É diálogo, tudo bem?
Evidentemente, por tudo o que Zezinha tem manifestado anteriormente, é essencial definir que o quebra-pau ferrenho é sempre contra fiesps, febrabans, pássaros de variadas plumagens e democratas-fake travestidos de Eikes ou Kátias.
O que não impede umas cutucadinhas entre nós, certo? Pensar livre é tentar enxergar alem do maniqueísmo, colocar questões de ordem, encher o saco uns dos outros, antes de botar o bloco 2010 na rua.
Caríssima Maria Dirce, suas considerações permanecem pra lá de válidas, valentes, bem coerentes ao que você sempre defendeu. Edmar, assinamos de peito lavado o abaixo-assinado. Entre nós sempre há de valer respeito e diálogo, mesmo puntualmente divergentes.
Então, lá vai.


Não conheço em profundidade a biografia do Sr. César Benjamin, não acompanhei de perto sua trajetória, não sou chegado dele, como alguns comentaristas do portal afirmam ser; mas, pelo que li anteriormente e pude me informar sobre a história de sua militância política, compromissos ideológicos e qualidade intelectual, tudo me leva a olhar o Sr. César Benjamin, a sua história de vida, sob o prisma de seriedade e coerência; alguem a se respeitar.

O artigo/depoimento que escreveu à Folha de São Paulo (Os Filhos do Brasil) produziu, como não podia deixar de ser, aguerrida polêmica. Texto que carrega, simultaneamente, de modos explícito e conflitivo, ambiguidade de motivações; de ordem pessoal tanto quanto ideológica (e não nos esqueçamos que ambiguidade é estrutura inerente ao aparelho psíquico humano, conforme está cansada de nos ensinar a psicanálise).

O texto tem duas partes distintas:

1. O Sr. Benjamin relata, em linhas gerais, a sua experiência como preso político durante o regime militar, desde os 14 anos de idade, metade do tempo em solitária e a outra metade interagindo com criminosos comuns.

Era adolescente à época, e o que destaca no seu texto é a forma como foi tratado pelos outros prisioneiros, “experientes”, que respeitaram sua integridade física, sexual e moral, desenvolvendo com ele relações de camaradagem e solidariedade.

2. Depois disso, relata sua participação na campanha Lula de 1994 e relembra uma história (supostamente) contada pelo Presidente Lula em tom jocoso e politicamente incorreto, típico das tantas histórias puxadas no cansaço estressante do corpo a corpo e contato com marquetólogos; na necessidade humana de descontração.

História que deve ter chocado o Sr. Benjamin de modo particular, e peculiar, por ativar mecanismos psiquicos profundos de empatia e projeção afetiva/sexual, por haver vivido situação quase análoga à do garoto da história que (supostamente) ouviu da boca de Lula, talvez em tom de blague ou piada. O caráter moldado em prisões desde a adolescência provavelmente não questionou a possivel inverossimilhança da narrativa; de resto, prática corriqueira em delegacias e presídios, e até mesmo incentivada por policiais, carcereiros e companheiros de cela.

O que não se pode ter certeza é quanto às particularidades e nuances do contexto em que a história foi contada. Já se passaram 15 anos, e sabemos todos como a memória é seletiva, tendendo a reinterpretar à luz do psiquismo peculiar daquele que rememora; e tal tema deve ser extremamente sensível a alguém submetido às pressões psicológicas pelas quais passou o Sr. César Benjamin.

O episódio, se realmente contado por Lula, em seu contexto mais específico, pode assumir caráter mais de gracejo ou piada grosseira (que geralmente exagera/estiliza a verdade), ou de confidência arrogante típica, e aí sim (apesar de não gostar de utilizar a expressão, mas é inevitável): machismo.

É a dúvida que sempre gira em torno desse tipo de debate, e por isso mesmo o Sr. Benjamin assume enorme risco, pois não pode apresentar provas do ocorrido e jamais se chegará à verdade cristalina, restando eternas dúvidas em relação aos mecanismos psíquicos que determinaram o depoimento, bem como a decisão política de torná-lo público justamente neste momento. Afinal, há modos legais de Lula se defender e processar o Sr. Benjamin, e a Folha de São Paulo, por extensão, até a quinta geração, não?

