Mercado da auto-ajuda vende individualismo e falsa felicidade




Como alcançar sucesso profissional? Como enfrentar as mazelas da vida mantendo sempre um “pensamento positivo”? Qual a fórmula para se atingir um absoluto autocontrole da mente? Como se libertar da timidez, da ansiedade, do medo e do estresse cotidiano? Ou ainda como conquistar amigos e amantes? Promessas sedutoras como essas têm garantido público cativo para os chamados “gurus da auto-ajuda”, que vendem milhares de livros e se transformam em estrelas, lotando auditórios pelo país afora, sempre com ingressos a um alto custo. Dentre eles, encontramos profissionais de diferentes áreas, como Psicologia, psiquiatria, medicina, economia etc., invariavelmente oferecendo técnicas persuasivas que prometem tornar melhor a vida daqueles que as cumprirem “fielmente”.

Dados da Câmara Brasileira do Livro – CBL – mostram que no ano 2000 o segmento das “obras gerais”, no qual se inserem os livros de auto-ajuda, cresceu 7%. Entre 1997 e 1998, as vendas desse segmento dobraram, passando de 1,1 milhão para 2,1 milhões de exemplares vendidos. Em 1994, elas não ultrapassavam a 411,9 mil exemplares. Sedutoras justamente por garantirem, de um modo fácil, rápido e acessível, a realização de desejos e a solução de problemas comuns a todos nós, essas “técnicas de auto-ajuda” não têm na maioria das vezes qualquer comprovação de suas eficácias. De concreto, sabe-se apenas que seus criadores ajudam bastante a si mesmos, engordando suas contas bancárias. “Todo discurso de auto-ajuda é fundado na idéia de que é somente preciso acreditar que aquilo que se quer pode acontecer. Essa é uma idéia bastante primária e primitiva, na medida em que se baseia em um pensamento do tipo místico, ou seja, um pensamento fundado em crenças tais como as das religiões”, comenta Leliane Gliosce Moreira, membro da Comissão de Orientação do CRP SP. Não é portanto por acaso que os livros de auto-ajuda são geralmente classificados, nas estatísticas de vendagem, ao lado dos de esoterismo.

 

A maioria das publicações de auto-ajuda baseia-se na valorização da estima do indivíduo, pregando a idéia de que o sucesso depende de ações que estão ao alcance de todos, contrariando a própria realidade econômica e culturalmente competitiva e desigual de nossa sociedade. A facilidade prometida por essas técnicas é atraente, fazendo com que os leitores percam o senso crítico e desconsiderem a falta de fundamentação. Não poucas vezes, os criadores dessas supostas “técnicas” pretendem passá-las por científicas, urdindo uma espécie de pseudopsicologia “de bolso”, que afetam e interferem diretamente na área de atuação da Psicologia. Autor do livro “A Ilusão no Discurso de Auto-ajuda e o Sintoma Social” (Editora Unijui-1999), o psicólogo gaúcho Arnaldo Chagas estuda o assunto desde 1996 e concorda que “o discurso de auto-ajuda funciona, em geral, de forma semelhante ao discurso religioso: evoca certezas, não lida com dúvidas, vulnerabilidades ou insuficiências humanas”. E ele não tem dúvidas de que os supostos “efeitos da auto-ajuda são imaginários. Essa literatura funciona como um ‘doping psíquico’ e seus efeitos perduram até o próximo fracasso”, argumenta o pesquisador, que no ano passado concluiu, pela UFRGS, uma tese de mestrado sobre “O Sujeito Imaginário no Discurso de Auto-ajuda”.

 

Opiniões mais tolerantes entendem que o discurso de auto-ajuda funciona, no máximo, como um reforço positivo que tem uma penetração superficial no indivíduo. “Em linhas gerais, isso é inocente e pode ser eficaz, porque de fato permite a ultrapassagem de uma série de inibições e dá força e coragem na vida e nas relações sociais”, avalia Contardo Calligaris, psicólogo, psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo. Os especialistas divergem sobre as conseqüências que as “técnicas de auto-ajuda” podem causar em seus usuários. Para Arnaldo, elas são inconvenientes e subordinam ao caminho do desamparo e da solidão, “o que – como é do conhecimento de qualquer psicólogo – tem um custo muito alto para o ser humano”.

