Infelizmente, Bach, Mozart, Handel e todos os compositores que não viveram do século XX em diante puderam registrar suas composições em discos para que pudéssemos conhecê-los como intérpretes. Não estivemos na estreia da ópera Salomé, de Richard Strauss, em Dresden, nem pudemos presenciar o choque da apresentação da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, em Paris. Como o russo era um jovem nessa época, pôde usufruir a revolução impetrada por Thomas Edison, gravando a maioria de sua obra pela gravadora americana Columbia. Assim, pudemos ter a experiência de conhecê-lo como intérprete de si mesmo. É uma experiência e tanto, ainda mais por ver que nem sempre um compositor é o melhor intérprete de si; ou talvez por ficar claro que “a criatura” pode suplantar o criador.

Num degrau abaixo, se considerarmos a música erudita como um produto da alta cultura e a popular, da média ou baixa cutura, o fenômeno é o mesmo. Os grandes criadores da música americana do século XX – Cole Porter, Richard Rodgers, Irving Berlin, George Gershwin, para citar alguns – eram compositores, antes de mais nada. Johnny Mercer, Hoagy Carmichael e até Cole Porter chegaram a gravar composições próprias, mas nada que pudessem ser comparadas aos registros de Frank Sinatra, Tony Bennett, Billie Holiday ou Sarah Vaughan. Compositores compunham e cantores cantavam. Essa foi a tônica desses clássicos.

Numa outra vertente temos os compositores/cantores, fenômeno mais evidente a partir dos anos 1960. Uma exceção são os cantores de blues, cujas composições são indissociáveis às suas próprias interpretações. Canções compostas pelas duplas Lennon & McCartney e Jagger & Richards poderiam ser assim consideradas também. As das estrelas solitárias Bob Dylan, Leonard Cohen, Jimi Hendrix e Joni Mitchell, idem. A citação desses nomes não é acidental. Todos eles têm sido gravados por outros cantores e cantoras com certa frequência.

Algumas composições de Joni Mitchell e Leonard Cohen, nos últimos anos, têm sido tão gravados que podem ser rotulados como standards da moderna música popular, decerto, nem tanto quanto um Summertime ou Night and Day, mas devemos observar que são bem mais antigas. Hallelujah, Take This Waltz e I’m Your Man foram cantadas tanto por intérpretes mais ligados ao jazz como à vertente pop. O mesmo acontece com A Case of You e River, de Mitchell.

Foram gravados alguns álbuns com o repertório da canadense bem interessantes. Um muito bom é um em que k d lang homenageia seus conterrâneos Jane Siberry, Neil Young e como não podiam faltar, Cohen e Mitchell: Hymns of the 49th Parallel (Nonesuch, 2004). Tribute to Joni Mitchell (Nonesuch, 2007), do qual participam Caetano Veloso, Elvis Costello, Björk, Sufjan Stevens, Prince, Brad Mehdau, Emmylou Harris, k d lang,, Annie Lennox, Sarah MacLachlan, James Taylor e Cassandra Wilson – sem dúvida um elenco muito variado – é um tanto desigual. O destaque é a versão de Veloso para Dreamland, música não muito conhecida do LP duplo (é; é daquele tempo) Don Juan Reckless Daughter (Elektra, 1978), vibrante e uma visão personalíssima do brasileiro.

Mais recentemente, foi lançado o CD River: The Joni Letters (Verve, 2007), em que o pianista Herbie Hancock toca acompanhado de Luciana Souza, a própria Mitchell, Leonard Cohen, Norah Jones e Corinne Bayley Rae. Essa última “ataca” um River de arrepiar (leia sobre o disco e ouça Bailey Rae em http://bit.ly/jR7xrK).

Muita classe de De Vito cantando Joni Mitchell
Como todo curioso acha – até o que não deve achar – descobri, faz pouco tempo, um CD de Maria Pia de Vito, tributo à Joni Mitchell: So Right (CAMJazz 2005). A italiana é acompanhada pelos conterrâneos Danilo Rea (piano), Enzo Pietropaoli (baixo) e tem como convidado especial o baterista Aldo Romano. 
Num universo nem tão vasto como o americano, o italiano é pródigo em grandes instrumentistas. Enrico Rava, Stefano Bollani, Paolo Fresu e Stefano Di Battista são bem conhecidos fora da Itália. Alguns nem tanto, como os três que acompanham Maria Pia e a pianista Rita Marcotulli, estão na proa do cenário da música instrumental. Há também instrumentistas “diferentes” – pelo tipo de música que extrapola um pouco a linguagem jazzística – como o pianista Stefano Battaglia e o clarinetista/saxofonista Gianluigi Trovesi, ambos atualmente gravando pela alemã ECM, que são excepcionais.

Maria Pia tem carreira consolidada não apenas como cantora ligada ao jazz. Entre 1994 e 97, com a pianista Rita Marcotulli dividiu um projeto – Nauplia – calcado na música napolitana; faz algumas incursões cantando e se acompanhando com instrumentos eletrônicos. Gravou dois discos com o violonista americano, cocriador do excepcional Oregon, Ralph Towner, e o pianista inglês John Taylor (Verso e Nel Respiro). Colaborou também com o canadense Kenny Wheeler, Joe Zawinul, Michael Brecker e Steve Turre. Resumindo, é do meio.

So Right é um tributo a Joni Mitchell, mas tem quatro canções da lavra de Maria Pia e seus parceiros. A música-título, composta por Pietropaoli é maravilhosa. A outra é Miskin, bem experimental e climática, em que ela cria ambiência com instrumentos eletrônicos e os funde com a voz e com um som percussivo em motivos repetitivos e o piano em acordes ascendentes e descendentes em vaivém. Essa música, como The Sweetest Medicine, aparentemente, foi composta pensando-se na “forma de fazer” da canadense.

Das que são do repertório de Mitchell, várias são excepcionais; algumas nem tanto, pois se diluem em experimentalismos – caso de Big Yellow Taxi, God Must Be a Boogie Man e Woodstock – sem querer que não sejam boas. Quando canta sem “inventar”, demonstra domínio absoluto em seu mister e interpreta magnificamente Amelia, River e A Case of You.


Maria Pia De Vito perfeita em River, em A Case of You, e Amelia.





A bela So Right, música de Pietropaoli


Curiosidade: Maria Pia andou por terras baianas em 2007. Vi na internet.

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Respostas a este tópico

e haja melancolia, hein, guen?

não consigo julgar se a criatura suplanta o criador, neste caso. mas esta maria tem voz de timbre doce, afinado e... sente-se o coração. gosto disto.

 

e a case of you, com o criador, a criadora, é isto? delicado, guen.

Sou fã de carteirinha da Joni Mitchell. Adoro interpretada por outros(as), mas confesso, tendo a achar os dela as melhores.

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