Mas, até aí são incertezas sobre a natureza pessoal em relação ao Sr. Benjamin, que interessariam mais em uma perspectiva psicanalítica sobre o conhecimento dele de si próprio.

O que ressalta como mais importante, porque concreto, racional e político, é o que vem expresso nesse texto, inserido dentro de um conjunto de apreciações críticas (juízos de valor fora) do filme “O Filho do Brasil”. Eis o ponto-chave.

O que o Sr. Benjamin tenta traçar é uma crítica à apologética com tintas de culto à personalidade revestida de sentimentalismo catártico, a mitificar, maniqueizar e despolitizar um personagem, omitindo/atenuando tensões, conflitos, ambiguidades e características problemáticas inevitáveis a todo (alguém aí escreveu) “animal político”. Escamoteia, por assim dizer, fatores que constroem as contradições e as contribuições de um sujeito político representante de um processo essencialmente coletivo e social, substituindo-o cinematograficamente por um ser superior, moralmente irretocavel, que irradia por si legitimidade para tutelar (e compreender) de forma paternal o conjunto da sociedade.

Nisso tudo, a história dançou, como todo o empenho de sindicalistas, militantes, ex-guerrilheiros, artistas, comunidades de base, políticos de esquerda, intelectuais e movimento estudantil confluídos na produção da “primordial sopa política” cujo resultado foi o PT, e por consequencia, Lula. Relembrando a grande amiga Elizabeth, a respeito do filme Che, de Sorderbergh: existem nuances definidoras entre uma biografia fílmica realizada por Spielberg de outra por Godard, ou Costa Gavras, ou Pontecorvo.

Então, isto sim, é Hollywood, notadamente praticado por figuras como os Barretos e contando com financiamento de corporações as mais agressivas contra os interesses autenticamente populares. O interesse central: mifiticar uma figura na “crista da onda”, celebrar um trajeto pessoal vitorioso e desfocar os fatores econômicos, políticos e culturais conjugados num momento excepcionalmente mobilizador e transformador. Nesse pacote, vão para o beleléu as pressões populares, as organizações de luta e o trabalho da militância. A omissão do papel de frei Chico não é casual, por questões de roteiro; é totalmente ideológica.

Do ponto de vista ideológico, Lula é transformado em arquétipo, o mais vulgar, do tipo ideal/individual do (neo)liberalismo: o self made man, homem que se fez por si (certo, Nunes?), por seus próprios méritos, pelo impulso irresistível da vontade pessoal, pelo caráter bom e honesto, enfim, pela graça que lhe foi concedida pelo destino (por Deus?).

O que está implícito nesta luta de Deus contra O Diabo? Julgar e condenar todos os que vivem na pobreza, na ignorância e no anonimato das multidões que sofrem toda espécie de privações, injustiças e truculências, tomando-os como fracassados, desmotivados, indolentes, preguiçosos, e, mais importante, desprovidos da Graça divina.

Em suma, a responsabilidade estritamente individual no sucesso ou na desgraça de um sujeito (medido sempre pela régua capitalista burguesa) atribuído a si próprio, à força de vontade, ao beneplácito de um insondavel destino; eis aí um dos pilares ideológicos mais firmes a sustentar o edifício da ideologia liberal, que Hollywood e publicações de auto-ajuda mais prezam, e com o qual mais enchem as burras.

A crítica do Sr. Benjamin à ideologia liberal e sua coloração messiânica, ao culto à personalidade (que tambem faz parte de regimes autoritários) não considera, neste momento específico, recomendações de ordem pragmática. Do ponto de vista estritamente partidário-eleitoral, o confronto ideológico proposto por ele pode servir para tirar votos da próxima candidata petista à presidência, como pode servir para desconstruir a imagem que PT vem construindo sobre si mesmo e sobre a sua figura pública número 1: o Presidente Lula, ou, esperemos o desenrolar dos acontecimentos, um processo judicial por calúnia e difamação.