Já Calligaris não crê que seus efeitos sejam tão graves. “Eu não fico muito preocupado com as conseqüências negativas desse tipo de leitura. Minha impressão é de que as pessoas passam de um método de auto-ajuda para outro com muita facilidade e isso significa que não acreditam em um único método como a última palavra para a sua salvação. As pessoas lêem com interesse, mas pegam relativamente leve. Eu acho que fica para cada pessoa uma série de pequenos achados em cada método, compondo uma espécie de auto-ajuda pessoal”, conclui. A ciência psicológica e as chamadas “técnicas de auto-ajuda” encontram vários pontos de contato, assim como de atrito. A principal identidade está na idéia central de que o melhor caminho para que as pessoas se entendam melhor e, assim, superem dificuldades e se desenvolvam está na “meritocracia”, ou seja, na compreensão de que as respostas de que precisamos estão contidas em nossas subjetividades. Porém, as diferenças são bem maiores que as semelhanças. “A Psicologia é uma ciência que se baseia no estudo científico de comportamentos e emoções humanas, não podendo oferecer soluções simplistas, pois deverá analisar o psicológico na sua interface com o social. As técnicas de auto-ajuda supõem ser necessário somente um esforço pessoal e o desenvolvimento do interior do indivíduo que queira se transformar, não havendo consideração sobre as interferências do social, tanto para o sucesso como para a derrota”, comenta Leliane Moreira. Para Contardo Calligaris “a diferença fundamental é que no contato com os livros de auto-ajuda os recursos conseguidos são muito poucos se comparados com os recursos que o sujeito pode encontrar em si mesmo, por meio de uma psicoterapia. Além disso, esses recursos são mais difíceis de ser encontrados até por serem mais numerosos. Em geral o que pode ser dito na auto-ajuda é um reforço”, define.

Outra questão central é até que ponto essas “técnicas de auto-ajuda” podem interferir ou mesmo atrapalhar o trabalho dos psicoterapeutas. “A auto-ajuda, para se tornar mais consistente ao seu público, usa e abusa dos conceitos teóricos e técnicos das ciências psicológicas, banalizando-os e, muitas vezes, distorcendo-os”, afirma Leliane Moreira. Para a conselheira do CRP SP, a diferença entre a intervenção de um “guru” da auto-ajuda e a de um psicoterapeuta está “no fato de que o primeiro supostamente já sabe tudo o que se passa nos indivíduos. Espera-se que ele possa ser uma espécie de oráculo. Já o psicoterapeuta é um profissional que investiga, que pergunta, que busca saber e conhecer e que, portanto, não sabe de imediato, mas saberá através do ‘outro e com o outro’. Por isso, psicólogos que produzem auto-ajuda já se distanciaram do fazer psicológico”, defende. Arnaldo Chagas considera “o psicologismo casuísta de auto-ajuda nocivo, porque propõe soluções milagrosas e imediatistas para qualquer problema e para qualquer pessoa. Em se tratando de problemas humanos, tudo aquilo que contém receitas milagrosas é suspeito de seriedade. Isso poderá embaraçar as pessoas diante de um processo terapêutico sério e, na maioria das vezes, lento”, conclui.

