Sosa esteve no Brasil em 1976
Uma das coisas mais marcantes durante a minha passagem pela USP foi a apresentação de Mercedes Sosa.

Meses depois que entrei na Faculdade de Arquitetura, a Universidede entrou em greve, e a tônica dominante foi a política. Um tanto compulsoriamente ficamos politizados. Vivíamos em assembleias e em formações de grupos de trabalho. Como um Fla x Flu, as tendências se digladiavam. O domínio, na FAU, era o do grupo de linha trotskista, Liberdade e Luta, e o “inimigo” maior, a Refazendo. Nas festas da Libelu tínhamos rock e tropicalistas, nas da Refazendo, samba e Chico Buarque.

Nesse meu primeiro ano – foi em 1976 – quase no fim dele, aconteceu a apresentação de Mercedes Sosa no Anfiteatro da USP, localizado nas franjas do bosque da Biologia. Governava, nessa época, o general Ernesto Geisel. Seu ministro do Exército, Sylvio Frota, aspirava sucedê-lo e isso representava um retrocesso mais à direita ainda. Seu subordinado no II Exército, Ednardo d’Ávila Mello, depois de o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho terem sido mortos nas dependências do DOI-CODI, foi afastado.Os estudantes, em bom número, temiam o recrudescimento da ditadura, e, engajaram-se na luta pelo restabelecimento da democracia e até, por um governo efetivo de esquerda. O chefe de polícia do governador Paulo Egydio era a representação do demônio repressor na figura de um senhor de cabelo escovinha e olhar satânico. Diante do engajamento cada vez maior dos estudantes, a polícia pôs Brucutus (esses veículos eram chamados assim) nas ruas, lançando jatos de água colorida contra os manifestantes. Culminou com a invasão da PUC em 1977, da polícia, quebrando tudo, jogando bombas de efeito moral. Resultado: três estudantes sofreram graves queimaduras. Essa invasão, segundo o Rui (falo dele abaixo), “foi uma represália à realização, em São Paulo, do encontro preparatório à recriação da UNE, quando a Faculdade de Medicina foi cercada, mas os representantes da organização foram liberados como estudantes da faculdade e estes ficaram para ser presos e viabilizar o Encontro.”

Um colega uspiano, depois de feita uma vaquinha para angariar dinheiro, colocou um anúncio da morte do nobre chefe da polícia, na Folha de S. Paulo. O melhor de tudo: muito contrariado, o “doutor” assistiu ao próprio “enterro” da rampa da Escola de Polícia, na entrada da Cidade Universitária. A convocação ao enterro foi uma atitude bem humorada – e moleque até – contra os descalabros e excessos que estavam ocorrendo.

Sosa é considerada uma das maiores propagadoras da música folclórica latina e tem sua imagem ligada à canção de protesto. No ano em que se apresentou no Brasil, Isabelita Perón, viúva do caudilho argentino, a quem substituíra, foi deposta. Assumiu uma junta militar liderada por Jorge Videla. Em 1979, viu sua apresentação ser interrompida na cidade de La Plata. Deixou o país para voltar apenas em 1982, ano que corresponde à derrocada do regime sob o governo do general Leopoldo Galtieri.

A apresentação aconteceu em uma tarde ensolarada de outubro (ou novembro?, não me lembro). Em decorrência da situação política, o fato de Sosa se apresentar em São Paulo e ainda na USP, se revestia de uma importância especial. Representava um ato contra a ditadura. Numa certa altura, duas pessoas do DCE pediram que cantasse uma música de Violeta Parra. Sosa perguntou se se podia cantar uma música proibida. Responderam que o campus da USP era território livre. Cantou La Carta. Em algumas situações, a catarse funciona. Imagine uma situação dessas no meio de estudantes universitários que viviam ou temiam um retrocesso político.

Meu amigo Rui Moreira Leite estava bem próximo de Mercedes. Quando terminou a apresentação, deu-lhe de presente uma xilogravura de sua autoria com duas imagens relacionadas às eleições em Portugal (após a queda do regime salazarista, em 1974, fora aprovada, em abril de 1976, a Constituição, e assim se instaurava o regime democrático). Ganhou um beijo de Mercedes Sosa.

Com a minha memória virando uma peneira, esse relato foi possível graças à memória prodigiosa do amigo Rui, o do beijo de Mercedes.

A música disponibilizada é a conhecida Alfonsina y el Mar, de Ariel Ramirez e Felix Luna. Foi gravada por Sosa em 1969 no disco Mujeres Argentinas. A outra interpretação é a do espanhol El Cigala (leia em: http://bit.ly/paIcRC ). Tem gente que não gosta dele. Eu gosto muito.
El Cigala.
Sosa canta La Carta.

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Tá aí. Onde está Wally?

Naquela clássica do show do Milton, quando vc abre a capa? Tem um japonês com uma camiseta laranja lá. Devia ter guardado o LP. Marquei. Dei de presente quando comprei o CD e nem pensei na lembrança. rs
Então, Guen, essa foto foi tirada no show da Mercedes com o Milton lá no anfiteatro da Usp... então tá eu, tá vc, tem um bando imenso de gente q conheço. Marcamos vários, tb não tenho o LP, pra tirar um scan decente...

aqui violeta parra. ela que compôs as mais belas canções imortalizadas pela mercedes sosa. 

aqui, uma das músicas mais lindas do mundo. outra da minha lista:

 

tb a vi Guen, mais tarde, anos 80, viajei de santos prá isso.

foi um show no anhembi, com os maiores da música latino - americana...

tarancón, raizes de america, mercedes....

Estava lá também. Gritei "me gusta los estudiantes", pedindo que cantasse a música de mesmo nome. Ela debochada disse: "a mi tambien"

pois aqui está a música, revisitada. e, claro, violeta parra dando o devido tom:

Ela e Serrat!!!

Que maravilha!!!!

 

guen e aos amantes da música latina,

uma canção linda, recebida de presente de uma pessoinha que sabe que a ternura é condição vital da existência humana, tal como mercedes nos lembra nos versos da canção e na declaração ao final do vídeo:

 

Citando Guen, "Nas festas da Libelu tínhamos rock e tropicalistas, nas da Refazendo, samba e Chico Buarque." Isso é uma aleivosia, divulgada e promovida por alguns caras da mídia que foram libelus em um passado tão antigo que nem vale a pena mencionar, e que tentam glabourizar esse tempo. 

Cito dois fatos: o primeiro, em 1973, produzi uma fita de 6 horas de duração para o Primeiro Baile da Interação Dialética, promovido básicamente pelo CEUPES e pela Psico, se não me engano. Tudo Refazendo. Tinha Chico? Tinha, mas pouco. Chico se escuta, não se dança. O resto era rock (e não era só baladinha de Liverpool não) e tropicalismo. Não posso provar pq alguém levou essa fita "por engano". Segundo, ainda em 73, foi o pessoal da Refazendo e do GPoli que levou o Gil no famoso show no Biênio e começou com os shows na USP. Nadica de nada a ver com o "me xinga, me bate, me chuta, me chama liberdade e luta". 

Se a Cabocla permitir, coloco a foto onde ela, Nassif, Mario Sérgio e eu discutíamos civilizadamente a questão no Sarau dos 7000.

Ops, esqueci o [irony mode on], sorriaí ;-)

te disse...

e o Guen entende e tava lá....

caretaços vcs...

 

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