movida pelo DEM, que atende pelo nome de Democratas, e tudo sem ironia. A realidade é que já passou do limite do deboche.    

A dar corpo à sua defesa democrática, sem ironia, entendam, o DEM argumenta que o negro sistema transgride, viola diversos preceitos fundamentais fixados pela Constituição de 1988, a saber: a dignidade da pessoa humana, o combate ao preconceito de cor e à discriminação, o que afetaria o próprio combate ao racismo. Mas tudo sem ironia, se conseguem entender. E de tanto usar a observação, a partir de agora usarei apenas TSI, que vem a significar “tudo sem ironia!”. 

Dizem os democratas, TSI, que o sistema de cotas fere o princípio meritocrático. Melhor seria dizer, sem TSI, que o DEM reafirma o meritocrático como um  mentirocrático, porque torna absoluto  o mérito, o mérito que sempre houve para os de sempre, a saber: tudo para os filhos dos bem postos na sociedade de exclusão, os seus vizinhos, sobrinhos, esposa, mãe, os mais próximos enfim, que, é um diabo, todos têm mérito e são filhos de Deus. Mas indo além da defesa do próprio mérito, defendem os democratas TSI que o sistema ofende dispositivos do direito universal para a  educação. Você leram bem: cota-para-os-negros-fere-direito-universal-da-educação. TSI! TSI! TSI! ao infinito.  

Notem que as cotas para negros se confundem com as cotas para estudantes de escolas públicas, onde não por acaso se encontram os pobres, negros e mestiços do Brasil.  E por falar em mérito, um estudo da Universidade de Campinas já demonstrou que os alunos oriundos de escolas estaduais, menos de 30% do corpo discente da Unicamp, possuíam durante o curso médias 5% superiores aos demais - apesar de enfrentarem maiores dificuldades materiais ao longo da permanência na universidade. Mas esse mérito dos que lutam pela educação como uma tábua de sobrevivência, não serve aos Democratas.

Para quem não sabe, as cotas fazem uma compensação às injustiças de renda, família e oportunidades na vida. Nelas, por elas, brasileiros podem entrar em uma universidade, apesar da pobreza, apesar da discriminação geral, apesar dos pais, alguns até inexistentes, mas todos portadores da ignorância e infelicidade recebidos há gerações.

Os novos senhores de engenho do DEM e assemelhados dizem que no Brasil não há negros, pois de tal maneira estamos misturados, que difícil é saber o branco que não tenha uma fração de sangue da senzala. Difícil seria, quando não impossível saber quem é negro. Que queixão, que questão. Ora, todo queimadinho de sol sabe que todos sabem quem é quem, quando lotam as prisões, quando são preteridos para uma chance de vida nos hospitais, quando uma bala perdida sempre vai para a sua pele, ou destino preferencial, digamos, sem TSI.      

As cotas são um acordo enquanto no mundo não há justiça. A obra da escravidão é uma longa, angustiosa e interminável história. “Não basta acabar com a escravidão. É preciso destruir sua obra.", dizia Joaquim Nabuco, há dois séculos. E até hoje continuamos no débito. Somos o último país do mundo a terminar a escravidão legal, enquanto discutimos se os negros brasileiros merecem o tratamento de uma discriminação positiva.

Talvez os iluminados da nossa democracia racial não saibam que os nossos jovens de alma branca são sempre os suspeitos, são eles sempre os primeiros a sofrer o vestibular de assassinatos. Esta é a nossa democracia, que escapa à inteligência do DEM: no Brasil, todo negro é alvo para a polícia.

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Respostas a este tópico

Ok, Analu. Só para clarear o viés (rs): VOCÊ estava implícita no meu a gente se preocupa.

A palavras possuem poderes surreais... Nós as aprendemos, criamos e manipulamos e, vira e mexe, é como se elas ganhassem vida própria.  