Mas a principal oposição entre o discurso de auto-ajuda e a Psicologia está no compromisso social. As “técnicas de auto-ajuda” pretendem passar receitas de como progredir profissionalmente, financeiramente e priorizam um narcisismo exacerbado em detrimento da uma vida em sociedade, no que espelham o modelo individualista competitivo estimulado pelo capitalismo neoliberal. “Se as pessoas estão individualistas e isoladas, a literatura de auto-ajuda é, ao mesmo tempo, produtora e producente disso. Produtora, pois propõe a resolução dos problemas do indivíduo pelo próprio indivíduo; e producente, porque absorve aquilo mesmo que produziu; ou seja, é exatamente esse público que consome o discurso da auto-ajuda”, comenta Leliane. No contexto da “auto-ajuda”, o outro assume o papel do concorrente ou da “coisa” a ser conquistada. Contardo Calligaris ironiza esses efeitos, afirmando que nas técnicas sobre como fazer sucesso, avançar no emprego etc. o cinismo é um componente essencial. “Mas você acha que alguém segue isso? É difícil ensinar alguém a ser cínico.” Arnaldo Chagas não poupa a auto-ajuda em seu caráter alienante. “O ‘psicologismo’ da auto-ajuda contrapõe-se a qualquer Psicologia que possua um compromisso coletivo, pois ele reforça o individualismo em detrimento dos laços sociais. Isso significa dizer que as pessoas são cada vez mais incentivadas a se preocuparem consigo mesmas”.


http://www.crpsp.org.br/crp//midia/jornal_crp/126/frames/fr_socieda...




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adorei a D. Ana: seja vc mesma quá...

Calligaris é o que achava que feminismo não tinha mais razão de ser e só percebeu que sim no caso da Geisy.

E auto-ajuda pode ser cruel: ficou doente, sofre dores humanas: culpa SUA....

SE fizesse como deve ser feito, nirvana...
Cabocla se fosse sério e valesse para que existir médicos, psicólogos e pesiquiatras?
Bas ta fazer como as sardinhas aí da foto.kakakaka
Beijão
Calligaris é auto-ajuda pra classe media alta, qua ! Já briguei com esse sujeito por email,quando ainda lia a Falha, é um grosso.
Calligaris é caso típico de AUTO AJUDA MESMO - ele se ajuda um monte escrevendo bobagem e cobrando uma fortuna dos pacientes...
Marise, este assunto é tão sério, como é o das religiões, tudo meramente "individual" é uma pena ver tantos livros de auto ajuda, os únicos que lucram são as editoras e escritores(as). Que pena!!!
Stella, os escritores de livros de auto ajuda estão milionários. Infelizmente as pessoas procuram o mais fácil e são enganadas.
beijo
auto ajuda é como oração: serve prá você rezar, ali baixinho. o problema é que esquece que o sujeito tem que acordar e encarar a dura realidade dos fatos e dos homens. fatos e homens reais. aí se lasca todo mundo! e haja livro e haja analistas... e quem enrica são os editores e alguns sortudos escritores.

"orar" e esquecer de lutar: este é o perigo!
Luzete é verdade. É mais fácil rezar e ficar esperando milagre. Lutar para enfrentar as lutas normais da vida é mais difícil para quem não quer enfrentar esta luta.
Beijos
Olá,sou novata aqui!
Mas posso te afirmar ,acho uma babaquice esta coisa de auto ajuda ,acredito que basta a pessoa gostar de sí própria para lhe fazer o bem,buscando ter sempre pensamentos positivos,muito amor próprio e um espiritu querreiro!
Conheço muita gente insatisfeita com a vida,invejando o sucesso de quem trabalha e colecionando livros como do Dr. Lair Ribeiro e outros,depois as coisas ñao dao certo e ficam depressivas e compram outro pra ver se vai funcionar rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsr
Márcia eu também acho babaquice. Aloás não suporto nada que seja com o rótulo de auto ajuda. Isso é o que eu penso. O que acho é o que disse para a Luzete. Tem-se que lutar para enfrentar as agruras normais de uma vida inteira. Só assim podemos ter momentos felizes. Porque a vida é feita de momentos bons e ruins. E não ha livro ou qualquer outra coisa que mude isso. Só indo a luta para vencer os momentos ruins. E ter coragem para isso.
Beijos
Marise, o que gostei mais foi dessa charge das sardinhas, do Allan Sieber.É muito boa!
Aquela charge diz tudo, não Beth? Eu também gostei demais. Só a charge já serviria.
Beijão

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