Poesia
é brincar com palavras
como se brinca com bola,
papagaio
pião ...

Já vi que no portal existe interesse pelo debate sobre a Educação Pública. Vi a discussão em torno da polêmica que envolve o fracasso escolar e a tendência a responsabilizar os professores... alguém também pontuou a questão dos métodos, as pedagogias... Tem muito pano para as mangas essa discussão, mas para não espalhar muito, convido especialmente professores e professoras que trabalham com alfabetização (de crianças e adultos), que gostam de poesia e que têm experiência em tomar a poesia como fio condutor do processo de alfabetização e formação de leitores... será que é um bom tópico esse?
 

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Respostas a este tópico

ô minha querida carminha.
claro que tem pano para mangas. muito pano e muitas mangas. e mangas, goiabas, umbus, graviolas, pitombas, cupuaçus...

mas...pelo que eu conheço do forum, não sei se ele conseguirá fazer esta reunião que você propõe, sabia?
não custa tentar, contudo...

e feliz por ver você se enxerindo e se desarnando...
Luzete, gostei dessa sua nova face, que me lembra azulejos não necessariamente portugueses. Quanto à participação do fórum nesse debate, vamos ver... sou renitente, como você sabe e não perco a velha mania de ser desvio padrão... "entre as manias que eu tenho, uma é gostar de desviar"... mas vamos ver se consigo segurar esta... como eu falei para a Analu, percebo a poesia se insinuando nos debates ... será que é impressão??? O que será que a poesia tem a ver com comunicação, leitura, linguagens??? Pelo que me lembro, os primeiros comunicadores eram poetas, cantadores... Não sei se você se lembra da minha encrenca la nos nossos ciclos de estudos, quando você dizia que a escrita era cultural, a oralidade era natural.. e eu sempre dizia, tem uma diferença entre tagarelar e tomar posse da linguagem oral para se comunicar.. os primeiros poetas não sabiam escrever, mas sabiam fazer uso diferente da linguagem oral... tinha uma tecnoloiga nisso, não???
Você está certa, Carminha. Poesia (literatura, em geral; o mesmo se aplicaria a contos populares orais) é o que Baktin chamaria de gêneros secundários, que nao se reduzem ao uso espontâneo da fala na comunicação cotidiana entre pessoas (sao uma forma de uso mais elaborada da linguagem para construir uma ação verbal em situações de comunicação mais complexas: artísticas, culturais, políticas, que absorve e modifica os gêneros primários).
Céus, tem tanta gente aqui que responda a essas exigências todas? Se você depois resolver deixar por menos, avise, que a discussao me interessa, embora nao seja alfabetizadora (apenas uma linguista que orienta sobre alfabetização...).

Mudando de assunto, você é que é a esposa do Urian? Sou muito amiga do seu marido, de longa data. Dê um abraço para ele de uma amiga antiga (e ele que advinhe quem... sem me denunciar, por favor).

Abs
AnaLú, a Anarquista Lúcida
Abraço dado e ele manda outro pra você... quanto à proposta do tópico, já fiquei super feliz com a sua resposta, pelo menos já identifiquei alguém, uma linguista, que tem interesse no tema, e pelo menos uma alfabetizadora muito boa -a Solange - que toma a poesia como fio condutor do seu trabalho. Percebemos que isso faz um grande diferencial no processo de apropriação da língua pelas crianças, a começar pela dimensão estética... mas você tem razão, podemos ir devagar, até porque eu sou uma navegadora aprendiz, e como faço barberagem...mas já vi que devagar, devagar, a poesia esá ganhando muito espaço por aqui e isso me animou a fazer a provocação.
No mais, gostei muito mesmo desse começo de conversa com você.
Abraço
Carmen
Olhe, sei que você fez, junto com Luzete, um trabalho muito importante no Nordeste (Recife, acho, nao lembro): li o texto da Luzete sobre isso. Vai ser legal ouvir você falar do seu trabalho.

Pelo que sei, o uso de poesias tem vários aspectos. Despertar a ludicidade das crianças; partir da cultura delas; despertar o gosto pela literatura; etc. Imagino que sejam esses os aspectos privilegiados por você.

Mas elas tb têm aspectos técnicos importantes do ponto de vista linguístico: poemas sao textos; é sempre melhor partir de textos, e nao de frases isoladas, ou palavras soltas; sao textos curtos, em geral, donde mais fáceis de trabalhar no início; sao textos que ajudam a memorização, por causa do ritmo e das rimas; e ritmo e rimas ajudam a trabalhar aspectos linguísticos e a desenvolver a consciência fonológica.

O único aspecto negativo, mas de pouca importância, é que sao textos de um gênero muito especial, e que normalmente nao usam pontuação, e nesse sentido retardam o início da "apresentação informal", aprendizagem espontânea, de regularidades textuais; mas nao precisam ser os únicos textos usados...

