Jim Hall & Bill Evans: muito além de uma dupla caipira

Duos são comuns no jazz, nem tanto quanto na música sertaneja. São encontros de ocasião e é comum resultarem em discos belíssimos. É claro também que o encontro de dois gênios não quer dizer que, necessariamente sairá algo genial. Mas é infindável o número desses encontros fortuitos com interpretações inesquecíveis. Pode-se citar alguns recentes: ‘Mehldau/Metheny’, do guitarrista Pat Metheny com o pianista Brad Mehldau, Live in Montréal, do baixista Charlie Haden com o brasileiro Egberto Gismonti, Frank and Wess, com o nonagenário genial, recentemente falecido, aos 92 anos, , Hank Jones e o flautista e saxofonista Frank Wess. Na formação piano/sax, um dos bons registros é do CD duplo People Time, com Kenny Barron e Stan Getz, gravação de uma performance no Café Montmartre, tradicional clube de Copenhagen, poucos meses antes da morte do saxofonista em decorrência de um câncer no fígado. Um bom duo em formação “heterodoxa”, genial, é o encontro do trompetista Don Cherry – que no disco toca percussão e teclados também – com o polirrítmico baterista Ed Blackwell em El Corázon, que saiu pela ECM.

Jim Hall e Bill Evans
Agora, genial mesmo é um dos álbuns gravados pelo pianista Bill Evans e o guitarrista Jim Hall. Intermodulation merece um lugar de honra na estante de qualquer um. Bill é responsável por uma das “guinadas” de estilo de Miles Davis ao introduzir o modal no jazz. Em oposição ao bebop, que privilegiava o ritmo sob a forma de progressões de acordes em repetição que serviam de base para os solos dos instrumentos, a forma modal se desenvolvia mais sobre a melodia. Miles admirava o jeito de tocar do pianista Ahmad Jamal, que tinha um estilo diferente dos demais da cena jazzística da época e estava iniciando um trabalho com o arranjador Gil Evans. Kind of Blue é consequência desses “interesses”. Marcou história e é considerado um melhores discos de todos os tempos. Bill Evans, egresso da banda de George Russell, merecia ter seu nome na capa como parceiro de Miles, pois é a alma do disco. A estrutura musical parece mais simples do que as do bebop, mas não é: são simplesmente diferentes. Os solos se sucedem um a um como uma “corrente evolutiva”, em que o tema vai sendo desenvolvido por cada solista. O disco é a oportunidade de ouvir John Coltrane no sax-tenor, Cannonball Adderley no sax-alto e Miles no trompete “cool” no ápice de suas formas, produzindo belos solos com a preciosa companhia de Evans, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb. A essência do jazz modal está na bela composição de Evans – “malandramente” assinada por Miles –, Blue in Green, em que o piano é ouvido “meio longe”. São maravilhosos o solo do trompetista e a breve intervenção de Coltrane. No processo evolutivo desse estilo contribuiram depois, não apenas os trios de Bill Evans e o quinteto posterior de Miles, com Herbie Hancock nos teclados, mas também o quinteto de John Coltrane com o pianista McCoy Tyner.

Certamente, Evans é o maior nome do jazz modal. Os álbuns de Bill com o baixista Scott LaFaro, que morreu muito cedo num acidente de carro em 1961, e Paul Motian na bateria, até hoje na ativa, com quase 80 anos, são o ápice do formato trio piano/baixo/bateria. O álbum ‘\Live at the Village Vanguard é básico para quem quiser conhecê-los.

Em 1962, gravou o primeiro disco com o guitarrista Jim Hall, Undercurrent. O jeito econômico e quase acústico da guitarra combinava perfeitamente com o estilo melancólico de Evans. Mas é no álbum Intermodulation, de 1966, que essa parceria encontrou a mais perfeita simbiose. Na composição de Evans, Turn out the Stars, a guitarra de Hall é quase “invisível”. Após o solo do piano, Hall entra com uma guitarra bem discreto, solo de poucas notas, cada qual essencial para a construção da música. Hall é o contrário de John Scofield ou Al DiMeola, que pensam que quanto mais notas melhor é o guitarrista. Hall toca o essencial, é um minimalista. Apoiado ou sentado na banqueta dedilha sua Gibson ES 175. Em Angel Eyes as notas do piano e da guitarra são apenas as essenciais, suficientes para imprimir o “mood” da composição do austríaco Joe Zawinul. Tudo é perfeito no disco, mas se existe algo “mais que perfeito”, é o registro de My Man’s Gone Now, dos irmãos Gershwin. Aos acordes iniciais de Bill e as poucas notas das cordas, sucedem a apresentação do tema que vai se desenhando em progressão para o início do solo austero e rico de sugestões de Jim, em sutis mudanças de tempo. Jim Hall é o poeta do silêncio. É intimista, como Evans. Cada nota de Hall e de Evans representa um brilho dourado e fugaz como a produzida pelos raios de sol em fins de tarde sobre a água.

Darn That Dream.



Dream Gypsy.

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Respostas a este tópico

aluna aplicada que sou, vim prá minha aula de música!

e é uma delícia ler seus textos, guen. a sensibilidade que você nos passa torna quase impossível deixar de apreciar tuas sugestões. olha, eu gosto demais, sabe.

das duas que estão ali em cima, gostei mais de dream gypsy, incluindo as imagens do vídeo!

 

(a primeira conhecia com a doris day)

A melhor faixa mesmo é o “My Man’s Gone Now”. É sublime. Estava ouvindo no carro hoje. Adoro a Doris Day tb. No geral.
Vamos combinar de irmos juntos. É o bar do Gudin? Se forr esse mesmo, melhor ainda: falei pra ele de dar uma passada. É que nunca fui lá. Abs
Manda uma mensagem pessoal no guenyokoyama@gmail.com, para não escancararmos nossa relação íntima. hahaha. A gente combina por lá. Abs

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