Estava conversando com a Bia Lopes Ferreira, agora não lembro se ela falava do Eric Nepomuceno ou de Juan Gelman. Ela estava atrás do resto da citação de Nepomuceno de um trecho de um poema do argentino que o brasileiro incluíra no conto Essa mulher (“Essa mulher se parecia à palavra nunca,/ de sua nuca subia um encanto particular/ uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,/ essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.// Atenção atenção eu gritava atenção/ mas ela invadia como o amor, como a noite,/ os últimos sinais que fiz para o outono/ deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.”).

O nome do poema era Gotán (está na coletânea Amor Que Serena, Termina?, Editora Record, 2001). Conhecia pouco da literatura de Nepomuceno, apesar de ter lido dezenas de livros traduzidos por ele. O pouco que conhecia por meio de coletâneas esparsas, havia gostado. Com a Bia é uma boa referência, comprei o que tinha sido recomendado, o Antologia Pessoal (Record, 2009).

Suas narrativas são, geralmente, novelos de desencontros em que os destinos ou resolucões já estão “traçados”. Nepomuceno é um mestre em narrar relações e desencontros amorosos. Tende ao fatalismo. A riqueza da narração está em circularidades e espirais especulativas, que é o modo como tendemos a pensar quando estamos a sós e apenas conosco. No fundo, seus protagonistas sabem que aquela pessoa que espera ou com quem combinou um encontro, afinal não vem. No fim, conformam-se com a frustração de suas expectativas por saberem que eram apenas expectativas, ou seja, “espirais de pensamentos”.

Cito um dos contos – Em Coisas do Mundo. A personagem é um homem que viaja constantemente a trabalho. É o segundo melhor vendedor da empresa e sonha em ser o primeiro. Detesta aeroportos e, principalmente, ter de embarcar muito cedo, que é o que acontece na narrativa.

Encontra Pedro, que também está indo para a mesma cidade. Enquanto espera o embarque, avista uma mulher que crê conhecer. Aborda-a “dizendo coisas criativas e imaginosas, como, ‘Meu Deus, você aqui!’.” Tinham passado duas semanas num hotel, numa praia estrangeira, um ano antes, com ela. Num dia chuvoso, foi embora e nunca mais a viu.

Diz-lhe que está indo para uma cidade de praia a trabalho. Pergunta para onde está indo. A moça diz-lhe que veio ao aeroporto para confirmação de seu voo à noite. Pede-lhe que, já que terá de fazer uma escala, que mude-a para poderem passar uns dias juntos, de novo. Diante da insistência – com direito a até um “por favor” –, responde-lhe: “Vamos ver”.

O conto é um primor de narrativa de um solitário que vive constantemente nos aviões. Lembra um pouco George Clooney em Amor Sem Escalas (Up in the Air, 2009). A “viagem” dele é conhecer tudo sobre aeroportos e voos: sabe o menu das refeições de todas as companhias, melhores lugares nos aviões, constrói estatísticas de pessoas que bebem apenas refrigerantes ou bebidas alcoólicas de acordo com o assento em que se acomodam, a utilidade do uso de óculos escuros de acordo com as circunstâncias, e prefere os voos diurnos e aeroportos afastados da cidade. Um dia, pensa, escreverá um livro sobre isso.

Chega ao hotel, faz o lanche, toma banho e fica só pensando no encontro que terá à noite. Fica imaginando em coisas que acontecerão quando estiverem juntos. Adormece com a televisão ligada e é despertado pelo telefone a tocar. É ela, pensa. Não é. É Sérgio, seu colega de trabalho que estava no mesmo voo e sentara-se bem longe. Ainda bem: não fazia muita questão de ficar conversando com ele. Na chegada saiu sem preguntar ou dizer onde ficaria.

O amigo diz-lhe que estava à sua procura e comunica-lhe que está no lobby de seu hotel. Está feliz porque ganhou dinheiro no cassino. Diz qualquer coisa para não sair. E aí, ele mergulha no sono novamente, “vestido na cama, e no lento mergulho” vê “a moça eo pôr-do-sol numa praia estrangeira”.

Esses parágrafos iniciais almejavam serem breves e não foram. Serviria apenas como uma introdução de um trecho muito bom do conto Bangladesh (por isso, “a morte dos navios” no título). Leia.


Gostaria de ter sonhado com velhos navios.

Há muitos anos conversei com um amigo fotógrafo que percorria o mapa buscando a luz dos homens, e ele me contou.

No litoral mais distante do mundo, em Bangladesh, os navios se matavam na praia. Os navios que haviam percorrido mares, mundos e vidas, buscavam aquele litoral para seu suicídio.

Ficavam ao largo, a proa apontando a areia triste, e então soavam seu apito dilacerado, e giravam seu motor até a última de suas infinitas forças, e disparavam rumo à praia. E os navios avançavam numa velocidade alucinante e entravam terra adentro, um de cada vez, os demais esperando sua hora da morte, e o que vinha entrava terra adentro, seu casco de aço rasgando a areia, buscando embaixo da praia a terra, até parar encalhado a sua última viagem. Um de cada vez.

E então começava a demolição. Como se aquela fosse a verdadeira morte, a que rondou o navio o tempo inteiro. E vinham os homens mínimos, minúsculos diante da grandeza daquele animal gigantesco encalhado na areia, e furavam seu casco para que as águas da maré entrassem e invadissem o seu interior e ele nunca mais voltasse ao mar. Os furos eram como os tiros de misericórdia naquele suicida cansado, digno e generoso, pensei enquanto ouvia a história e olhava os olhos cor de lágrima daquele homem que buscava mundo afora a luz dos homens.  
E então os homens quebravam o navio, cortavam as chapas de aço, transformavam o madeirame em lascas.

As hélices que levavam o navio pelos mares do mundo, são, eram feitas de bronze, e o bronze era, é, derretido para se transformar em jóias que enfeitam as mulheres. O navio morto era dilacerado em pedaços que seguiriam novas vidas.

Eu ouvia a voz que contava essa história, olhava os olhos que viram essa história. Muito tempo depois, entendi: eu também singrei mares, cruzei mundos, até chegar aqui, a este espelho onde não quero, não posso encalhar.

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Respostas a este tópico

conhecia nepomuceno como tradutor, mas fiquei curiosa quando vi este depoimento dele (tá ali embaixo) aí descobri que escrevera justamente sobre o massacre de carajás. tenho a obra. ainda não li. e... está emprestada. o tema é focalizado em tópico do paulo k. mas acho que, tendo tempo, farei o percurso que você atiça com seu tópico.

tá aqui o depoimento dele (espero que vc não fique bravo comigo. se ficar, que não fique muito):

 

É claro que não fico bravo com você, Luzete. Mas compre o Antologia Pessoal, coletânea de contos. É maravilhoso. Abs

vou comprar, sim.

vai entrar na fila... junto com minha ração diária de guimarães rosa...

e brigada, viu, por não se zangar. e se afirma minha mania de encrencar contigo, reafirma sua generosidade.

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