As palavras sao tudo, menos inocentes... (rs, rs). Aqui foi um caso engraçado de variaçao linguística: a expressao a gente, que primeiro já significou algo próximo a "as pessoas", e depois passou a significar "nós", tem evoluído mais na direçao de um pronome indeterminador do sujeito, do tipo do on do francês. Aliás nao só ela, mas até mesmo o pronome você tem sido às vezes usado desse modo. Talvez pelo caráter polivalente e ambíguo do pronome se enquanto indeterminador do sujeito. Você usou como sinônimo de nós, eu "ouvi" como indeterminadora.  

"O Congo da Uerj", a carta lida por Luiz Fux 

O Ministro Luis Fux, do STF,  na justificativa que fez do seu voto, leu a carta enviada pelo CALC - Centro Acadêmico Luiz Carpenter, do Direito, e lembrou a espontaneidade da juventude carioca, ao citar a auto-referência que estudantes da UERJ adotaram nos Jogos Jurídicos: 

A UERJ É O CONGO. E O CONGO VENCE TUDO.

Na verdade, uma resposta muito bem humorada contra todas as formas de preconceito.

Rio de Janeiro, 25 de abril de 2012.

Nós, estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, manifestamos diretamente nosso sentimento, neste momento decisivo da história do combate às desigualdades sociais e raciais em nosso país.Como estudantes de uma instituição pública que adota o sistema de reservas de vagas em seu exame de ingresso há dez anos, a serem completos neste ano de 2012, podemos dizer que, felizmente, estudamos em um ambiente mais democrático, menos desigual e, principalmente, mais brasileiro.

Afirmamos a brasilidade de nossa Universidade no sentido do Brasil que desejamos, pelo qual trabalhamos e que sabemos ser a busca desta Corte Suprema, bem como de todo o poder judiciário nacional e dos Poderes legislativo e executivo nacionais.

O sistema de cotas, em nossa Universidade, reserva vagas para estudantes que comprovadamente se encontram em desvantagem econômica, de modo que tais vagas sejam preenchidas, conforme porcentagem, por pessoas com deficiências, por filhos de policiais civis e militares, de bombeiros militares e de inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço, e por índios e negros.

Tal reserva de vagas, na UERJ, dá-se em cumprimento à lei estadual 5.346/08, a qual busca concretizar não apenas as disposições do art. 3º da Constituição Federal, mas também às determinações de leis especiais, tal como o Estatuto da Igualdade Racial, disposto pela lei 12.288/10, que dispõe sobre as ações afirmativas.

A partir do ingresso desses estudantes, há dez anos, observamos uma mudança completa no ambiente de nossa formação acadêmica cujas consequências foram apenas benéficas.

No momento da adoção do sistema de reserva de vagas, porém, muitas críticas foram levantadas, como o são até hoje e despertam a ação aqui discutida. As críticas, no entanto, nada mais revelam do que o total desconhecimento das reais necessidades da Universidade brasileira e, por isso, as acusações ao sistema de cotas devem ser veementemente rebatidas e o são, pelos estudantes que assinam esta carta e que, sem dúvidas, ganham adesão da sociedade nacional e desafiam os condenadores do sistema debatido a provarem a concretização de quaisquer de seus argumentos.

Após dez anos de adoção das cotas, é possível observar que, conforme constatado em diversos estudos sobre o tema, os estudantes cotistas correspondem à oportunidade que conquistam com resultados que podem ser equiparados ou que até mesmo superam aqueles obtidos por estudantes que ingressaram na Universidade pelo regime tradicional de preenchimento de vagas.

O crescimento do ódio racial, por sua vez, que muitos alegaram ser inevitável em um sistema no qual haveria distinção por etnia para o ingresso no ensino superior, não é característica de modo algum notável em nosso ambiente acadêmico. Ao contrário, notamos que a diversidade que vivenciamos em nosso ambiente universitário e que reflete, de fato, o Brasil, possibilita um enriquecimento de nossa formação acadêmica e pessoal que, até o momento, não possui equivalente em instituições de ensino que não adotam o sistema.

