Reproduzo abaixo texto da filósofa Viviane Mosé, que subscrevo inteiramente:

EDUCAÇÃO: A BRIGA NO RIO ESTÁ ERRADA

Por Viviane Mosé (*)

Acabar com a aprovação automática parece ser uma evidência no atual momento político no Rio de Janeiro. Mas o que ficou conhecido como aprovação automática é a má aplicação do que se chama progressão continuada, uma das medidas essenciais quando queremos sanar as dificuldades da escola. Ao invés de anos, ciclos de aprendizagem, que avaliam, mas não reprovam, ao contrário, acompanham o desenvolvimento de cada aluno, ajudando-o em seu pleno desenvolvimento. A aprovação automática, como ficou conhecida aqui no Rio de Janeiro, não reprova, mas também não consegue acompanhar os alunos com dificuldade.

O sistema educacional que ainda predomina no Brasil foi inspirado no modelo industrial. Nossa escola é como a linha de montagem de uma fábrica: as diversas disciplinas, sem conexão umas com as outras, são partes de um mundo que está distante do aluno. A vida, o contexto ficou afastado da escola, que mais parece um presídio de alunos. A educação moderna não tem como alvo o ser humano, sua formação integral, intelectual, física, estética, existencial etc., mas busca, através de um sistema excludente, produzir as diferentes peças de uma engrenagem social estratificada.

Aliado à industrialização tardia, convivemos ainda com as marcas de um regime militar que tratou como subversivo todo tipo de pensamento crítico, toda atitude corajosa e reflexiva. E hoje temos uma educação essencialmente passiva, fundada no acúmulo de dados; uma escola que, além de isolada do mundo e da vida, nomeia de "grade" o currículo e de "disciplina" os conteúdos.

O sistema de reprovação que ainda vigora no Brasil é um dos mecanismos mais excludentes e cruéis de nossa sociedade. Quando reprovamos um aluno estamos afirmando que ele é o único responsável por seu mau desempenho. Nem os professores, nem a diretora, nem a família, nem o sistema de ensino serão reprovados, apenas ele. E isto se deve, entre outras coisas, ao fato de que a escola está historicamente centrada no ensino, não na aprendizagem. Os professores, o corpo técnico, os gestores se sentem responsáveis pela transmissão de conteúdos, mas não se sentem comprometidos com a aprendizagem; se o aluno aprende ou não é problema dele, não da escola.

Em alguns municípios brasileiros 60% das crianças ficam reprovadas na primeira série. Eles têm em geral seis ou sete anos, e vão pagar por essa não aprendizagem. A reprovação faz com que, multo cedo, as crianças sofram a exclusão, a segregação social que tanto massacra nossa sociedade adulta. Uma mulher que abordei na rua, em um bairro muito pobre da cidade, disse-me que seus filhos tinham saído da escola porque não conseguiam aprender. "A escola só gosta de quem sabe", ela disse. E deveria ser o contrário, a escola deveria se dedicar de um modo especial a quem não aprende no tempo estipulado.

Hoje, no Rio, temos crianças na escola que não sabem ler, aos 12 anos de idade; antes da progressão continuada elas também não sabiam, mas estavam fora da escola, das estatísticas. O objetivo da progressão continuada é manter crianças e jovens na escola, e isso ela tem conseguido. Mas, se as crianças, mesmo na escola, não estão aprendendo, então devemos brigar por uma escola que ensina, em vez de reivindicar uma escola que reprova.

O sistema seriado de ensino que temos, dividido em anos, com diversas disciplinas Isoladas umas das outras e distante da vida, permanece porque está centrado no poder do professor. Um novo modelo de escola se dedica menos ao ensino e mais à aprendizagem, não se satisfaz em ministrar conteúdos, mas acompanha e estimula os alunos no exercício de suas diferenças, monitorando suas dificuldades e aptidões.

Não é de reprovação que precisamos, mas de uma escola que se comprometa com qualquer aluno, que se dedique a cada um deles, que trabalhe em prol do seu sucesso, e, para isso, promova situações de aprendizagem cada vez mais elaboradas e integradas entre si. Precisamos de uma escola disposta a se transformar e crescer para atender às necessidades das diferentes crianças e jovens, em seu processo de desenvolvimento. Uma escola que estimule a participação, a pesquisa e o pensamento crítico, uma escola democrática, que possa existir realmente para todos.

(*) Viviane Mosé é filósofa.

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Respostas a este tópico

Boa pergunta, Tadeu. Mas talvez as 2 coisas tenham que ser feitas lado a lado. E é preciso relativizar essa questao da "má qualidade" do professorado. Nunca o professorado teve tantos anos de estudo como agora. O problema, em parte, vem do fato de que os baixos salários e péssimas condições de trabalho afastaram os candidatos à profissao de maior "capital escolar". E em parte vem da tradição, que oferece modos de trabalhar que já nao servem mais. Fora isso, nao há mais motivos para falar de "má qualidade" dos professores do que da de qualquer outra profissão (aliás, há: o interesse de muita gente em vender cursos de qualificação, o que virou um negócio quase tão bom quanto o de livros didáticos...).
Me desculpem membros do Portal por ocupar toda a primeira página com tópicos, mas é que um admirador que eu nao suspeitava que tinha anda solicitando meus tópicos sobre Educaçao, e resolvi fazer a vontade dele refrescando alguns criados por mim (fora todos os outros em que tive muita participaçao, mas nao criados por mim).

