O assunto está mobilizando a opinião pública e o tema está muito presente no NOL, com diversos posts colocando-o em discussão. Acredito que podemos estabelecer aqui também um debate, tendo como ponto de partida esta nota de esclarecimento da Ação Educativa, instituição responsável pela concepção da obra foco da polêmica

NOTA PÚBLICA DA AÇÃO EDUCATIVA

Livro para adultos não ensina erros


Uma frase retirada da obra Por uma vida melhor, cuja responsabilidade pedagógica é da Ação Educativa, vem gerando enorme repercussão na mídia. A obra é destinada à Educação de Jovens e Adultos, modalidade que, pela primeira vez neste ano, teve a oportunidade de receber livros do Programa Nacional do Livro Didático. Por meio dele, o Ministério da Educação promove a avaliação de dezenas de obras apresentadas por editoras, submete-as à avaliação de especialistas e depois oferece as aprovadas para que secretarias de educação e professores façam suas escolhas.


O trecho que gerou tantas polêmicas faz parte do capítulo “Escrever é diferente de falar”. No tópico denominado “concordância entre palavras”, os autores discutem a existência de variedades do português falado que admitem que substantivo e adjetivo não sejam flexionados para concordar com um artigo no plural. Na mesma página, os autores completam a explanação: “na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo tempo, em número (singular – plural) e em pessoa (1ª –2ª – 3ª) com o ser envolvido na ação que ele indica”. Afirmam também: “a norma culta existe tanto na linguagem escrita como na oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”.


Pode-se constatar, portanto, que os autores não estão se furtando a ensinar a norma culta, apenas indicam que existem outras variedades diferentes dessa.  A abordagem é adequada, pois diversos especialistas em ensino de língua, assim como as orientações oficiais para a área, afirmam que tomar consciência da variante linguística que se usa e entender como a sociedade valoriza desigualmente as diferentes variantes pode ajudar na apropriação da norma culta. Uma escola democrática deve ensinar as regras gramaticais a todos os alunos sem menosprezar a cultura em que estão inseridos e sem destituir a língua que falam de sua gramática, ainda que esta não esteja codificada por escrito nem seja socialmente prestigiada. Defendemos a abordagem da obra por considerar que cabe à escola ensinar regras, mas sua função mais nobre é disseminar conhecimentos científicos e senso crítico, para que as pessoas possam saber por que e quando usá-las. 


O debate público é fundamental para promover a qualidade e equidade na educação. É preciso, entretanto, tomar cuidado com a divulgação de matérias com intuitos políticos pouco educativos e afirmações desrespeitosas em relação aos educadores. A Ação Educativa está disposta a promover um debate qualificado que possa efetivamente resultar em democratização da educação e da cultura.  Vale lembrar que polêmicas como essa ocupam a imprensa desde que o Modernismo brasileiro em 1922 incorporou a linguagem popular à literatura. Felizmente, desde então, o país mudou bastante. Muitas pessoas tem consciência de que não se deve discriminar ninguém pela forma como fala ou pelo lugar de onde veio. Tais mudanças são possíveis, sem dúvida, porque cada vez mais brasileiros podem ir à escola tanto para aprender regras como parar desenvolver o senso crítico.

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Respostas a este tópico

Texto maravilhoso que me foi sugerido pelo Arbache, e tirado da Casa de Rubem Alves (nao é propriamente sobre a polêmica, nem sobre norma, etc., mas sobre uma questao correlata, a dos exames vestibulares):

 

Se nós não sabemos, por que é que eles têm de saber?

Eu confesso: se tentasse entrar na universidade via vestibular, não passaria. Meu consolo é saber que eu não estaria sozinho. Teria muitos companheiros. Os reitores de nossas grandes universidades seriam os primeiros. A seguir, respeitáveis professores e pesquisadores. Talvez não passassem nem mesmo em suas próprias disciplinas. É duvidoso que um professor que há anos se dedica a pesquisas de biologia molecular ainda se lembre de como resolver problemas estatísticos de genética. Também os professores dos cursinhos: cada um passaria brilhantemente na disciplina de sua especialidade. Mas é duvidoso que um professor de português consiga resolver problemas de química ou física. Com eles, os professores que elaboram as questões que os alunos terão de responder. Para eles, vale o que foi dito sobre os professores dos cursinhos. Por fim, os diretores das empresas que preparam os vestibulares... Essa hipótese desaforada poderia ser testada facilmente: bastaria que os personagens acima mencionados se submetessem aos vestibulares. Claro: seria proibido que se preparassem. O objetivo seria testar o que foi realmente aprendido. O que foi realmente aprendido é aquilo que sobreviveu à ação purificadora do esquecimento. O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento faz o seu trabalho...

Vestibulares: porta de entrada para a universidade? Seria bom se sua função se limitasse a isso. O sinistro está não no que é dito mas no que permanece não dito: os vestibulares são um dragão devorador de inteligências cuja sombra se alonga para trás, cobrindo adolescentes e crianças. Desde cedo pais e escolas sabem que a escola deve preparar para os vestibulares. Os vestibulares, assim, determinam os padrões de conhecimento e inteligência a serem cultivados. Mas não existe nada mais contrário à educação que os padrões de conhecimento e inteligência que os vestibulares estabelecem.