Talvez o filme, apologético, bajulador, tenha sido a gota d’água para alguem que se desiludiu de forma irremediável, alguém com um inalienavel passado de militância que sacrificou sua vida, desde a adolescência. Reação certamente rancorosa, raivosa, sem meias medidas, sem cautela e, principalmente, equivocada; porque calcada em argumentos morais, não políticos nem culturais.

Talvez o Sr. Benjamin não esteja, no momento, distinguindo muitas diferenças entre um futuro governo PT ou PSDB ou PMDB; talvez considerando, do ponto de vista da esquerda revolucionária, mais importante exercitar a crítica ao culto à personalidade que mitifica e reproduz antigas estruturas de opressão autoritária.

Para o petista governista, evidentemente, toda crítica contra o partido e/ou Lula será alinhamento pró-PSDB; o antagonista da vez, circunstancial e historicamente imposto. O descarte sistemático de quadros militantes e intelectuais que não encontraram mais no partido espaço para projetos de governo autenticamente popular, e imediatamente lançados à vala rasa dos traidores, é sinal claro de uma indesejável face maniqueísta e... (relativamente) conservadora. Reprodução às avessas de um Santo Ofício a estigamatizar ceticismo e dúvida como heresias.


A perspectiva do pensar sob instâncias históricas, de forma multidimensional (para alem do calculo eleitoral e da atividade institucional imediatista), pode revelar que, no fundo e na verdade, PT e PSDB não são os dois eixos únicos do mundo moderno; e que estar pontualmente contra PT não significa necessariamente estar organicamente a favor do PSDB.

O discurso (nunca é demais ressaltar) infeliz, rancoroso e equivocado do Sr. César Benjamin pode sim ser apropriado (como o será) pelas direitas. É parte dos riscos que o próprio PT (mais ou menos progressista) entende e assimila, desde quando aceitou o jogo democrático formal. Mas igualmente traduz inquietações/frustrações das esquerdas. Que seja movido a ressentimento, questões psíquicas individuais ou tentativas de afirmar novos projetos políticos, é discurso distinto das direitas e fornece elementos à reflexão, relevando-se o viés moralista e a emergência de antigas vendettas.

O Sr. Benjamin, individualmente, não conta; como tambem não conta o Presidente Lula. O processo é fundamental, o partido é fundamental; a perspectiva da ação política, e resultados políticos, acima de personalismos ou retratos na parede.

A história nos julgará, a todos nós.

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Queridinha, vou por pimentinha dos outros, que mais tarde volto para por a minha:

Lula-Benjamin, piada e metáfora

Francisco Viana
De São Paulo

O presidente Lula e o ex-militante e editor César Benjamin precisam conversar. Se isto acontecer, Lula poderá pedir desculpas pela piada de mal gosto contada em 1994, num almoço, numa produtora de TV, em São Paulo, quando se conheceram, e , agora, reproduzida por Benjamin no artigo Os filhos do Brasil 1; e Benjamin, poderia, superar o episódio e, pessoalmente, desejar ao presidente, como faz, não sem uma dose de cética ironia, no texto em foco.

O encontro teria o condão de repor a verdade dos fatos e, tornar claro, que o presidente nunca tentou estuprar ninguém quando esteve preso nos anos da ditadura. E que César, por sua vez, não fez uma denúncia, como parecem ter entendido o Palácio e a Folha, mas uma crítica política ácida, opondo a sua experiência como militante à visão de mundo de Lula, à época, candidato a presidência. Na essência, ambos foram vítimas de uma ditadura cruel e sanguinária, como toda ditadura, em ambos, cada um por seu caminho, foram personagens ativos da história vitoriosa da luta contra a ditadura.

Por que a sugestão?

Quem lê o artigo de César Benjamin, se despojado das lentes das paixões ou da hipocrisia, pede perceber nitidamente que Lula, ao dizer que não podia viver sem mulher, como vivera Cesar na cadeia nos melhores anos da sua juventude, e quando brinca dizendo que tentou estuprar um militante revolucionários, feriu Benjamin naquilo que ele possuía de mais sensível. O temor de ser estuprado. Preso aos 17 anos, o então militante viveu na carne o terror da ditadura.

