(Nota: o autor deste comentário é integrante da "célula máfia gay da unidade de patrulha da ditadura do politicamente correto". Não avance na leitura se isso for considerado ilegal ou inapropriado no seu grupo de pensamento.)

Algo que recente e continuamente vem perpassando a internet (em continuidade a coisas antigas da TV, jornais e revistas) é uma atribuição de valores negativos (“ditadura”, “censura”, “patrulha”, “chatice”, “mau-humor”) a uma construção subjetiva, o “politicamente correto”, que por sua vez é associado a valores positivos (justiça social, redução de preconceitos, preocupação com coletividade, multiculturalismo.)

Isso é uma contradição por si só, pois os valores positivos colocados como exemplo dependem justamente de um ambiente de liberdade, de disseminação de conhecimento e, por que não, também alto-astral e bem humorado.

Eu tenho pra mim que “politicamente correto” é algo “pra cima”, “legal” (e/ou “cool”...), agregador. Mas possivelmente estou enganado – e muito isolado na minha opinião, posto que quase só vejo críticas, e pouquíssimas defesas, a essas duas palavras colocadas juntas.

O que eu acho que aconteceu...

Penso que tudo o que se fez nos últimos 50 anos contra o racismo, o machismo, a xenofobia, a intolerância religiosa, a homofobia, a crueldade com animais, a destruição do ambiente (e da saúde das pessoas), a censura, o monoculturalismo, o colonialismo, o preconceito classista, o conservadorismo, etc era (e ainda é), na minha definição e talvez somente nela, politicamente correto, mas sem se declarar assim. Seria libertarianismo, afirmação, liberdade, justiça ou o mais moderno “bom combate”.

Mas tudo isso, possivelmente não com má intenção, mas apenas para fazer troça dos “tempos passados”, foi alcunhado de “politicamente correto” por tablóides e vários meios dos anos 1980. Uma redução para agregar todas as mais variadas militâncias, talvez. E a partir daí foi sendo reproduzido, agora sim não com boas intenções, como piada para desmoralizar e desqualificar qualquer atitude “do bem”. E, se eventualmente há uma ou outra atitude “politicamente correta” tola ou contraditória (isto é, por sua vez incorreta), parece haver muito mais, porém, quem só critique para não se sair do lugar.

Penso que há uma definição, em curso e implícita, de politicamente correto que é justamente uma armadilha. É muito comum humoristas conservadores divulgarem essa versão para poderem obter um álibi e expressar seu humor preconceituoso e arrogante sem freios. Daí que temos que prestar atenção a quem faz o discurso e ver a intenção. Um dos meios atuais que mais se debate contra o “politicamente correto” não por acaso é a revista Veja. Em algumas edições (eu leio ou pelo menos folheio a revista para ver o que se passa) há até 3 menções de jornalistas diferentes, isso é certamente mandado assim.

Para mim, ao contrário do que muitos dizem, “politicamente correto” não é doutrinação, não é repressão. É, antes, a busca da verdade, da reflexão, do questionamento, mesmo que isso incomode os antigos detentores da verdade constituída. Não vejo existir uma pessoa, grupo ou ong que se auto-intitule, aos brados, "PC" (até pela desconstrução feita dessa expressão.) Não se vê um site com "index", como alguns dizem haver. O que existe, por outro lado, é um sem-número de reacionários que, incomodados com o fim do pensamento único, que lhes era muito favorável, lutam ativamente para se manterem preconceituosos, ou no mínimo em suas zonas de conforto.

A confusão foi feita, o mal-entendido estabelecido e, nos anos mais recentes, como dito no início, bobagens do passado passaram a ser replicadas na internet também. Para usar agora esses termos em uma conversa torna-se portanto imprescindível defini-los (ou redefini-los.)

Quando eu digo que eu sou “politicamente correto assumido” isso é, claro, uma expressão de humor também, um modo de fazer a tréplica (isto é, o processo de modo simplificado seria: a) ação de muitos por uma sociedade livre, justa e pensante > b) réplica na forma de discurso politicamente incorreto travestido de liberdade de expressão, mas mais propriamente, em geral, trata-se de libertinagem na expressão de preconceitos e idéias prontas > a tréplica em questão, momento atual.)

Provavelmente eu serei muito mal-sucedido na tentativa de ajudar a estabelecer uma re-visão da expressão politicamente correto, não vou receber apoio (quase) nenhum. Não importa, me divirto fazendo isso, mas também me sinto muito bem e participativo. É o meu modo de fazer as coisas, de estar no mundo.

