Olha o comentário do lelé, será quele é? será quele é?... MACHISTA!

Será boa capa pra “Nova” / Ou pensa que é um Pelé

Parece que é bitolado / Mas isso eu não sei sele é!

Corta o barato dele pã pã / Corta o topete dele pã pã

Corta pra 1963... Ano da marchinha que todos reconhecem, com música contagiante e letra um tanto mequetrefe. Ano de ambiente político conturbado no Brasil, da morte de Kennedy e também do meu nascimento. Quem diria, então, há quase 50 anos, antes de Indira (1966) ou Golda (1969) serem chefes de governo, que nos países desenvolvidos metade da força de trabalho remunerada seria feminina. Que na América Latina, em seus maiores países, haveria presidentas ou postulantes? (A próxima pode vir do México, no 1º de julho.)

Os exemplos serão só esses porque a mensagem hoje é simples : o machismo como fenômeno que alija as mulheres das decisões sociais e econômicas inexoravelmente acabará. As exceções confirmam a regra. Isso é sabido há tempos por estrategistas, no mínimo desde “O Ponto de Mutação” (Fritjof Capra, 1983.)

Como hoje é Dia Internacional da Mulher, haverá plena oportunidade de nos atualizarmos e confirmarmos como a divisão de papéis por gênero ainda é perversa, às vezes fatal, em quase todos os países. Mas também se falará muito de como, ao longo das últimas décadas, tem havido muito menos retrocessos que avanços.

Esse processo é irrefreável, não vale a pena lutar contra ele. Mas sai favorecido quem tem mais informação e se posiciona antes. Como em qualquer processo.

Aqui o amigo-comentarista-macho-alfa-convicto dirá: “E eu quico?” Algumas coisas. Que você poderá não acreditar. Poderá argumentar contra também.

Fazer comentários ou piadas machistas e desqualificadoras de gênero, felizmente – por significar que não há censura - ou infelizmente – por significar que não há responsabilidade social, não é ilegal no Brasil. Quem os faz ainda tem público, ainda atrai risadas. Mas cada vez menos e também atrai riso amarelo e olhares recriminadores. Fazer em ambientes como trabalho ou estudo nem pensar (sua futura chefe pode lembrar...) Não adianta bancar o politicamente incorreto e brigar contra esse fato porque é uma tendência social, mais sensato é abrir mão do humor de gosto duvidoso. Quem tem criatividade e inspiração faz piadas e comentários “brincando com diferenças de gênero”, que é algo muito diferente.

A internet revelou-se, graças a sua impessoalidade inicial, o refúgio para um sem número de preconceitos. Quase uma segunda vida para eles, tão combatidos na vida presencial pelo menos desde os 1970. Ilusão, pois os ambientes sérios nessa mesma internet e onde é útil debater assuntos ou desenvolver relações não darão cobertura a comentários preconceituosos. Por consciência ou necessidade de acompanhar os tempos há cada vez mais ex-machistas entre os mais velhos, mas nunca “novos machistas” nessa faixa. O percentual de jovens machistas diminui a cada geração. Profissionais de marketing diriam “adapta-se ou morra”.

Um caso particular são os blogs de notícias, de discussão ou conhecimento geral. Ainda que comentários machistas não sejam ilegais, pelo menos enquanto não ofendem ou agridem diretamente uma pessoa ou um grupo de mulheres, é bom lembrar que tais blogs são abertos ao grande público, não são frequentados exclusivamente por uma “turma”. Os mesmos cuidados que se tem na vida social presencial devem ser, portanto, tomados. As pessoas notam os sofismas disfarçados de argumento e as “trollagens”. Mesmo piadas, ainda que alguém pense que não, nem sempre são simplesmente humor inócuo, pois quando derivadas do preconceito têm o efeito de preservá-lo e encorajá-lo. Um conjunto de comentários machistas torna “pesado” um ambiente que não é frequentado só por machistas, tende a afastar as pessoas críticas a esse comportamento. Para não cair naquelas intermináveis esparrelas a respeito de liberdade de expressão vale uma regra simples: não há sentido algum em se fazer em um ambiente virtual com público muito diversificado comentários ou piadas que ficariam muito mal – e constrangeriam quem os fizesse – em um ambiente presencial igualmente diversificado.

