Martha Argerich, ou o que são e o que achamos que são

Temos o costume de colocar os gênios em panteões. Assim, tornam-se inatingíveis e guardamos uma distância respeitosa e, ao mesmo tempo, temerosa. E o medo faz coisa. Ninguém é deus e muito menos, inatingível. A revelação dos deslizes do ídolo do golfe Tiger Woods, em atitudes absolutamente humanas – traía intencional e determinadamente sua esposa com mulheres menos belas que ela e com profissionais do sexo –, fez com que, de quase deus virasse o que, no fundo, todos são: “ordinários”, no sentido da palavra em inglês, que significa “simples”. Sim, simples humanos.

Sim, gênios são peculiares e, incluídos nesse gênero, os prodígios. Em algumas especialidades as tendências manifestadas cedo são essenciais ao posterior desenvolvimento de suas características especiais. Mas não basta o prodígio. Mais que ele é preciso muita disciplina e treino. No tênis, para citar um caso célebre, temos o de Björn Borg, que, prematuramente, aos 26 anos abandonou as quadras para viver a “high life” a que todo milionário poderia se permitir. Descobriu que, além da férrea disciplina a que era submetido, “lá fora” existiam mulheres lindas, drogas e muita festa. Outro tenista, “muy” amigo, Vitas Gerulaits, foi um dos responsáveis por esse “desvio” em sua vida. E, afinal, não foi muito feliz nesse “novo mundo”. Gastou todo o dinheiro que ganhou, entrou em empreendimentos que lhe custaram a falência e tentou o suicídio uma vez.

Esse caso de desvio, por outros caminhos, aconteceu com o maior enxadrista brasileiro de todo os tempos, Henrique da Costa Mecking, o “Mequinho”, terceiro no ranking mundial. Conheceu o ocaso por conta de uma doença rara – a miastenia – e algumas excentricidades toleradas apenas nos gênios.

Argerich, grande virtuose, grisalha e feliz

No entanto, é na música que o pendor parece indispensável, principalmente no piano. A maioria dos grandes virtuoses deste instrumento mostrou seus talentos muito cedo, alguns com apenas três anos de idade. É o caso do brasileiro Nelson Freire. O mineiro, que grava pela Decca, uma das maiores do repertório clássico, é hoje um dos maiores pianistas vivos. Acontece o mesmo com sua grande amiga, a argentina Martha Argerich.

Dizem que genialidade não escolhe lugar para nascer. Pode sugir um gênio musical nos confins da mata amazônica? Pode ser? Improvável? E depois, nada acontece se não houver um pequeno “empurrão” do destino… ou do governo. Um caso exemplar – vamos ficar circunscritos à América Latina – é o de Claudio Arrau. Prodígio – fez sua primeira apresentação pública com cinco anos –, filho de família tradicional, com menos de dez anos, foi enviado junto com sua mãe – o pai morreu quando tinha um ano –, financiado pelo governo chileno, para estudar na Alemanha com Martin Krause. Isso se deu nos anos 1910.

Bom tempo depois, sucedeu-se algo parecido com outro prodígio: Martha Argerich. Juan Perón, presidente à época, subsidiou sua ida para a Europa para estudar com Friederich Gulda na Áustria, empregando seus pais em embaixadas. Até hoje, de uma geração de ouro em que se destacam Maurizio Pollini, Alfred Brendel, András Schiff, Stephen Kovachevich – que era Bishop e trocou o nome por causa de um astro de rock homônimo – e o brasileiro Nelson Freire, a argentina é pianista do primeiro time.

Está disponível no mercado brasileiro o belo documentário Martha Argerich – Conversa Noturna, de 2003, direção de Georges Gachot, pelo selo EuroArts, que, desde o ano passado, está lançando uma série de títulos de música clássica no mercado brasileiro. Vemos os gênios como pessoas inatingíveis, como disse inicialmente. A Martha que imaginei, deveras, não existe. Aquela mulher que tinha um certo ar existencialista, com bastos cabelos negros, olhos levemente amendoados, fumante, era a “dama inatingível”. É possível que essa imagem tenha se sedimentado por conta do incidente em que, como protesto, abandonara o júri de um desses concursos de piano, quando um competidor, o croata Ivo Pogorelich, fora eliminado. Dizendo que Ivo era um gênio, foi embora. Parecia atitude de “prima-dona”.

No documentário de Gachot, essa impressão vai embora. Primeiro pelo seu jeito de “não estar nem aí” para a aparência visual. Em vez da senhora cheia de “pancake” no rosto, de cabelos cuidadosamente cofiados, estamos à frente de alguém que não se preocupa em tingi-los e muito menos de penteá-los mais cuidadosamente. Suas mãos – invariavelmente belas, produzem sons tão sublimes – carecem de nuanças que as enfeitem. Sem um traço de maquiagem, fala, e muito. É um susto. Achava até que não falava! Conta histórias engraçadas como a de Friederich Gulda que, ao conhecer o inexcedívell jazzista Erroll Garner, disse-lhe que seu piano lembrava a música de Ravel. Erroll respondeu: “Quem é esse cara?”. Mais ou menos assim.

O aparente “estrelismo” se explica pela timidez. Imagine-se uma menina de pouco mais de dez anos fora de sua terra natal, viajando sem parar, sem poder fazer amigos ou brincar como qualquer criança. É o sacrifício dos gênios. A quase criança, com dezessete anos sentia-se uma mulher solitária de 40. Argerich sobreviveu à disciplina a que se submeteu e parece feliz tocando piano. É o que passa o bom documentário de Gachot.

A naturalidade das mãos de Argerich passeia pelas teclas do piano em suave dança, enérgicas quando necessária, pelas composições mais difíceis de Liszt, de Prokofiev, por atmosferas diáfanas como a de Mamãe Gansa – que toca a quatro mãos com Nelson Freire –, de Ravel, são pura magia. Se o homem normal vir alguns objetos como inatingíveis, os gênios também. Martha, logo no início do documentário, fala de quando foi assistir a uma apresentação de Claudio Arrau, bem menina, com sua mãe: “Foi a emoção mais forte que senti com a música. Eu tinha seis anos, lembro-me bem. Foi com o 4º de Beethoven [4º Concerto para Piano e Orquestra, op. 58]… que eu não toco.” Pois é, Martha nunca tocará esse que, com o terceiro, são dos mais belos de todo o repertório bethoveniano.

 


Veja e ouça:

Ravel – Jeau d’eau.

 

 

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Respostas a este tópico

você nos alumia o coração. e eu ajudo... trazendo o vídeo...

 

guen, uma vez vi um vídeo dela com o nelson freire... e ela dava uma bronca nele pela sujeira do piano e o ensinava a limpar, com um pano levemente umidecido com álcool... mulheres... todas iguais... maravilhosas, né?

 

se achar o vídeo coloco aqui.

 

mas este é desta martha (aqui com nelson freire) ambos com cabelos grisalhos. e, de fato, com estas mãos, prá que disfarçar o que todos sabem?

 

 

 

Eles se conhecem desde criancinhas e agem como irmãos, praticamente. É muito legal a intimidade que existe entre eles. Acho que tem um trecho que passa isso no documentário do Nelson Freire.

Aluna do genial Gulda, não poderia seguir outro caminho, como Abbado.


http://www.youtube.com/watch?v=sZcj5yjLyEQ&feature=related

 

 

Há essa gravação em vídeo com Nelson da mesma maravilha:

 

   

 

Com os filhos de Gulda , o Concerto para 3 pianos (Mozart), é lindo:

 

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