Então, lá vai o trabalhinho de definições...

 “politicamente correto”, a meu ver, é/pode ser...

- o combate diligente a manifestações preconceituosas que fazem com que a sociedade sem se aperceber as absorva e as reproduza no cotidiano. A percepção de que a linguagem é um dos mecanismos para isso;

- a defesa das liberdades e dos direitos individuais e sociais, especialmente quando necessários para compensar desigualdades herdadas;

- a consciência que liberdade de expressão é para idéias socialmente, eticamente e filosoficamente válidas, não para defender retorno a noções e conceitos superados pelas ciências exatas, naturais ou sociais. Principalmente não para conceitos antissociais que busquem perpetuação de injustiças ou da ignorância;

- o exercício do bom humor, mesmo da ironia, da sátira e da crítica, mas atribuindo-se limites de civilidade e respeito para não incorrer nos mesmos erros daquilo que se considera errado;

- a desconstrução da ditadura da maioria, isto é, todo pensamento monolítico, inutilmente restritivo e coercitivo;

- a divulgação e exploração ao máximo das diferenças, variantes e alternativas culturais, religiosas e comportamentais que a riqueza do pluralismo humano pode proporcionar, de modo a que todos possam aprender mais e mais com os outros, sem prejuízo para a liberdade e direitos de indivíduos ou grupos;

- o debate, o conhecimento cumulativo, a divulgação de experiências e de interpretações como bases constituintes da construção da sociedade humana.

 “politicamento correto”, ainda a meu ver, não é/não seria:

- o exercício puro e simples de boas maneiras, pois isto pode facilmente resvalar para a falsidade (o que não seria nada correto). Não obstante, boas maneiras consolidadas pela sociedade podem muito bem ser por si só um resultado de sua evolução. O repúdio à agressividade gratuita, sem benefício para ninguém, por exemplo. A divulgação da “inverdade” (a “trollagem”) é uma maneira inadequada;

- a censura do contraditório. Ao contrário, se algo é tido como politicamente correto por seus detratores muito frequentemente é justamente por ser o contraditório a uma “verdade estabelecida” anterior. A busca da liberdade, da justiça e da evolução depende essencialmente do constante questionamento;

- discursos maniqueístas sobre saúde ou ecologia. Eles são frequentemente reducionistas e mal-fundamentados, muitas vezes usados para disseminar manipulações por medo, portanto não são corretos em nenhuma visão. Mas denúncias sobre desastres ambientais e omissões de empresas e governos são bem corretas sim.

x-x-x-x-x-x-x-x-x 

Mas eu posso (sempre) estar completamente equivocado e estou disposto a aumentar meus conhecimentos a respeito. Este tópico, inclusive, pode ser reescrito e editado. Mas para isso preciso da ajuda de comentaristas e colegas. E discussão parece ser um bom meio. De repente nem tudo que parece “PC” é, nem tudo que parece “PI” é. Eu, por exemplo, acho que cartoons como “American Dad” e “Os Simpsons”, são corretos.

Para isso peço que @s amig@s exponham:

- Qual a definição ou conceito que faz de “politicamente correto”? Quais atitudes ou pensamentos podem ser associados a isso?

- Qual a definição ou conceito que faz de “politicamente incorreto”?

- Por que, na sua opinião, muitas pessoas atribuem valores negativos a “politicamente correto”?

- Exemplos de atitudes, cobranças (“patrulhas”), posicionamentos que você considera simultaneamente “politicamente corretos” e inapropriados.

- Exemplos de pensamentos, piadas, que você considera que seriam “politicamente incorretos” mas que, em nome da liberdade de expressão ou do bom humor mereceriam ser encorajados e divulgados.

Exibições: 2472

Responder esta

Respostas a este tópico

"Não é que eu assumi...rs"

Como não? Gosta de artes, discurso inclusivo, muito educado. Só falta dizer que gosta da Barbra! (Liza também vale) [desculpa a brincadeira, tem um campo da antropologia a respeito, outro dia falamos disso]

@Gilberto

"O Gunter pode vir em nosso auxílio: É meio comum, entre os meus amigos gays que,  "viado" ou até mais comumente "viadinho", seja usado para se referir a homossexuais que correspondem em demasia a um certo estereótipo socialmente criado."

