Copa, enchentes, tanta coisa...
Publicado em 24-Jun-2010
Rose Nogueira
Rose Nogueira




No meio do noticiário da África do Sul, que mostra Dunga explosivo, jogadores tensos e boas notícias para os latinoamericanos, a TV mostra documentários feitos lá no tempo do apartheid, com policiais circulando pelas ruas com o revólver na cinta e um chicote na mão. É impossível esquecer que ali se travou uma das mais lindas batalhas pelo direito e dignidade do ser humano. “Mas ainda falta muito”, diz o bispo Desmond Tutu, o prêmio Nobel da paz que personifica, junto com Nelson Mandella, uma parte do que Che Guevara chamou de “homem novo”.

O jornalista Mario Augusto Jakobsind chamou atenção para uma coisa importante em seu artigo Futebol e Esquizofrenia (www.diretodaredacao.com/site/noticias): aqui no Brasil, a julgar pelo noticiário - e eu acrescento pelos anúncios de cerveja e refrigerante - estamos travando uma guerra particular com a Argentina, e não disputando uma Copa do Mundo com tantos outros adversários..

É, no mínimo, deselegante, diria um diplomata. É de mau gosto e ofensivo, pode dizer uma jornalista. É claro que torcemos todos pelo Brasil, mas o próprio resultado dos jogos mostra que a integração latinoamericana é um bom caminho para todos. Somos bons, somos parecidos no que fazemos. Jogar futebol, por exemplo. Devemos ser parecidos em outras coisas também.

Esse folclore de disputa entre brasileiros e argentinos já foi longe demais. Enquanto isso, o que sabemos do Uruguai, do Chile, da Bolívia, do Paraguai, do Peru e dos outros? Só mesmo o que o noticiário quer. Por exemplo, da Colômbia só ouvimos falar de narcotraficantes, e não de cidadãos colombianos. Do Paraguai, então... E agora vem essa história sobre a Bolívia, lançada pelo candidato da oposição e que já entrou até no programa humorístico como se o tráfico de drogas de lá para o Brasil fosse a verdade sobre os bolivianos. Mais um povo que fica transparente, que desaparece da imaginação dos brasileiros. Quem perde com isso somos nós.

Devido à nossa distância olímpica perdemos mais ainda. No último jogo amistoso em Buenos Aires, antes de embarcar para a África do Sul, a seleção argentina abriu uma faixa e foi ovacionada. Nela estava escrito: “A Seleção Argentina apóia as Avós da Praça de Mayo para o Prêmio Nobel da Paz”. É isso. Então somos parecidos, mas na verdade somos muito diferentes. Perdemos por não querer conhecer os argentinos e sua história e, principalmente, nos perdemos por não poder conhecer a nossa. Ao dar as costas a eles, damos as costas a nós mesmos.

Não preservamos nossa memória como devíamos nem percebemos direito o presente. No meio da alegria do futebol, quase passou batido que, só nos cinco primeiros meses de 2010, foram criados um milhão e 290 mil empregos com carteira assinada no Brasil. Só em maio foram 300 mil. No ano passado todo foram 900 mil. Tremendo gol.

O melhor de tudo é que houve uma boa oferta de empregos no Nordeste. O pior é que o imponderável aconteceu. Em três dias, choveu o equivalente a mais de um mês em Alagoas e Pernambuco. Cidades quase inteiras foram destruídas, pontes ruíram, estradas sumiram. Mais de 40 mortos, mais de 600 desaparecidos. Milhares estão sem casa, sem família, sem pertences. Desesperado, seminu, o alagoano desabafa na TV, diante do país: “aqui ou a gente morre de sede ou morre afogada”.

O governo agiu depressa, a ajuda em dinheiro para a reconstrução será desburocratizada e quem tiver pode retirar o Fundo de Garantia. Isso ajuda? Talvez um pouco. Mas a vida já ficou de pernas pro ar e a única saída é reconstruir, neste momento, e salvar a população. As férias escolares foram antecipadas por duas razões: ou as escolas foram destruídas ou as que ficaram em pé servirão de abrigo. Mas, ao contrário de Angra dos Reis, no começo do ano, quando morreram mais de 70 pessoas com os desmoronamentos causados pela chuva, desta vez apareceram os helicópteros da aeronáutica e os batalhões de busca e salvamento do exército. Montaram hospitais de campanha, com atendimento rápido e prevenção das doenças que aparecem depois das enchentes. Pelo menos isso. Faz parte do trabalho deles.

Ainda trágico, mas um pouco diferente das enchentes na zona leste de São Paulo, no verão, que duraram dois meses e só então o governo estadual ofereceu uma ajuda de 300 reais por seis meses. Para onde foram os moradores do Pantanal, do Jardim Romano, onde foi parar aquela vizinhança? Não, não era ocupação irregular. Muitos continuam lá correndo risco, muitos voltaram para suas cidades, todos no começar de novo depois de cada tragédia. Os jornais já trouxeram o projeto de um parque municipal ali. E daqui a pouco tudo se apaga na lembrança de quem não viveu o horror de perder tudo e ficar só com a própria vida pra defender. Estamos acostumados. Uma notícia se sobrepõe à outra, vamos escondendo a dor debaixo do tapete, faz de conta que um caso é um caso e outro caso é outro caso, como diz a mocinha do telemarketing. Não entendemos, como os jogadores argentinos, que a história é um processo. Sabemos lidar melhor com eventos, como se os fatos não fossem elos formando uma corrente.

Enquanto isso o menino Douglas, de 14 anos, que vive pelas ruas da zona Oeste e não entrou no crack, sonha com uma camiseta amarela para usar no jogo do Brasil e quer saber onde se preparar para as Olimpíadas. Pronto. Deu a fórmula.

Rose Nogueira é jornalista e membro do grupo Tortura Nunca Mais.

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Respostas a este tópico

Webster, esta foi a melhor leitura que fiz hoje. Obrigada pelo post. sds
Também gostei do texto Stella, mostrando nossa realidade com conteúdo.
Abs
Mais um belo texto de Rose Nogueira, amiga e companheira de tantas lutas.Enxergar claro é isso aí, estamos precisando sempre de textos assim. Onde foi publicado Webster?
Concordo com você Elizabeth. Recebi esse texto por e-mail, porém a Rose Nogueira escreve na seção "Sociedade e Direitos Humanos" juntamente com Leonardo Boff no Blog do José Dirceu www.zedirceu.com.br
Abs

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