O tom (levemente) politicamente incorreto de Manuel Bandeira falando de Sinhô

O mundo “politicamente correto” (as aspas é porque está tudo, menos correto) é bem chato. Não se pode chamar mais ninguém de caolho ou perneta, muito menos de crioulo, preto ou pretinho.
Manuel Bandeira colaborou na Revista da Música Popular, editada por Lúcio Rangel. Foi lançada uma edição fac-similada das edições em 2006 pela Editora Be-Te-Vi, em conjunto com a Funarte. São artigos e entrevistas de um elenco estrelado: Stanislaw Ponte Preta, Jorge Guinle, Fernando Lobo, Millôr Fernandes, Rubem Braga, dentre outros. Imagine Paulo Mendes Campos como entrevistador. Está na Revista.
O mundo mudou desde 1954, ano da criação da Revista. Leia “O entêrro de Sinhô” (mantenho a ortografia da época), por Manuel Bandeira (Revista da Música Popular, nº1, setembro de 1954).

Sinhô, no traço de Calixto (1928)
J.B. DA SILVA, o popular Sinhô dos mais deliciosos sambas cariocas, era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente. Zeca Patrocínio, que o adorava e com quem ele tinha grandes afinidades de temperamento, era assim também: descarnado, lívido, frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um moribundo galvanizado provisoriamente para uma farra. Que doença era a sua? Parecia um tísico nas últimas. Diziam que tinha muita sífilis. Certamente o rim estava em pantanas. Fígado escangalhado. Ouvia-se de vez em quando que o Zeca estava morrendo. Ora em Paris, ora em Todos os Santos, subúrbio da Central. E de repente, na Avenida, a gente encontrava o Zeca às três da madrugada, de smoking, no auge da excitação e da verve. Assim me aconteceu uma vez, e o que o punha tão excitado naquela ocasião era precisamente o último samba carnavalesco de Sinhô, o famoso Claudionor...
que p'ra sustentar família
foi bancar o estivador... 


Me apresentaram a Sinhô na câmara-ardente do Zeca. Foi na pobre nave da igreja dos pretos do Rosário. Sinhô tinha passado o dia ali, era mais de meia-noite, ia passar a noite ali e não parava de evocar a figura do amigo extinto, contava aventuras comuns, espinafrava tudo quanto era músico e poeta, estava danado naquela época com o Vila e o Catulo, poeta era ele, músico era ele. Que língua desgraçada! Que vaidade! mas a gente não podia deixar de gostar dele logo, pelo menos os que são sensíveis ao sabor da qualidade carioca: O que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mas típica, mais genuína e mais profunda. De quando em quando, no meio de uma porção de toadas que todas eram camaradas e frescas como as manhãs dos nossos suburbiozinhos humildes, vinha de Sinhô um samba definitivo, um Claudionor, um Jura, com "um beijo puro na catedral do amor", enfim uma dessas coisas incríveis que pareciam descer dos morros lendários da cidade, Favela, Salgueiro, Mangueira, São Carlos, fina-flôr extrema da malandragem carioca mais inteligente e mais heróica.., Sinhô!

Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana. Daí a fascinação que despertava em toda gente quando levado a um salão.

Vi-o pela última vez em casa de Álvaro Moreyra. Sinhô cantou, se acompanhando, o "Não posso mais, meu bem, não posso mais", que havia composto na madrugada daquele dia, de volta de uma farra. Estava quase inteiramente afônico. Tossia muito e corrigia a tosse bebendo boas lambadas de Madeira R. Repetiu-se a toada um sem número de vezes. Todos nós secundávamos em coro. Terán, que estava presente, ficou encantado.

Não faz uma semana, eu estava em casa de um amigo onde se esperava a chegada de Sinhô para cantar ao violão. Sinhô não veio. Devia estar na rua ou no fundo de alguma casa de música, cantando ou contando vantagem, ou então em algum botequim. Em casa é que não estaria; em casa, de cama, é que não estaria. Sinhô tinha que morrer como morreu, para que a sua morte fosse o que foi: um episódio de rua, como um desastre de automóvel. Vinha numa barca da Ilha do Governador para a cidade, teve uma hemoptise fulminante e acabou.