Feminismo é antagônico ao machismo. Mas não é simétrico. Nem se tente ir por aí que não cola. O machismo, em uma definição simples, é tentar prolongar uma divisão de papéis por gênero em que o potencial feminino é reprimido, especialmente no acesso ao poder político e econômico. O feminismo não é a busca da situação oposta, mas da eliminação da desigualdade na tomada de decisões. Tomar conta de casa e de filhos deve vir como resultado de uma opção própria, não de uma imposição ou falta de alternativas. 

O machismo é prejudicial a todos, não somente às mulheres. Basta pensar no potencial produtivo e criativo que pode estar se perdendo. Tanto em número como em diversidade. Mas para compartilhar responsabilidades, de prover materialmente, por exemplo, é necessário compartilhar poder. E só não sendo machista é que novidades como o masculinismo terão alguma chance de não serem consideradas piada.

Não seja o último machista. Pega mal pra caramba. E ser o último qualquer coisa é melancólico demais.

Este comentário é dedicado às amigas AnaLú e Vânia que vivem comendo o pão que o diabo amassou no blog por conta da sinceridade e do entusiasmo por um mundo melhor. Mas também a todas as amigas que fazemos por aqui, que venham mais e sempre. E ainda a todos os homens que, com suas atitudes para a redução ou eliminação do machismo e de outros preconceitos, fazem com que as realidades boas venham antes.

(Veja também http://bit.ly/x2xQAv )

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Respostas a este tópico

Olá, Gunter, como vai? Andei meio afastado do portal por vários motivos, um deles é que minha lunação pirou, rsrs...

Gunter, minha essência é como você se despe, otimista com relação ao futuro. Não fosse assim eu não estaria por aqui. Mas alguns processos me preocupam um bocado, um deles é o avanço de cristãos oportuno fundamentalistas que, além de tomar vários corações e mentes em nossa vizinhança estão se apossando do poder mesmo sem saber colocar minhoca em anzol. Paralelamente a isso a gente vê a transformação da sociedade como a conhecíamos, novas e endeusadas tecnologias, praticidade e imediatismo. Passado zero, o descarte também faz parte da nova era ou, o menos, desse processo de transição.Vc imaginaria Brigitte Bardot sendo hostilizada em uma universidade do século 21 por usar mini saia? rsrs..

Não acho que seja o fim do mundo, pelo contrário, é o começo de uma nova era, um salto quântico, o nome que queiram dar. Mas todo processo de transformação desse porte na maior parte das vezes envolve um período bem complicado e com muitas perdas.

Mas é isso aí, mesmo. No fim das contas o bem prevalece. E o último machista vai cabar dando à luz, ao invés de apagá-la, rsrs...

Abração

Beto Volpe

Oi Beto, tudo bem?

Fundamentalismo incomoda, mas em geral só atrasa, não impede avanços. Retrocesso real e visível na liberdade feminina é o caso do Irã (se bem que não necessariamente tenha havido retrocesso no acesso econômico) 

Acho que é ponto fora da curva, exceção que confirma a regra.

No caso de direitos das mulheres e fundamentalismo brasileiro (presente em discursos de igrejas evangélicas) nem é ruim. Parece que é feito um bom trabalho de combate à violência doméstica, a Universal não prega contra o aborto, na maioria pode haver bispas. 

Gunter, 

   Não sei se sou a rainha do otimismo mas o quadro está mudando...

   Hoje encontrei esse texto entre tantos de outros homens que estão repensando suas atitudes e posturas em relação a machismo. Claro que encontrei muitas outras "barbaridades(vide a Band...).

    Aqui está escrito por Igor T. no blog http://cemhomens.com/2012/03/hoje-nao-e-dia-de-flor/

  "  Recebi há pouco um e-mail de uma grande rede de comércio online, que anunciava um saldão especial para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Os produtos em destaque eram panelas, fogões, liquidificadores e até uma balança. Pensei ter acordado na década errada. Nos anos 50, talvez. Esseque me causam estranheza quando a sociedade decide que é “dia de homenagear a mulher”.

