“... pensamento radical: identificar as raízes para

melhor apreciar o crescimento que elas permitem.”

(Michel Maffesoli)

 

Vivo na santa paz, mas dificilmente fujo a uma provocação, desta feita vinda com artigo sobre verdades, mentiras e democracia[1].

O artigo é interessante, entretanto, demasiado faccioso, ao menos não se expõe claramente de modo a abranger a grandeza da mazela.

Escapa-lhe estender a crítica, e por isso, apresenta-se, apenas, parcialmente procedente, para além do prisma dos fascismos explícitos do século XX, de direita ou de esquerda.

O fascismo, entretanto, não acabou com a II Grande Guerra, nem com o fim da Guerra Fria, como não começou com Lênin, ou Mussolini, ou Hitler.

Este regime existe desde a antiguidade, e continua até nossos dias, cruzando oceanos, hemisférios, culturas, sendo raras as exceções, na história da humanidade, desde o neolítico, em que se não o vislumbre.

Rigorosissimamente, o artigo é faccioso, no mínimo, por não fazer a devida ressalva generalizante, antes de hiperfocar na desgraça empreendida pelo Partido Corso[2] e seus “líderes”, no essencial, tão entreguistas, tão traidores da idéia de pátria, quanto seus antecessores, que, desde os anos 70, sequer, simulam um projeto de país.

Tome-se a “racialização” de nossa sociedade, uma das estocadas sob a égide do divide et impera, “plantada” pelos inimigos externos e eugenistas, desde os anos oitenta, cuja primeira resposta, diga-se, justa, veio com a Lei Afonso Arinos, prosseguindo até o célebre “onde você esconde teu racismo?”[3].

Agora, bem, agora o estratagema de cisão impregnada de ódio embala-nos à beira de um esfacelamento territorial (veja-se questão da independência dos “povos” indígenas, depois, veremos os quilombolas, etc., como já vemos, noutros termos, os opcionistas sexuais, a mulher etc...!).

Note-se quanta arbitrariedade divisionista, em extremo de estrategismo, conflitando princípios. Ora de equivalência generalizada, de viés matemático, pelo qual todos são “iguais”, beirando a eliminação do direito natural a preferência, a gosto, a estética; ora de identificação excludente de índole separatista, radicalmente anti-multicultural.

Preciso acordar, até mesmo a canalha[4] tupiniquim, para o fato do (des)Brasil não ser invenção de década, é projeto colonial desde a dominação lusitana destas terras, passando pelo neocolonialismo de nosso fantasioso Império, e a falsa República, até o pós-neocolonialismo especialmente marcado pelo financismo, pela hiper-super-megaconcentração da riqueza nas mãos de uma minoria minoritária mínima, e pela globalização com sua desnacionalização fragmentária, e a invenção da democracia totalitária da soberania empresarial (João Bernardo).

O Brasil tem, sim, um Estado e uma mídia a serviço de interesses publicamente inconfessáveis, e como cumpre aos Estados de modo geral, a uma, cultivando idiotas (veja-se a (des)educação, as (ir)religiões, Stº D’us! – com efeito, nada a ver com a verdadeira modernidade, do esclarecimento, da autodeterminação da pessoa humana, sequer com a modernidade traidora, p.ex. o embusteiro e fascistérrimo idealismo alemão tão venerado pela elite culta), e, a duas, explorando as idiotias cultivadas, conforme a utilidade de momento; cidadãos-servos (Juan Ramón Capella) reduzidos, em arremate dessa idiotia, a coisas componentes da chamada “massa de manobra”, correligionários, força de trabalho, colaboradores, etc...

Compreendamos, entretanto, afinal, é preciso ter coração mesmo acima das paixões, dos arrebatamentos, mas também com eles. Ora, lembremos, os infelizes são reduzidos a servos, mas ainda são biologicamente humanos, demasiado humanos, “necessitam” crer em algo, sob pena de sucumbirem à angústia existencial, dissipando-se no desespero, coisa suportada apenas por espíritos livres, e isto não é coisa para qualquer um, ah não é, mesmo!

Porém, para se produzir idiotas sociais, e esses idiotas são produzidos e daí há –de se absolve-los, sim, é preciso uma canalha idiotizante, tal qual impõe-se reconhecer que este quadro somente é possível numa estrutura de poder feita de relações do tipo senhor/escravo, muito ao gosto dos padecentes de incontinência de libido dominandi et possidendi (pulsão incontrolável por domínio e por posses, inda que por via da libido sciendi - pulsão por ciência em sentido amplo), e dos espíritos servis.

