Comemorar ou Celebrar o Dia internacional da mulher?

Por Silvana Suaiden*

Como de costume, no dia internacional da mulher recebemos flores, presentes e muitas e belas mensagens. A cada ano nossos filhos, parceiros, alunos, irmãos e amigos elogiam nossas qualidades físicas, psicológicas e sócio educativas. Em geral, ressaltam muito nossa docilidade, amabilidade e cuidado no que fazemos. Acabamos achando que este é um dia para comemorar as qualidades femininas, sobretudo as que mais agradam os homens de nosso tempo. E eles sabem muito bem dar a pauta dessas qualidades!

No entanto, no dia internacional da mulher temos pouco o que comemorar.  Ainda temos um alto índice de violência contra a mulher e, isso, no mundo todo. Ainda temos um salário menor que o do homem para o mesmo trabalho e somos submetidas a uma tripla jornada, às vezes, com o nosso consentimento. Ao mesmo tempo em que nos exaltam, produtores da mídia vendem nossa imagem como objeto de prazer e insistem em dar-nos  valor apenas pelos nossos dotes físicos. Quantos produtos se tornam mais lucrativos quando associados ao corpo desejável e idealizado de uma mulher!  Nossas adolescentes e jovens crescem internalizando esses valores e reproduzindo comportamentos de sexualidade precoce e de coisificação de seu corpo e beleza física...

Enfim, o dia internacional da mulher não é para ser comemorado, mas celebrado. Com isso não quero dizer  que não haja nada a comemorar. Há, sim. Porém, estamos falando de outras coisas que, normalmente, esquecemos diante da agressiva comercialização desta data. Celebrar a mulher supõe a memória e a consciência de que estamos aqui por causa de uma história de lutas pela liberdade coletiva, pela cidadania e pela igualdade de gêneros e de condições de dignidade entre os seres humanos, história essa  travada por mulheres no mundo todo. Algumas das principais revoluções do século passado foram precedidas por movimentos  de mulheres por melhores condições de vida e de trabalho, assim como pelo direito ao voto. Foram milhares de mulheres banidas de seus lares e cidades, violentadas e até assassinadas...

Nossa história está cheia delas: das alquimistas e cozinheiras queimadas no movimento religioso político de perseguição às bruxas; das caladas brutalmente porque ousaram pensar, decidir e falar; das que apanharam porque não aceitaram o confinamento ao âmbito doméstico; das que fizeram greve de fome, trabalho ou sexo, para que um novo mundo pudesse ser gestado;  das negras que fugiram da escravidão no Brasil e das que fugiram com seu amor;  das que insistiram produzir conhecimento e fazer ciência; das que foram torturadas nos calabouços da ditadura, porque lutaram por uma vida digna para todos; das que se tornaram chefes de nações e souberam dar a elas  um rumo diferente do jeito patriarcal de governar seus países; das que mostraram que grandes homens do presente e do passado estavam errados ao afirmar que a mulher é ser inferior...

Lembremo-nos de alguns nomes. A libertadora negra e brasileira Teresa de Benguela de Quariterê, que fugiu da opressão e fundou uma comunidade livre na selva;  Teresa de Ávila, doutora em uma igreja de homens na idade média; Marie Curie, prêmio Nobel de física, uma ciência do mundo masculino até então; Chiquinha Gonzaga, que, além de ser grande compositora brasileira, transgrediu as convenções patriarcais e enfrentou os preconceitos de sua época; Olga Benário Prestes, executada pelo regime nazista, nos deixou em sua luta e em seu corpo a memória de todas as exterminadas por um ideal de justiça e liberdade; Simone de Beauvoir, intelectual do século XX que nos deixou a importante obra “o segundo Sexo”, a qual analisa o papel da mulher na sociedade moderna; Domitila Barrios de Chungara, líder do maior movimento feminista da América Latina; As mães da Plaza de Mayo, que se recusaram a esquecer a opressão; Susan La Flesche, primeira indígena dos EUA doutora em medicina que uniu o saber acadêmico com a sabedoria de seus ancestrais; Rose Marie Muraro, física, escritora e editora, trabalhou, falou e escreveu pela emancipação das mulheres... Só para falar de algumas, pois são milhares em nossa história.  Nesse sentido, são várias as nossas conquistas.

Sem essa história de movimentos feministas e de luta das mulheres por vida digna, por políticas públicas e igualdade de condições, nós não estaríamos aqui hoje, não seríamos professoras, artistas, escritoras, filósofas, cientistas, mestras e doutoras; não veríamos cada vez mais jovens mulheres  em profissões que, até um tempo atrás, eram tidas como exclusivas dos homens. Não é por nossas qualidades físicas que aqui estamos. Além das que sofreram para nos deixar uma herança melhor, tivemos que trabalhar muito e superar séculos de discriminação, de silêncio e ocultamento para chegar até aqui. Nosso desafio nos dias de hoje segue sendo conquistar o nosso lugar como seres humanos dignos dos mesmos direitos. De certa forma, isso já vai sendo feito por mulheres – e por homens solidários às mulheres – em vários países, e com muita competência.

Mas não basta ocuparmos o lugar que nos é devido. Queremos um mundo melhor para todos. Hoje, nosso principal desafio é trabalhar pela unidade entre jovens e  mulheres solidárias nas lutas por manter e ampliar tais conquistas; colaborar, por meio da educação e da participação nos movimentos populares e políticos, com a mudança do paradigma patriarcal que nos desumaniza e nos divide em seres inferiores e superiores. Celebrar o dia internacional da mulher é, pois, apostar na efetividade e na continuidade dessa memória para que haja vida digna para toda a raça humana.

*Silvana Suaiden é teóloga, professora da PUC-Campinas e integrante da diretoria da Apropucc

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Respostas a este tópico

Oi Silvana,

vamos sim, celebrar este dia. vamos celebrar nós mesmas.

hoje nestas terras de Iracema, fizemos passeatas,juntamente com varios movimentos, incluindo a casa Chiquinha Gonzaga, Forum de mulheres cearense e outros.

estamos tb. recebendo a filha de Olga Benário , no dia 12.

promovemos para o dia 16 e 17, um curso trazendo a Isabel Feliz ( que foi das CDD) com o tema;

fundamentalismo religioso e violencia contra as mulheres.

Assim vamos na lutas e nas celebrações.

Parabéns pelo texto ( guardei em meu arquivo)

Valeu!!! bjs!

a

Estou certa de que fizeram uma boa, profunda e criativa celebração do dia da mulher. Abração destas terras campineiras p vc, Stella. quando vier por aqui, avise. Silvana

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