Quem, quando ri apóia sua risada no “i”, é um tímido. Quem usa o “a”, é do tipo de bem com a vida. A turma do “o”, é gorda.

 

O Sérgio Mineiro era da “leva” do “i”. Ria em hi-hi-hi.

 

O Sérgio, foi dos sujeitos mais musicais que encontrei. Um grande finalizador e produtor de comerciais. E era muito engraçado, tínhamos grandes afinidades risísticas, ríamos das mesmas coisas. Num espaço de alguns 15 anos, fomos muito amigos.Trabalhamos juntos, fomos parceiros de vida.

 

Era o Renato Teixeira que dizia “ele sabe tudo dos beatles, as harmonias, jeito de tocar. Você é o “cara”que vai gostar dele!! Vocês vão adorar tocar juntos!!”

 

Até que o Werneck apareceu. E não deu outra. Acabamos trabalhando juntos muitos anos.

 

Durante essa época, acho que por influência minha, ele também passou a odiar reuniões. Mas, publicitários amam reuniões, e o Mineiro, fresquinho na profissão, recém chegado de BH, via Ubatuba, ainda gostava de discutir o valor delas.

 

Pra aliviar as nossas discussões, combinamos assim: sempre que tínhamos reunião, apresentávamos um “boi de piranha”. 

 

Na época a gente ganhava super bem, então, o “boi” podia ser qualquer coisa, tipo um objeto raro, ou caro, tanto fazia. 

 

Bastava ser diferente...

 

Um isqueiro de Dunhil de prata, daqueles que só os de donos de veleiros de dois mastros possuem, ou, então, um aderêço de índios kuicúrus.

 

Era chegar numa agência e, em meio minuto algum participante da reunião pegava o “boi”. E a reunião, claro... descambava.

 

- Estes isqueiros são especiais. Olha o peso! – e demonstrando um previsível e inegável, imenso e charmoso conhecimento de isqueiros caros,  o bobo emendava, óbvio que desvalorizando a peça que não era sua – É muito difícil de achar o gás pra ele.

 

Adivinhar os comentários, o comportamento das pessoas, nos divertia muito. Fugir dos papos pouco criativos, mais ainda.

 

No caso de um aderêço, além de vesti-lo nas moças da sala, inventávamos a história da compra dele no Xingú.  Com detalhes. Inclusive da caçada do pássaro azul que “parecia uma arara, mas não era”.

 

Rir, de nós mesmos e do ser-humano, inventar bobagens, era nossa especialidade..

 

Uma vez, resolvemos acampar com as namoradas e compramos um monte de coisas pra camping. E nem ele nem eu éramos campistas.

 

Na saída da loja, sentamos pra tomar alguma coisa e a idéia fluiu.

 

- Dessas bugigangas, tem coisa que nunca vamos usar – e ríamos da nossa idiotia.

 

- Por exemplo, aquele molinete ultra eletrônico e moderno para pescar trutas. Não tem nem rio com água corrente e truta no Brasil!! Aquilo vai acabar comigo - eu disse.

 

Em parceria, começamos a descrever o fim de uma história que começava ali, com aquela compra, naquela hora... Cada um de nós, achando, envelhecido e empoeirado, algum objeto daqueles que nunca havia sido usado e fôra comprado pelo impulso de "novos ricos" adquirido naquela manhã.

 

Tudo entre gargalhadas. A cada detalhe, mais risos.

 

Lembro do Sergio, muitos anos depois, chegando à Austria pra me visitar à beira de um lago alpino. A esta altura, ele também estaria velinho, casado com uma cantora de folk meio ruiva nos Estados Unidos.

 

Na chegada, ele seria apresentado à sueca com quem eu vivia. Ela, de calça de veludo cotelê verde musgo e um cashemere amarelo ôvo de gola redonda.

 

Eu avisava pra ele que ela só falava sueco e não entendia nada de outro idioma.

 

O conduziria, entre risadas alegres, até o meu depósito de velharias atrás do chalé de madeira.

