Todo mundo já fez seu “Christmas album”. Bem, nem todo o mundo. Você fez o seu? Eu não fiz o meu, portanto, esse “todo o mundo” é bem relativo. Mas, desde que existem discos, desde os velhos 78 (eram discos pesadíssimos prensados em celuloides que giravam numa velocidade alucinante sobre o prato de um pickup: era um festival de chiados e algum som), eram lançados na época de natal. O negócio do tal de Santa Claus é coisa séria no Hemisfério Norte. Até nós, colonizados do lado sul nos cansamos de assistir aos filmes americanos exibidos nos dias 24 e 25 de dezembro. E, mesmo aqueles mais distraídos, devem ter ouvido uma canção de natal cantada pela voz macia de Bing Crosby.

Na época do Natal, desde o cantor mais brega ao mais sofisticado, pode nos brindar com seu disco relacionado à efeméride, com resultados muito desiguais. Até no Brasil, alguns se aventuram em soltar seu disquinho comemorativo: puro colonialismo; não combina muito com os verões quentes.

Em uma rápida pesquisa no site da Amazon, descobrimos que Michael Bublé está lançando o seu, agora em 2011, chamado simplesmente Christmas; capa discreta: ele nem está vestido de Papai Noel ou coisa que o valha. Vemos também que a dupla moderninha She & Him lança o seu A Very She & Him Christmas. Para quem não sabe, a “she” é a dublê de atriz e cantora Zooey Deschanel e o “him” é M. Ward. Na primeira página, temos ainda James Taylor (JT at Christmas, 2006), e Andrea Bocelli (My Christmas, 2009), Se continuarmos a explorar, veremos que muita gente fez seu disco de natal; por essa razão é “todo o mundo”. (Leia “Diana Krall embrulhada para o Natal em http://bit.ly/u0HQZC).

O disco de Natal de Tony Bennett

Nesse “todo o mundo” não poderia faltar o de Tony Bennett, quase nonagenário e ativíssimo, que, depois da morte de Frank Sinatra, herdou o título de melhor cantor do mundo (mesmo que tenhamos de admitir que essas classificações de “melhor do mundo” são capciosas). Seu The Classic Christmas Album, recentemente lançado, não é uma coleção de canções inéditas; é uma compilação. Cinco delas são de Snowfall: The Tony Bennett Christmas Album, de 1968, com arranjos do competente arranjador Robert Farnon. Mais cinco são de A Swinging Christmas, de 2008, com arranjos do não menos talentoso arranjador Bill Holman. Outras são com seu mais tradicional acompanhante, o pianista Ralph Sharon, em quatro delas é acompanhado pela London Symphony Orchestra, e há uma em que faz dueto com Placido Domingo.

Mesmo considerando que esses “Christmas Albuns” não combinam bem com o espírito natalino brasileiro, é impossível não reconhecer a classe e elegância de Tony Bennett.

Em homenagem ao amigo Carlos Conde, que era apaixonado por Mel Tormé, ouça a clássica The Christmas Song, arranjada por Robert Farnon (Clique em “skip this add” para fugir da publicidade inicial).

Ouça na interpretação de seu compositor. A música foi composta em 1944.

Aos amigos, um Natal com muitos presentes.

Exibições: 434

Responder esta

Respostas a este tópico

Tb, que covardia, comparar com Nat King Cole... Só talvez o Sinatra dos melhores dias, e empata...

Eu tenho a limitaçao de preferir músicas cantadas em Português... Nao é bairrismo, é que as palavras sao importantes para mim, e outra língua, ainda mais uma que nao domino bem, é uma barreira. Mas essa música é realmente bonita, e Nat King Cole é Nat King Cole.

Um ponto em comum entre nós dois. Nao o da bronca com o pai, embora o meu tb nao fosse fácil; mas o da delícia de ter um pai que canta. Céus, acho que é a melhor recordaçao de minha infância, meu pai cantando para as filhas ou contando a história em versos dos Dois Corcundas, imitando as vozes que o Almirante fazia.

Ele cantava muito Sinatra, especialmente Blue Moon; mas muita música brasileira. Luís Gonzaga o tempo todo, Ivon Cury, às vezes, Sertaneja, Cama na Varanda, Sá Maroquinha, Jura de Caboclo, que é linda, Boiadeiro, do Ari, Numa Casa de Caboclo (que eu nao gostava, achava triste demais) e tantas outras.

Ele cantava muito o Trabalha, trabalha, negro, do Ari, e uma vez me disse que eu era PT desde criancinha, porque ele estava cantando essa música, e eu fiquei indignada, e perguntei por que é que esse negro nao largava o emprego... Eu nao lembrava mais disso.

Marco, realmente a do King Cole é excepcional. Botei a do Tormé pq é a original; se bem que nesse registro do youTube ele já está meio velhinho.

Sabe, Marco, sem querer ser intrusiva, e talvez já sendo, acho que a partir de um certo momento na vida devemos conseguir perdoar nossos pais. Eles fizeram o melhor que puderam, nao sabiam fazer melhor. Se eu pensar objetivamente, os meus me fizeram muito mal em certos aspectos, mas eles próprios eram tao infelizes, sabiam viver tao pouco... Pode-se exigir de alguém algo que ele nao tem como dar, porque nao sabe? Melhor ficar com o que foi bom. Como com as cançoes que papai cantava...

Mas sabe? Ainda acho que a pessoalidade de uma família, fora casos excepcionais, ainda é o melhor para a educaçao de crianças. Até porque toda família tem um tio maluco, uma tia excêntrica, um primo comunista, uma avó maliciosa, enfim, alguém que rompe a unidade, que abre novos caminhos para as crianças. Nao creio muito em coletivizaçao da educaçao, é impessoal demais, e nao protege as crianças tanto assim.

Tenho uma amiga que foi diretora de escola na Funabem. Ela dizia que as crianças menos traumatizadas que chegavam lá de um asilo (a escola dela era para crianças de 7 aos 12, e recebia muitos alunos da Obra do Berço, para crianças menores) eram as que tinham sido muito doentinhas quando bebês. Por que? Porque havia em média uma atendente para cada 20 bebês normais no asilo, mas uma para cada cinco bebês doentes... Que acabavam apegando-se mais às crianças, tendo mais tempo para elas.  

O caso mais legal que ela gostava de contar era o de uma freira desse asilo, que tomou verdadeiro amor por um garotinho de quem cuidou. Ela o visitou durante todos os anos em que ele esteve na Funabem (que foram muitos, minha amiga quis unir irmaos, e passou a escola para crianças de 3 aos 18). Esse menino passou no exame do Colégio Pedro II e fez vestibular para Medicina. Pois, no dia da divulgaçao dos resultados, lá estava a freira conferindo para ver se ele tinha passado... (e passou; o pessoal da escola se cotizou para ajudá-lo no início; foi um caso legal o desse menino). Esse menino teve mae; a mae que foi possível, mas é muito melhor que nenhuma mae...

Crianças precisam ser especiais para alguém, nao basta que sejam bem tratadas.

Ai, esses conflitos, o choque das gerações, nosso caminho entre dois túmulos...
Tudo me faz recordar o:

Poema de Natal




Poema de Vinicius de Moraes, interpretado por Camila Morgado e Ricardo Blat. Trecho extraído do filme de Miguel Faria Jr.


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Realmente bonito. E está bem interpretado (e olha que eu raramente gosto de interpretaçoes de poesia).

RSS

Publicidade

© 2022   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço