(do cara Beto Ruschel que já foi da noite)

 

 

(Pra Simone Isabeau que me chamou a atenção para os vagalumes que pirilampejam. Foi por total falta de vocabulário, ignorância vernacular sincera, que me apertei e inventei esse verbo)

 

Esticando e encolhendo os braços, dois guerreiros ouviam o som da água lambendo o fundo da canoa. Eles remavam bem sérios. Concentrados e medrosos penteavam os cabelos da Yara morena.

 

Nada se escondia da menina que não dormia.  Não era noite, era sempre o dia.

 

- Tragam a noite, minha menina quer dormir! – ordenou o chefe.

 

Naquela parte iluminada e silenciosa da mata, os dois guerreiros ouviram a noite chamando de dentro do caroço do Tucuman. É que, do ruidoso escuro que morava no caroço, apertados, os barulhos da noite disputavam a luz do pirilampo.

 

- É minha! – dizia o grilo coçando as pernas.

 

- Minha também, ela é pouquinha, mas dá pros dois! – insistia a rã gorda.

 

Os remos foram pro fundo da canoa. Ela deslizou mais pra baixo do rio.

 

Em silêncio, lá dentro, os vaga-lumes avoavam procurando uma fresta.

 

A pancada, levíssima, seca, de madeira com madeira, calou os ruídos no caroço.

 

- Não fala alto, eles tão ouvindo… – era o grilo cochichando com a rã.

 

Primeiro, os guerreiros lavaram bem, depois esfregaram nas pernas pra secar. Com uma varinha dura cutucaram. Acharam um buraquinho, enfiaram a varinha e forçaram.

 

O caroço abriu-se em dois, lado a lado, duas metades, claro e escuro, sim e não.

Com calma e naturalidade oleosa, a noite se esparramou pra todos os cantos da selva.

 

No primeiro pirilampejar do vaga-lume que ia a sua frente, a rã gorda viu e comeu o grilo. Engordou mais.

 

Direto do caroço, esta palavra-inseto meio pássaro, avoou-me pra dentro de mim.

 

No sim da luz pela noite de nãos, com meu caminho iluminado por brevíssimos instantes, pirilampejo agora pela grande jornada.

 

Aluz não atravessa, rasga vencendo. Aprendo com o dia, desaprendo com a noite que pirilampeja na minha frente.

 

Claro, escuro, claro, escuro, sim e não, sim e não... guardados na memória, os obstáculos pirilampejam feito faróis no penhasco dos afogados.

 

Agora, de palavra nova em riste mais brando será meu caminho. Na noite dos pirilampos, as luzes entrarão e saiarão dos meus olhos como vaga-lumes que já conhecem o escuro.

 

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Respostas a este tópico

Como brilhante e cintilante luzeiro, iluminas o idioma com mais um esplendoroso neologismo. Este pirilampejar tem brilho e sabor de fruta silvestre. É mais uma palavra que vai ficar avoando em minha memória, até que eu encontre uma ocasião propícia para usá-la.

 

ô seu ôripe, é bão quando o sr. aparece pra cutucar as avoações, é bão avoar de conjuntamente.

a faina de arrumar o blógui e um futuro site, nem me deixam vir poraqui...to mancando comigo mess sem correr atrás de suas ideiações...

hora dessa, vô lá com calma, sem ansiedades...

bração.

Ô Isabeau, a conversa não é comigo não, mas diante do inusitado, tenho que me intrometer. Não has de ver que em minha adolescência, conheci uma garota com esse nome? Epifania. Às vezes, eu tinha que me segurar para não rir em vista da coincidência. A menina era linda! Uma manifestação de deusa. Acho até que Afrodite perdia para ela. Mas que o nome era engraçado, la isso era!

Lá vem tu, Alberto chora e você ri.  O nome da irmã de Epifania devia ser Transcendência, a ovelha negra da família era Imanência. Ficava histérica com a falta de acento. 

Isabeau teve duas experiência inesquecíveis com pirilampos, além da infância, quando amava os cintilantes e as lavadeiras (estas últimas ela as amarrava nos dedos, uma ponta linha no rabinho das bichinhas e a outra no dedinhos, depois soltava, eu acho)

Recentemente  por causa de pirilampos, caiu da bicicleta, está com uma cicatriz enorme na perna, perto da canela, coisa linda. Mas não dá para descrever intimidades alheias, é epifânica mesmo, caralâmpica, sacropântica.   

 

Venho por meio desta participar-lhes que acabo de descobrir a tal padaria Dorípe!!

Lembrei-me que por qualquer razão muito especial, em Sampa, as padarias mais antigas chamavam-se a Flor de alguma coisa, Floa da Cubatão (a rua), Flor do Paraíso (o bairro).

Dei uma avoadinha singela por lá, tomei um cafézinho, me emocionei bastante - o que não é surpresa nestes primeiros dias de outono -, e confirmei a sensação de que a Verusca é mei bruxa do bem, dos melhores bens que andam por aí.

Depois falo prela, entro em detalhes.

Mas, Seu Orípe, saiba que se já era, fiquei mais!!!

Volto.

Braços e Beijos.

 

 

 

sim senhoras!

foi mesmo imperioso colocá-las na fogueira que os dois guerreiros fizeram antes de partirem pra buscar a noite.

fiquem boas, já!

bejucas.

os pirilampos, sempre vagalumes na minha memória -pois foi com este nome que eles me foram apresentados- encerram muita magia. impossível, quem com eles compartilhou momentos da infância, não se emocionar com esta história do beto.

 

pirilampejar... hummmm, verbo bonito que esconde filosofia. e, na justa homenagem à musa inspiradora, sobra prá gente as delícias deste pensar a vida. gosto disso. e se uma palavra nova ajuda a caminhada pelos diversos tonas que a vida toma, mellhor, muito melhor. e como li agorinha, em outro tópico, se a palavra existe, é porque o fato existe... então pirilampejemos e choremos e sorrimos. sempre.

 

ah, adorei a imagem pendurada lá no céu. linda. consegui ver milhões de coisas.

tá aqui o papo da érica lorenz, postado lá na padaria do soripes e da vera:

achei delicioso. ela conta assim:

Lembro de um colega que em criança iniciou uma discussão com a empregada acerca do saci-pererê. Ele dizia que o saci não existia, e ela afirmava que existia. Assim passou-se um tempo nesta discussão, até que ela se cansou e disse, veementemente, "Se tem nome, existe!!"

Esse pirilampejar me fez lembrar Castro Alves. Poema que eu amava quando menina, cheguei a decorar para nunca mais esquecer. claro que agora ao  recitá-lo faço uma misturebazinha .

dedico a vc Ruschel e a Isabeau/ bjo meu

 

 

O baile na flor


QUE BELAS as margens do rio possante,
Que ao largo espumante campeia sem par!...
Ali das bromélias nas flores doiradas
Há silfos e fadas, que fazem seu lar...
E, em lindos cardumes,
Sutis vaga-lumes
Acendem os lumes
P'ra o baile na flor.
E então — nas arcadas
Das pét’las doiradas,
Os grilos em festa
Começam na orquestra
Febris a tocar...
E as breves 
Falenas
Vão leves, 
Serenas,
Em bando 
Girando, 
Valsando, 
Voando
No ar! ...

Lindo!

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