Quando eu era apenas um pequeno infante, aprendi na escola que o Dia Internacional da Mulher não existia exatamente porque as meninas da turma eram bonitas e eu gostava de me imaginar andando de mãos dadas com elas. A professora conseguiu, com algum esforço, explicar que, em vários lugares do mundo, há muito tempo, as mulheres vinham lutando por coisas. À época eu não entendi exatamente o que eram eram essas coisas, mas me dei bem com a ideia de que aquela data não existia apenas para que a turma desse preferência às meninas nos balanços do parquinho.

O meu desenho naquele dia acabou sendo a minha mãe, o grande referencial de “feminino” que eu, com pouca idade e muitos dentes de leite na boca, tinha até então. Levei vários anos para entender por que as únicas fotos dela no trabalho eram antigas, de antes de eu nascer. E demorei mais alguns outros para me perguntar, pela primeira vez, se tudo o que minha mãe queria da vida era fazer o almoço que eu tanto adorava, enquanto eu assistia ao programa matinal na televisão.

Meu pai foi quem me apresentou à pornografia. “Apenas coisas leves”, dizia ele. Leves ou não, eu jamais saberei o nome de nenhuma das mulheres que vi naquelas revistas. Por algum motivo, eu não pensava nelas da mesma forma que pensava nas minhas colegas de classe, nas professoras do colégio ou na minha mãe. Eu folheava um impresso, me satisfazia vendo aquelas fotos e guardava um punhado de garotas anônimas na gaveta de meias. E ninguém jamais me convidou a repensar isso.

Eu ainda hoje fico confuso ao tentar traçar uma linha entre me sentir atraído por uma mulher de uma forma sadia e transformá-la num mero objeto sexual. É provável que tal linha seja tão subjetiva que nem exista. Em todo caso, eu vejo um dedo do meu pai nisso. Mas não o culpo, individualmente. Não fosse através dele, eu certamente teria acesso às mesmas revistas que o pai de algum amigo compraria e eu tomaria emprestadas. Em algum ponto da vida eu acabaria deixando de querer o novo boneco do Batman e passaria a cobiçar a estante proibida da banca da esquina.

Tive na faculdade o meu primeiro contato com o feminismo. Eu o detestava. Nunca gostei que me dissessem o que fazer – ou o que não fazer – e achava uma petulância terrível algumas mulheres, que dividiam comigo o mesmo espaço acadêmico, pleitearem mais algum direito. De alguma forma eu acreditava que a igualdade que elas demandavam já existia. E eu poucas vezes estive tão errado sobre algo em toda a minha vida.

Com o tempo, eu acabei entendendo que o feminismo não quer mandar nos homens. Percebi também que as feministas não estão certas o tempo todo. E que uma feminista errada não invalida toda uma luta histórica por direitos que são absolutamente legítimos. A verdade é que eu jamais vou fazer a mais remota ideia de como exatamente é sofrer um ato machista, por mais que eu converse com as pessoas e ouça delas qual é a sensação. Eu provavelmente nunca vou poder acessar essa questão do ponto de vista de uma mulher.

Eu sou machista às vezes, talvez com mais frequência do que gostaria. Tenho um pouco de vergonha disso. Não sou necessariamente um ser humano ruim por ser machista, mas apenas enquanto eu não cruzar os braços diante do problema. Posso estar falando uma bobagem inacreditável agora, mas eu acho que é mais ou menos isso que o feminismo quer de mim: que eu deixe de ser machista. Não eu, como indivíduo. Mas a sociedade, como um todo.

Em vez de dar uma rosa ou uma caixa de bombons e fazer meia dúzia de elogios bestas e que provavelmente eu nem queria fazer, eu vou reservar o dia 8 de março para refletir sobre o meu machismo ".

Mas é para ter esperanças mesmo, Ivone, fecho com você.

Cartas assim vão aparecer cada vez mais, e não só uma vez ao ano.

Encontrei outra carta. Como você disse Gunter, as cartas e não só elas vão aparecer cada vez mais. Até que aconteça a carta ao último machista e que não demore muito.

