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A tragédia do Haiti não é só produto da natureza; é resultado da incúria humana e da corrupção


LISBOA TREMEU em 1755. O Grande Terremoto horrorizou a Europa culta e pôs Voltaire a pensar. Onde estaria Deus? Sim, onde estaria Deus naquele Dia de Todos os Santos para permitir a matança indiscriminada de mulheres,
velhos, crianças?



No século 18, Lisboa deixou de ser, entre os homens letrados do Iluminismo, uma mera cidade. Passou a ser, como Auschwitz no século 20, o símbolo do mal. Do mal radical, inominável, inexplicável.


Passaram 250 anos. Lisboa deixou de tremer. Ou quase: umas semanas atrás, nas primeiras horas da madrugada, senti a casa a dançar um “twist”. Durou segundos. Alguns livros no chão, um copo partido. Por
momentos, ainda pensei que talvez fossem os meus vizinhos em
reconciliação amorosa.



Não eram os vizinhos. Os alarmes dos carros estacionados na rua desmentiam com estridência qualquer cenário romântico. Era terremoto, confirmaram as notícias. Nível 6 na escala Richter. Nenhum morto.
Nenhum ferido. Nenhuma interrogação sobre Deus.



Exatamente o contrário do sucedido no Haiti. Incontáveis mortos. Incontáveis feridos. E, nos jornais da Europa, textos pseudofilosóficos sobre o papel do divino. O tom era comum. A tese também: a natureza é
insondável.



Difícil discordar. Mas a tragédia do Haiti não é apenas produto de uma natureza insondável. É o resultado da incúria humana; da corrupção; da miséria material; e da tirania.


Eis a tese apresentada em ensaio fundamental para entender a contabilidade macabra dos desastres naturais. Foi publicado em 2005 por Matthew Kahn em revista do prestigiado MIT. Intitula-se “The Death Roll from Natural Disasters: the Role of Income, Geograph...” (a lista da morte por desastres naturais: o papel da renda, da geografia e das instituições).



O objetivo de Kahn não é metafísico; é bem prático. E foi motivado por crença comum, que vi repetida nos últimos dias: por que motivo os desastres naturais só atingem nações pobres?

Kahn começa por provar que uma crença não passa disso mesmo.


Entre 1980 e 2002 (o arco temporal do estudo), a Índia teve 14 grandes terremotos. Morreram 32.117 pessoas. No mesmo período, os Estados
Unidos tiveram 18 grandes terremotos. Morreram 143 pessoas. Iguais
conclusões são extensíveis aos 4.300 desastres naturais do período em
análise e às suas 815.077 vítimas.


Observando e comparando 73 países (pobres, médios e ricos), a conclusão de Kahn é arrepiante: os grandes desastres naturais distribuem-se equitativamente pelo globo.



O que não se distribui equitativamente pelo globo é o número de mortos: países com um PIB per capita de US$ 2.000 apresentam uma média de 944 mortos por ano. Países com um PIB per capita de US$ 14 mil, uma
média de 180 mortes. Moral da história? Se uma nação de 100 milhões de
pessoas consegue subir o seu PIB de US$ 2.000 para US$ 14 mil, isso
resulta numa diminuição de 764 vítimas por ano.



Mas a análise não se fica pela riqueza. Não se fica apenas pelos países que têm maior capacidade para planificar com rigor, construir com segurança e socorrer com rapidez. A juntar à riqueza, a política
tem uma palavra a dizer.



A política, vírgula: a democracia e a boa governação. A disparidade dos mortos não é só imensa entre países ricos e pobres; também o é entre países democráticos e não democráticos. Em países democráticos,
onde os governantes são julgados pelos seus constituintes e vigiados
por uma imprensa livre, a forma como se planifica, constrói ou socorre
é o verdadeiro teste de sobrevivência para esses governantes. O número
de mortos em países democráticos é, mostra Kahn, incomparavelmente
inferior aos mortos anônimos dos regimes ditatoriais/autoritários.