Aveire... Acontece isso. Como também acontece de meus amigos héteros terem mais amigos gays do que eu (ou seja, você pode ter uma amostra maior de exemplos).

Bom, seus amigos podem fazer isso, mas provavelmente entre eles, muito como humor ou desabafo, não imagino gays deixando muito numa boa que amigos héteros os chamem de viado/viadinho. Podem dizer que sim por polidez ou em nome da amizade, mas meu conselho é que héteros não façam isso, não acreditem. É como conceder uma intimidade que na realidade não existe.

O que eu observo, pelos poucos gays de quem sou amigo, é que todos percebem os processos linguísticos, os preconceitos e tá todo mundo “pra lá de cansado” da homofobia ainda resistente (mesmo percebendo que o caminho atual é da superação inexorável isso não leva ao conformismo, mas a uma tentativa de “fechar a fatura” ainda mais rápido.) Se o PT não melhorar o discurso em Sampa não vai sobrar um pra apoiar o Haddad, a não ser que ele termine como a menos pior opção (tipo 2º turno Haddad VS Serra)

Mas pela “literatura” (ou seja, comentários em blogs gays) dá pra saber que tem de tudo. Tem os gays desencucados, levam tudo numa boa. E tem os gays preconceituosos, que reproduzem o discurso sexista. Tem até gays que acham que gays não devem adotar crianças, mas internalização de preconceito pode ocorrer em muitos grupos e situações.

Mas em geral, mesmo que um gay chame outro de viadinho por algum motivo ou outro, sabe o valor dele (interlocutor) como pessoa e não está atribuindo a isso nada negativo (como falta de hombridade.) Também ainda pela minha observação pessoal, é muito raro um gay criticar outro sem haver necessidade absoluta disso por princípios. E enquanto a super-estrutura da sociedade ainda for homofóbica, acho que esse “sprit de corps” (desorganizado e basicamente intuitivo) continuará.

@AnaLú.

Acho que sim, que fresco já ficou muito distante de homossexual. Viado seguirá em algumas décadas os caminhos de fresco e sacana.

Sacana ficou pra maldoso, fresco pra enjoado, viado ficará pra folgado. Mais ou menos isso pra qualquer pessoa de qualquer orientação. Qual palavra ficará para "covarde" ou "frouxo"? 

Triste é saber como nós, gays, incomodávamos tanto que a sociedade achava necessário estigmatizar com tanta coisa negativa.

Mas o tempo passa. 

Rafla para Gunter,

Não fico nem um pouco ofendido não... rs A Lisa, até curti, mas dirigida pelo Bob Fosse...RS

Aliás, foi só para contextualizar aqui no post que situei com "amigo gay". Não divido as amizades utilizando esta diferenciação, ou classificação. 

Minha juventude se deu numa era pré AIDS. As questões de sexualidade eram tratadas de outra forma. Aliás não falamos disto aqui, e é fundamental, vcs. não acham?

@Gilberto

Não vi todo o Cabaret, ainda farei isso. Mas lembro agora, do comecinho dos 1980, de All That Jazz. Filme genial e a cena do balé com vários casais de formações diversas é antológica.

Como era tratada a homossexualidade então? Eu li "Além do Carnaval", excelente ensaio sobre isso. E o único amigo mais velho que eu e que comentou algo me disse que na guerrilha gays não eram aceitos. Os demais homofóbicos que conheci desde que entrei na faculdade (1981) todos se tornaram, pelo menos em público, ex-homofóbicos.

Eu acho que, em geral, aquilo que nos incomoda acaba não pegando porque incomoda a mais gente. Todos estão imbuídos e trabalhando na comunicação, é um processo holístico, sinestésico (nem sei se essas palavras servem pra isso, mas acho que completa a comunicação do que eu quero passar.)

Vai haver coisas que incomodam a uns e não incomodam a outros. PresidentA eu acho tudo de bom. Eu sou um tanto crítico à atuação de Dilma (inclusive por que ela tem deixado de usar o -A rsrs) e gosto de usar -A porque acho que é bom para a melhoria da situação da mulher. Mas tem quem use porque votou nela e não use porque não votou. Tem quem não use porque acha que soa mal, o que pode também dizer que não se acostumou ao som.

Favela mudar para comunidade acho bom, porque marca uma passagem, uma mudança. Isso de condições físicas seria, acho, para "bairro", comunidade é quando as pessoas se organizam em prol de algo comum, como uma reivindicação, uma ação positiva independente do Estado. Favela tem carga pejorativa do passado ("mora na favela"), lembra abandono. Mas tem quem mude o nome sem que nada objetivo tenha mudado, aí pode ficar meio sonso.