Note-se, ainda, que a distinção dos estudantes, para ingresso nos cursos de ensino superior, proporcionou para a Academia, não apenas a diversidade, mas também o estímulo ao debate sobre a existência do racismo, em nossa sociedade, e a busca por instrumentos e políticas para combatê-lo, como mecanismo de seu desenvolvimento.

São formados, assim, sem distinção alguma de tratamento, profissionais de excelência, em todas as áreas do conhecimento, capazes de refletir e dispostos a, em breve, pintar de todas as cores os cargos de liderança de nossa nação.

A experiência de adoção do sistema de reserva de vagas em nossa Universidade também provou ser falsa a ideia por alguns alegada de que aquele violaria a meritocracia historicamente adotada no ingresso à Universidade brasileira.

Neste ponto, revela-se nada mais do que a ausência de compreensão a respeito da forma de ingresso nos cursos de graduação a partir do sistema de cotas, visto que este exige, dos estudantes que o utilizam, a aprovação no mesmo e difícil exame de vestibular prestado por aqueles que não se valem das vagas reservadas.

Logicamente, ainda há muito a ser feito, em nossa Universidade, pois é preciso que aos estudantes cotistas seja oferecido todo o suporte necessário à sua permanência nos cursos de graduação, em especial financeiramente, sendo necessário o aprimoramento desse auxílio.

O sucesso das cotas, na UERJ, entretanto, revela a importância e, ainda mais, a necessidade de sua adoção nas demais instituições públicas de ensino superior do país, visto que ele impulsionará, em um futuro próximo, a redução das desigualdades sociais e raciais de nosso país, a partir do preenchimento de nossos quadros profissionais por cidadãos de todas as origens.

Para tal, é essencial que este tribunal acolha a demanda dos estudantes e do povo brasileiro e reconheça a constitucionalidade do sistema de cotas, em sua integralidade, o que inclui a reserva de vagas por critérios de origem social e racial.

Esse reconhecimento será não apenas a promoção da justiça, mas também o passo deste tribunal que revelará a sua determinação em buscar o desenvolvimento e a construção do país efetivamente desejado por todos.


Membros da gestão Reconstruindo o CALC, do Centro Acadêmico Luiz Carpenter

Por Weden

Extraído do Blog-mae - http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-congo-da-uerj-a-carta-li... 

Estava  lendo O Direto  da Redação, de onde tirei o texto acima do Urariano Mota,

e encontrei este aqui de Romeu Prisco,

e comentei assim lá.

Xô  ! Romeu Prisco
que absurdo!!!
assim como  criei um tópico no Portal Luis Nassif, com o excelente artigo de Urariano Mota ,
vou postar este teu absurdo texto  lá nos comentários.
Ainda bem, que se pensa diferente no Brasil

 Xô..Xô  racismo!!!

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São Paulo (SP) - Se em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel aboliu a escravidão dos negros, em 26 de abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal proclamou a escravidão dos brancos, homens e mulheres. Num exagerado modernismo antidiscriminativo, passamos a ter cotas, formais e informais, para homossexuais, negros, pobres, egressos de escolas públicas, silvícolas e ex-presidiários, expressando a garantia de reserva de uma "porção, fração, ou quinhão de vagas" em diversas áreas de atividades, como nos estudos e no mercado de trabalho.

Com isso, torna-se cada vez mais inconveniente ser branco (antiga "raça predominante") e normal. Quem assim é, acaba verdadeiramente discriminado. Na disputa por uma vaga na faculdade, se houver diferença acima da nota de corte entre um branco e um índio, a preferência será do silvícola, fazendo-se letra morta da igualdade de todos perante a lei. A opinião não é só minha, mas, também do emérito jurista Ives Gandra da Silva Martins, no seu artigo "Você é branco ? Cuide-se !". 

