"O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o eleitor médio" (Winston Churchill)


Este é um texto iniciado com relutância, e concluído com pesar.

Bom dia, Piauí! Bom dia, Maranhão! Bom dia, Ceará! Bom dia, Bahia! Bom dia, Rio Grande do Norte! Bom dia, Paraíba! Bom dia, Sergipe! Bom dia Amazonas! Bom dia, Pará! Bom dia, Amapá! Bom dia, Tocantins! Bom dia, Alagoas! Bom dia, Minas Gerais! Bom dia, Rio Grande do Sul! Bom dia, Rio de Janeiro!

Nesta ordem, foram estes 15 estados os que deram a vitória a Dilma Rousseff no 1º turno. A eles dirijo as minhas fraternais saudações. Não demorou muito para que o cidadão Fernando Henrique Cardoso observasse que o apoio à presidente partia dos "grotões" do país, desencadeando uma avalanche de insultos racistas nas redes sociais, referindo-se de forma genérica a esses "nordestinos ignorantes" que "votam com a barriga" e dependem daquilo que a oposição qualifica de "Bolsa Esmola." Com a entrada das cidades mineiras de Cláudio e Montezuma na era espacial, é hora de substituirmos o "Bolsa Família" pelo "Pousa Família."

No outro extremo do espectro, assistimos à alegre e tempestiva sequência de adesões à irresistível e glamurosa ascensão tucana - a República do Baixo Leblon parece estar prestes a ser proclamada.

O eleitor inteligente deveria, isso sim, estar com a pulga atrás da orelha pelo fato de Minas Gerais - a suposta beneficiária do "choque de gestão" do governador Aécio Neves - ter votado majoritariamente em Dilma, e ter elegido no último domingo o petista Fernando Pimentel governador de Minas sem necessidade de segundo turno. Isso não faz soar alarmes no fundo do seu cérebro, incauto eleitor? O mineiro é um ingrato? Ou será que gato eletrocutado tem medo de fio desencapado?

Depois de ascender meteoricamente através de uma exploração teatral da trágica morte de Eduardo Campos, a fadinha ecológica sofre uma queda vertiginosa, gira como uma galinha sem cabeça pelo centro do quintal para, no final, aterrissar graciosamente no colo do Galahad da Camelot tupiniquim. (A platéia embevecida inunda o escurinho do cinema com lágrimas emocionadas.)

A seguir, entram os convidados ao casamento de Dona Baratinha com o Dom Ratão. Trazendo os singelos presentinhos dos votos que crêem representar, começa o desfile macabro de mauricinhos e patricinhas toxicômanos, roqueiros decadentes, prostitutas globais, "jornalistas" comprados (ou vendidos, dependendo do seu ponto de vista), magistrados militantes, fariseus homofóbicos, múmias paralíticas remanescentes da gloriosa revolução redentora de 31 de março e, na rabeira do cortejo, as habituais ratazanas oportunistas que sentem de longe o cheiro da boca-livre que se anuncia. E como não poderia deixar de ser, o mapa astral do jovem casal será configurado pelo Olavo "Walter Mercado" de Carvalho, um astrólogo senil que tornou-se ultimamente o guru do neo-fascismo merda-avarelo, digo, verde-amarelo.

A gloriosa Bahia (aquele abraço!) brindou Dilma com 61% dos seus preciosos votos, demonstrando assim que está cagando um balde para a opinião de certos baianos aristocratas que pediam votos publicamente para a fadinha amazônica. Ela deve ter-lhes despertado reminiscências nostálgicas do Chacrinha tropicalista - afinal de contas, o velho guerreiro dizia com muita propriedade: "Eu vim aqui para confundir, e não para explicar."

Aliás, não pude resistir à tentação de experimentar eu mesmo essa nova onda fashion da "roleta bíblica." É tão excitante! Escolhi uma página ao acaso e, quando meus olhos se abriram, não deu outra: o meu dedão parou bem em cima de Gênesis 3-19. Na minha interpretação, isso só pode significar uma maldição cabeluda contra a candidatura tucana.

Ainda faltam mais de duas semanas para o segundo turno das eleições, e é impossível arriscar um prognóstico quanto aos inescrutáveis desígnios deste animal misterioso, o eleitor brasileiro. Um eleitor que adora esculachar a classe política - eleita com o voto de quem? Diante da considerável e heterogênea "coalizão do bem" unida em torno do propósito de desalojar o PT do poder, coalizão esta que reúne a escória descrita acima, acrescida de outras aves raras menos votadas, temos que estar preparados para, eventualmente, voltarmos a ser oposição. Ainda creio na vitória mas, em caso de derrota, anuncio desde já que não vou aderir a essa Banda de Ipanema pós-moderna. Prefiro passar fome com dignidade do que engordar nesse chiqueiro.

Ouço embasbacado que um eventual ministério tucano poderá incluir o venerável JB na pasta da Justiça, a fadinha no Itamaraty, e o FHC boy Armínio Fraga na Fazenda. Você vai sentir-se confortável com um ministro da Fazenda de nacionalidade norte-americana? (Fraga tem nacionalidade dupla, mas essa informação "desapareceu" recentemente do seu perfil na Wikipedia.) O meu temor é que, além do estrago na esfera doméstica, a política externa inaugurada pelo Presidente Lula - que fez-me estufar o peito de orgulho nos últimos anos - seja também atingida pela sanha neo-liberal, afastando-nos do Mercosul, do Brics e do Foro de São Paulo, para voltarmos a ser um vira-latas subsidiário dos sionistas genocidas do Império do Norte.

Vivemos tempos bicudos. Como não adianta implorarmos por tarefas à altura de nossas forças, só nos resta reunirmos forças à altura de nossas tarefas.

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Algumas razões para não votar no Garoto Propaganda da Direita Tupiniquim:

  1. Propõe a Privatização do Banco do Brasil, isto significa colocar o meu país sob o tacão dos banqueiros internacionais. Sou contra.
  2. Propõe a Privatização da Petrobras, isto significa colocar o meu petróleo sob o domínio do Capital Predatório Internacional e dar uma nova denominação PETROBRAZ que fica num país chamado Brazil, cuja capital é Buenos Aires. ( assim éramos conhecidos antes do Lula e da Dilma) Sou contra.
  3. Propõe dar as costas para a América Latina, isto significa que o meu país deverá desmontar o Mercosul , nos obrigando a restringir as exportações e importações destes países e voltarmos a ser capacho da política econômica americana para países “em desenvolvimento” rs,rs. Sou contra.
  4. Propõe o estreitar de laços com os EEUU, isto significa que o meu país deve voltar a se ajoelhar diante do Tio Sam e, suplicar, agonizar por um empréstimo do FMI. Sou contra.
  5. Propõe a diminuição do salário mínimo, isto significa trazer penúria e sofrimento para o povo do meu país e maior lucro para os exploradores do meu país. Sou contra.

Estas são apenas as razões que me vem à mente assim de repente para apoiar e votar numa mulher honesta, corajosa e brasileira chamada Dilma Rousseff. Sou a favor.

O Brasil que você não vê na Globo

Belo Horizonte, sábado, 18 outubro 2014

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