Estaremos a postos para retomar as discussões.

 

Seria muito bem vinda a volta de tópicos sobre Educaçao -- de real debate e com idéias, nao as bobajeiras que o Sr. Alexandre posta.
Cara AnaLú.
Vou colocar um argumento que talvez ninguém tenha feito, é um argumento por absurdo, uma das provas mais fortes que a matemática e a física empregam.
Faz-se muito a discussão entre a progressão continuada, ou ensino por ciclos, versus o ensino seriado, mas ninguém parou para ver qual é realmente a diferença de um e outro QUANDO NÃO SE PROCURA recuperar os alunos.
Nas universidades o ensino é por semestres, em alguns cursos de pós-graduação o ensino é por trimestres e em alguns cursos de extensão os cursos são bi-mensais, ou seja, o período de avaliação com exclusão pode ser de quatro ou cinco anos, um ano, um semestre, três meses ou dois meses. O que diferencia um de outro? Exatamente nada!
Se pensarmos no aprendizado como algo contínuo, por que não a exclusão semanal ou mensal? O aluno não desempenhou satisfatoriamente bem um conteúdo, ele é excluído! Mensalmente, muito pouco tempo! Um bimestre, talvez ainda um pouco exagerado! Três meses, talvez o ideal!
Se formos pensar com o raciocínio da exclusão por que esperar um ano para tanto? Se for para excluir que se exclua o mais rápido possível.
Alguém já quantificou o período ótimo para que o aluno seja reprovado? Acho que ninguém? Alguém verificou o mínimo tempo que ocorra o mínimo dano para o aluno? Ninguém!
Não sei que mentes luminares que estabeleceram o ano como o mínimo ou máximo necessário para que o aluno seja reprovado e retorne ao início.
Estamos com um falso problema, a questão é fazer o aluno apreender! Se ele for reprovado no fim de um ano de estudo isto levará com que o mesmo repetindo todos os conceitos deste ano perdido ele apreenda mais no ano que repete?
Na minha visão devemos retomar o assunto das bases, por que se toma um ano como uma referência? Não deveria ser levada em conta a maturidade do aluno? Não deveria ser diferenciada a necessidade de revisão conforme a capacidade e a velocidade de cada aluno.
Apesar de todos os pedagogos repetirem idéia de modernidade e de democratização dos métodos pedagógicos, o ensino é a estrutura mais retrógada da nossa sociedade. A idéia de cobrança anual do desempenho de alunos trata-se da estrutura mais antiquada da nossa sociedade. Modifica-se o modo de produção, das corporações as primeiras indústrias semi-artesanais, introduzem-se a linha de montagem e o “Fordismo”, ultrapassa-se a era dessas últimas e estamos já num segundo ciclo de forma de produção, entretanto as nossas escolas ainda estão na idade média. Aboliram-se, é claro a palmatória e outras punições físicas, mas basicamente se pegássemos um professor do século XVIII atualizado nos conceitos científicos e colocássemos dentro de uma sala de aula ele se sentiria em casa (sem a palmatória, é claro).
A discussão é dirimida da seguinte forma, não seria o ano escolar mais uma conveniência da sociedade do que uma necessidade pedagógica? Quem diz que os conceitos a serem dados devem durar exatamente um ano Gregoriano? Quem diz que uma criança entre seis a dez anos não precisa mais ou menos tempo do que isto para ter uma visão mais completa do que deve apreender? O que é alfabetização hoje em dia e o que era há duzentos anos atrás? Será que os conceitos a serem apreendidos “cabem” num ano? Serão dois ou três ou simplesmente dois meses!
O cerne da questão não está na temporalidade, mas no objetivo do ensino das séries iniciais. Ninguém questiona o ano como um período de avaliação. Propõe-se ciclos, mas não se diz o importante que a invenção do período anual é uma conveniência de todos exceto dos alunos!
Vamos procurar revolucionar o ensino a partir de questionamentos básicos e refutar os detratores desta revolução na sua base, ou seja o que é um ano?Q
Oi, Rogério

Você tem razao sobre o que disse, mas o essencial do tema "progressao continuada" nao é o fato de ensino ser seriado ou por ciclos, mas sim o uso da reprovação, que, num sistema de progressao continuada, seria substituída por apoio ao aluno, se necessário apoio individual, até que o aluno supere suas dificuldades. O que é bem diferente de "aprovação automática", em que os nossos caros políticos transformaram a idéia de progressao continuada.