No Haiti, um terremoto com 7,1 graus na escala Richter trouxe devastação inimaginável e dezenas de milhares de mortos. Em 1989, um terremoto com 7,1 graus na escala Richter provocou 67 vítimas nos EUA.
Nenhum espanto: os EUA não têm um PIB per capita de US$ 1.400 e não
foram governados por “Papa Docs”, “Baby Docs” e outros torcionários
para quem o destino do seu povo era indiferente desde que a rapina
pudesse continuar.



Em 1755, quando o terremoto de Lisboa fez tremer a Europa, ficaram célebres as palavras do marquês de Pombal: é hora de enterrar os mortos e cuidar dos vivos. No século 18, era impossível dizer melhor. No
século 21, impossível é dizer pior. Depois de enterrar os mortos e
cuidar dos vivos, só existe uma forma de mitigar a violência da
natureza: enriquecendo e democratizando.



Fonte: Folha de São Paulo, 19/01/2010

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Respostas a este tópico

Como vai sr. Paulo Celso? Saudações.
Interessante que faz alguns dias e o nosso colega de Portal, Achel Tinoco, postou um questionamento parecido ao de Voltaire (DEUS NO HAITI) - No link: http://blogln.ning.com/forum/topics/deus-no-haiti
Prezado amigo Ney Robson

Não sejamos também céticos, tudo no mundo tem uma razão de ser. Achei o questionamento do amigo Achel Tinoco, sem nenhum sentimento com os conceitos que chamamos energias questionáveis, e respeito com aqueles que sentem essas energias cósmicas. Com todo materialismo ou físicos e metafísicos. Em tudo que leio e estudo, ainda somos ínfimos para julgar aquele que chamamos de “DEUS”.

Quando apontamos um dedo para frente, temos três apontados para nosso peito, nossa alma.

Mas questionarmos é um direito nosso e “Ele” nos permite a fazermos isso.

Pensemos nisso.

Paulo VILLAS-BÔAS
Caro Paulo
Não me julgo capaz de responder à pergunta de Voltaire: Onde estaria Deus?
Porem como essa minha teoria me conforta e muito, acho por bem dividi-la com outras pessoas.
Certa ocasião deparei com uma cronica do Neumane no jornal O Estado, onde ele analisava quais os objetivos do homem na Terra, e focou tres deles: Ter, Poder e Prazer.
Refletindo sobre o texto e achando que faltava algo para nossos anceios e desejos cheguei a um quarto objetivo e esse sim, deveria necessariamente estar contido nos tres primeiros ou seja AMOR.
Assim quando conseguimos o Ter com Amor, praticamos o Poder com Amor e principalmente o Prazer com Amor sem sobras de duvidas estaremos vivendo no "céu".
Para encurtar meu texto, e como tenho formação em exatas, pratico e recomendo a seguinte igualdade:
DEUS = AMOR
Assim consigo compreender, entender e praticar o que seguramente não é um velhinho de barbas brancas a casticar os pecadores, mas sim o amor que cada um de nos carrega dentro de si.
Grande abraço, e quando digo fiquem com Deus, pode entender fiquem com Amor.
Tião
Caro amigo Sebastião

Você definiu muito bem todo esse questionamento.

Respeito todos e tudo que relaciona a questionamento, até mesmo aqueles que duvidam dessas energias que poucos têm a percepção de tê-las. Ande estava ou estaria DEUS?

Comecemos por Voltaire, um escritor, detentor dos mais efusivos de sua época da liberdade religiosa e liberdades civis, para mim por tanta sapiência, tinha um grande vazio no seu coração e amor consigo mesmo.

Sebastião, eu te afirmo, não me atrevo a discutir a pergunta de Voltaire.

Mas, me atrevo sim, ser um homem que respeita a natureza em todos os sentidos. A evolução do planeta terra, por onde passaram os mais bizarros seres, onde os paleontólogos que até hoje estudam como e porque extinguiram esses seres, sabemos que na evolução do planeta terra ainda haverá: tsunamis, maremotos, terremotos , vulcões ainda em atividade e outros fenômenos conhecidos por todos nós, mas pouco sabemos onde e quando acontecera.