Seu corpo foi levado para o necrotério do Hospital Hahnemaniano, ali no coração do Estácio, perto do Mangue, à vista dos morros lendários... A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, macumbeiros (lá estava o velho Oxunã da Praça Onze, um preto de dois metros de altura com uma belide num olho), todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito, mulheres dos morros, baianas de taboleiro, vendedores de modinhas... Essa gente não se veste toda de preto. O gosto pela cor persiste deliciosamente mesmo na hora do enterro. Há prostitutazinhas em tecido opala vermelho. Aquele preto, famanaz do pinho, traja uma fatiota clara absolutamente incrível. As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vai-vem incessante da capela para o botequim. Os amigos repetem piadas do morto, assobiam ou cantarolam os sambas (Tu te lembra daquele choro?). No cinema da rua Frei Caneca um bruto cartaz anunciava "A Última Canção" de Al Johnson. Um dos presentes comenta a coincidência. O Chico da Baiana vai trocar de automóvel e volta com um landaulet que parece de casamento e onde toma assento a família de Sinhô. A Pérola Negra, bailarina da companhia preta, assume atitudes de estrela. Não tem ali ninguém para quebrar aquele quadro de costumes cariocas, seguramente o mais genuino que já se viu na vida da cidade: a dor simples, natural, ingénua de um povo cantador e macumbeiro em torno do corpo do companheiro que durante tantos anos foi por excelência intérprete de sua alma estóica, sensual, carnavalesca.

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Respostas a este tópico

também acho este mundo politicamente correto bem chatinho, sabe?
agora o sinhô, ô homem que sabia das coisas!
jura é música prá sempre... tem ali algum verso que não seja mágico?

encontrei na voz do zeca pagodinho:

olha só que beleza:

Sinhô, politicamente correto, dedicou canção ao seu amigo Roberto Marinho.

 

 

na época da música de sinhô, roberto marinho ainda não despontara no cenário "empresarial"... mal saíra das fraldas.

mas, de qualquer modo, não entendi sua ironia.

 

aqui o "homenageado" é outro:

 

As pessoas teimam em retroceder no tempo. Politicamente correto é uma evolução do ser humano em relação ao próximo (homem, mulher, negro, idoso....)
Concordo totalmente.
A partitura original traz a dedicatória ao amigo Roberto Marinho, que era um garotão bem nascido nos anos 20 do século passado, frequentador de rodas boêmias, onde ele conheceu Sinhô. A cocaína era então vendida em farmácias como analgésico, não havia toda essa proscrição que hoje atinge a droga. Não há ironia, correção ou incorreção política é algo datado. Julgar o passado com os olhos do presente é sim um tipo de incorreção.
Como a Luzete, fiquei no ar. Agora, entendi. Mesmo na década de 1950, apesar de músicos terem se viciado – Charlie Parker, Miles Davis et al – muito não consideravam a cocaína propriamente droga. Relata Dennis Hopper (que começou menino em Assim Caminha a Humanidade, como filho da Liz Taylor, se não me engano, conta que em reuniões a droga corria solta e era considerada “social”. Diz Hopper que, nessas ocasiões, Duke Ellington, consumia coca como se estivesse tomando um scotch.

ops,

chegando e um puxão de orelha!

mas não estava julgando nadica de nada, ene. apenas demonstrava minha ignorância que, agora, ficou provada!

 

Nada vi de politicamente incorreto nesse texto. Mas tá na moda fazer de conta que esse mito do "politicamente correto" existe, é um movimento fortíssimo indo contra a espontaneidade de expressao das pessoas. Tudo para defender a ausência total de limites contra o preconceito, o machismo, o racismo, a homofobia, etc, o humor de Zorra Total.
E o texto é ótimo. Flui. Estou me divertindo em garimpar coisas na “Revista da Música Popular”, do Lúcio Rangel.

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