Nenhuma atividade no mundo tem seus preços tão vinculados à lei da oferta e da procura como a produção de alimentos, até pelas conseqüências oriundas da perecibilidade de grande parte dos produtos.

Esse fato se torna inquestionável, inclusive a curtíssimo prazo, para quem acompanha o funcionamento de uma central de abastecimento e se utiliza da mesma para fazer suas compras com freqüência e regularidade, onde os preços das mercadorias variam de maneira absurda de acordo com a demanda e a oferta.

Enquanto o produtor, independentemente do porte, for considerado pela nação brasileira como um contraventor, em função da inevitável disputa que precisa travar com a natureza para que o alimento chegue às prateleiras do supermercado e de lá à nossa mesa, em troca de uma remuneração que não pode ser pequena em função dos riscos, a tendência será de desabastecimento, inflação e fome e a retirada do imposto sobre a cesta básica não terá nenhum efeito sobre os preços pagos pela população para se manter viva.

Agora, se o funcionário público se especializa em cruzar os braços em busca de melhores condições de vida, basicamente através do aumento de salário, mesmo se expondo a algumas conseqüências como corte de ponto e outras, o agropecuarista quando se sente desestimulado a prosseguir com uma atividade, simplesmente para e muda para outra, até mesmo no campo e geralmente essa atitude, que não é isolada, acaba produzindo um efeito péssimo para todos, que é justamente a alternância entre superprodução de determinados produtos alimentícios, com a inevitável deterioração dos preços, que desestimula a continuidade da atividade e a escassez que vem em seguida elevando-os a níveis insuportáveis.

A baixa taxa de juros no crédito rural é exibida como estímulo, enquanto outros países praticam o subsídio à atividade rural e isso vem contribuindo para que a produção agropecuária cada vez mais se concentre nas mãos dos grandes produtores, que preferem investir em culturas cuja comercialização apresente menor risco como soja, milho, cana-de-açúcar e pecuária de um modo geral e esse fato fica muito claro quando o Brasil, com todo seu potencial produtivo, passa a importar feijão e arroz, a “dobradinha” que deu certo.

Alguém precisa pagar para que o alimento seja produzido e, se não é o governo, através de incentivos a atividade como existiram no passado, com um crédito rural sem correção monetária durante um período de inflação astronômica, onde os empréstimos eram reduzidos a praticamente zero pela inflação e funcionavam como um expressivo subsídio, só nos resta bancar a conta, se pretendermos botar a comida na mesa, a não ser que aconteça um “milagre verde”, que não passe pela eliminação da população do andar de baixo, como já vem acontecendo na África, em nome da preservação ambiental para a privilegiada classe sobrevivente.

Enfim, se o governo com a desoneração não conseguiu reduzir o preço “tabelado” dos veículos, como conseguirá controlar o dos alimentos, que flutuam semanalmente em função do que se colhe naquele espaço em que um dia existiu uma árvore?

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Respostas a este tópico

Caro José Dantas.

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Primeiro, este mecanicismo entre preços e oferta e procura, é completamente inoperante quando te tem em um dos extremos da cadeia setores oligopolizados, e no caso da comercialização de alimentos é um exemplo típico. No Brasil temos a venda de alimentos como um setor oligopolizado pelas grandes redes de super-mercado. Por exemplo, no caso que citaste dos hortifrutigranjeiros e outros como aves e suínos, os produtores são muitos, porém os compradores são poucos, com isto há uma grande manipulação de preços.

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Por outro lado a perecibilidade desse tipo de alimentos, por mais incrível que pareça, é cobrado pelas grandes redes dos produtores, quando um produtor entrega seus produtos eles devem ser entregues embalados, higienizados, rotulados e ainda é descontada a perda de mais ou menos 30% do produtor, pois com isto tudo a diferença de preço entre o atacado e o varejo atinge mais de 100%.

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Quanto ao governo subsidiar ao pequeno agricultor que produz alimentos olhe com cuidado as taxas de juro cobradas a estes http://www.mda.gov.br/plano-safra/xowiki/quadro, verás que os juro descontada a inflação é francamente negativo, ou seja esta produção voltada ao mercado interno é subsidiada, o agro-negócio, este sim tem juros um pouco maiores, entretanto este é voltado a exportação, mas mesmo assim os juros para a agricultura, também descontados a inflação são praticamente nulos.

Na verdade grande parte dos produtos alimentícios como hortifrutis e carnes não passam pelos supermercados, principalmente na nossa região, onde a população ainda cultiva o hábito de fazer suas compras em açougues, mercadinhos e feiras livres que existem em grande quantidade e, algumas vezes, em virtude dessa variação de preços que citei, os preços dos grandes supermercados são mais atraentes, porque essas redes distribuidoras não sofrem de imediato as consequências de uma queda na produção de determinado produto como ocorre no varejo com outros tipos de comércios.

