Entre os Muros da Escola ou a continuação do Colonialismo via a Educação.

Fui incitado a assistir o premiado filme Francês “Entre les Murs”, após ler algumas críticas pensei que ia ver um retrato da escola republicana francesa baseada nos ideais republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade, em vez disto vi um retrato da “intolerância gentil” à diferença cultural, típica da sociedade francesa.
Vários críticos de cinema, talvez por não conhecerem bem a política e a cultura francesa, vêem como um mero ato de indisciplina a resistência dos alunos tirar seus bonés na sala de aula. A ninguém estranhou que no processo de expulsão de um dos alunos no interrogatório final simplesmente se ignorou o que a mãe de um aluno falava, porque a mesma não estar falando em francês. Ninguém se escandalizou por um professor dizer em plena sala de aula que duas de suas alunas se comportavam como “pétasses”. Para culminar, a fala final de uma aluna, que disse não querer fazer um curso técnico passou em sua essência despercebida a todos. Vou tentar explicar o porquê da minha indignação perante todos estes fatos do filme e omissão dos críticos.
Primeiro o ato dos alunos ficarem de boné dentro da aula não é um ato de indisciplina, como se pode presenciar numa escola brasileira, é sim um ato de resistência cultural a sociedade francesa. Quando um aluno entra numa escola de cabeça coberta ele está assumindo uma luta das meninas muçulmanas que foram impedidas POR LEI de utilizarem o véu dentro da sala de aula, um simples véu, não um xador ou uma burka, simplesmente um véu.
Quanto à total desconsideração à fala da mãe do aluno é porque esta, originária de uma ex-colônia francesa que foram exploradas por séculos pela França se negou a apreender a língua francesa. Ela deveria estar na França provavelmente porque seu marido fora aliciado pela indústria francesa para trabalhar a baixo custo quando estas precisavam. Atualmente quando a economia está em baixa estes trabalhadores, suas esposas e seus filhos viraram um problema social.
Quanto o uso da expressão “pétasse” uma gíria francesa que poderíamos traduzir como vagabunda ou prostituta (para não ser rude e dar a tradução correta). Faz-se todo um jogo de palavras para dizer que o professor não disse o que disse. Há toda uma discussão semântica no filme procurando provar o não domínio da língua francesa pelos aluno esquecendo que “pétasse” é gíria e sendo assim é uma expressão perfeitamente dominada por eles. Em resumo, no filme, o professor ofende claramente duas alunas, provoca um tumulto em aula, cria-se uma confusão e um aluno que participa desta sai de aula. Resultado disto tudo: o aluno vai a julgamento, a mãe do aluno não consegue falar, o professor que ofende tem direito a permanecer na reunião intimidando o aluno, vota-se a expulsão sem a presença do aluno e sua mãe, e o aluno é expulso. Quanto ao professor, é obvio, não há nem uma reprimenda.
Por fim vem o mais cruel de tudo, a aluna que interpela o professor no fim dizendo que ela não queria fazer curso técnico! Para quem conhece o sistema educacional Francês fica subentendido na fala da aluna, que há uma clara referência que com o ensino a ela dado será impossível sonhar com ingresso numa boa Universidade ou muito mais numa Grande Escola Francesa (Escola na França é a mesma coisa que no Brasil!), em resumo para descendentes de imigrantes em geral sobra uma formação técnica de segunda linha para continuar a ser explorada pela sociedade racista francesa.
Em resumo, atrás da imagem gentil e educada de um bom professor francês, há um monte de preconceitos, podemos adaptar em parte a realidade do filme a nossa realidade, mas com uma leitura nada favorável aos mestres.