Na sua cela, na Polícia do Exército, como relata, dormia de pé, nu, isolado do mundo, bebendo água suja, comia com as mãos (esse tipo de comportamento bestial até hoje não foi julgado, vale lembrar, nem seus responsáveis punidos por crime contra a humanidade!). Depois foi transferido para uma cela maior para a penitenciária de Bangu. Em ambas as situações o fantasma do estupro o acompanhou como uma sombra. Sua integridade, na forma em que narra, era como um sopro que se agitava em face do abismo e ele só escapou ileso graças a sensibilidade de gente simples, criminosos comuns, que se elevaram acima, muito acima, do terror da ditadura. Então, vem o candidato e diz: "Você esteve preso, não é Cesinha?"

César: Estive.

O candidato: Alguns anos.

O candidato: "Eu não agüentaria. Não vivo sem..."

E narra, não há duvida que em tom de brincadeira, que tentara estuprar um militante com quem divida a cela no Dops...

As chaves para compreensão da reação de César brotam do artigo.

Primeiro, quando logo no início, César descreve poeticamente - uma cena cinematográfica - o sentimento de perturbação que o dominou quando vislumbrou "os dedos que, pelo tato, percebi serem femininos" pelas frestas da chapa de ferro do camburão que o transportava da Vila Militar para o presídio de Bangu. "Há anos eu não via, muito menos tocava, uma mulher."

A segunda chave está no temor de ser estuprado e no reconhecimento pela forma humana com que foi recebida pelos companheiros de presídio. E há ainda o relato com o marqueteiro americano, participante do almoço, que fala sobre a "importância do primeiro encontro", cioso que estava em entender a psicologia de Lula.

Há um nítido conflito entre dois mundos: o mundo do operário que não suportaria viver sem mulher - na psicanálise um homem só se emancipa quando corta com essa dependência, deixando de ver a mulher como objeto para vê-la como sujeito do prazer - e o mundo de um militante revolucionário que se construiu numa situação limite. Se admitirmos que o real é o limite, César Benjamin viu, como um herói grego, o olho da morte. O candidato, na visão de César, não. Porém, Lula também viu o olho da morte, também foi um herói no sentido grego. O que mudou foi a diferença e a cruza do cenário.

Há também outra forma de ler o episódio: César, pelo que transpira da sua história, sonhou com o homem marxiano, o homem total.

Lula, aos seus olhos naquela primeira visão, era o homem alienado. O homem fragmentado, produto da cultura burguesa. Lula, certamente, foi mais cético. Talvez, pela sua vivência viu o homem objetivo, o homem como ele é, o trabalhador nas suas aspirações concretas e não revolucionárias.

A questão sexual, o estupro principalmente, é a metáfora desse antagonismo. Uma leitura mais apurada certamente mostrará que o estupro seria dos ideais, não um estupro físico. Mais adiante, sem perder o fio da acidez metafórica, Benjamin dá uma nova chave para a compreensão do seu artigo, quando assinala que Lula é "conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos."

Novamente dois mundos, novamente a crítica política.

Contudo, ao que tudo indica, o artigo de Benjamin não foi compreendido em sua densidade.

A cobertura do dia seguinte testemunha essa realidade: na ótica do Planalto, o artigo foi visto como uma "loucura", "coisa de psicopata", "um lixo, um nojo".2 A Folha ateve-se à ingênua investigação de um suposto escândalo. Não viu nada por trás das aparências. Foi ouvir os participantes do almoço e o senador Romeu Toma, à época delegado do Dops. E a questão política? E o conflito entre o militante que optou pela luta armada e o operário que liderou as massas trabalhadoras? Onde um e outro contribuíram para derrubar a ditadura? A luta armada mostrou a fragilidade dos militares e, até hoje, os persegue com o fantasma da tortura e do medo que um punhado de jovens valorosos impôs aos quartéis. Militantes armados mostraram que o Brasil não é passivo como conta a história oficial. Basta ver o efetivo mobilizado para cercar Lamarca no Vale da Ribeira, sem êxito, e os milhares de homens mobilizados para enfrentar pouco mais de meia centena de guerrilheiros no Araguaia. As mobilização liderada por Lula no ABC foi o tiro que abateu o regime, sem dúvidas. Mas ambos os movimentos, o armado e o de mobilização de grandes massas, se somam, não se excluem. Ambos são momentos da história protagonizados por autênticos filhos do Brasil e estes precisam ser dignificados, independentes de querelas ideológicas.