Essa mentalidade, funda teologismos para ordenar a estrutura de poder Estado-sociedade, seja nos totalitarismos explícitos, duros, seja nos suaves, sutis, por exemplo, o neoliberal, em que a lavagem cerebral produtora do “pensamento único”, o adestramento totalizante das almas se faça por argumentos irrefutáveis aos incautos, aos desinformados, mais, aos não esclarecidos, aos sem educação, ou com educação industrial, operacional, tópica, o que equivale a não ter educação, mas mero treinamento tão ao gosto das obtusas teorias comportamentalistas, adestramento quase circense, pois, ao final das contas, se trata do circo dos teologismos a serviço do pragmatismo, do utilitarismo e do economicismo, modus in rebus[5], mesmo nos chamados regimes comunistas.

Como sói aos liberais, tal qual ilustração inequívoca na referência a Rawls, cujo excerto[6] descreve uma sociedade totalitária, homóloga e homogenia, portanto adversa a alteridades, a pluralismo, a multiculturalismo, pois a sociedade “bem-ordenada”, como indicado, é excludente das diferenças ao pressupor que “todos” aceitam os “mesmos princípios de justiça”, praticados pelas “instituições básicas”, “justiça” a estar de acordo com “essa” sociedade identificada com estes e aqueles específicos princípios. O sonho doirado dos totalitarismos, com seus teologismos, reducionismos, exclusões, isso é o liberalismo anti-libertário, sempre pronto a restringir a liberdade, ordinariamente de uma maioria em benefício de uma minoria.

Daí, para pensar a espetacularização marqueteira nossa de todo dia[7], seria preciso lembrar do ufanismo do Brasil Grande, da ditadura capital-militar, ou dos governos Collor, FHC e suas campanhas e políticas econômicas pseudo-tecnocientíficas, de pretensão messiânica, a engabelar as massas; também, lembrar do, ainda mais desgraçado para todos nós, “peso” de alto grau potencialmente fraudador, tido na urna eletrônica, apenas em nossas paragens, para se concluir que o PT é apenas uma marca a mais na variação de um mesmo tema?

Do mesmo modo, podemos e devemos, por honestidade intelectual, abrir a teleobjetiva, e olhar para o norte, para o ufanismo eugenista ianque, de seus inimigos viscerais, fantasmagoria de sua paranoia manipuladora[8], de seu povo (massa) idiotizado à enésima potência, essa sempre mobilizada massa de manobra do berço do capitalismo liberal e dos direitos civis, nem por isso, ao final, menos estatista e menos fascista.

Ora, uma das mais importantes obras de propaganda como instrumento de controle e manipulação dos corações e mentes, ipso facto, dos corpos, reduzidos a servil docilidade e obediência, foi escrita por um americano, no primeiro quartel do século XX (Propaganda, de Edward Bernays) e foi certamente inspiradora de Goebbles, como de tantos outros, vendendo seja sabonetes, seja guerras.

Aliás, como a nossa Justiça, massificada, produtivista, automatista, reificadora, funcionalizadora, “vendendo-se” eficiente e técnica – uau! – enfim, desumanizada e temerária, pois é capaz de dar o cadastro de todos os eleitores a entidade privada, operação supostamente abortada por grita geral, e de facilitar eventual governo global, através de identificação biométrica, esta, em curso de realização – haja ingenuidade político-estratégica entre tantos pós-docs! – sem falar de seu favorecimento às corporações entre as quais o próprio Estado, esta corporação contra o cidadão[9].

Verdade, seria tolo, demasiado idiótico, ignorar que a política mal convive com a verdade, tal qual o amor em cujas mentiras é desfrutado, afinal, por princípio, tudo é luta de poder, como tudo mais na existência humana ou não, animada ou “inanimada”[10].

A política como aspecto da luta de poder (fique claro, não, necessariamente, pelo poder!), como a guerra, sua extensão, insere-se no âmbito da estratégia, oriunda do grego strategós, correspondente ao nosso general, à diferença de que lá prestava contas, sob penas, aos cidadãos, enfim, aquele que sozinho ou em assembleia deliberava sobre o modo de ação em combate com um inimigo, o que compreende, para começar, a manter este em engano.

Escamotear a verdade, portanto, é fundamental princípio da arte da guerra. Claro está que, em matéria de política “interna”, a intensificação desse princípio é diretamente proporcional ao grau de fragmentação do tecido social, o que por sua vez é correlato aos modos de realização das relações intersubjetivas, mais ou menos afinadas ao estereótipo do senhor/escravo, projetando-se a discursividade no abismo da dialética erística, isto é, vencer por meios lícitos ou ilícitos, per fas, per nefas, divina ou profanamente.

Até aí, mapeia-se uma simples realidade, ganhando relevância em face da velha e “chimpanzeista” desmedida criminosa (a hýbris grega), manifesta na instrumentalização do Estado por segmentos da sociedade incompatíveis entre si e a serviço de Senhores indizíveis, estrangeiros, locais, ou apátridas[11], ocupando posições estratégicas nesta megaestrutura de poder, conforme os interesses os móveis que os marcam, assim, apropriando-se do Estado para imprimir seus próprios, específicos, idióticos desígnios, através dos quais se realizam estes segmentos, em maior ou menor prejuízo da sociedade como um todo.

A polarização destas lutas é uma tendência, como a gravidade faz o corpo de maior massa atrair o de menor, situado em suas imediações, todavia, contra a qual podemos sempre dizer não, estabelecendo contrastes antagônicos constitutivos de maniqueísmo, e não de bipolaridade, verdadeira estupidez transposta,  remotamente, da geometria e, proximamente, da tecnociência médica e dessanizadora de composições das forças encontradas na natureza.

O Brasil não é bipolar, como também não no é qualquer regime bi-partido, tem-se apenas a miserabilização do voto de adesão[12] ao menos ruim, ou menos pior, do “ah ‘este’ vai ser o ganhador, então...”, adesismo ao mais forte, ao mais famoso, ao mais bonitinho, como se a vida fosse mesmo medida por um vencer ou perder, a que nos arrasta crer e praticar o competitivismo darwinista cretinizante, desse sistemão produtivista/consumista/rentabilista.

E tudo isto se passa conforme estética midiática, ou “preferência residual” das supostas minorias pré-derrotadas, no mínimo, por influência desinformadora, segundo não menos manipuladoras pesquisas destinadas a corroborar resultados eletrônicos das urnas[13], mesmo quando erram – o erro daria ares de verossimilhança à fraude!

Esquecem-se, como de hábito, infelizmente, que errar igual não atesta inteligência, logo, também, não reflete escolha, eleição, sentido último de inteligência, que agindo assim renunciam à condição de libertos, e como servos  expulsam-se para fora da dimensão em que se dá dignificação da pessoa humana.

A democracia no Brasil, de certo, lastimavelmente, está longe de ser mais que Itabira foi para Drummond, quadro na parede, à diferença de que, para ele, fora lembrança, enquanto democracia, para nós, é mera palavra a coalhar o imaginário, diapasão da cantilena que, como flauta mágica, encanta os miúdos a voluntariamente cumprir sua servidão moderna, reconduzindo-se à senzala, no mesmo pau de arara da hora, que os conduzira à faina – cenoura de burro!

Saudações libertárias e enlutadas.



[2] O PT, originariamente muito se aproximaria do Partido Pirata de hoje, entretanto, para chegar ao poder fez acordo com o Grande Capital, que lhe franqueou parte do poder, pois os princípios neoliberais haviam de persistir, como persistiram, assim agindo como os corsários o eram por ter carta da rainha a pilhar mares a fora, a ele o partido traidor se equipara, donde chama-lo de Partido Corso.

[3] Fala, diga-se, canalha veiculada em propaganda oficial a serviço de incutir a imagem de um sentimento, que, numa sociedade midiática, não precisa existir para se ter como existente, inserindo-se no imaginário da população. Estratégia, aliás, favorecidamente por se tratar de sociedade em que não se é estimulado, pelo contrário, ao autoconhecimento, à observação de si, para distinguir um sentimento de outro, ou seja, p.ex., um ódio por diferença de crença, de sexo, de densidade melanínica congênita, de mera preferência pessoal. Esta é uma das facetas da histeria e do narcisismo sociais, quiçá, de todos os tempos.

[4] Canalha no sentido de praticante de velhacarias, tendo que velhaco é o que usa de ardis, ardil é meio de fraude, e fraude é a subversão dos fins próprios, assim, porquanto o estrategismo voltado contra os próximos é subversão dos fins próprios, ao menos, segundo as leis vigentes e os superiores princípios civilizatórios.