 

Detalhe importante: nós dois, de “sacanagem de rico velho”, só falaríamos espanhol.

 

Ali, entre uma montanha de caixas velhas e sujas, e as montanhas de neve branca lá fora, eu devolveria o valioso e raro molinete pra ele, que, finalmente, havia aprendido a pescar trutas. no fundo de seu rancho no Colorado.

 

Mais rico que eu, em troca, o meu presente, seria um colar de pérolas naturais. De uma volta só, pérolas miúdas que eu daria pra minha sueca.

 

E naquela noite, tomando vinho, com a cantora meio ruiva e a sueca felizes, rindo em inglês fluente, e nós dois, rindo em português mesmo, alquebrados, meio bêbados, sérios e emocionados, pegaríamos nossos violões pra cantar Yesterday pro Lennon e o McCartney.

 

Estaríamos ainda cantando bem, lembrando com detalhes daquela manhã de compras num de sábado de sol em São Paulo.

 

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Respostas a este tópico

Beto, ouvir seus causos é bom demais. Este tem a sonoridade de risadas e gargalhadas. Adorei a dica sobre como detonar uma reunião ( ótima maneira de não resolver nada: convocar uma reunião). Lembrarei-me disto quando voltar de férias. E Beto, quanto aos tipos de risos, putz, nunca tinha pensado, mas vc tem razão. Eu, p ex, apoio meu riso no i ( kikiki) e sou tímida, embora tem quem não acredite. Papai noel é da turma do hohoho e é bem gordinho e hahaha é mesmo o riso aberto. Agora pergunta que não quer calar: e o quaquaqua? Eu só conheço duas pessoas que riem em quaquaqua. Uma, vez por outra aparece aqui no portal. Acho que o quaqua é da turma que deita e rola, Elis que o diga. beijos Beto, sempre bom demais te ler.

PS queria colar aqui o video de Elis, não consegui, se alguma alma caridosa que por aqui passar depois quiser me ajudar a demonstrar o que é uma risada quaquaqua, agradeço, deixo o link

http://www.youtube.com/watch?v=bKMSCyyOya4&feature=fvw

 

 

eita,

que esta caixinha de surpresas que é o beto, não se acaba nunca.

delícia, mano. delícia. louvadoseja!

e eu acho que tu continuas rico e não sabes!

ou sabe?

 

Dia mana...

 

Dia a todos...

 

A idéia foi homenagear um amigo, que nem sabia que merecia... se fué sin saber.

 

Homenagear a alegria e a, possível, criatividade... E o próximo ano, que vai merecer muita!!

 

Braçones!

 

 

 

ah, a música:

 

a letra:

Yesterday,
All my troubles seemed so far away,
Now it looks as though they're here to stay,
Oh, I believe in yesterday.

Suddenly,
I'm not half the man I used to be,
There's a shadow hanging over me,
Oh, yesterday came suddenly.

Why she
Had to go I don't know, she wouldn't say.
I said,
Something wrong, now I long for yesterday.

Yesterday,
Love was such an easy game to play,
Now I need a place to hide away,
Oh, I believe in yesterday.

Why she
Had to go I don't know, she wouldn't say.
I said,
Something wrong, now I long for yesterday.

Yesterday,
Love was such an easy game to play,
Now I need a place to hide away,
Oh, I believe in yesterday.

Conforme o ditado, rir, é e sempre continuará sendo o melhor remédio. Meu pai, (grande sábio) dizia: se algum problema, que não seja doença ou morte, estver te atormentando, seja financeiro ou existencial, pense nele meia hora. Se não achar a solução, resolvido está. Relaxe e ria dele que rir é o melhor remédio. Teu relato Alberto, transmite exatamente esta mensagem. Brilhante e agradável. Assim como a Vera, gostei das formas de riso. Uso todos eles, em "I", em "A" e em "O" e tanto uso o tom em lá bemol como em fá sustenido. Obrigado por proporcionar-me tanto prazer, ao identificar-me com teu texto.

Alberto,

que leitura maravilhosa!

e como ri ( rsrsrs)

sds

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