Colegas têm dito que falta polêmica ao Portal. Bom, acho que tenho uma em mãos, vamos ver.

Há cerca de três anos (quando parte da trilha da novela Paraíso) uma música do sertanejo urbano fez sucesso com uma letra pra lá de sexista. Só a conheci recentemente e estranho que ela não tenha levantado muitas controvérsias. Acho que vale um estudo de caso, porque ela tem mais de uma leitura. E isso não é incomum em letras de músicas e em geral é proposital.

À primeira vista parece quase uma declaração de guerra contra os direitos das mulheres, uma convocação aos homens para que ponham as coisas em ordem, no seu devido lugar (sistemático.) Tentei, mas não achei nem declarações alongadas dos autores nem análises em blogs (até achei críticas por homofobia, mas nada em blogs feministas.) Será que foi considerada irrelevante? O pouco que se encontra – enquanto eu não melhorar meus métodos de pesquisa -  é isto: http://www.blitzms.com.br/noticia/903/Dupla+Joao+Carreiro+e+Capataz...

João Carreiro diz que a intenção da letra é se referir a um “pensamento antigo”. Depois de ouvir o clipe fiquei pensando que a música não pode ser machista, não no sentido de capaz de perpetuar ou prolongar o machismo. (E, analogamente, também não homofóbica.) É tão canhestra e bisonha que só pode ser uma denúncia em forma de gozação ao machismo. Não importa se não foi intencional: o elogio desmedido a algo criticável fica quase sempre parecendo sátira.

Mas, ao mesmo tempo, se resulta contra o processo ou a prática, não é contra o indivíduo. Pareceu-me também um pouco como um alento aos machistas remanescentes, algo como “eu sei o que você sente, não tem jeito, console-se em saber que não está sozinho. Ainda.”

Uma canção assim não seria possível há 50 ou 60 anos atrás, soaria uma agressão absurdamente gratuita, excessiva, posto que o ambiente já era extremamente machista/sexista. Uma tripudiação mesmo. No século XXI, por outro lado, lembra um “canto de cisne”, uma despedida. Um “reconheço que perdi, vou ficar no meu canto” (Neste ponto já tô quase esperando o comentário “você está sendo muito generoso”, normal...)

Talvez nessa ambiguidade toda é que residam tanto as razões de sucesso comercial como de baixo nível de polêmica. Ficou algo diplomático, uma intermediação de um ponto de mutação onde surgem antagonismos. “Você que se vê refletido na canção, curta; você que sabe que as mudanças vieram pra ficar, comemore. Por favor, não ria demais.”

Viagem completa a minha, né? Ou não. Peço a ajuda aos colegas na tarefa. Aviso que pode tanto dar raiva, como pena como trazer gargalhadas.  (Minhas notas estão em vermelho.)

 

 

Bruto, Rústico e Sistemático

João Carreiro e Capataz

Tudo que dá na tv minha muié qué fazê não mede as conseqüências
Fez um tar de topless quando vi me deu um stress, perdi minha paciência
Por mim faltaram respeito, na muié eu dei um jeito, corretivo do meu modo
No quarto deixei trancada, quinze dia aprisionada e com ela não incomodo

(Manter algo anacrônico tem um preço, exercer a vigilância contra a rebelião. É necessário evitar a informação, que, no caso e paradoxalmente, é a TV, mídia que é bem menos conservadora em costumes que em política. Colocar situação tão absurda logo na primeira estrofe parece a pista de que se trata de uma grande blague proposital. Embora topless seja algo dos anos 1980, como houve retrocesso nesse hábito, ainda é atual pra canção.)

Aqui não
Posso até não ser simpático
Comigo não tem desculpa
Minha criação é chucra
A verdade ninguém furta
Sou bruto, rústico e sistemático

(A palavra sistemático seria coisa do avô-caipira-simples? Acho que o autor deu uma desculpa esfarrapada... Mas note-se como as expressões “posso até não ser simpático” e “verdade ninguém furta” lembram muito as introduções aos comentários machistas que vemos em blogs. Tentativa de afirmação, de desculpa (criação) mas também reconhecimento de declínio (chucra).)