A população de baixa renda, que é a maioria, se abastece nos supermercados quando o cartão de crédito comporta esse luxo, a partir do momento em que o portador se torna inadimplente, procura o mercadinho que bota a feira no prego até que o comprador pague a conta anterior e volte a se abastecer e esses estabelecimentos, que existem em abundância principalmente nas periferias das grandes e nas pequenas cidades, utilizam várias formas de repor os estoques e só vão aos distribuidores quando encontram vantagens nos preços e prazos, do contrário procuram outras alternativas e facilidades que fazem parte do sistema, mesmo algumas vezes fugindo da legalidade, e é justamente por conta desse tipo de coisa que praticam preços até menores que as grandes redes. É a sobrevivência, que não é fácil para quem não possui um salário, sempre considerado baixo e precisa ralar para viver.

O lucro ou o prejuízo de quem produz é muito mais dependente da variação de preços do que qualquer outra coisa, inclusive da política de juros para o crédito rural, principalmente quando se trata da diversificação de culturas, tanto é que o agronegócio aposta em produtos com maiores garantias de comercialização, como a soja e o milho, por exemplo.

Sem estímulos a produção de alimentos nenhuma outra medida será capaz de afastar a ameaça da inflação, que geralmente começa pela mesa, porque nada é mais prioritário. Podemos apagar a luz, cancelar o plano de saúde, vender um dos veículos (a maioria já possui pelo menos dois) e até botar o menino numa escola pública, porém isso tudo vem depois da barriga.

Caro Amauri

O problema é que a determinação do aumento do custo de vida é feito nas grandes regiões e pior, achas que os pesquisadores de preços vão até os pequenos comércios e feiras para verificar o custo?

Aqui em Porto Alegre temos uma série de feiras por toda a cidade, porém quando noticiam os preços dos produtos os valores destes são os que estão sendo praticados em duas das maiores redes de supermercados!

Isto é um problema da sistemática de pesquisa de preços, imagine o pesquisador tem que levantar o preço de dezenas de produtos, que compreendem hortifrutigranjeiros, carnes, artigos para limpeza, artigos de uso pessoal e daí por diante. Eles tem duas possibilidades, ou passam em feiras, açougues, padarias, e supermercados ou simplesmente entram em três supermercados e retiram o preço disto tudo. Pergunto para que me respondas com a máxima sinceridade. Se tu fostes pesquisador de qualquer órgão que determina o valor dos produtos, qual a opção que adotarias? 

Sr. Rogério,

Claro que a pesquisa de preços é feita nos supermercados, porém sua variação um pouco mais adiante acaba acompanhando a variação no setor produtivo e distribuidor, que estão sempre em sintonia.

Trabalho com alimentação e diariamente faço compras em uma central de abastecimento onde os preços variam mais rápido além de em maiores percentuais, tanto pra cima como pra baixo e quase todos os dias visito grandes atacadistas como Makro, Maxxi, que é vinculado ao grupo Walmart e o atacadão, que pertence ao grupo Carrefour. Ali praticam uma política de preços que acaba penalizando quem se torna fiel, pois adotam o sistema de promoções, que na realidade de promoção não tem nada, apenas quando o produto é oferecido nessas condições é porque o preço real é aquele e quando sobe é pura especulação. Como os preços nas centrais de abastecimento, que abastecem também os supermercados de alguns produtos como frutas, verduras, legumes e tubérculos de um modo geral, variam em pouco tempo, eles aproveitam as altas e sobem seus preços, porém quando baixam na central, não baixam nos supermercados e atacadistas, isso a curto prazo, depois de algum tempo efetuam a redução desses preços que geralmente apresentam como "promoções".

Na parte de produtos industrializados, como óleo, margarina, enlatados de um modo geral, cereais, produtos de limpeza e outros, o termômetro são os atacadistas menores, que se abastecem nas fontes produtivas, geralmente transportando em caminhões próprios suas mercadorias e ali são praticados os preços possíveis, que na realidade espelham os reais que o mercado está praticando, porque do contrário não conseguem concorrer com os grandes atacadistas e supermercados.

Mas, no frigir dos ovos, tudo isso depende de produção no campo, que até em relação a produtos de exportação, seus excedentes são quem regulam os preços aqui dentro e quando não sobram paga-se muito mais caro por tudo.

Estamos importando feijão da china e, se não fosse isso, ainda estaria mais caro. O feijão macassar que era produzido somente no Nordeste e hoje é largamente consumido em quase todo o País, com a seca de 2012, que zerou a nossa produção, deveria está custando 20,00 o quilo, como acontece com a fava, porém, nos últimos anos, o Mato Grosso passou a produzir esse feijão em larga escala e o quilo por aqui custa no atacado menos de 2,00 e é o mais barato de todos.

O governo como incentivo ao produtor, deveria ressuscitar a velha política de preços mínimos e tirar o fiscal do IBAMA de cima dos sofridos agropecuaristas de pequeno e médio portes, substituindo-os por técnicos que lhes fornecessem assistência técnica inclusive em relação as questões ambientais, como preservação das matas ciliares e recuperação das áreas degradadas, além do fornecimento de sementes melhoradas e defensivos agrícolas menos tóxicos e mais eficientes, aliás, é justamente para isso que existem os pesquisadores, talvez até em quantidade insuficiente e pouco estimulados como meio de vida, diante da importância que tem.

Enfim, tenho acompanhado seus comentários a aprendido muito com eles. É sempre um prazer da nossa parte poder trocar idéias com o Senhor.

Abraço,

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