O princípio ético do respeito à vida constitui fundamento básico da civilização, não havendo por que colocá-lo em julgamento. Cabe, entretanto, em nome da racionalidade e da coerência ter em conta que um conceito absoluto de vida não se mostra aplicável à realidade terrena.
Todos sabem que, diariamente, uma infinidade de vidas de outras espécies animais é sacrificada para atender as necessidades humanas de alimentação e vestuário, ou ainda para preservar os seres humanos e outros animais das agressões de outros animais. Já imaginaram o que séria de nossas vidas se diariamente não estivéssemos destruindo outros seres vivos, como os insetos transmissores de doenças, as bactérias daninhas e os vírus? Também se sabe que diariamente nas ações de combate ao crime e nas guerras muitas pessoas são mortas, muitas delas inocentes. Por certo, que essas ocorrências não devem servir de pretexto para violação desse preceito geral, mas apenas para mostrar seu caráter relativo e a necessidade de seu disciplinamento.
Como regra geral, não há por que não continuar defendendo veemente o respeito à vida. Há circunstâncias, porém em que adoção rígida do princípio, pode ir na contramão da própria idéia de preservação da vida. Daí, por conseguinte, as sociedades procuram legislar sob essa matéria, estabelecendo o que é válido e o que não é, quando se trata de preservação da vida.
Na questão do aborto deliberado a regra geral deveria ser no sentido de desestimulá-lo, seja através de medidas preventivas como a educação e o estímulo ao uso de preservativos nas relações sexuais, seja através da criação de condições de apoio material, psicológico e de capacitação para o trabalho, que ajudem às mães a trazer ao mundo seus filhos e a assegurarem seu crescimento saudável.
É preciso aceitar, no entanto, que só excepcionalmente uma mulher vai optar pela realização de aborto deliberado e, por essa mesma razão, não faz sentido criminalizar o aborto de modo indiscriminado. Em duas situações, nossa legislação já considera o aborto legal: gravidez provocada por estupro e quando a vida da mãe estiver ameaçada pela gravidez. Caberia examinar outras possibilidades que poderiam justificá-lo, por exemplo, a situação em que o feto padece de grave enfermidade ou deficiência, ou a falta de condições psicológicas e materiais da futura mãe para cuidar do filho.
Nossa sociedade está diante de um quadro em que diariamente morrem muitas mulheres, pela prática de aborto em condições de higiene precárias, sem que se possa avançar para a prestação de serviços médicos de boa qualidade àquelas que façam a referida opção, em função de sua realidade de vida, por tratar-se de crime previsto em lei.
As igrejas cristãs aferraram-se dogmaticamente ao principio geral da preservação da vida, pretendendo que seja respeitado em todas as circunstâncias, esquecendo que o próprio conceito de vida que defendem é estabelecido pelos homens em função das circunstâncias que envolvem sua existência pessoal e social. Um conceito amplo de vida refere-se a toda a vida orgânica sobre a terra, abarcando os diferentes seres do mundo vegetal e animal. Nesse sentido deixar morrer um óvulo feminino não fertilizado ou um espermatozóide que não fecundou um óvulo, é uma forma de destruição da vida. Ora, mas seria viável salvar todos os espermatozóides e óvulos humanos em nome da preservação da vida?
Muitas posições assumidas pelas igrejas cristãs são irrealistas e como tais inaceitáveis, como a de só aceitarem o sexo para fins de procriação, condenando as relações anteriores ao matrimônio. Agindo dessa maneira, as igrejas, em vez de favorecerem, contribuem para desestimular, tanto a difusão do uso de medidas preventivas que impedem a gravidez e a necessidade de realização de abortos, quanto à prevenção de enfermidades sexualmente transmissíveis, algumas delas de conseqüências mortais, como a AIDS. Em síntese, adotam uma posição que, além de não condizente com a realidade, é contraditória em relação à preservação da vida, entendida em sentido mais amplo.