Fim de semana passado
Conheci o namorado da minha filha caçula
Achei que não deu pareia, tava de brinco na orelha e o corpo cheio de figura
Não suportei por muito tempo
Nesse relacionamento eu tive que opinar
Sujeitinho era roqueiro não dá certo com violeiro
Nos num ia combinar

(A música não é só homofóbico-machista, é também anti-multiculturalismo, o que é de outro ambiente, a cidade, o rock, a tatuagem, é rejeitado por antecipação, não há troca, não há curiosidade. A dificuldade – do personagem - em aceitar o diferente é evidente. E ainda queimando etapas. Passou o tempo dos anos 1970/1980 em que homem usar brinco era coisa de gay ou roqueiro, já rolou tanta água debaixo da ponte, o pensamento é tão antigo, que agora é coisa de ídolo de futebol [alguns brincos que vemos por aí são feios, diria eu...].)

Aqui não...

Sistema que fui criado vêr dois homem abraçado pra mim era confusão
Mulher com mulher beijando
Dois homens se acariciando, meu deus que decepção
Mas nesse mundo moderno não tem errado e nem certo

achar ruim é preconceito
Mas não fujo à minha essência pra mim isso é indecência
Ninguém vai mudar meu jeito

(Agora aparece a razão do sistemático no título, além de rimar com simpático. Um grande problema e motivador dos preconceitos não é a obtenção de benefícios ou ganhos pessoais. Por que as pessoas são preconceituosas se não ganham nada com isso? A chave é a “zona de conforto”. Quem é criado em/por “sistemas” submeteu-se provavelmente a restrições e é dolorido ver quem não passou por isso exercer a liberdade. A pessoa também fica submetida à pressão de ouvir continuamente que o que aprendeu era tudo errado e isso leva à resistência. Quem é criado para ser conservador não é preparado para as mudanças, como não é possível conservar sociedades, sofre (decepção, sensação de deslocamento). Tem tão pouco domínio dos processos que julga ser essência o que é inculcado por outros.)

Aqui não...

https://www.youtube.com/watch?v=TJGtix9bEzc

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Respostas a este tópico

Aposto que deve haver um monte de letras pra ver em outros ritmos. Funk por exemplo. Mas eu só soube dessa.

Poxa vida, com este Sr. Gunter não ha (de haver) polêmica.
Nós (eu) tentamos criar uma, mas ele logo “despolêmiza”.
Sinceramente, seu forte não é criar a polêmica, e sim desmontá-la.
Portanto cito novamente a injustiça com a harmonia caipira.
O lugar onde as novidades demoram em chegar. Onde, se vive ainda a vida de antigamente. Onde os preconceitos fluem livremente.

Ricardo, você criou uma polêmica. Coloca Sr. antes do meu nome e muito poucas pessoas costumam fazer isso... Eu tenho síndrome de Peter Pan!

Não sei se essa música é caipira. Creio já ser do "Sertanejo urbano/universitário" (pior ainda pra essa letra!)

E note, foi trilha de novela global.

Em tempo:

"...não é criar a polêmica, e sim desmontá-la."

Minha intenção é essa. Eu gosto muito de escrever e expor minhas opiniões, mas só por acidente eu faço propaganda de alguma coisa. Eu também tento nunca provocar pessoas com opiniões polêmicas (ou eu julgo ter algum argumento, aí a polêmica é baixa, ou eu dou minha opinião depois dos outros.)

Minha opinião sobre mim mesmo é que eu não polemizo... Alguns assuntos é que às vezes levantam polêmica desnecessária.

Normalmente meu interesse é quando eu penso notar uma lacuna na discussão sobre algo e tento cobri-la.

No caso destes comentários sobre machismo minha hipótese geral é:

- o machismo enquanto imposição de limites é uma ideia ruim, que deve ser criticada;

- embora exista tende a diminuir muito neste século. O caminho é certo, o tempo não;

- as diferenças comportamentais de gênero podem ser menores do que se divulga atualmente com o discurso do "naturalismo".

O concerto por trás das duas últimas frases eu não vejo muito comentado por aí, por isso trago aqui, como contribuição. Em geral o que se vê é muito o reforço da primeira frase (o machismo ser um problema) mas uma certa insegurança de um lado e esperança de outro de que o destino já não esteja mais ou menos traçado.

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