Na história dos grandes benfeitores da humanidade e das pessoas que mais se destacaram em diversos ramos de atividade, conhece-se alguém que saiu dos sistemas de cotas ? Machado de Assis ? Santos Dumont ? Anita Garibaldi ? Pelé ? Madre Teresa de Calcutá ? Einstein ? O casal Pasteur ? O excelente cantor, compositor e músico norte-americano, negro e deficiente visual, Stevie Wonder ?

É assim que o Brasil pretende descobrir talentos na sua população ? É assim que pretende formar novos e bons engenheiros, uma das mãos-de-obra mais carente no mercado de trabalho, que se vê obrigado a recorrer a profissionais especializados do exterior ? O Brasil está sendo assolado por dois enormes furacões: um da corrupção, outro da demagogia.

Tanto quanto o da corrupção, o furacão da demagogia não tem preferência, fazendo-se notar, indistintamente, nos três Poderes da República. Ultimamente, diante do menor vacilo do Poder Legislativo, o Supremo Tribunal Federal tem tomado a dianteira, abonando direitos legalmente inexistentes e mesmo contrários à Constituição Federal, da qual é guardião, para fazer média com supostas minorias. Casos da "união estável homoafetiva" e, agora, das "cotas raciais".

A demagogia jurídico-política, que se instalou no Brasil, está dando ensejo a situações de perplexidade. Recentemente falecido, o sambista "Dicró", festejado pelos cariocas e vascaínos, seria discriminado na Bahia, onde tornou-se proibida a contratação, para eventos promovidos pela administração pública, de artistas cujas músicas "debochem" das mulheres. Portanto, de eventual discriminado, o negro "Dicró" passou a discriminador, por fazer "gracinha" com as sogras, nas suas composições !

Discriminação racial seria impedir os negros de ingressarem nas faculdades, assim como constitui discriminação racial privilegiar o ingresso dos negros, em detrimento dos brancos. Essa preocupação com o estabelecimento de cotas raciais está relacionada ao remorso coletivo, decorrente de um sentimento de culpa histórico, pelos sofrimentos que os nossos mais longínquos antepassados possam ter causado aos negros, na época da escravidão. O sonoro placar de 10 x 0, no julgamento das cotas raciais pelo STF, dá idéia do tamanho daquele remorso coletivo, semelhante ao que se passa com os cristãos, que vivem em constante estado de penitência, pela crucificação de Jesus Cristo.

Participando ativamente do furacão da demagogia jurídico-política, o STF está criando complicações para si próprio, ou, quem sabe, abrindo mais as portas para o que parece gostar de fazer. Encontramo-nos no auge da mania de "opções". A mais conhecida é a sexual. Indivíduo que nasce com todas as características físicas do gênero masculino, adota certos modismos, alega ter feito "opção" sexual pelo gênero feminino e, assim, quer ser tratado, respeitado e ter o reconhecimento dos respectivos direitos, inclusive participando de "cotas".

Ora, eu, branco e normal, vou bronzear a minha pele, encaracolar o meu cabelo e fazer "opção" pela raça negra, para, assim, ser tratado, respeitado, ter os respectivos direitos reconhecidos, inclusive participando de "cotas". Provem-me o contrário ! Mas, como "negro fabricado", jamais terei o mesmo desempenho de artistas, esportistas e ativistas de legítima origem negra, como Michael Jackson, Usain Bolt e Nelson Mandela, que nunca necessitaram de "cotas" para manifestar seus talentos.

Presentemente a escravidão é outra. Todos nós, sem exceção, somos escravos dos maus políticos, dos maus juízes e dos bandidos. A estes, bandidos, não devemos reagir, sob pena de sermos executados. Àqueles, maus políticos e maus juízes, as reações têm sido inócuas, porque eles acabam julgando-se entre si, onde prevalece o corporativismo. As sanções a eles impostas não são tão punitivas e nem tão reeducativas. Ex-Presidentes, ex-Senadores e ex-Deputados, cassados, voltam a ocupar cargos públicos, eletivos, ou não. Juízes, quando punidos, e se punidos, acabam sendo aposentados com todas as vantagens inerentes ao cargo, inclusive proventos integrais.