Por isso, é que Lula e Benjamin deveriam conversar. A realidade concreta não deveria ser desconsiderada em função das aparências. Benjamin não fez uma mera narrativa denuncista. Ele transpôs esse quadro estático. Não fez uma denúncia, fez uma crítica política. Foi um dos raros artigos sobre o filme "Lula, o Filho do Brasil" que, de fato, merece atenção. Há no texto um refinamento literário e político, uma proposta de questionar o real e o discurso, a começar pelos temas candentes do culto a personalidade, da mistificação do marketing, da complexidade humana. São questões que precisam ser encaradas, sem tirar os méritos do filme que, como lembra, também, coerentemente Denise Paraná, autora do livro homônimo e co-roteirista da produção, "não engana ninguém porque não é um documentário, mas uma ficção como foco no drama familiar". Será? Esse é o tema. E o tema que se projeta para além do tema porque, na essência, a questão é: quem são os filhos do Brasil?

O interesse que o filme desperta, pouco a pouco, vem revelando os múltiplos rostos do Brasil, naquilo que existe de generoso e moderno, naquilo que existe de conservador e retrógado, naquilo que existe de profundo como um pires ou de timidamente sofisticado. Lula e Benjamin deveriam conversar porque, nesse contexto, são filhos legítimos do Brasil, o que há de melhor nesse país, tristemente alegre na sua alienação. País que vive ainda da ilusão de dormir em Berço Esplêndido, quando há muito encontra-se envolto nas chamas dos conflitos de classe, da exclusão social - que Lula tem atenuado - e de uma visão, como sociedade, pueril, crassa mesmo, da sua história.

O Lula de hoje, certamente, não contaria a infeliz piada do Lula de 1994. E, certamente, teria sensibilidade para compreensão do drama e da grandiosidade da história de César Benjamin. Em tempo: não conheço César, mas a sua trajetória, inclusive como fundador do PT, merece respeito; e sua fala, a despeito de eventuais equívocos no artigo, deve servir de inspiração para refletir sobre os filhos do Brasil, quem somos nós, não para desqualificá-lo. O diálogo, sem dúvida, esclareceria o que foi a piada e o que é a metáfora.

1 Folha de São Paulo, 27.11,2009, p.A8.

2 Idem, 28.11.2009, p. A10.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4127973-EI6783,00.html
Não é Lula com sua piada ( se houve) não é o Benjamin sem escrúpulos é um jornal que circula no país e não mostra a veracidade de nenhum fato que publica, apenas corrói a verdade e utiliza do sensacionalismo nojento pra sair do cáos de vendagens que se encontra.
Quase não comente no blog sobre o "caso Benjamim", Comecei confundindo um Paulo de Tarso com outro Paulo de Tarso e, quase acabo no Paulo de Tarso original.

Depois fiquei chateado, me enojando. O Cesinha não podia fazer isto com ele mesmo e a sua biografia não merecia essa automutilação.

Irei transcrever um dos comentários mais lúcidos do blog, embora não concorde totalmente com ele.


Tomás Rosa Bueno disse:
29/11/2009 às 13:13


O César Benjamin pertence – ou pertenceu, posto que se vem excluindo de tudo há vários anos – ao bloco da esquerda brasileira que se autodenominou “proletária” nos anos 70, entre o final do governo Allende no Chile e a fundação do PT. Havia nesse bloco vários grupos, como a Fração Bolchevique, a PO, a própria esquerda da POLOP, mas o mais importante, de cuja fundação participei no exterior por volta de 1974, foi o Movimento de Emancipação do Proletariado, que acabou absorvendo grande parte dos pequenos grupos da tendência. O MEP foi objeto da grande redada de 1977 em que mais de duzentos dos seus militantes foram presos em menos de uma semana, e foi um dos pilares do movimento que levou à fundação do PT.

