(Não consegui entra na página onde o Demarchi fala sobre jornalistas, mas lembrei dessa velha crõnica que me parece  legal para estar perto da dele)

Minha mãe foi jornalista e eu a acompanhava no trabalho.

Enquanto escrevia, eu andava pela redação. Quieto e respeitoso, aos 8/9 anos, ficava assuntando pelas mesas, fascinado pelo ruído das máquinas de escrever. Sentia pela sala um clima que me obrigava a reverenciar a atividade.

Somente anos mais tarde aprendi o significado da palavra “egrégora”.

Segundo a Wikipédia “Quando várias pessoas têm um mesmo objetivo comum, sua energia se agrupa e se "arranja" numa egrégora. Esse é um conceito místico-filosófico com vínculos muito próximos à teoria das formas-pensamento, onde todo pensamento e energia gerada têm existência, podendo circular livremente pelo cosmo.

Então, lá ficava eu pela redação absorvendo a egrégora reinante no ambiente, mágico, quase religioso. Não era raro que um jornalista parasse no meio do seu texto, chamasse o companheiro do lado e, antes de terminar seu trabalho, achasse um jeito de discutir minutos a fio uma ou outra forma de expressar-se. Testemunhei grandes discussões filosóficas assim. Também era normal que, no meio de um texto, alguém soltasse uma grande gargalhada e, imediatamente, dividisse o motivo dela com os outros. As magias mais mágicas se fazem coletivamente.

Pela vida a fora, em função do trabalho de meu pai e de minha mãe, e até depois, por meu trabalho musical, conheci muitas redações de jornais e revistas. Conheci gente, muito e fosse onde fosse a tal da egrégora se apresentava.

No Correio do Povo, em Porto Alegre, quando ia, com meu pai, buscar o Mario Quintana prum papo regado a café e quindins, no “Jornal do Brasil” com o meu padrinho Aníbal Machado visitando o Drummond. Lembro até da “Ultima Hora”, em São Paulo, quando o Samuel passou por lá pela última vez.

Em 68, tempos dos festivais da Record, no “Jornal da Tarde” quando eu ia dar entrevistas e encontrar o Adonis, o Melquíades, o Fernando (B) Morais, a Helô Machado.

Sem frescuras, ou estrelismos sentava numa mesinha, respondia, e a gente marcava uma cervejinha ali no bar do lado do Hotel Jaraguá pra “completar” a entrevista.

Isso acontecia com todos os artistas. Cansei de ver a Ruth Escobar, o Leonardo Villar, a Rosa Maria Murtinho, Anselmo Duarte, Marília Pêra, um monte de artistas lá no JT. Todos pareciam um povo só.

Ficou a impressão de que a atmosfera era a mesma em todas as redações. Assim, de bate-pronto, diria que havia respeito pelo trabalho, pelas pessoas, pelos entrevistados, pela “forma” de noticiar, e, mais que tudo, era uma tarefa coletiva, trabalho de equipe.

Lá pelas tantas, tornei-me documentarista e, automaticamente, também jornalista, e a TV era o mercado mais imediato. Mesmo que ela não me interessasse diretamente, o fato de, no documentário, haver a possibilidade de entregar um produto fechado, sem interferências de ninguém, vender um pensamento mais autoral, me atraía muito. E enquanto assim foi, eu fui junto.

Na área de jornalismo na TV trabalhei com o Sérgio de Souza, e a redação do programa do Sérgio ( o “90 Minutos”) tinha egrégora. O pessoal da revista “Realidade” fedia à egrégora, o Hamilton, o Myltainho, o Bahia.

Sempre meio cigano, andei fazendo outras coisas na TV, musicais, comerciais, até que, quando estava morando longe, a TV Manchete me chamou pro Rio de Janeiro. Fiquei um ano e pouco dirigindo o Clodovil  e, por convite do Narciso Kalili, voltei para a Globo.

E era muito estranho. A redação do “Globo Repórter” era desegregoriada. Um monte de gente: repórteres especiais, cinegrafistas, editores, produtores, chefias-de-redação, e, palpavelmente, aquele espírito egregorial (“Quando várias pessoas têm um mesmo objetivo comum, sua energia se agrupa e se "arranja" numa egrégora.) ali não se fazia presente. Só dava as caras quando eu sentava com o Narciso pra discutir uma matéria – e, a bem da verdade, também aparecia quando estava trabalhando com o Caco Barcelos e o Ernesto Paglia.

Agora, que esta reflexão já está “plasmada” sem romantismos, pra mim ficou claro que, na medida em que a TV for a referência de jornalismo, o supérfluo for o fundamental, tempo televisivo for dinheiro, o anunciante mandar nas pautas, os editores editarem lágrimas e chôros, os repórteres responderem às perguntas no lugar dos entrevistados, as notícias forem dadas só raspando o verniz do fato sem nunca dar os “nomes dos bois”, os narradores “interpretarem” as notícias, o Ser/Jornalístico não for movido pelo mais honesto espírito democrático e os jornalistas todos se enxergarem como celebridades, acho que as redações vão continuar sem egrégora nenhuma.

Ainda segundo a Wikipédia, “Jornalismo é a atividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. Também define-se o Jornalismo como a prática de coletar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos atuais.”

Fica uma pergunta, é isto que temos visto por aí? Ou cada dia mais se percebe que que “lá dentro” o que se dá é um joguinho de come-come pra sair em “Caras”?

Uma sugestão: criar um neologismo mais adequado, um  ½ - jornalismo, chamado televisãosismo. Mas, claro que lembrando sempre aos estudantes de comunicação que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. 

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Respostas a este tópico

alberto,

A  egrégora..... deste " jornalismo " é criminalizar os movimentos sociais....

Olha aqui Beto! Gostei muito do texto, mas devido à minha eterna fixação por palavras ditas difíceis e palavras grandes, tal como aconteceu quando na faculdade o professor de endodontia disse que ia ensinar a tecnica da "oxigenoargentoterapia", ao ler (sem entender) a palavra "EGRÉGORA", eu quase ejaculei.

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