Na evolução da espécie humana, há registros da existência de escravos brancos e de negros que escravizaram outros negros. Agora, a ordem é estabelecer "cotas de honestidade e sinceridade", para dizer ao negro de hoje que ele não necessita de nenhum privilégio para ser igual às demais raças, bem como para dizer ao branco de hoje que ele não tem nenhuma responsabilidade pelo infortúnio do negro de ontem.

Independentemente de "cotas", com o aval e votos de brancos paulistas, tidos como "elitistas, bairristas e conservadores", dois negros (Paulo Lauro e Celso Pitta) e uma mulher nordestina (Luiza Erundina) já foram Prefeitos da cidade de São Paulo, a maior do Brasil e uma das maiores do mundo. 

Xô demagogia !

Romeu Prisco
Paulistano, advogado e ator, dedica-se, atualmente, à arte de escrever artigos, crônicas, contos e poemas, publicados em espaços literários e jornalísticos,

Adorei a pergunta sobre se dos "grandes nomes" teria surgido alguém do sistema de cotas... que nao existiam entao! Esse aí tem só dois neurônios, um foi nocauteado e o outro está bêbado. 

Novo texto do Idelber: 

O julgamento das cotas no STF: Balanço de uma vitória histórica

O Supremo Tribunal Federal, na semana passada, julgou improcedente a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 186, ajuizada pelo DEM, que pedia à Suprema Corte que declarasse a inconstitucionalidade das cotas para negros nas universidades públicas. A decisão foi unânime: 10 x 0, com o Ministro Dias Toffoli tendo se declarado impedido por já haver emitido, como Advogado Geral da União, um parecer favorável às cotas. Para todos os efeitos, trata-se, então, de um sonoro 11 x 0. Segundo o testemunho de Carmen Feijó, do Tribunal Superior do Trabalho, foi a primeira vez que ela viu uma decisão do STF ser aplaudida no plenário depois do encerramento da sessão.

Tendo escrito vários textos em defesa das cotas desde o ano de 2005, o que mais me chamou a atenção desta vez foi a enormidade do massacre argumentativo. Os amici curiae arrolados pelo DEM, da advogada Roberta Fragoso Kauffman às inacreditáveis representantes do “Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro” e do “Movimento contra o Desvirtuamento do Espírito da Política de Ações Afirmativas nas Universidades Federais” recorriam, na melhor das hipóteses (quando não protagonizavam embaraçosos vexames) à sofismática conhecida: a doce e gingada malemolência mestiça brasileira, a impossibilidade de se definir quem é negro, a tradição supostamente não segregada das nossas relações raciais, a existência de brancos pobres (os quais só parecem ser lembrados quando se trata de garantir direitos para a população negra), a estranhíssima referência ao princípio da igualdade para negar reparação àqueles que nunca foram tratados como iguais até, por fim, a falácia que subjaz, explícita ou implicitamente, a todas as anteriores: no Brasil não existe racismo. A Procuradora Deborah Duprat, em aproximadamente cinco minutos, dizimou todos os argumentos usualmente evocados para negar aos negros o benefício dessas medidas de reparação, com uma clareza que não deixava margens a dúvidas.

Higienópolis povoada de brancos, Capão Redondo povoado de negros e pardos. A USP povoada de brancos (exceto na faxina, nas cozinhas, na vigilância) e os presídios povoados de negros e pardos. As reuniões de banqueiros e executivos compostas de brancos, garis e flanelinhas majoritariamente negros. Mas, segundo o argumento daqueles que se opõem às cotas universitárias para negros, seriam estas que instalariam as “divisões perigosas”, de acordo com o título do livro que reúne os apóstolos da guerra santa contra as medidas de reparação. O país atravessou quase 400 anos de escravidão, os negros ganham, em média, metade dos brancos, continuam sendo as vítimas preferenciais da violência policial e totalizam 70% dos miseráveis, mas estranhamente, segundo a advogada Roberta Fragoso Kauffman, só na semana passada, com a decisão do STF, passou a existir racismo no Brasil! O poeta e jurista Pádua Fernandes não deixou de notar a ironia: não se falou de “divisões perigosas” enquanto vigoravam as cotas exclusivas para brancos.