       Precisamos queimar cuecas em praça pública 

A idéia acima não foi minha, apesar de tê-la abraçado totalmente, e sim de Claudio Picazio, psicólogo, especialista em sexualidade e violência doméstica. Em uma mesa organizada pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos, a qual tive o prazer de mediar, que reuniu a professora Eleonora Menicucci (hoje ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres), o genial cartunista Laerte e ele, no final do ano passado, conversamos sobre homofobia. Pesadelo que, assim como o machismo, conta com o homem em um papel central. De agressor, claro. Mas também de vítima. Mas não a vítima do jeito que muitos machos gostariam de imaginar.

De acordo com Claudio, o homem precisa começar a entender que tem direito ao afeto, às emoções, a sentir. Passar a ser homem e não macho.

Já atravessamos uma revolução sexual. Podemos fazer sexo de forma mais livre e com menos culpa que antes. Mas expressar nossos sentimentos é algo longe de acontecer livremente. Para Claudio, chegou a hora de passarmos por uma transformação afetiva. Em outras palavras, o homem hetero precisa fazer sua revolução masculina.

O homem é programado, desde pequeno, para que seja agressivo. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto para outro amigo em público. Manifestar seus sentimentos é coisa de mina. Ou, pior, é coisa de bicha. De quem está fora do seu papel. E vamos causando outros danos no caminho: há mulheres que, para serem aceitas nesse mundo de homens, buscam nos copiar no que temos de pior.

Gostaria que o Dia Internacional das Mulheres fosse um momento para que nos déssemos conta que já passou o momento de sairmos de nossa zona de conforto e começarmos a educar nossos filhos para viverem sem medo. E não para serem inimigos de quem não tem pênis.

Só isso resolve? Não mesmo, o problema é profundo. Mas já ajuda.

Afinal de contas, o feminismo pode ser, literalmente, um pé no saco para muitos, mas não mata ninguém. Já o machismo…

Picazio também é referência em questões LGBT.

Eu acho que é muito claro o que acontece, também costumo usar a expressão "zona de conforto" (está na análise da música Bruto, rústico...)

Alguns homens resistem demais à percepção de que o que aprenderam é uma furada, que vai contra eles mesmos. Não se deixam expressar emoções e suas dificuldades, passam por machistas (aumentando o conflito), deixam vítimas pelo caminho. É um jogo para perder.

Será que o Igor pensa que só nos anos 50 se usava panelas,fogões, liquidificadores,etc...? Hoje se faz a comida como e com que? Meu marido recebe também estes anúncios. Para mim não é importante me mandarem anúncios de utensílios domésticos, mas sim de mandarem montes de porcarias que enchem meu micro. A loja é de utensilios domésticos, então eles aproveitam Dia da Mulher,Dia da mãe, Dia do Pai, Dia da criança para abarrotar nosso computador daquilo que eles vendem. Eu não ia gostar se eles me mandassem anúncio de cuecas ou de bonecas infláveis.

Espero que não voltemos ao inicio do Feminismo onde a muher que optava por ficar em casa era demonizada. Eu procurei e não encontrei um artigo que li da Rose Maria Muraro onde ela fala do erro que cometeram fazendo isso. Foi minha opção e em nenhum momento me arrependi disso.

Você cita algo muito importante, que eu coloquei no texto. Essa decisão deve ser opção.

Porém, há inúmeros casos de imposição. O feminismo deveria (acho) combater a imposição, não as mulheres que optam. É como atirar pra todo lado sem se focar no alvo.

Mas eu dou também um pouco de razão ao Igor. Esses anúncios muitas vezes são mal-feitos, escritos numa linguagem para reforçar o preconceito.

Muito bacana é a propaganda que vi ontem, das Ferramentas Stamaco. O anúncio de um maçarico onde a foto apresenta a mão que o segura com belos e finos dedos com longas unhas pintadas. 

O que, em alguns casos, não chega a ser uma conquista... 

Ah não, Gilberto. Essa imagem é uma informação incompleta para o assunto. Onde estão os companheiros delas? 

Eles podem estar em alguma atividade igualmente ou ainda mais árdua. Ou podem estar de papo pro ar.

não entendi Gunter

porquê companheiros delas??

Gunter,

A foto e parte da informação está aqui:

http://mulheres.pps.org.br/portal/showData/191058

Na reportagem aparece como uma conquista...

Eu continuo achando que não. Este trabalho é muito duro, mesmo para os homens.

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