Seguindo a sugestão do Beto, indique os livros e, de preferência, uma resenha de até 2 mil toques.

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Volta e meia abro o meu pessoa da Aguilar (edição antiga, aquela em papel-bíblia), mas quase sempre para ler as mesmas coisas. Não sou pessoano de carteirinha, tem muita coisa dele que decididamente não gosto.
P.S. Nunca levo quase nada a sério, não se preocupe. Uma das poucas coisas sérias para mim é o engraçado, o chiste, talvez devesse dizer acompanhando o tradutor tupiniquim do Freud.
Agora entendi. Realmente, Fernando Pessoa por Maria Betânia vira dramalhao mexicano. Leia apenas. Pessoa nao fica bem declamado.

Veja se nao gosta disso. Nao é dos mais conhecidos, mas eu adoro:

Dobrada à Moda do Porto (Fernando Pessoa sob o heterônimo Álvaro de Campos)

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comí, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei multo bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Se nao gostar, há outros, de outros estilos. Por ex:

O pastor amoroso perdeu o cajado (heterônimo Alberto Caieiro)

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe pira tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu.
Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.

Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
estão presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco
nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor,
uma liberdade
no peito.

Agora um de Ricardo Reis:

Já sobre a fronte vã se me acinzenta

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos,
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.

E um de Fernando Pessoa Ele Mesmo:

D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Mas para mim o melhor de todos é Tabacaria (de Álvaro de Campos)

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
"Se não estiver a fim de encarar um dos seus romances capitais, que tal pegar um livro de contos?"

Contos de Machado de Assis. Domínio Público

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O Alienista é fantástico!
Dos 5 que nunca li, uma dita obra-prima, mas que é chatíssima na primeira parte (e nao consigo começar livro pelo meio...): Os Sertoes. Tem que ser lido com dicionário ao lado, você cansa na página 5 ou 6, se chegar a tanto. Sei que dizem que a terceira parte é maravilhosa, mas simplesmente nao consigo chegar até lá.

Outra dita obra-prima que achei chatésima (mas li com 12 anos...): O Velho e o Mar. Lia o tempo todo esperando o velho acabar com aquela conversa chata com o peixe para a história começar...

Já outro livro que começa muito chato mas que consegui "atravessar", e é maravilhoso, valeu a pena, foi Viva o Povo Brasileiro, do Ubaldo, antes dele virar clone do Jorge Amado (que já se auto-repetia...).
O Valho e o Mar, credite, vale à pena - rs - Obrigado por trazer a nós "Tabacaria" - haverá poema mais lindo...? Que coisa, viu!!!! O cara conseguiur sintetisar angústias de milhões de seres humanos, em duas, três páginas, magistrais.... coisa de gênio, coisa de doido! - rs - Bjo, Analú!
1 – On The Road (Jack Kerouac)

2 – Bíblia (autores desconhecidos) (Depois que a li, por duas vezes, deixei de acreditar nela, ou melhor, deixei de acreditar em todos os mitos que se baseiam nela).

3 – Prazer (Alexander Lowen)

4 – Nietzsche (Livro da coleção Os Pensadores)

5 – Ciranda dos Libertinos (Marquês de Sade).
Quarup
Apanhador no Campo de Centeio
Zero
Meu pé de laranja lima
Memórias de um espantalho
Quarup, Cida, tem um dos primeiros parágrafos mais marcantes de tudo que já encontrei: "Ali, só Nando com a lamparina e Cristo na luz de sua glória" (Estou citando de memória, pois o livro, emprestei-o).
Não consigo escolher 5 livros, mas 5 grupos sim.


1) Hesse:

- O jogo das contas de vidro - comprova que o materialismo consumista não é a única alternativa de satisfação, a erudição pode ser diversão.

- Sidarta - revela o sentido da espiritualidade

- O Lobo da estepe - (a meu ver) resolve o conflito idealismo versus alienação

2) Utopias / ficções

- A Cidade do Sol (Campanella)

- Utopia (Morus)

- Não verás país nenhum (Loyola Brandão)

- Eu robô (Asimov)

- Viagens de Gulliver (Swift)

- Incidente em Antares (Veríssimo)


3) Auto-ajuda

- O Demônio do meio-dia (Solomon) - estupendo livro para compreender a depressão ou síndrome bipolar

- Pai pobre pai rico - continuo pobre, mas o livro é claro e inteligente, acho o melhor na área

- Ame e dê vexame (Roberto Freire, o psicólogo, não o político) - visão bem humorada da espontaneidade

4) Ensaios & Romances

- A Era dos Extremos (Hobsbawn) - um ótimo resumo da história do século XX

- A situação das classes trabalhadoras... (Engels) - trata de um episódio no tempo e espaço, mas é revelador

- Planejamento sim e não (Le Corbusier)

- O Cortiço (Azevedo) - parece romance, mas na verdade é uma vibrante descrição do início da urbanização no Brasil

- O Alienista (Assis) - explica direitinho o Congresso Nacional

- O Ponto de Mutação (Capra, Fritjof) - nada melhor para compreender dicotomias como ciência/fé, homem/mulher, oriente/ocidente

5) Literatura espírita (li quase 100... mas apenas do neo-espiritismo, acho Chico Xavier denso demais [não é muito correto dizer isso, mas na verdade acho chato mesmo...Quem sabe algum dia...])

- Nada fica sem resposta (Maselli) - é o que melhor trata da questão do suicídio

- O Matuto (Gasparetto, Zibia) - muito bem escrito e engraçadíssimo, li imaginando Mazzaroppi no papel principal. Apresenta conceitos da Umbanda

- Violetas na Janela (Marinzeck) - ajuda a aceitar perdas

- Quando ele voltar (Medeiros, Ricky) - curtinho (3 horas de leitura), é um interessante conto de ficção científica misturada com sincretismo religioso.
1 - Pedro Paramo (Juan Rulfo)

2 - Cronica da Casa Assassinada (Lucio Cardoso)

3 - Sagarana ( Guimaraes Rosa)

4 - Reinacoes de Narizinho (Monteiro Lobato)

5 - As Cronicas Marcianas (Ray Bradbury)
Não posso dizer que algum livro tenha mudado minha vida. Acho mais correto dizer que os livros me fizeram ser como eu sou. De todos os mencionados até agora, eu não li 18.
É interessante que hoje eu comentei em um outro blog, antes de ver aqui, que a minha infância e adolescência foram mais marcadas por livros do que por séries de tv. Eu li Mark Twain, Júlio Verne, Joseph Conrad, Robert Louis Stevensson, Charles Dickens, Hermann Melville, etc... Se eu juntasse tudo que li, daria uma biblioteca respeitável.

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