Há que se dizer aqui que se trata de uma grande derrota da mídia brasileira. Durante toda a década, mesmo depois de ela própria noticiar que a experiência das cotas não produziu o tão propalado “ódio racial”, que os alunos cotistas tiravam notas iguais ou melhores que os não-cotistas, que a evasão entre aqueles era menor, em nenhum momento a mídia brasileira revisou a sua dogmática constantemente contradita pelos fatos (há duas exceções que devo mencionar aqui: Elio Gaspari e Miriam Leitão sempre defenderam as cotas). Como afirmou muito bem o Walter Hupsel, isso nem precisava ter chegado à Suprema Corte. Mas, já que chegou, que se releia quantas vezes for necessário esse maravilhoso voto e que se reitere: o placar foi 10 x 0.

Imediatamente depois da sessão do STF, Globo, Estadão e Folha publicaram editoriais lamentando a decisão. O curioso é que nenhum desses editoriais polemizava com a argumentação presente no voto de Lewandowski, mas repetia falácias já desmontadas por ele. Referindo-se à cor da pele como “obsessão importada” (puxa, avisem isso para o nosso sistema carcerário!), a Folha, por exemplo, afirmouA Constituição estipula que todos são iguais perante a lei. É um princípio abstrato; inúmeras exceções são admitidas se forem válidos os critérios para abri-las.A ninguém ocorreria impugnar, em nome daquele preceito constitucional, a dispensa de pagar Imposto de Renda para os que detêm poucos recursosO cerne da questão, portanto, consiste em definir se há justiça em tratar desigualmente as pessoas por causa do tom da pele ou se seria mais justo, no empenho de corrigir a mesma injustiça, tratá-las desigualmente em decorrência do conjunto de condições sociais que limitaram suas possibilidades de vida. A Folha não parece atinar para o fato de que “exceções” como a isenção de imposto de renda para os mais pobres visam justamente efetivar o princípio da igualdade, tratando de forma desigual aqueles que são desiguais no mundo fático exatamente para fazer valer o princípio constitucional. Não se trata, portanto, de uma “exceção”, mas da aplicação do princípio.

O “conjunto de condições sociais” que “limitaram suas possibilidades de vida”, no caso dos negros, inclui a herança de quase 400 anos de escravidão; um cotidiano de discriminação e ataques à sua autoestima; constante violência policial; sobrerrepresentação entre os pobres, miseráveis e presos, e subrrepresentação entre os diplomados e ricos, realidades que têm impacto devastador sobre as crianças negras – todos eles fatos amplamente demonstrados por uma montanha de números, estudos, estatísticas. Mas, curiosamente, o Estadão acredita que o fator não econômico e estritamente racial nunca foi esclarecido na exposição da ministra nem nos votos de seus colegas, como se não tivesse ficado amplamente demonstrado, mais uma vez, que a pobreza no Brasil tem cor.

A coleção de falácias derrotadas no STF tenta agora se reciclar. Tendo ignorado durante uma década os estudos que mostram que os cotistas se saem igual ou melhor que os não cotistas nas universidades, os proponentes da guerra santa agora se utilizam desse dado sociologicamente comprovado para argumentar que, bem, já que eles se saem melhor, então não precisa de cota! É a falácia reciclada por este texto de Simon Schwartzsman, já devidamente desmontada por André Egg. Schwartzsman consegue descobrir a pólvora ao afirmar: Se eles têm pior desempenho nos vestibulares ou no ENEM mas têm melhor desempenho nos cursos, isto indica que existem sérios problemas no ENEM e nos exames vestibulares, que precisariam ser corrigidos.