Acho que pobres/excluídos/menos favorecidos são quase sinônimos, como ricos/abastados/muito favorecidos (pelo sistema) Deve ter situações em que ênfase ou estilo determinem o uso, mas talvez não determinem. Um discurso num púlpito é diferente em contexto que uma matéria jornalística, é o que me ocorre. Porém acho que “zero favorecidos” são “menos favorecidos” sim, um me parece incluído no outro.

Eu não vejo, ainda, por que não continuar usando simplesmente deficientes + a deficiência (deficiente visual, deficiente auditivo, deficiente físico.) Mas isso quem vai determinar é o conjunto da sociedade, talvez até se pressionado por entidades ou ONGs de interessados.

Acho que uma regra geral pode valer: se não há perda de conteúdo ou de transmissão na comunicação, quem simplesmente emite a comunicação pode dar a preferência de sugerir nomenclatura aos nominados. É no mínimo uma gentileza, faz bem (ou parece que faz, ou pode parecer que faz) ao nominado, não custa nada aos demais.

Sempre exercitemos nos colocar no lugar do outro, vamos tentar entender as intenções. Não vamos negar coisas só porque não estamos acostumados a elas.

E vamos ser realistas e não fazer barulho por nada. O número de vezes em que temos que escrever e/ou falar nomes, palavras ou descrições assim é relativamente baixo. Vamos ser realistas (2) : não somos nós como indivíduos que vamos determinar, podemos lançar balões de ensaio e testes, mas não resistiremos se algo pegar.

x-x-x-x-x-x

Mas a discussão sobre politicamente correto não é só sobre palavras, mas também sobre atitudes, piadas, falácias. 

Também nao... Sobretudo... E AÇOES! 

Gunter,

Acho espetacular a capacidade de síntese de algumas frases das redes sociais.

Uma delas me veio à cabeça com relação ao políticamente correto:

AS 3 PALAVRAS MAIS IMPORTANTES DO MUNDO: POR FAVOR, OBRIGADO E FODA-SE!

Parabéns pelo texto.

Volto.

FODA-SE! quem, Cara Pálida?

Que  medo é esse?

Preconceito, arrogância e ignorância são as bases do policamente incorreto.

Mas, vou traduzir.

Ser policamente correto não significa que tem de dar a outra face para imbecil nenhuim bater, capiche!

Medo da minha parte, nenhum, apena pedi para nomear o quem.

A frase resume para mim a pior incorreção política; aquela de criaturas grudentas, que entram fazendo mesuras, cheios de por favores rastejantes, cheios de obrigados falsos e hipócritas, cheios de intenções dissimuladas, e ao final escapa o compromisso real: FODA-SE! É o resumo da trajetória do oportunista, revela uma alma individualista medíocre dos que a repetem como papagaios. Com o politicamente incorreto, nada de pedir favor, menos ainda se sentir em obrigação, reservo essas atitudes para outro campo; com os de lá, POR FAVOR, OBRIGADO porra nenhuma. Ao Preconceito, arrogância e ignorância, do início ao fim, respondo com ph para mostrar um compromisso antigo: PHODA-SE.

Nisso concordamos, o que não falta é gente grudenta e rastejante que usa de falsa educação, falso brilho e quando se vê questionado parte para a ignorância.

Ah, sim,  me dirigi ao sentido da frase, à opinião em si, ao contrário do que é hábito de alguns de se concentrar na pessoa.

Quanto a se repetir feito papagaio, é só se dar ao trabalho de ler determinadas participações. que se limitam a colar textos e vídeos feito macaquinhos.

E, realmente, para a espécie de atitude retrógrada de uns e outros,  que parecem travar uma guerra sem tréguas e muitas vezes imotivada (claro que apenas atrás de uma telinha) só resta mesmo o PHODA-SE.

Mas já está clara a tática, tratar de boicotar a discussão que importa, o que, aliás, é o que dá margem ao políticamente incorreto, ao bullyng, à covardia para não se posicionar claramente, sem necessidade de agressões gratuitas para auto-afirmação.

Adendando, pior ainda quando se utiliza de terceira pessoa para atingir outra.

E viva a desonestidade intelectual, outro nome para politicamente incorreto.

RSS

Publicidade

© 2022   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço