Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e o ‘Socialismo do Século XXI’!

Um dos temas mais debatidos na imprensa de inúmeros países da América Latina é o processo de mudanças que se desenvolve na região e que é liderado por governantes como Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Corrêa.

Um dos maiores equívocos cometidos pelos que atacam tais líderes políticos é o de que eles seriam ‘populistas’, que aqui é entendido como sendo sinônimo de ‘demagogia’, e de que os mesmos estariam enganando e iludindo aos seus povos com falsas promessas de melhoria da condição de vida dos mesmos.

Alguns chegam, até, a dizer que eles é que seriam os responsáveis caso os seus países venham a sofrer os efeitos da crise global, cujas raízes estão nos países desenvolvidos, e que é resultado, claramente, do fracasso das políticas Neoliberais adotadas mundo afora nas últimas décadas, principalmente após a ascensão de Reagan e Thatcher aos governos dos EUA e do Reino Unido, políticas estas que tiveram continuidade, com maior ou menor intensidade, na administração dos seus sucessores.

Reagan, Thatcher, Clinton, Blair e os dois Bush (pai e filho), bem como governantes latino-americanos como FHC, Menem, Fujimori, Gortari, Sanchez de Lozada, Sanguinetti, entre outros, é que têm ‘culpa no cartório’ devido ao fracasso do Neoliberalismo

Na verdade, lideranças como as de Chávez, Morales e Correa cresceram politicamente justamente em função do total fracasso do Neoliberalismo em oferecer a possibilidade de uma vida digna para a maioria da população da América Latina. Economias estagnadas ou em forte recessão, desemprego elevado, precarização do mercado de trabalho, arrocho salarial, aumento das desigualdades sociais, empobrecimento das classes médias, endividamento e falência do Estado, foram algumas das principais consequências do fracasso do Neoliberalismo na América Latina.

A Argentina, tida como aluno 'nota 10' por parte do FMI e do sistema financeiro internacional durante toda a década de 1990 (pois fez tudo o que os mesmos determinaram: privatizações, abertura da economia, redução e eliminação de direitos sociais e trabalhistas, privatização da previdência social, política de ajuste fiscal, entre outras medidas), foi o símbolo maior deste total e completo fracasso do Neoliberalismo na América Latina. E como este fracassou totalmente, nada mais lógico e natural do que as pessoas procurarem por alguma alternativa melhor, não é mesmo?

E a expressão 'populista', hoje, é usada de forma totalmente vaga e genérica pelos que criticam líderes reformistas e nacionalistas como Chávez, Morales e Correa. Ela perdeu completamente o seu significado original passando a ser aplicada a todo e qualquer governante ou líder político que não se submeta à vontade do Capitalismo Neoliberal.

Originalmente, 'Populismo' designava um fenômeno político através do qual líderes políticos originários de setores reformistas e nacionalistas das classes dominantes assumiram a condição de porta-vozes das principais reivindicações populares, passando a controlá-las e a limitar o alcance das mesmas, impedindo que tais movimentos populares tomassem um rumo mais radical, no caminho do Socialismo. Vide os casos de Vargas e Perón.

Neste sentido, líderes como Chávez e Evo Morales não podem, sob hipótese alguma, ser considerados populistas, pois não vieram da classe dominante e tampouco renegam o Socialismo, muito pelo contrário, se apresentam como líderes de um 'Socialismo do século XXI', com uma matriz fortemente indígena e nacionalista e que é muito influenciada pelo pensamento do intelectual marxista peruano José Carlos Mariátegui.

Mariatégui defendia justamente a construção, na América Latina, de um Socialismo nativo, próprio, que levasse em consideração as tradições, a cultura e os costumes dos povos nativos da região. Ele recusava, assim, a importação de modelos prontos e acabados, tal como defendiam e faziam os Partidos Comunistas latino-americanos que eram controlados por Moscou e que desejavam, meramente, replicar, na América Latina, a história e o modelo soviéticos.

Porém, a visão de Mariátegui acabou derrotada, na época, e a Esquerda comunista revolucionária latino-americana cometeu, durante décadas, tal erro, ou seja, o de tentar reproduzir na região aquilo que havia ocorrido na Rússia em 1917.

Somente com o virtual fracasso deste modelo soviético de se fazer Revoluções Socialistas na América Latina é que tivemos a emergência de movimentos revolucionários que defendiam uma visão alternativa. A primeira grande experiência neste sentido foi a Revolução Cubana, que deu origem à teoria do 'Foquismo’, que dizia que a partir de um pequeno foco guerrilheiro inicial seria possível levar adiante uma Revolução Socialista vitoriosa e com ampla participação popular.

Assim, focos guerrilheiros espalharam-se pela América Latina nos anos seguintes à vitória da Revolução Cubana, processo este que foi liderado por inúmeros dissidentes dos Partidos Comunistas latino-americanos (como foi o caso de Carlos Marighella) ou por uma nova geração de jovens revolucionários, com origem principalmente em segmentos da classe média radicalizada, que não se atraíam atraídos pelos dogmáticos e fossilizados PCs latino-americanos, que eram vistos como sendo ou como reformistas ou como muito autoritários, que sempre puniam aqueles que defendiam visões alternativas àquelas que as direções dos PCs consideravam como sendo as corretas.

De qualquer forma, o fato é que os PCs da América Latina seguiam a política soviética, de ‘coexistência pacífica’ com o modelo Capitalista liderado pelos EUA, e ainda defendia a tese de que primeiro os países latino-americanos precisariam passar por ‘Revoluções Burguesas’, antes de fazer alguma tentativa de se promover uma Revolução Socialista na região, pois tais países ainda possuiriam fortes características feudais em suas sociedades. Assim, os PCs encaravam como ‘naturais aliados’ os membros das ‘Burguesias Nacionais’ latino-americanas, acreditando que eles acabariam aderindo à luta contra o Imperialismo.

E tudo isso fazia com que os dissidentes dos PCs e os jovens radicalizados das classes médias latino-americanas não se sentissem nenhum pouco atraídos pelas idéias e políticas defendidas pelos Partidos Comunistas da América Latina.

Logo, tais jovens e dissidentes dos PCs latino-americanos adotaram a estratégia do ‘foco guerrilheiro’, inspirados no exemplo vitorioso da Revolução Cubana e estimulados pela resistência dó heróico e bravo povo vietnamita contra os EUA. E tal estratégia tinha em Che Guevara o seu grande símbolo e defensor.

Mas, o 'foquismo guevarista’ acabou sendo derrotado em toda a América Latina.

Então, quando o Neoliberalismo desmoronou, nem a Esquerda comunista, dos PCs da linha soviética ou chinesa, e nem a Esquerda 'guevarista', defensora do 'foquismo' revolucionária, tinham mais o que apresentar para os povos latino-americanos. Era necessário redefinir a estratégia política das Esquerdas na América Latina. Eles haviam lutado por uma vida melhor para os povos latino-americanos, sem dúvida alguma, mas não conseguiram triunfar. Porém, tanto os seus erros como os seus acertos contribuíram para que surgisse uma nova geração de movimentos e líderes políticos, ou que movimentos e líderes tradicionais revissem os seus pontos de vistas e suas crenças.

E foi isso que abriu espaço para a emergência de uma nova geração de líderes reformistas e nacionalistas na América Latina, como Evo Morales e Hugo Chávez, que deram início a um processo de mudanças sustentadas fortemente nos movimentos populares organizados e que têm um grande grau de penetração junto às camadas mais pobres da população de seus países.

E diferentes das Esquerdas tradicionais da América Latina, tais lideranças (Chávez, Morales, Correa) não desprezavam o modelo político ‘Liberal Representativo’ que predominava em suas nações, embora atacassem duramente o seu caráter fortemente elitista e restrito.

Tais sistemas políticos não permitiam, de fato, uma grande participação popular no processo político e eleitoral, a não ser como meros eleitores que consagravam, nas urnas (e em eleições com baixíssimo nível de participação popular), forças políticas tradicionais e fortemente conservadoras, que nada mudavam quando se alternavam no poder.

O que ocorria era uma mera troca do ‘6’ por ‘meia-dúzia’. Nada além disso. Exemplo disso, era a Venezuela, onde a AD (Ação Democrática) e a COPEI se alternaram no poder por várias décadas e nada mudavam quando um partido substituía ao outro no governo.

Na verdade, o 'Socialismo do Século XXI' têm, como uma das suas principais características, o aprofundamento e ampliação do alcance dos direitos políticos nos países em que está sendo implantado. Tais líderes (Chávez, Morales, Correa) estimularam, desde o início, a mobilização e a organização populares. Assim, isso acabou resultando num grande crescimento da participação popular em sucessivas eleições, referendos e plebiscitos, que passaram a ocorrer num ritmo alucinante. Nunca na história destes países a população foi convocada tantas vezes para votar, se manifestar, escolher o seu destino, enfim.

E também não se pode deixar de destacar o fato de que os movimentos políticos liderados por tais governantes são plurais, englobando operários, camponeses, estudantes, intelectuais, bem como segmentos políticos os mais variados ideologicamente, indo das Esquerdas moderadas e reformistas, de corte Social-Democrata, até grupos de Esquerda mais radicais, nacionalistas, movimentos índigenas, entre outros.

Desta maneira, pode-se dizer, tranquilamente, que os povos destes países nunca desfrutaram de tanta Democracia como a que desfrutam nos dias atuais. Isso enterra, por sinal, o argumento, totalmente falso e mentiroso, de que tais governantes seriam 'Ditadores'. Chávez, Evo e Correa estão, portanto, liderando verdadeiras 'Revoluções Democráticas' em seus países. E no lugar de destruir com a 'Democracia Burguesa' e transformá-la numa 'Ditadura do Proletariado', estão construindo nações verdadeiramente democráticas, no pleno sentido da palavra, em que o cidadão decide, diretamente, os destinos do país e da sociedade em que vive.