O Éder Sader foi um dos grandes teóricos dessa tendência. O Marco Aurélio Garcia foi outro, e a ela se incorporaram praticamente todos os que criticavam com coerência o movimento de “luta armada” que predominou na esquerda brasileira nos anos 60 e 70.

Muita gente, eu inclusive, viu no César Benjamin um bom teorizador dessa tendência que era a nossa. Além dos meus, o único texto escrito por um brasileiro que há no meu site é dele. Mas isto foi antes que ele se tornasse visivelmente no que sempre foi essencialmente, apenas mais um líder em busca de liderados que, frustrado nesse intento pelas próprias limitações, acabou se transformando na paródia de si mesmo que é hoje.

Sendo o Lula quem é, do tipo que perde o amigo, mas não a piada, é claro que ia falar em “menino do MEP” se o Cezinha estivesse presente. Acho que o Tendler está errado, e que o alvo da brincadeira não foi o publicitário americano – que, aliás, nem entendeu o que estava sendo dito –, mas ele mesmo, o Cezinha. Que hoje, atormentado por toda uma vida de sonhos vãos e embalado pelo coquetel de produtos químicos que o mantém funcional, resolveu transformar a piada de que foi alvo em mais uma tentativa de se posicionar numa posição de destaque no debate do movimento ao que há muito deixou de pertencer, o da emancipação dos proletários.

Conseguiu o destaque, embora não o que queria. E, junto com o destaque, conseguiu escrever o nome dele nos anais da vileza, e a execração de todos os que se batem pela justiça e a verdade.


Parafraseando o Nunes.....Falou.
Paulo

Dez.

Abraço
É isto que estamos tentando superar. Não se faz uma revolução sem "POVO". Não se faz uma revolução na "Academia" , tampouco nos Sindicatos que somente visam a luta econômica, lutando somente contra seus efeitos e deixando para o último plano a luta politica contra o Capitalismo.

Temos que abandonar a visão antiga de "conduzir o Povo" [ detesto a palavra "massas"]. Temos que tentar, sim emancipar, faze-los entender o que se esconde atrás da lógica perversa que é o capitalismo.

Temos também que aprender a falar a língua do POVO, aprender com eles também, entender os seus anseios e demandas.

Não adianta nada eu lançar uma nota politica que somente será lida por poucos militantes, não atingindo o "público alvo".
É mais ou menos isso.


saudações
Pois Paulo, se o alvo da piada foi Cesinha, aí sim a piada foi indelicadíssima...

Caso contrário, papo que qualquer um de nós, homens e mulheres podemos falar a qualquer tempo, nem de mau gosto achei, achei conversa à vontade, só.

Mas, se foi prô Cesinha, aí a coisa pega na grosseria sem fim..
Não se faz, foram anos de cadeia, anos da adolescência...
Não se brinca com isso...
Concordo que a piada pode ter sido grosseira, mas também, por outro lado, a frase do burocrata romântico Che está corretíssima: não podemos perder a ternura, mas tampouco podemos ser moles. Hay que endurecerse.

Também estive preso na adolescência, várias vezes, a primeira com DOZE anos, quatro dias na rua Tutoia que agora não tem mais acento - e o pior é que tive de passar pela humilhação de ser resgatado pelo papai. A minha primeira namorada "séria" morreu nos meus braços com um tiro no fígado, no dia 12 de setembro de 73, em Santiago do Chile, e a maioria dos meus melhores amigos de então foi assassinada nesse mesmo período. Fui preso e levei porrada no Chile e em Honduras, no México, em Portugal, na França e especialmente na Inglaterra, onde passei uma boa temporada incomunicado *ilegalmente* em Pentonville e de onde voltei deportado pro Brasil pra passar uma temporada na PF da Praça Mauá no Rio antes da anistia. Tudo isso passando fome e morando na rua uma boa parte do tempo, em conflito permanente com a imensa maioria do beautiful people exilado. E antes de fazer 23 anos, que era a idade que tinha quando voltei ao Brasil.

