Uma das mais belas músicas brasileiras é Manhã de Carnaval. Foi composta por Luís Bonfá para o filme Orfeu Negro, em 1959. A maioria das músicas compostas para o filme foram de Tom Jobim e Vinícius, mas a de Bonfá foi a que se tornou mais conhecida.

Em uma pesquisa de anos atrás, se não me engano, os compositores brasileiros mais gravados fora do país são Antônio Carlos Jobim e Ivan Lins. No reperório jazzístico, pelo menos, isso é fato. Sem falar de Jobim, aparentemente, Ivan Lins tem mais prestígio lá fora do que aqui. Suas músicas foram interpretadas por Sarah Vaughan, Dianne Reeves, Jane Monheit, Neena Freelon, Carmen McRae, Denny Zeitlin, Shirley Horn, Ran Blake, Geoff Keezer e Steve Kuhn (cito apenas as contidas nos CDs que eu tenho). Como diria certa personagem de novela, “não é brinquedo, não.”

Outros compositores como Djavan, Marcos Valle, Milton Nascimento e Luiz Bonfá estão entre os bem- representados no mercado americano. Não contando Ary Barroso, Dorival Caymmi e Zequinha de Abreu (Tico-Tico no Fubá), Bonfá e Jobim são os primeiros a ganhar certa notoriedade com a eclosão da bossa nova. Bonfá foi, inclusive, um dos primeiros a mudar-se para lá. Outros foram Laurindo de Almeida, Tom Jobim, João Donato, João Gilberto, Astrud Gilberto, Moacir Santos, Bola Sete, Eumir Deodato, Flora Purim, Marcos Valle e Sérgio Mendes, que explodiu com o seu Brasil ’66. Um contingente enorme de percussionistas emigraram, casos de Paulinho da Costa, Naná Vasconcelos, Do Um Romão, Eumir Deodato e Cyro Baptista. Esses dominaram por muito tempo os polls dos melhores segundo a crítica.

Há belas gravações pátrias de Manhã de Carnaval. Os destaques são as de Agostinho dos Santos e João Gilberto. Lá fora foi gravada por Caterina Valente, Modern Jazz Quartet, Jack Wilkins, Toots Thielmans, Ray Brown e Jimmie Rowles, Stan Getz, Patricia Barber, Lee Konitz, Susannah McCorkle, Dexter Gordon, Al DiMeola, Paco de Lucia, John McLaughlin, Tuck and Patti, George Cables, Paquito D’Rivera, Gonzalo Rubalcaba, Quincy Jones, Tete Montoliu, Johnny Smith, Jacintha, Cassandra Wilson e John Lewis.

Los Zafiros, em Moscou, 1965
Peculiar é a interpretação de Manhã pelo grupo vocal cubano. Seguindo os moldes de formações vocais como os Platters (no Brasil, tivemos os Golden Boys), Los Zafiros, formado em 1962.

Conjuntos vocais não eram novidade na década de 1960. Antes, bem antes, existiram as Andrew Sisters, The Four Freshmen e os Hi-Lo’s. Em Cuba, antes da ascensão de Fidel Castro, ainda na época de Fulgêncio Batista, e o país era paraíso dos cassinos e “quintal” dos EUA, havia um conjunto vocal conhecido, constituído apenas de mulheres, o Cuarteto d’Aida. Mais nos moldes do Platters e menos dos conjuntos vocais de inspiração mais jazzísticas, surgiram Los Zafiros, que segundo a lenda, teve esse nome por conta de um anel de safira que Néstor Milí, um dos criadores do conjunto (nem chegou a fazer parte dele, sendo mais um dos mentores), usava e foi vendido para custear as roupas que usariam nas apresentações.

O coração do conjunto eram Ignacio Elejalde, que cantava em falsete (um pré-Ney Matogrosso), El Chino, Kiki (Leoncio Morúa), e Miguelito. Os quatro faziam as vozes e Manuel Galbán tocava violão e guitarrra e era o diretor musical. Foram sucesso imediato em Cuba e passaram a excursionar frequentemente em outros países, “coincidentemente”, quase todos da Cortina de Ferro (tocaram em Paris e em Berlim).

O sucesso pesou. Irresponsáveis e beberrões, o único ajuizado, era Galbán. E assim, o conjunto foi se esfacelando. Ignacio Elejalde morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral, quando tinha 39 anos; Kiki morreu de cirrose hepática; Chino teve uma série de problemas de saúde que afetou sua voz e a vista, e faleceu em com 56 anos. Miguelito era o que bebia menos. Sobreviveu e mudou-se para Miami em 1993 e trabalha como músico.

Na ativa, sobrou Manuel Galbán. Fez parte do Buena Vista Social Club e gravou um disco em que divide os créditos com Ry Cooder, Mambo Sinuendo (2003).

Uma nota final. Quando excursionavam na Europa, apresentaram-se no Olympia de Paris. Chino conta que os Beatles resolveram ficar mais uma semana na cidade para vê-los. Ficaram encantados com a voz de Ignacio e até examinaram sua garganta. “John Lennon conversou um tempão comigo. Ele tocou meu cabelo. Eu toquei nos seus cabelos. Eles eram realmente uns cavalheiros”, disse Chino em uma entrevista, em 1991. Parece fantasiosa; será verdade?

Ouça Manhã de Carnaval – ou Canción de Orfeo – com Los Zafiros. Preste atenção na abertura e na voz de Ignacio. No fim da gravação, não podia faltar, tem uma batucada, daquelas, mas nem tudo é perfeito nesse mundo.



Há um registro no YouTube de Los Zafiros cantando Cuando lo conocí. Veja em https://www.youtube.com/watch?v=b1OmzOHNcIs&feature=related

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Respostas a este tópico

guen,

nossa, como eu acho esta música linda. concordo com você, sabe. é das músicas mais tudo do mundo.

e por que ela é tão linda? ela é triste (poderiam mesmo ter nos privado aquela batucadinha final... soa ridícula, até, mas como perdoa-se), ainda que celebre uma nova manhã, né?

 

mas vc esqueceu desta interpretação:

Boas lembranças. Vi o último show que a Nara fez em São Paulo. No ano seguinte, morreu. E a Elizeth é sempre demais.

e esta beleza aqui?

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