Tais líderes (Chávez, Morales), portanto, tem origem popular e não nas elites tradicionais de suas nações. E suas intenções, de construir um 'Socialismo do Século XXI', que leva em consideração as tradições e culturas indígenas, radicalizam o processo democrático e que lideram movimentos plurais e que contam com ampla participação popular, são claramente elementos que os diferenciam dos tradicionais líderes populistas da América Latina, como Vargas, Perón, entre outros.

E o triunfo deles mostra que Mariátegui estava certo e os PCs da linha soviética estavam errados, pois o caminho para a construção do Socialismo na América Latina passa, claramente, pela emergências das camadas populares, que passam a comandar o seu próprio processo de lutas, rompendo com a visão tradicional que predominou nas Esquerdas latino-americanas, ou seja, de que uma ‘Vanguarda Revolucionária’ é que deveria liderar a Revolução.

Na verdade, e muito diferente do que se diz a respeito deles, líderes como Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Corrêa, somente estão sendo bem sucedidos politicamente devido ao fato de que abriram espaços, em seus países e sociedades, para que as camadas populares se tornassem protagonistas da luta pela construção de uma sociedade igualitária, justa, democrática e soberana, ou seja, para a construção do que eles mesmos denominam de ‘Socialismo do Século XXI’, que pouco ou nada têm a ver com o modelo soviético que se espalhou pelo mundo durante o Século XX.

E nos três casos há exemplos claros de avanços sociais e econômicos, em benefício dos mais pobres, que eram amplamente majoritários em suas nações quando eles tomaram posse na Presidência da República. A redução do desemprego, o aumento dos investimentos públicos na área social, os aumentos salariais acima da inflação, a redução da concentração de renda e das desigualdades sociais, são claros exemplos destes progressos experimentados por tais países nos governos destes Presidentes que são, equivocadamente, taxados de ‘populistas’.

E está mais do que claro que se tais líderes deixarem de corresponder aos anseios populares de seus respectivos países, não tenham dúvida de quem os mesmos serão destronados pelos movimentos populares. Este irá gerar ou criar novos líderes a fim de substituir aqueles que, eventualmente, traírem os interesses da maioria da população.

Um exemplo disso foi o caso do coronel Lucio Gutiérrez, que se elegeu Presidente do Equador devido ao maciço apoio que recebeu dos movimentos populares, principalmente indígenas, do país.

Porém, depois que tomou posse, Gutiérrez ignorou todos os compromissos assumidos com o povo equatoriano, traiu ao mesmo, e passou a governar de acordo com os interesses das elites tradicionais e autoritárias do Equador, bem como do governo norte-americano.

Como resultado disso, os movimentos populares equatorianos saíram novamente às ruas e derrubaram Lucio Gutiérrez da presidência, fato este que foi confirmado pelo Congresso Nacional do país.

Logo depois, realizaram-se eleições presidenciais e o economista Rafael Corrêa se elegeu com o forte apoio dos movimentos populares e, diferente de Gutiérrez, cumpriu com os compromissos assumidos com os mesmos, iniciando um processo de mudanças políticas e sociais que conta, hoje, com o apoio maciço do povo equatoriano, obtendo índices de aprovação popular que superam os 70%.

Assim, há inúmeras diferenças entre os atuais líderes políticos latino-americanos, reformistas e nacionalistas, como Chávez, Evo e Corrêa, e os tradicionais líderes populistas da região, como Vargas, Perón, Cárdenas, entre outros, embora seja inegável a contribuição destes para o desenvolvimento econômico e social de seus respectivos países.

Mas isso já é assunto para outro texto.

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Respostas a este tópico

Marcos, texto muito bom, pedagógico, mas preciso ler com mais cuidado prá ver se tenho algo a dizer.
registro apenas este comentário prá não deixar em branco minha passagem por aqui.
Obrigado por ter lido o texto, luzete, e fique à vontade para comentá-lo, ok?
Marcos, lembro que a Marilena Chauí tratou, em algum momento recente, do tema populismo mas numa tentativa de analisar as críticas que estavam sendo feitas ao governo Lula, exatamente nesta mesma direção que vc aponta para estes outros três governantes da América Latina.

Mostrava o quão pertubador era para a elite ter que se defrontar com um governo propriamente popular (ou que se empenha em assim o ser)

destaco esta passagem de uma entrevista que ela concedeu, não propriamente sobre o assunto, mas que aponta o distúrbio que causa um governo que se esforça para não perder suas raízes populares.

“vamos analisar como está o país.” A economia está andando. Não tem nenhuma crise econômica. Nada. Não houve problemas com nenhum setor da economia. Vamos avaliar o campo social: vamos ver se tem crise em alguma coisa: não, não tem. A escola funciona, a saúde funciona, o transporte funciona. A vida das pessoas, tudo, funciona. Será que tem uma crise política? Não, uma crise política não tem. Teria uma crise política se a Constituição do País estivesse ameaçada. A Constituição não está ameaçada, não há nada afetando a Constituição. Então, o que é essa crise? Essa crise é o fato de que o PFL e o PSDB não admitem a eleição do Lula. Não admitem e não suportam a idéia do PT no governo e a mídia também não admite. Então, você tem o simulacro da crise. Você tem uma crise que é inteirinha midiática..."

e por aí vai.

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