Abçs (sentindo saudades de suas postagens mais freqüentes...)
AnaLú
Cara AnaLú
Vou insistir no cerne do que falei, pois sabendo que és uma militante na educação deves levar adiante em fóruns mais específicos o problema da escolha entre ensino seriado e por ciclos.
Tudo é uma questão de exclusão, se ela vai ser feita em um mês ou em cinco anos a diferença é quase semântica. Se não for feito apoio individualizado para crianças com histórias diferentes entre si, tanto faz como tanto fez, o resultado é o mesmo.
Mas Rogério, nao estou entendendo o seu ponto. Isso é exatamente o que eu falei... É preciso acompanhamento das crianças, individual se necessário (nao "aulas de recuperação"; conversas individuais com as crianças, atençao especial a elas). Reprovação nem anual, nem por ciclos; que cada criança possa ir fazendo o seu percurso na medida de suas possibilidades (mas acompanhada, para que possa superar suas eventuais dificuldades).

Um abração
AnaLú
Você é um gozador, sabia? Sabia, né?
Bjs
AnaLú
Olha, vou te dar um exemplo (que ouvi no curso sobre Alfabetização que segui no Instituto organizado pela ABRALIN) do quao simples e proveitoso pode ser o acompanhamento pessoal de um aluno. Uma pesquisadora foi fazer pesquisa qualitativa com alunos chamados de "renitentes", porque já tinham repetido mais de uma vez. Em conversa com um desses alunos, ela pediu que ele escrevesse a palavra livro. Ele colocou um L seguido de várias outras letras aleatórias. Ela perguntou a ele por que tinha escolhido aquelas letras. Ele repetiu a palavra alto, mostrou o L, e falou: L, está certo. Ela perguntou: e as outras letras? Ele olhou para ela espantado, e disse: é para continuar fazendo a mesma coisa? Acertou o resto, menos o R do vro, mas isso é difícil mesmo no início, porque é uma estrutura silábica nao canônica. Fantástico, nao é? O menino estava por uma linha do insight necessário para entender o princípio alfabético, bastou um empurraozinho da pesquisadora e ele foi.
Para os idealistas do ensino e para os não tão idealistas.
É quase um consenso que o ensino por ciclos produz menos exclusão que o ensino seriado, é sabido por quem é contra ou a favor do ensino seriado que quem não apreenderia repetindo várias vezes às séries iniciais se não tiver um apoio também não aprenderá no ensino por ciclos, então por que toda esta discussão?
Simples, discriminação e economia. Os defensores do ensino seriado são na maior parte aqueles que seus filhos se adaptam bem a qualquer tipo de ensino, pois provém de uma classe social mais favorecida. Ideologicamente falando vejo os defensores do ensino seriado nas hostes da chamada “direita”, por um simples motivo, por que investir durante seis anos numa criança que não vai apreender nada quando se pode expulsá-la da escola antes e colocá-la bem sendo no sistema produtivo?
A máxima liberal utilizada há cinqüenta anos atrás para justificar o trabalho infantil “é melhor trabalhando do que roubando” foi substituída por “é melhor trabalhando do que na escola sem apreender nada”, afinal das contas trabalhando ela está dando lucro e na estudando e não apreendendo ela é um custo social.
Não adianta tentarmos provar que o ensino, se bem executado, seriado ou por ciclos, produzem cidadãos. Conscientizar, dar cidadania aos menos desfavorecidos não é uma boa política. O ensino e a cultura liberta, e quem quer um povo livre?
Tem só um pequeno problema no raciocínio da exclusão, além de serviçais domésticos, a indústria e o comércio precisam de pessoas com um bom grau de escolarização, diga-se de passagem, que setores conservadores mais modernos vêem a necessidade de mão de obra mais qualificada, de preferência ensino técnico para ingressar logo no mercado de trabalho e não tirar os empregos de nível superior dos filhos dos iluminados.
Pessoal, voltando a participar desse espaço...sou professor também do estado, desde 2003 (concursado em 2006). Eu tenho notado no discurso de supervisores (as), diretores (as), que a progressão continuada está sendo feita principalmente para que os alunos não desistam da escola. Aqui nesse vídeo (http://noticias.uol.com.br/uolnews/brasil/aovivo/playeruol.htm) o ministro chega a falar: "De cada 3 jovens (meninas) que deixam a escola uma engravida" Demonstrando nessa fala e em outras "Um ano de escola faz muita diferença na vida da criança" . Mostrando nitidamente que eles pensam pequeno, apenas deixar que a criança fique na escola, (não importanto muito em quais condições) em contato com os professores já é o suficiente para que a criança tenha um futuro melhor. Isso está gerando um clima complicado, pois não se tem mais os "instrumentos de repressão" que ajudavam a manter a ordem. Teoria da curvatura de vara. Antes conseguíamos manter com disciplina (maus tratos?) agora teremos que conquistar o respeito dos alunos e isso vai levar tempo...muito tempo. A orientação inclusive para transferência (expulsão) é diminuir, evitar ao máximo..
A vara está do outro lado...agora..estou na sala dos professores escutando como está difícil dentro da classe...45 alunos..também dificulta...
Abraços..

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