[5] De poema de Horácio, “Est modus in rebus, sunt certi denique fines“” — literalmente, “há uma justa medida (“modus”) em todas as coisas (“rebus”); existem, afinal, certos limites” (Livro I, Sátira 1)

[6] “Para ele a sociedade bem-ordenada, “é uma sociedade na qual todos aceitam e sabem que os outros aceitam os mesmos princípios de justiça, e as instituições sociais básicas atendem e se sabe que atendem a esses princípios. A justiça como eqüidade está estruturada para estar de acordo com essa idéia de sociedade”.”

[7] Vale considerar que a progressão da eficácia da publicidade, sempre política, sobre o imaginário é desdobramento potencializado e generalizado da exploração desse mesmo imaginário, que, diga-se, envolve mente, corações e corpos, para muito além da criação dos mitos de origem (José Murilo de Carvalho, A Formação das Almas: o imaginário da República do Brasil)

[8] Veja-se, entre tantos outros episódios, o sacrifício de Pearl Harbor para entrar na guerra, o genocídio do WTC para subverter as garantias civis e “justificar” a empreitada bélico-petrolífera e geopolítica do Afeganistão, depois do Iraque, entre tantas outras fraudes dos idiotizadores “kratomaníacos”, em manifestos de seu furor por dominação.

[9] Basta pensar nos valores indenizatórios impostos ao grande capital, e nos juros devidos pelo Estado.

[10] Falar em inanimado reflete herança de distorções, pois anima, traz originariamente o sentido de sopro de vida, portanto, de movimento, o animado é movimento, e como tudo é matéria e energia, e de partícula e onda, vibração, Nada Brahma, tudo é vibração, som, música, logo sem sentido falar-se em inanimados, mas, vá lá, em homenagem aos narcisismos antropocêntricos.

[11] Visa-se aos chamados Estados de primeiro mundo, manietados sob o manejo dos interesses corporativos, especialmente, privados (do complexo industrial-militar, da indústria petrolífera, dos financistas, do narcotráfico, da indústria médico-hospitalar-farmacêutica, e, também, dos próprios estamentos estatais e paraestatais, entre outros, que vivem de tantos misticismos).

[12] Sem falar que engordar falsamente o cacife político do eleito, que leva votos indevidos a si, propriamente.

[13] Quem apura sua verdade, do voto?! Não é seu titular, o povo! Este direito fundamental da cidadania foi apropriado, através de dispositivo franqueado pela técnica, às minorias parassacerdotais investidas na judicatura, a mesma da entrega de cadastros, e de identificação biométrica compulsória, e etc...

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Respostas a este tópico

Humberto,

Magnífica sua análise da condição humana referida ao nosso país.

Me permita compilar algumas passagens para minha anotação pessoal.

Sabemos realmente que Democracia é um sonho e se aproxima muito do "Candido, o otimista" mas temos a Democracia possível hoje no Brasil e não podemos perde-la para os já conhecidos preceitos da direita. Sei que aqueles que se chamavam de esquerda tomaram no decorrer da história muitas vezes posturas de direita, vide Stalin et altri... Mas uma coisa é certa, vivemos hoje um estado democrático no Brasil e temo muito perder esta benesse para os descerebrados e desmemoriados da pior burguesia que se tem notícia (já dito por Darcy Ribeiro).

Aliás me permita colocar que minha última e derradeira certeza foi -se, lambuzada pela lama da ciência.

Lembra da máxima " Todos os homens são iguais, se não na vida pelo menos serão na morte"? Pois é. hoje acredito que logo mais talvez não na minha geração mas na dos meus netos, quando morrerem alguns acreditarão estar indo para o céu ou para o inferno ao para o nirvana (seja lá qual for a sua religião) , mas outros irão para um novo corpo, sem rugas e dores da velhice e abdicarão do céu ou inferno, preferindo ficar aqui mesmo na terra. Haja riqueza para participar desta opção!!

Nena Noschese, gostara de satisfazer-me com essa democracia nominal, meramente nominal pois os pontos estratégicos que a vulnerabilizam senão inviabilizam persistem aí de vento em popa, isto é, urna eletrônica, concentração da riqueza, nenhum projeto sério de educação dignificatória, saúde, infra-estrutura, mobilidade, sem horizonte, segurança policialesca e truculenta, instituições públicas divorciadas da sociedade, etc. etc. etc. lembrando que os capilés distribuídos com bolsas isso e aquilo não são acompanhados das medidas capazes de inibir sua inocuidade, senão a impedir morrer de fome e destimular o trabalho. Saudações libertárias e utópicas.

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