Abs
AnaLú (é mais curto que Anarquista Lúcida...)
Tem isso tudo, mas não é só isso, Analú... quando falo de poesia, leitura e alfabetização, não estou me restringindo às crianças e à escola... estou muito mais preocupada com a imensa quantidade de adultos que ainda não se apropriou da escrita (e portanto não pode participar de fóruns como este) e de como a escola não tem sido capaz de resolver isso, talvez por ter se afastado da dimensão comunicativa do gênero poético... como você diz, poemas são textos, elaboradíssimos, sofisticadíssimos, mas essa elaboração é fruto da tradição oral... as primeiras criações poéticas não dependeram da escrita. Esse processo primordial de elaboração estética com a palavra, era um processo puramente mental, dependia da memória, para não se perder, e de uma grande capacidade de lidar com a oralidade, de se expressar através da palavra, observando o ritmo, a entonação, a melodia, para emocionar, para comunicar.
Isso que você chama de aspecto negativo do gênero poesia - o não uso da pontuação, por exemplo -, visto por outro lado, não pode ser um ponto muito positivo? Afinal estamos falando de um tempo primordial de elaboração da linguagem, a passagem da fala para uso imediato e utilitário, pra outra etapa, de criação artística. Tempo de chegada às sínteses, da formulação dos conceitos... É por aí que gostaria de caminhar... será que recuperar esse processo de aprender a pensar poéticamente não é a grande chave para se (re)aprender a ler??? Será que aprender a ler dessa forma não terá repercussão no aprendizado (prefiro dizer apropriação) da modalidade escrita da língua? E aí não falo mais só de crianças e de analfabetos... vamos ver se me fiz entender...
um cheiro, por hoje e por enquanto
Carmen
Eu só disse que era um aspecto negativo de um ponto de vista bem específico... No sentido de serem usados para introduzir regularidades textuais da escrita...

Agora, no trabalho com adultos, acho (é um palpite apenas, nao uma coisa que eu saiba por experiência ou por estudo) que a efetividade do uso da poesia passa pelo passado cultural deles, ou eles poderiam se sentir infantilizados e rejeitar a abordagem.

Explicando melhor, acho que daria certo trabalhar com desafios com adultos vindos do Nordeste, que têm isso no seu passado cultural. Mas acho que jovens urbanos do Rio ou de Sao Paulo, por ex., resistiriam nao só ao trabalho com desafios, como com poemas mais tradicionais. Para eles seria melhor trabalhar com letras de rap, talvez.

E concordo com você que o trabalho com poesias pode melhorar a expressao escrita de qualquer um, nao só a de crianças e analfabetos. A apreciação de uma forma "estranha" de dizer, mas que atinge o seu objetivo de forma fina, cria amor pela língua e seus recursos. Penso, por ex., nos versos "Sei que brincarmos era o dono dele", ou "Abandonou o caminho errado/ por o que à princesa vem", de Pessoa: nao há como nao parar e apreciar o modo de construção, o uso especial da língua neles, que causa um efeito. Mas isso se aplica mesmo em poemas mais simples. O simples uso do ritmo e das rimas já causa encanto pelo "material bruto" da língua, digamos assim.
AnaLu, gostei disso que voce fala sobre a apreciação de uma forma "estranha" de dizer, mas que atinge o seu objetivo de forma fina, cria amor pela língua e seus recursos. É fundamental criar amor pela língua e seus recursos, é muito importante isso. A menção ao Pessoa é muito bem vinda, pois há aproximadamente um mês estou imersa e completamente seduzida pela leitura do livro 13 poemas do mar - Fernando Pessoa, com pinturas do Carlos Furtado. Estou chegando à conclusão com a leitura desse livro que Fernando Pessoa desempenhou um importante papel nesse sentido de fazer a gente criar amor pela língua portuguesa... essa língua é tão nossa, não é do colonizador, não é estrangeira, acho que exatamente pela dimensão poética, pela comunicação advinda da alma dos poetas como Anchieta, escrevendo o poema à Virgem, na praia... fiquei tão impressionada quando vi pela primeira vez aquela imagem... depois Camões, com o famoso Lusíadas e principalmente com os seus sonetos líricos, o Pessoa, que parece continuar vivo de tanto que o sentimos refletido na alma dos nossos poetas e compositores...
Aliás, foi o Urian que me apresentou este lvro e ao ler e reler os 13 poemas, e ao ver e rever as pinturas, e ao refletir sobre o texto de apresentação, escrito pelo professor Fernando Segolin (Literatura Portuguesa e semiótica da Literatura (PUC/SP), me sinto muito identificada com a linha de raciocínio dele, que estabelece uma analogia entre o mar - imenso, profundo, misterioso, que nos incita à indagação e ao sonho -, e o preocesso de construção do conhecimento. Nas palavras textuais dele, o Mar e a Poesia são ambos espaços que se identificam na sua diversidade desconcertante e estranhadora, na busca vã que impõe ao eterno viajante. E ao poeta, tal como ao marinheiro, cabe apenas e tão só a busca, no "mar/poesia" de longas terras, sempre outras... E então ele cita um fragmento de poema do Pessoa

Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

Se bem entendi, o autor afirma que é preciso estar diante de algo grandioso, insondável, e misterioso como o mar, para sentir gana de conhecer, para saber formular, com as palavras exatas, a pergunta que inquieta... Saber ser exato na formulação dessa pergunta seria, a princípio, atribuição do filósofo, mas me parece que é também do poeta, pelo menos nesse exemplo do Pessoa... E aí, voltando ao tema da nossa discussão, o que me inquieta é exatamente saber como colocar o aprendiz diante de uma situação de maravilhamento ou de perplexidade que lhe desperte a gana de conhecer e o instigue a formular a pergunta certa, acionando a necessidade de criar, de buscar a linguagem mais adequada, para dar forma, mesmo que provisória, ao que antes era pergunta no campo da idéia. É isso que estou chamando de (re) aprender a pensar poeticamente, que talvez nem seja necessariamente provocado pelo contato restrito com o gênero textual poesia... enfim, o que quero dizer é que conhecer só faz sentido quando parte de uma necessidade visceral que leva à formulação da pergunta exata que corresponde a uma necessidade que vem das profundezas do sonho. É preciso desde o início que todo aprendiz se ponha no lugar de sujeito, que ao perguntar produz seu primeiro conteúdo de leitura, absolutamente impregnado de sentido para ele. Assim, desde o início, ele deve ser capaz de exercitar o pensamento, buscar a forma mais apropriada de concretizar o sonhar, criar formas, mesmo que provisórias, de materialização, que represente a apropriação cada vez mais elaborada de linguagem. Será que a escola é capaz de responder a esse desafio de colocar o aprendiz no lugar do nauta que sonha com as formas invisíveis até aprender a tocar a linha fina do horizonte e começar o seu esboço de árvore e praia e flor e ave e fonte? Transformar essa linha em letra, palavra, poema, pintura, desenho?

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp"rança e da vontade,
Buscar na linha fina do Horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da verdade.


PS. O Urian avisa que vai fazer uma exposição em Recife em novembro e desde já está anunciando e convidando amigos e amigas.
Carminha, acho que você tocou na coisa essencial sobre o conhecimento: só pode haver conhecimento autêntico se ele parte de uma questao real do sujeito.

Esse é um problema de sempre da escola, que quer ensinar sem levar em conta as interpretações e hipóteses do aluno, mas que, hoje em dia, atingiu a universidade (e nao só alunos, mas tb professores... todo mundo cita, cita, cita, reproduz, reproduz, reproduz, e você chega ao final do artigo e se pergunta: mas o quê esse autor está PROPONDO? Ele, nao os autores que ele cita? A gente nao descobre... Nao está propondo nada, nao está falando, só ecoando a fala alheia).

Vou te contar uma historinha sobre escola que parece piada, mas aconteceu. Uma professora contou para a turma uma história em que um carrinho vermelho queria muito ir até à lua; ele tentou, mas a gasolina acabou no meio do caminho, e ele nao conseguiu chegar. Aí vinham aquelas perguntas de interpretação de texto idiotas; uma delas era "Por que o carrinho nao conseguiu chegar à lua?", e a resposta do livro do professor era "Porque a gasolina acabou antes". Só que uma aluna da turma era filha de físico. Diante da pergunta, nao hesitou, e respondeu: "Por causa da lei da gravidade". Zero! A resposta certa era que a gasolina acabou antes...

Nao é incrível? A professora até podia dizer que aquilo era uma história, e nao a realidade, e que, na história, a causa era que a gasolina tinha acabado. Salientaria assim para a aluna a diferença de realidade e ficção, e poderia aproveitar a resposta dela para introduzir a idéia de gravidade para o resto da turma. Mas, para isso, seria preciso que a professora "se autorizasse", determinasse com a própria cabeça como deveria fazer seu trabalho, em vez de se prender ao livro do professor.

Por isso amo tanto Lobato. Ele usava a ficção para ensinar, nao tanto passando conhecimentos e respostas para as crianças, mas ao contrário "criando problemas" que exigiam uma solução, que elas deveriam dar... E tudo isso usando o maravilhoso, donde a estratégia atingia sucesso certo.
É isso aí, a sua história é um exemplo de como a escola, no geral, consegue ser estúpida, fazendo exatamente o oposto do que deveria ser o seu papel de colocar a criança no lugar de sujeito de sua aprendizagem, de "criar problemas" que ela se sinta desafiada a solucionar. Não é fácil resolver essa encrenca, mas quem está procurando facilidade??? Criar, elaborar é difícultoso, é suado, é trabalhoso, mas acho que o caminho passa pela Pedagogia da Linguagem, não é Luzete.. O Urian também relata o tempo todo como ele precisou lutar o tempo todo, em casa, com a família e na escola, na vida, para não se desviar da sua gana de pintar, de ser pintor.
Ah,carminha!
Urian e Pessoa, ali juntinhos, né?

e aqui:



Recife? novembro? acho que vou esperar a festa dos 80 anos no Rio... vamos nessa?

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