Parabéns, anti-cotistas! Precisamos de uma surra de 10 x 0 na Suprema Corte para que vocês descobrissem que há “sérios problemas” com as instituições supostamente meritocráticas que tanto defendiam. Quem sabe, com mais um pouquinho de esforço, vocês consigam ouvir a experiência da população negra, colocar-se, por um minuto que seja, no lugar do outro, questionar seus dogmas e começar a enxergar a realidade efetivamente existente numa das sociedades mais racistas do planeta. 

Extraído do Blog do Avelar - http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/04/30/o-julgamento-da... 

O que fica é o seguinte:

O tal do supremo passou a reconhecer a existência de outra raça que não a humana? Logo também torna legal discriminar qualquer pessoa em função da cor de sua pele, já que a corte maior do país reconhece sua inferioridade e necessidade de tratamento especial em relação às supostas outras raças. Dessa forma se um empresário não quiser contratar uma pessoa de pele escura fica ele dentro da lei já que segundo o supremo se trata de raça inferior, necessita de tutela do estado, necessita de uma forcinha por que segundo eles sozinho não conseguiriam. Segundo o supremo.

Evidentemente que não concordo com essa ilegalidade do supremo, essa lei discriminatória e racista. Um absurdo. Da justiça não se fala nada, temos isso, temos STJ favorecendo pedófilo.  Descumprimento da constituição quando sabemos que a justiça não é igual pra todos. Gente ganhando dinheiro fazendo o que o Estado deveria fazer segundo a constituição, e assim vai. Pra monarquia do século passado só falta o rei, a corte já tem, e a plebe também,  coitados...tudo do mesmo jeito, passa século, outro e continua tudo do mesmo jeito.   

Fabio, você gosta de confundir questoes, nao? O que está em jogo nao é uma realidade biológica, é uma realidade HISTÓRICA E SOCIAL. Vá dizer aos racistas que nao existe diferença de raça! Nao existe mesmo, mas a DISCRIMINAÇAO existe. E os negros precisam das cotas nao porque sao inferiores, mas porque tiveram condiçoes diferenciadas, e é preciso corrigir isso. Entendeu agora, ou é preciso desenhar? 

Pois é. Nao tem nada a ver com raças no sentido biológico. 

Publicado em 03/05/2012( no Direto da Redação) Urariano Mota.

Um caso exemplar de cotas para negros

 

 

A semana passada, depois de publicar “As cotas para negros nas universidades”, pude acompanhar a discussão gerada pelo texto e pelas cotas. Entre vários argumentos contra, todos muito democratas, daquela democracia “o que faz um negro em meu ambiente?”, o mais comum era que as cotas eram racistas porque tratavam os negros como mendigos retardados. Perdoem a grossura, que dói até na reprodução, mas os democratas eram desse gênero. Acontece, Cartola, que para nossa felicidade, pude ver um testemunho vivo de um beneficiário de cotas. A ele, sem qualquer conserto:     

“Me chamo Gutemberg da Silva Rocha, tenho 27 anos, e estudei todo o meu ensino fundamental e médio na Escola Senador Aderbal Jurema, no bairro do Curado IV, na periferia do Recife, onde praticamente nasci e onde costumo ir quando visito o Brasil. 

Me graduei em Relações Internacionais pela FIR (Estácio) em junho de 2011. Desde o primeiro período já era nítida a diferença que existia entre mim, mais dois colegas ‘cotistas’, e os demais do curso. Com exceção de uma moça negra, todo resto da turma era de pele clara e com um poder aquisitivo estável. Verdade seja dita, havia algumas pessoas ali que não se importavam com a questão de cotas nem com a cor da pele, mas era nítido que havia um preconceito oculto na maioria. 

Fui beneficiado pelo Prouni, e o vejo também como um sistema de cotas, com uma dinâmica diferente, porém com a mesma essência do sistema utilizado para incluir os negros. Ele permite que pessoas de menor poder aquisitivo (uma grande parcela é negra) tenha a mesma oportunidade de educação de um jovem de classe média (maioria branca).  