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Respostas a este tópico

Carlos, um dos aspectos mais importantes das contribuições que você costumava dar nos primeiros tópicos de Educação era exatamente esse: o de nos dar episódios concretos e reveladores, em cima dos quais podemos pensar. Que tal recomeçar a nos "fornecer realidade", para pensarmos todos juntos em cima?
Saudações a todos os participantes do debate.
Faz tempo que não apareço por aqui. Contudo, na medida do possível, tenho acompanhado as discussões.
Considero que aspectos apontados aqui sobre o sistema escolar francês já foram objeto de estudos e grandes debates. Pierre Bourdieu demonstrou que os alunos não se apresentam em igualdade de condições no sistema escolar. O porte de bagagem cultural e social acaba determinando o sucesso ou o fracasso na educação escolar e, no limite, o acesso à riqueza socialmente produzida. Logo, a escola não é neutra. Não é puramente o talento individual que determina o bom desempenho nos exames (verdadeiros filtros sociais). A origem social possui um peso gigantesco nesse processo.
São pesquisas que foram realizadas na década de 1960. As teses, no entanto, mantém-se firmes para explicar o que acontece hoje. A situação contudo, talvez seja mais dramática na medida em que fatores como etnia (estou me referindo ao sistema francês) tenham ficado mais agudos.
Quanto ao Brasil, o referencial conceitual é adequado. Toda essa discussão sobre qualidade da escola pública, fracasso escolar, acesso ao ensino superior etc. pode ser analisada à luz do referencial de Bourdieu.
Todavia, lamentavelmente, poucos alunos dos cursos de licenciatura (aqueles que formam os professores da educação básica) leem Pierre Bourdieu. Há, infelizmente, questões ideológicas nisso.
O que se tem, por outro lado, é o que vou chamar de "impossibilidade da escola". Esse, penso, é um dos aspectos importantes dessa instituição hoje. Como ela pode se impor aos alunos? As marcações de autoridade que lhe eram própria estão desgastadas. Ao mesmo tempo, ela não consegue atrair o aluno na medida que o que se fala na escola não tem sentido para ele. Aliás tem sentido para alguém? E mais, algum dia teve sentido?
Agora, como sempre digo, o problema é que, para os que participam de debates como este, a escola tem sentido - por mais que dissermos que não tem. Afinal, nossa posição social muito depende do que fomos e do que fizemos na escola. Muitos aqui foram primeiros alunos, receberam medalhas, certificados de honra ao mérito pelo rendimento escolar, etc. Enfim, fomos bons alunos.
Nós negamos a escola. Mas ela deu certo para nós.
O problema é que ela não dá certo para muita, mas muita gente. E esses não costumam entrar em fóruns nos quais as pessoas discutem porque a escola não tem sentido.
Além disso, não podemos nos esquecer que, para um menino ou menina das camadas empobrecidas da população, o sucesso escolar pode ser extremamente doloroso. Significa, no limite, negar sua origem social. Para tanto, ele precisa enfrentar, além das barreiras que o sistema escolar coloca, a resistência, da ordem da subjetividade, de passar de um grupo social para outro.
Não é fácil. É tarefa hercúlea. E as escola na maior parte das vezes não ajuda. Mais comumente, atrapalha.
Ô Paulo, quando vc diz: "E as escola na maior parte das vezes não ajuda. Mais comumente, atrapalha." quem faz parte dessa "sua" escola? É muito tranquilo despejar a culpa toda nessa entidade abstrata: escola...
Agora enquanto a Universidade e os teóricos aqui desfilam a sua erudição, nós, professores temos que aguentar o mau-cheiro da podridão dessa "escola" que não serve prá nada..Muito se tem falado dela, mas..."O que importa é transformá-la".
Mas Carlos, nao estou te entendendo. Todos nós aqui estamos querendo exatamente pensar em como transformá-la (mas para isso precisamos primeiro "diagnosticar" os problemas); é isso que o Paulo está fazendo tb. Teorias sao instrumento de pensamento, nao sao "erudição de universitários"...
Sobre a realidade brasileira (pus tb no tópico "Mais sobre a Progressão Continuada):

Pesquisas mostram que alunos têm pânico do recreio e que professores defendem punições mais duras: veja como a violência afeta os colégios
Publicada em 27/04/2009 às 23h14m O Globo

RIO - Hora de desconstruir verdades: o recreio, para muitos estudantes, não é a hora mais esperada do dia, mas a mais temida. Agressões verbais não acabam só com a paciência dos professores, mas com a sua saúde. A reportagem de Josy Fischberg, Lauro Neto e Natália Soares da Megazine desta terça-feira mostra como esses são só alguns exemplos de como a violência praticada dentro dos colégios vem mudando drasticamente a rotina das instituições de ensino e a vida dos que passam por elas.

Veja aqui relatos de pessoas que sofrem bullying na escola
O pânico na hora do intervalo das aulas é um dos dados da pesquisa do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), ainda em fase de desenvolvimento. Quem explica é Flávio Comim, coordenador do Pnud no Brasil e responsável pela Campanha "Brasil Ponto a Ponto":

- A campanha quer estimular um debate sobre o que precisa ser mudado no Brasil. Recebemos opiniões de brasileiros pela internet e, a partir delas, estamos definindo o tema do Relatório de Desenvolvimento Humano. Muitos jovens participaram, cerca de 250 mil, e a violência nas escolas apareceu com intensidade. Há testemunhos que falam do recreio como hora de violência, intimidação e bullying. Eu diria, por alto, que um a cada cinco jovens se preocupa com essa questão.

A violência atinge ainda os professores, claro. As pesquisas sobre o assunto tratam de ocorrências mais graves, mas, segundo Wanderley Quêdo, presidente do Sindicato dos Professores do Rio (Sinpro-Rio), ela não pode se resumir a agressão física.

- A agressão, muitas vezes, é simbólica, com brincadeiras, cinismos, xingamentos, só que ela é difícil de ser caracterizada. O professor vai engolindo, adoecendo. Poderíamos dizer que, para cada agressão física, há cinco verbais - explica ele, que coordena uma campanha pela saúde do professor, em que essa é uma das questões levantadas.

Não é de se espantar que um estudo publicado pela Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI) aponte que 83% dos professores das regiões Sudeste e Sul aprovam medidas mais rigorosas para punir os alunos, em casos de conflitos no ambiente escolar. Colaboradora da pesquisa, Maria Malta Campos, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, diz que o estudo serve de alerta:

(o resto só na edição impressa do Jornal)

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