No CD recente, Parlato e a franja pro outro lado
O que me chamou a atenção, primeiro, foi o nome “Gretchen”. Claro, lembrei-me de nossa cantora, dançarina e eventual atriz pornô com o mesmo nome. O sobrenome deve ser latino: Parlato. Pelo que está escrito sobre ela, concluímos que aptidões musicais podem estar nos genes: seu pai, Dave Parlato, foi baixista de Frank Zappa.

O que essa cantora de voz pequena e afinada tem para cair nas graças da crítica? Em 2007, foi considerada a terceira melhor vocalista “Rising Star” da revista Downbeat. Seu primeiro disco foi lançado em 2005. Menos quatro anos depois lançou In a Dream, pela gravadora ObliqSound, a mesma de seu mais recente CD: The Lost and Found. Seu segundo disco foi nomeado como o melhor disco vocal de 2009 pelos críticos do Village Voice de Nova York e ficou entre os dez melhores, segundo o Boston Globe, JazzTimes, Washington City Paper, Hot House e NPR. Agora, em 2011, acaba de ser considerada a melhor cantora “Rising Star” (Downbeat) pela segunda vez consecutiva. Em 2008, foi considerada a quarta “Rising Star”. Sua classificação em 2009, não tenho em meus arquivos.

A moça é do jazz, isso, não se duvida. É natural que, no meio de tantos medalhões que, ano a ano, se mantêm no topo das melhores vocalistas, novas vozes são auspiciosas. Na cena feminina, essas novidades são frequentes, o oposto do que ocorre no “setor” masculino: Kurt Elling é considerado o melhor há mais de dez anos, seguido de perto por Andy Bey.

Gretchen tem uma qualidade a mais que algumas cantoras: compõe, e em muitos casos é autora das letras em temas de músicas como Juju, ou E.S.P., de Wayne Shorter. E para nós brasileiros, um dado interessante é o de que Gretchen, quando canta em português, sem sotaque (apresentou-se com Gal Costa, Oscar Castro Neves e Ivan Lins em Washington D.C.). Em nossa insuspeitada xenofobia, consideramos esse fato. Patriotada? Um pouco. É um átimo do nosso orgulho tão solapado por tantos maus exemplos. Conheço apenas os dois últimos discos: no anterior canta Doralice; no mais recente, Alô, Alô, de um tal Da Viola. É assim que está registrado no encarte; é o nosso grande Paulinho cantado em balanço bem brasileiro. Por um momento podemos até pensar que o samba está em seu DNA.

O fator Brasil não se evidencia apenas nessas canções. Os arranjos econômicos, ritmos malemolentes em percussões inteligentes, nos quais se incluem batidas de mão, de vozes, violões acústicos e baterias nos fazem concluir que ela ouviu e ouve música brasileira com muita atenção, e claro, ouviu muito João Gilberto. Com certeza, é a razão de ter gravado Doralice. Seu violonista/guitarrista, Lionel Loueke, também: deve ter ouvido muito João Gilberto. Kendrick Scott, da mesma forma, contribui: é um baterista sofisticado, de notas essenciais e cheias de bossa.

E nem é preciso que a música seja brasileira para “ficar brasileira”: o melhor exemplo é I Can’t Help It – do CD In a Dream –, composição de Stevie Wonder. Quem não a conhece, provavelmente, deve tê-la ouvido na interpretação de Michael Jackson no álbum Off the Wall (1979). É uma canção típica de Stevie, mansa e cheia de balanço. Mas Parlato a subverte transformando-a em pura “new bossa”; mais brasileira, impossível. Ouça, para dizer que não estou mentindo.


O título desse texto, um tanto irônico, é apenas uma graça que faço. Na primeira vez que ouvi Gretchen, estranhei demais sua voz anasalada; pareciam resmungos. Aos poucos, fui percebendo que sua voz é o perfeito complemento para a construção das canções. Um detalhe na capa de seu último disco – The Lost and Found – me chamou a atenção: Parlato usa um vestido com uma alça à esquerda e sua enorme franja atravessa toda a extensão de sua testa em sentido oposto. Um comentário ou uma graça? Passou um tempo até começar a gostar dessa imagem de deliberada sensualidade; na contracapa, vemo-la de costas, com o vestido marcando seu corpo curvilíneo. Na capa do anterior – In a Dream – Gretchen aparece deitada sobre um fundo cor de rosa com algo que parecem pétalas que lhe cobrem o colo. Irresistível.

À medida que fui ouvindo mais, passei a gostar mais e mais e percebi que os que a elogiam tinham razão. Quando me dei conta, havia sucumbido ao discreto charme do canto de Gretchen Parlato.

Ouça Parlato cantando Butterfly. Veja o que faz com a voz e com as mãos.

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Respostas a este tópico

Tirei umas férias, mas estou de volta. Onde é o sebo? Vc mora perto do Mackenzie, ou o chute foi alto demais?

guen, quanto tempo!

mas, então... acho que não resmunga também, não, mas que a danadinha é fanhosinha, é, não?

sabe quem ela me lembra com esta voz anasalada? rosa passos.

confira aqui:

 

a tua gretchen, em doralice (incorporação desativada... ô gente boba!)

vai o link: http://www.youtube.com/watch?v=1TjxDw5VNGE

 

e, aqui, a rosa passos. olha... eu sou mais a nossa rosa:

Luzete, é verdade. Nem tinha pensado nisso. A Rosa Passos é a minha cantora preferida, atualmente. É um JG de saias.

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