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Respostas a este tópico

Lobo.
e veja qual foi a resposta do povo!!!
Será que eles aprenderam a lição?????
Lobo da Estepe: É realmente lamentável. Mas, essa é uma estória recorrente. A direita na luta pelo poder lança de todos os meios possíveis e imagináveis. Um abraço.
Flavio,

Como vivemos em um país de forte componente religioso, sempre procuro lidar com isso respeitando as pessoas se elas estão felizes... contanto que me respeitem também...
A verdade é que quase ninguém vive nos preceitos das religiões, vivem uma tremenda hipocrisia.
Fazem caridade para instituições que mal conhecem, mas não ajudam as pessoas próximas para não se envolver... conveniente, pois não?
Usam camisinha, pílula, recorrem a aborto, traem, enfim, fazem tudo ao contrário do que pregam para os outros.
Sonegam impostos, exploram funcionários, puxam tapete de colegas, fazem de um tudo por dinheiro.
E batem no peito: mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa... e pronto...
Mas têm sempre, os fundamentalistas, o dedo apontado para os "infiéis", os hereges... assim como tem gente mais humana...
Enfim... para alguma coisa serviu estudar em colégio de freiras...rs...
No mais, a CNBB já está cobrando que Dilma cumpra o que prometeu na campanha... pois bem, claro que ela vai cumprir, até porque não é da alçada da Presidenta aprovar lei alguma.
Mas acho que a CNBB devia mesmo é cobrar os padres pedófilos e galinhas que tem de monte por aí...
E os pastores idem... com o acréscimo da exploração financeira dos fiéis, sem pagar impostos e sem prestar contas...
Luiza: Não nos cabe esmorecermos. Menos mal que não perdemos. Um abraço.
E eonardo Boff nos diz:
..." Celebramos alegremente a vitória de Dilma Rousseff. E não deixamos de folgar também pela derrota de José Serra que não mereceu ganhar esta eleição dado o nivel indecente de sua campanha, embora os excessos tenham ocorrido nos dois lados. Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o Papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, sairam desmoralizados. "

e viva a VERDADE!!! que venceu a mentira!!!!
Stella: Viva!!! Um abraço.
Esmorecer? Essa palavra não consta do meu dicionário, Flávio.
Quem é do mar não enjooa...

Abraço
Luiza: Estou contigo e não abro.. Um abraço
Pois então não votem em mim!!!
Pois eu sou pró aborto até umas nove semanas de gravidez.
Em minha opinião o aborto é um direito, e a mulher deve possuir inteiro poder de decisão sobre abortar ou não. O direito final de escolha de prosseguir ou interromper a gravidez acaba sendo da mulher, pois é ela quem carrega o feto.
Também acho que o homem deveria ser escutado nessa questão, afinal crianças se fazem a dois, e são permanentes. A mulher deve pesar com muita atenção e sabedoria a decisão de prosseguir com uma gravidez não desejada pelo pai da criança, pois ela pode ocasionar problemas de relacionamento, mágoas e recriminações permanentes de parte à parte. Por mais que se evite, a criança nascente sempre acaba pagando o pato nesses conflitos.
Caro Sérgio: Você sabe das coisas a partir da observação da vida concreta e não das elocubrações de seitas e religiões. Um abraço.
As mesmas igrejas que se arvoram em defensoras dea vida, omitem-se com relação às guerras ou deixam de denuciá-las como condenam a descriminalização do aborto. Além disto, toleram a pena de morte, e promovem uma ética restrita ao moralismo pessoal e familiar, calando-se em face das injustiças sociais. Com as cada vez mais raras e honrosas exceções.
Paulo: As igrejas continuam sendo instrumentos do poder de minorias. Nada mais ilustrativo disto que o reinado do atual Papa, uma verdadeiro manipulador da boa fé dos católicos em nome da fortalecimento de instituição feudal e autoritária. Nunca vi tanto se usar o "nome de Deus em vão".
Um abraço.

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