http://www.catolicasonline.org.br/ExibicaoNoticia.aspx?cod=1351

Carta aberta de Católicas pelo Direito de Decidir à Presidenta Dilma Rousseff sobre a polêmica criada em torno do kit anti-homofobia

 

 

 

  Presidenta Dilma,

 

Estamos estarrecidas! A polêmica criada em torno do kit anti-homofobia e o recuo do governo federal ante as pressões vindas de alguns dos setores mais conservadores e preconceituosos da sociedade nos deixou perplexas. E temerosas do que se anuncia para uma sociedade que convive com os maiores índices de violência e crimes de morte cometidos contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersex (LGBTTI) do mundo. Temos medo de um retorno às trevas, senhora Presidenta, e não sem motivos.

 

A vitoriosa pressão contra o kit anti-homofobia da bancada religiosa, majoritariamente composta por conservadores evangélicos e católicos, em um momento em que denúncias de corrupção atingem o governo, traz de volta ao cenário político a velha prática de se fazer uso de direitos civis como moeda de troca. Trocam-se, mais uma vez, votos preciosos e silêncio conivente pelo apoio ao preconceito homofóbico que retira de quase vinte milhões de brasileiros e brasileiras o direito a uma vida sem violência e sem ódio. A dignidade e a vida de pessoas LGBTTI estão valendo muito pouco nesse mercado escuso da política do toma-lá-dá-cá, senhora Presidenta! E o compromisso com a verdade parece que nada vale também.

 

Presidenta, convenhamos, a senhora sabe que o kit anti-homofobia é um material educativo, que não tem por finalidade induzir jovens a se tornarem homossexuais, até mesmo porque isso é impossível, como tod@s sabemos. Não se induz ninguém a sentir amor ou desejo por outrem.   Mas respeito, sim. E ódio também, senhora Presidenta... ódio é possível ensinar! Poderíamos olhar para trás e ver o ódio que a propaganda nazista induziu contra judeus, ciganos, homossexuais. Porém, infelizmente, não precisamos ir tão atrás no tempo.  Temos terríveis exemplos recentes de agressões covardes e aviltantes a pessoas LGBTTI e o enorme índice de violência contra as mulheres acontecendo aqui mesmo,  em nosso próprio país.

 

Quando a senhora afirma, legitimando os conservadores homofóbicos, que é contra a propaganda da "opção" sexual, faz parecer que alguém pode, de fato, "optar" por sentir esse ou aquele desejo. Amor, desejo, afeto não são opcionais, ninguém escolhe por quem se apaixona, senhora Presidenta! Mas se escolhe ferir, matar, humilhar.

 

Quando a senhora diz que todo material do governo que se refira a "costumes" deve passar por uma consulta a "setores interessados" da sociedade antes de serem publicados ou divulgados, como estampam hoje os jornais, ficamos ainda mais perplexas. De que "costumes" estamos falando, senhora Presidenta? E de que "setores interessados"? Não se trata de "costumes", mas de direitos de cidadania que estão sendo violados recorrentemente em nosso país e em nome de uma moral religiosa conservadora, patriarcal, misógina, racista e homofóbica.  Trata-se de direitos humanos que são negados a milhões de pessoas em nosso país!  

 

E "setores interessados", nesse caso, deveria significar a população LGBTTI e todas as forças democráticas do nosso país que não querem  ter um governo preso a alianças políticas duvidosas, ainda mais com setores "interessados" em retrocessos políticos quanto aos direitos humanos da população brasileira.

 

O país que a senhora governa ratificou resoluções da ONU tomadas em grandes conferências internacionais, em Cairo (1994) e em Beijing (1995), comprometendo-se a trabalhar para que os direitos sexuais e os direitos reprodutivos sejam reconhecidos como direitos humanos. No entanto, até hoje pessoas LGBTTI morrem por não terem seus direitos garantidos. Mulheres morrem pela criminalização do aborto e pela violência de gênero.