NEM POR ISSO virei colunista da Folha. Nada disso me fez sentir que tenho direitos especiais e susceptibilidades que devam ser objeto de atenção particular pelos demais. Pouca gente sabe (ou sabia, até agora) desses episódios da minha biografia, porque evito falar deles. Se o faço aqui e agora é apenas para marcar uma diferença com um canalha que se acha o máximo.

Mesmo que o Cesinha tenha acreditado na piada de gosto duvidoso do Lula, mesmo que a experiência pessoal dele o tenha tornado mais suscetível a certo tipo de comentários, isso não lhe dá o direito, ainda mais carregando nas costas o histórico que carrega, de se prestar ao jogo sujo da baixa calúnia e da escrotidão generalizada da "upusição" ao governo Lula. O simples fato de ele escrever na Folha, sabendo o que ela representa e mesmo sem cair na vileza que caiu, já é uma afronta aos que um dia se consideraram amigos ou aliados dele.

Pensando bem, se as coisas se passaram como o Cesinha narrou e a piada era dirigida a ele, o Lula teve toda a razão do mundo em cutucá-lo. Quem não tem competência não se estabelece e quem se acha especial tem mesmo de ser tratado especialmente.

O que o Cesinha merece é desprezo. Espero ter a oportunidade e o prazer de cuspir no pé dele um dia desses.
Concordo plenamente. Podendo ser acusado de empírico demais num debate tão elevado teoricamente, ouso dizer que psicanaliticamente podemos justificar até o comportamento dos torturadores, como indivíduos.
Certamente o César Benjamin, um intelectual, sabe que não fez apenas um desabafo, uma reflexão sobre os males do culto à personalidade. Como é possível que jamais tenha encontrado um ombro amigo, uma companheira, a quem confidenciar aquela sua impressão sobre a tal conversa com Lula? Não houve aqui uma criteriosa escolha de oportunidade para uma revelação de tantas implicações?
E mais: por que Benjamin não fez sua reflexão na revista Caros Amigos, por exemplo, da qual é colaborador? A Folha pagou algo pelo seu artigo? Ele sente-se à vontade ao colocar sua assinatura nas mesmas páginas que publicaram a ficha falsificada da ministra Dilma? O intelectual e militante revolucionário não pressentiu que seu texto seria usado pela Direita, desesperada atrás de fatos ou intrigas que desmoralizem o Presidente Lula, seu Governo e qualquer personagem do movimento socialista ou conexo na América Latina e no mundo?
Aos especialistas, indago: o que leva alguém a manter absoluto segredo sobre um episódio que o marcou profundamente (levando-o a afastar-se de um grupo político no qual tinha papel relevante, fundador) por cerca de quinze anos, para depois entregá-lo a um jornal que tem-se caracterizado como um dos mais partidários e reacionários do País?
Abraços, Paulo.

É isso aí... por "coincidência" um militante do MEP foi eleito, semana passada, presidente do PT.

Acho que tudo que tinha que ser dito já foi, inclusive por conhecidos militantes de esquerda que passaram o mesmo (ou até pior dependendo do ponto de vista) que CB sem perder a cabeça.

Finito!
Querida Zezinha,
Estou correndo de pressa, mas vc sabe, uma mulher tem sempre que dar um pitaco.
Escrevo, provocativamente, o que vc escreveu de outra forma.

Uma das coisas que se bradaram quanto ao Cesinha - eu uma delas - foi não propor um debate político diretamente, e se equivocar(?) no que sabia que ia ser o que mais faria sensação no seu depoimento.

Mas ele, vc, estão certos.

Presenciei, aqui no blog, em uma postagem de um texto crítico do grande Chico de Oliveira - esse sim, pode estar até equivocado, mas político, sem um centímetro de baixaria - as pessoas se recusarem a discutir o que ele pensa ou critica: houve desqualificações da revista onde foi publicado, da pessoa (a velha fórmula do ressentido), manifestações de "não leio mais o que ele escreve", mas nem um pingo de discussão sobre o CONTEÚDO.