Minha média geral foi 8,29, enquanto a média da turma ficou em torno de 6,75.

Atualmente trabalho em Luanda-Angola para a construtora Queiroz Galvão. Faço as compras internacionais da empresa. Resido em Luanda há mais ou menos 1 ano. Os angolanos se identificam muito com o Brasil, o que facilita nossa relação com eles. Não é estranho ter acesso a shows de artistas brasileiros, restaurantes com comidas das mais diversas regiões do Brasil, televisão, etc... Enfim, Angola se espelha muito no Brasil, porém mantendo suas tradições.  

Sou a favor das cotas para negros, não apenas pela dívida histórica, mas também para que os negros olhem um médico ou um engenheiro atuando e sintam que também é possível chegar lá. Sou mais a favor do forte investimento na educação de base, para que em um futuro próximo todos possam concorrer de igual para igual, e assim não se fazerem necessárias essas cotas. Porém, como esse processo é longo, não podemos deixar que uma geração inteira se perca por causa de erros do passado. 

Envio em anexo uma foto que tirei na África do Sul com a estátua de Mandela ao fundo. Acredito que ela simboliza bem este depoimento, pois como é sabido, Mandela representa a luta, bem como a perseverança naquilo que ele acreditava ser o certo. 

Bem, sempre tenho dificuldades de me descrever, porque todo dia conheço algo novo em mim. No entanto, o Gutemberg que se faz presente hoje é persistente, atencioso e muitas vezes inteligente o suficiente para contornar momentos de dificuldades e transformá-los em aprendizado para chegar ao êxito. Sou um amante da natureza, e acredito fielmente no ‘Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você’.  Faço parte daquele grupo que normalmente sofria com o bullying nas rodas de amizade, talvez por nem sempre ter a mesma opinião que a massa, e também por nem sempre saber o momento certo de ficar calado (Um defeito que já venho há algum tempo tentando corrigir, e vou conseguir!).

Sonhei um dia em seguir a carreira política, atuando principalmente em causas humanitárias e projetos sociais, porém a vida me abriu a oportunidade de trabalhar com Comércio Exterior, o que foi uma grata surpresa, pois me possibilita(ou) interagir com pessoas de diferentes culturas e opiniões, além de viver no continente africano, auxiliando nossos irmãos angolanos a reconstruírem seu país e identidade. Pretendo voltar em alguns anos ao Brasil, levando uma enorme bagagem cultural e profissional, para assim ter condições de ajudar outras pessoas, principalmente do Curado IV, o meu bairro periférico, a terem as mesmas oportunidades que eu tive”. 

Fim do depoimento. O colunista aqui se esconde diante da sua grandeza.

Comovente. 

Juntou o “pobre” pra reforçar argumento já que se falar só em raça fica difícil justificar.

O que se tem que perguntar é se todo mundo que usufruí dos “benefícios” do serviço publico, da tal da USP verde. É fácil resolver isso, cria uma agencia reguladora de raça e todo mundo para de reclamar. Vai reclamar pra quem? Vai reclamar alguma coisa no ministério do trabalho, agência reguladora de plano de saúde, de energia elétrica? O sujeito antes reclamava de quem ganha dinheiro com atribuições do Estado incompetente, agora como vai reclamar pro Estado incompetente. Não estou falando desse não, estou falando do sistema. Pode trocar, colocar o melhor presidente do mundo, se é que existe e tudo vai ficar do mesmo jeito. Onde já se viu. A tal da agência reguladora de plano de saúde criou uma regulamentação que dita que o plano de saúde pode recusar cobertura de doença “pré- existe?! Que isso? Algo que existe antes de existir? Brilhante? Então o tal do plano de saúde fica com o lucro e o prejuízo vai pro tal do sistema de saúde publica. Depois pergunta por que não funciona.

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