 

Comemoramos quando uma mulher foi eleita ao cargo máximo de nosso país. Ainda mais porque, como boa parcela da sociedade, levantamos nossa voz contra o aviltamento do Estado laico, ao termos um uso perverso da religião nas campanhas eleitorais de 2010 para desqualificar uma mulher competente e com compromisso com a dignidade humana. Antes ainda, levantamos nossa voz a favor do III PNDH, seguras de que deveria ser um instrumento de aprofundamento do respeito aos direitos humanos em nosso país. Agora não temos o que comemorar, senhora Presidenta! Parece que o medo está, de novo, vencendo a verdade. E a dignidade.

 

Infelizmente, temos de - mais uma vez! - vir a público exigir que os princípios do Estado laico sejam cumpridos. Como a senhora bem sabe, a laicidade é essencial à democracia e não se dá pela simples imposição da vontade da maioria, pois isso resulta em desrespeito aos direitos humanos das minorias, sejam elas religiosas, étnico-raciais, de gênero ou orientação sexual. Não existe democracia se não forem respeitados os direitos humanos de todas as pessoas.  Impor a crença religiosa de uma parcela da população ao conjunto da sociedade coloca em risco a própria democracia, já que os direitos humanos de diversos segmentos sociais estão sendo violados.  Portanto, senhora Presidenta, não seja conivente! Não permita que alguns setores da sociedade façam do Estado laico um conceito vazio, um ideal abstrato.

 

Como Católicas pelo Direito de Decidir, repudiamos o uso das religiões neste contexto de manipulação política e afirmamos nosso compromisso com a laicidade do Estado, com a dignidade humana e nosso apoio ao uso do kit educativo pelo fim da homofobia nas escolas brasileiras.

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Respostas a este tópico

Que beleza de carta! Mais importante ainda porque parte de um conjunto de pessoas religiosas, mas que respeitam a laicidade do EStado, e nao tentam impingir sua fé sobre os outros.

Gunter,

passamos o sabado passado reunidas ( catolicas pelo direito de decidir aqui no Ceará)

não sei , se já te falei, mas sou integrante deste movimento.

 

 

 

Super legal!

Bjs, Stella

Sei sim, Stella, você contou uma vez. O posicionamento de vocês é o máximo! Bjs.

Gunter e Stella

 

Pois eu não acho.

 

Fui católico até os 16 anos de idade, depois disto (lá se vão mais de 40 anos) vi que não era compatível o que a igreja pregava com o que eu penso, desde aquela época só entro em Igrejas para assistir casamentos (dos outros) e batizados ou missas de sétimo dia, respeito ao máximo a religiosidade dos outros mas não aceito que se metam em minhas convicções. Acho que religião é uma questão de escolha pessoal, e também acho que quando se entra numa religião não se está entrando num Buffet onde se escolhe o que se assume o que não se assume, principalmente numa religião dogmática como a católica.

Segundo os preceitos da religião Católica Apostólica Romana, o Papa é infalível em questões de fé, e se ele diz algo ou se acredita ou se cai fora. Não podemos dentro de uma Igreja Católica, se dissermos Católicos, aceitar umas coisas e não aceitar outras, há uma coisa que se chama um corpo de doutrina, e este ou é respeitado ou não é.

Portanto, acho que católicos não tem o direito de decidir, se querem outra religião que fundem outra. Volto ao parágrafo inicial, se respeito às convicções dos outros o não permitam que se envolvo com as minhas acho que devemos também respeitar, e procurar modificar as convicções e os credos dos outros é tão deplorável quanto no sentido contrário.

Rogério, acho que a posição do grupo em que Stella colabora é que "católicas são pelo direito de decidir INDEPENDENTEMENTE da posição oficial da ICAR"

Duvido (mas ela é quem poderá dizer) que esse grupo acredite que o Papa pode vetar o uso de preservativo.

Seus argumentos são bons, mas eles prevêm o respeito dogmático a posições dogmáticas. Do mesmo modo que há um grupo pela liberdade de expressão no Brasil, promovendo marchas, pessoas que seguem a maioria dos ritos católicos não podem se posicionar pela mudança dentro do grupo a que pertencem?

Religiões são um conjunto mutante de interpretações, não é necessário fundar outra a cada cisma. Os luteranos e anglicanos apenas ordenavam homens, mas em um dado momento passaram a aceitar bispas e gays, ou seja, hoje pode ter bispa lésbica. Isso pode ter se originado em um "Protestantes pelo direito de decidir"...

Fazia parte da doutrina católica o sexo apenas para reprodução. Lembram do lance do lençol com um furo, usado na Idade Média? Esse dogma foi modificado, lá pela metade do séc. XX os papas aceitaram que se fizesse sexo por prazer, desde que usando tabelinha se a intenção fosse não procriar...

Gunter

 

Nem tou aí para que o Papa diga sobre usar ou não preservativo, acho que se devia proibir a manifestação pública de líderes religiosos em questões laicas. Isto que é um estado laico, não esta palhaçada que temos no Brasil onde as religiões têm emissoras de rádio e televisão abertas, eles deviam ser proibidos de manifestar fora de suas igrejas.

Agora ficando bem claro, para que se tenha esta divisão entre estado e religião não devemos apoiar ou não movimentos religiosos que não pertencem a fé individual de cada um, não é correto achar que eles podem falar isto e não podem falar aquilo, dentro da casa deles eles falem o que quiser e façam as suas própria discriminações.

Se eles acham que homens e mulheres separados não podem comungar ou receber outros sacramentos, concordo com gênero e número com a decisão deles para quem se diz da religião deles. Se eles não querem que os seus próprios fiéis não sejam homossexuais, que não sejam, quem não gostar que caia fora.

Só um detalhe técnico, uma informação religiosa, ainda pela Igreja Católica sexo é só para a reprodução, os padres fazem um famoso discurso duplo não explicitando o que estão nos seus dogmas, ainda é claro, sexo pela Igreja Católica Apostólica Romana é para a reprodução. Para modificar isto o papa deverá falar expressamente sobre o assunto e ele não se pronunciou.

 

Eu concordo com você, Rogério, acho que não há nenhum sentido em termos programas religiosos em concessões públicas de TV.

Mas religiões mudam. Nos anos 1970 a Assembleia de Deus proibia seus seguidores de assistir televisão ou ler jornais, e atualmente está buscando obter sua própria TV.

Problema deles deixar ou não seus fiéis assistir TV, não meu.

ô Gunter,

vc. respondeu por mim...

e ser catolicas pela direito de decidir, não é lá comungar com o papa..

mas , peço deculpas aí pro Rogério, num tô muito afim de discutir este assunto..

sei que me sinto muito bem, ser integrante deste grupo, no qual nosso maior objetivo é  a laicidade do Estado ( lembra do nosso posicionamento nas eleições passadas..)

um estado sem  homofobias, com a legalização do aborto e outras  propostas mais...

me sinto bem tb. ser participante da teologia da libertação. e de um grupo recém formado agora..

O movimento pela formação cristã libertadora.Onde nos posicionamos contrários aos ensinamentos doutrinários das faculdades de teologias.

 

Não me sinto uma pessoas alienada religiosa...Faço parte tb das Ceb´s.

Então..é através destes  movimentos que nos inserimos na vida social e politica, mas sempre sabendo e lutando por um EstaDO lAICO DE fATO...

vejo muito mais o contexto Cristão, e não um cristo  divino, mas um Cristo histórico..HUMANO

POR EXEMPLO,NO MST USAMOS UM ESPAÇO PRA MISTICA, MAS ISSO NÃO INVALIDA NOSSA LUTA,

pUXA ACHO QUE ESCREVI DEMAIS... e é porque nem ia responder rsrsrsr

 

 

Bom demais, Stella. Os católicos nao deixam de ser cidadaos por serem católicos. Podem perfeitamente questionar o papa. Se a hierarquia religiosa quiser, que os expulse. Se for expulsar todos os que nao cumprem os mandamentos do papa, ficará com meia dúzia de gatos pingados como fiéis.

Analú,

e olhe que nós protestamos viu...

somos considerados a quinta coluna.. lembra dela?

bjs.

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