Qualquer um que tenha participado minimamente de política partidária sabe: lula está aí pelo PT.
Na crise de 2005/2006, quem segurou as pontas, quem permitiu/propôs a rolação de cabeças foi o PT.
E estão todos quietos.
Mais, o PSDB, na época representado pelo FHC também: não estava em hora de impeachment.

Então jogar na vala comum esses personagens com os DEMOS da vida é de uma indiscutível desonestidade, cegueira, falta de pensar ou o que o valha.

E repito parte do que comentei no post da Ivanisa, que não conseguiu se expressar mostrando o ton sur ton como vc, mas apenas o "outro lado" - preto ou branco, vcs escolhem: a única coisa imperdoável, o umbigo do sonho do cesinha foi:


Mais, Cesinha sabe a que se presta essa história, e ainda escreve isso em um jornal que chamou a ditadura - que o prendeu, torturou, deixou sequelas físicas e psicológicas profundas - de ditabranda.

De fato, o maior desrespeito nessa história talvez tenha sido o que Cesinha fez ao seu passado.


Concordo com a Cabocla. Se CB foi tudo o que dizem dele,num repente ela acabou com todo este passado. O X da questão é o porque ele fez issso??? Raiva, doença, infantilidade,dinheiro, desejo de gloria etc...
Só ele sabe..... se conseguir saber.
LEITURAS DA FOLHA

Lixo em estado puro

Por Alberto Dines


Vamos criar uma igreja e deixar de pagar impostos? A manchete da Folha de S.Paulo de domingo (29/11) foi a mais comentada dos últimos tempos. Nem parecia ser o mesmo jornal que dias antes, na sexta-feira, produziu um lixo jornalístico dos mais repugnantes e que desde então está ocupando a seção de cartas dos leitores quase inteira.

A propósito da estréia do filme Lula, o filho do Brasil, a Folha publicou um depoimento do seu colunista Cesar Benjamin, dissidente do PT, a propósito de um comentário cabeludo feito há 15 anos pelo então candidato à presidência Lula da Silva (FSP, 27/11, pág. A-8).

Como foi constatado no dia seguinte, o comentário foi efetivamente feito mas em tom de troça, conversa de fim de expediente. A Folha rasgou e tripudiou sobre todos os seus manuais de redação, pisoteou 20 anos de trabalho dos seus ouvidores ao aceitar como verdadeira uma fofoca estapafúrdia sem qualquer diligência sobre a sua veracidade.

Não foi desatenção, erro involuntário, tropeço de um redator apressado:
a Folha reservou uma página inteira para que o colunista contasse a sua saga nos cárceres da ditadura iniciada quando contava apenas 17 anos. Seu relato é impressionante, mas de repente, para desqualificar os 30 dias em que Lula passou no xadrez, Cesar Benjamin conta a sua anedota em três enormes parágrafos e com ela fecha o artigo.

Imprensa marrom

À primeira vista, parece mais um golpe publicitário da família Barreto (que produziu o filme), em seguida percebe-se que a denúncia é a vera, fruto de um ressentimento pessoal que um jornal do porte da Folha, que se assume "a serviço do Brasil", não tem o direito de perfilhar.

A direção da Folha simplesmente não avaliou o tamanho do desatino. No dia seguinte, tentou consertar: mancheteou uma de suas páginas com o justo desabafo de Lula classificando o texto como "loucura" (FSP, 28/11, pág. A-10). No domingo, certamente arrependida, a direção da Folha providenciou a evaporação do assunto. Ficou apenas a reprovação do seu ouvidor Carlos Eduardo Lins da Silva.

Tarde demais. Já no sábado (28/11) o Estado de S.Paulo repercutia o episódio com destaque e, no mesmo dia, a Veja já o incorporara à sua edição. O Globo manteve-se à distância desta porcaria.

Se o leitor não sabe o que significa "imprensa marrom", tem agora a oportunidade de confrontar-se com este exemplo – em estado puro – do jornalismo de escândalos e achaques.

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=565IMQ012

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