O escritor Mário Prata escreveu uma crônica sobre as meninas jogadoras de voleibol. Era uma crônica leve, bem humorada, picante. Era impossível não sorrir ao lê-la. Lida, ficava para sempre na memória pois a memória guarda o que deu prazer. Passados alguns meses ele voltou ao assunto da primeira, numa crônica dirigida, se não me engano, ao senhor ministro da Educação. É que sua primeira crônica fora usada, na íntegra, num exame vestibular. Para um escritor, ter uma crônica transcrita, na íntegra, num exame vestibular, equivale a uma consagração. Mário Prata estava felicíssimo. Exceto por um detalhe: os examinadores, para transformar sua crônica em objeto de exame, prepararam um série de questões sobre a mesma, cada uma delas com várias alternativas. Mário Prata resolveu então brincar de vestibulando. Tentou responder as questões. Não acertou uma! ( Eu me saí pior do que ele. Tentei responder as questões, mas houve algumas que nem mesmo entendi! ). Se o vestibular fosse para valer, ele teria zerado no texto que ele mesmo escrevera. Ele se dirigiu então ao senhor ministro de Educação comentando esse absurdo. E perguntou se não teria sido muito mais inteligente se os examinadores, gramáticos, tivessem pedido que os moços escrevessem um parágrafo, provocados por seu artigo. Aqueles saberes esotéricos que lhes eram pedidos nunca teriam qualquer uso em suas vidas.. Compreende-se que, como resultado do seu preparo para os vestibulares os jovens passem a detestar lieratura.

Minha filha queria ser arquiteta. Como não havia outro caminho, matriculou-se num cursinho. Eu a via sofrer tendo de memorizar coisas que não lhe faziam sentido. Fiquei com dó e, por solidariedade, resolvi fazer um sacrifício: passei a estudar com ela. Estudei meiose e mitose, as causas da guerra dos cem anos, cruzamento de coelhos brancos com coelhos pretos... Estudei também, contra a vontade e sem interesse, a necrópsia da lingua chamada análise sintática. Não sei para que serve. E dizia à minha filha, à guisa de consolo: “Você tem de aprender essas coisas que você não quer aprender porque a burocracia oficial assim determinou. Mas não se aflija. Passados dois meses quase tudo terá sido esquecido. Só sobrarão os conhecimentos que fazem sentido...” Pergunto a você, meu leitor: de tudo o que você teve de estudar para passar no vestibular, o que sobrou?

.Por que nós, professores universitários, não passaríamos no vestibular? Por termos memória fraca? Não. Por termos memória inteligente. Burras não são as memórias que esquecem mas as memórias que nada esquecem... A memória inteligente esquece o que não faz sentido. A memória viaja leve. Não leva bagagem desnecessária.

E aí eu pergunto: “Se nós, professores já dentro da universidade, não passaríamos nos exames vestibulares, por que é que os jovens que ainda estão fora têm de passar? É irracional. Especialmente em se considerando que irá acontecer com eles aquilo que aconteceu conosco: esquecerão... Haverá uma justificação pedagógica para esse absurdo? Ainda não a encontrei.

 

· Eu sou Rubem Alves , sou educador e escritor. Fiz uma proposta alternativa aos vestibulares que se encontra no livro “Estórias de quem gosta de ensinar” ( Papirus, Campinas ). Já está na gráfica o livro que escrevi para minhas netas, contando como era a vida na roça, em casa de pau-a-pique, lamparina, “casinha”, galinhas, vacas, monjolos e assombrações. Estou re-lendo “Testamentos traídos” de Milan Kundera. Maravilhoso. Inteligente.Veja o programa “Quem tem medo de música clássica”na TV Senado, preparado e apresentado por Artur da Távola Aos sábados, às 10 da manhã e às 6 da tarde. Aos domingos, às 10, às 6 da tarde e à meia-noite.

 

 

muita coisa prá se discutir quando se entra nesta história de vestibular, enem, e mesmo no PCN ... e nos tais livros didáticos e... na cisão entre escola pública e escola privada e... no lugar da gramática no processo de ensino... e...

e penso em recuperar, oportunamente, o vigoroso debate entre piaget e chomsky, além de vigotsky, sobre o lugar da linguagem.

são muitas as pedras no caminho, são muitas as farsas e muita coisa séria, também.

 

 

Dê uma olhada no tópico do Arbache. Avancei algumas coisas sobre isso (nao tanto sobre o lugar da linguagem, que exigiria um tratado, mas sobre vestibulares e concursos, por um lado, e lugar da gramática no processo de ensino (e por aproximaçao, do de outras disciplinas).

Entrevista do Ataliba de Castilho no Programa do Jô. Tem muito blablablá genérico, mas o início, sobre o afastamento do Português Brasileiro do Português Europeu vale a pena ouvir:

 

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