Precisamos sim de ter em nossa mente e no nosso coração o temor de um “Ser” superior, abstrato e intocável, chamo-o de “Energia”. Nos conforta acontecer situações em nossa vida e inexplicavelmente podemos relatar como foi esses acontecimentos.

Concordo consigo no quarto tripé: AMOR. AMOR consigo mesmo e respeito com qualquer processo onde vivemos, com o conservacionismo das florestas, pois é do solo é que sobrevivemos, dos afluentes e efluentes para não haver a terceira guerra mundial que não será mais com fusíveis e baioneta.

Sou um ambientalista que ainda acredita em que podemos transformar a mudança do comportamento do homem, com respeito ao próximo e com a natureza.

Convido-o a ler meus editoriais no Portal da Fundação VILLAS-BÔAS, o qual preside.
www.expediçãovillasboas.com.br

Fique com muito AMOR e quero desejar PAZ, a todos os amigos que seguem essa discussão.

Façamos todos uma reflexão antes de questionar onde esta DEUS nessas catástrofes.

Minhas Saudações florestais

Paulo VILLAS-BÔAS
Paulo
Lendo seu artigo, aguçou minha curiosidade a respeito de seu sobrenome, Villas Boas, teria voce algum grau de parentesco com os irmãos Claudio e Orlando? Pelo menos aparencia fisica é visivel pela foto.
Saiba que sempre que conseguia materia, acompanhava as expedições dos irmãos Villas Boas, incriveis brasileiros .
Morei na região do Rio Peixoto de Azevedo, local onde os dois fizeram contato no final da decada de 70 com os indios Kranakaroles, tive a oportunidade de trabalhar com um topografo já na decada de 80, na ocasião já contava com idade avançada, ele tambem havia trabalhado com os irmãos Villas Boas, consegui historias fantasticas dele. Era um lituano, fugitivo da guerra que veio trabalhar no Brasil, acompanhou os irmãos Villas Boas pelo interior matogrossensse, e como disse tive o privilegio de conviver dois anos e meio com essa incrivel figura. Conhecido como topografo Victor.
Sertão nos fornece historias incriveis.
Abraços
Paulo
Paulo
Olá Paulo. Como vai?
Na página (muito bonita por sinal) do sr. Paulo Celso - http://www.expedicaovillasboas.com.br/
encontrarás a resposta à questão específica em - http://www.expedicaovillasboas.com.br/portal/minha-mae-zilda.html

O Portal LN é muito bem frequentado
Prezado Paulo Roberto

VILLAS-BÔAS, todos tem a mesma estampa.
Orelha, nariz e testa.

Sou de natural de Bebedouro e o Orlando era natural de Santa Cruz do Rio Pardo, foi criado em Botucatu. Dizia meu falecido pai que éramos parentes, não me atrevo a confirmar, conversei com o Orlando por duas vezes no Shopping Eldorado em São Paulo. Na década de 1.970 morava em São Paulo e me alistei em Campo Grande, nessa época era um só Estado: Mato Grosso, e disse-lhe que queria chegar ao Parque Nacional do Xingu, para continuar a façanha. Ele deu muitas risadas comigo. Estou radicado em Belém do Pará a 25 anos. O projeto Expedição VILLAS-BÔAS pelo Brasil (www.expedicaovillasboas.com.br) é de autoria do meu saudoso pai Zico, que contava muito comigo em suas andanças por esse país que ele tanto amava e respeitava seu semelhante. Aventureiro também, sangue de VILLAS-BÔAS.

Vamos percorrer o país por 8 anos falando sobre ecossistema, pregar o conservacionismo da floresta, preservação das nascentes, dos afluentes e efluentes, cooperativismo , identidade brasileira, ai inserido o povo amazonidas. E projetos Sociais.

Paulo VILLAS-BÔAS

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