Nunca haverá o “amor por toda a minha vida”, mas não custa pensar de que possa existir; ou seguir o princípio “viniciano” – um neologismo torto para a conhecida frase de Vinícius de Moraes: “o amor, que seja eterno enquanto dure”.

Qualquer ser humano, um dia, sonhou ou se iludiu que o amor nutrido por outra pessoa seria eterno, provavelmente. Imagino que existam alguns felizardos e esses devam ser invejados. Às vezes, penso se o amor que a Brisa – minha cachorra – nutre por seu dono é um amor incondicional. Mas é um animal de reino diferente ao qual pertencemos. Mesmo assim, por um átimo de tempo ou num impulso em que tudo pode parecer tão perfeito e harmônico, o “apaixonado instantâneo” poderia ter escrito versos assim: “Oh, meu bem amado/ Quero fazer de um juramento uma canção/ Eu prometo por toda a minha vida/ Ser somente teu e amar-te como nunca/ Ninguém jamais amou, ninguém// Oh, meu bem amado/ Estrela pura, aparecida/ Eu te amo e te proclamo/ O meu amor, o meu amor/ Maior que tudo quanto existe/ Oh, meu amor”. Melhor esclarecer: nunca seriam tão belos como esses, que são de Vinícius de Moraes. Outra observação: o “amor por toda a vida” é uma música em tom menor e, em vez de transmitir ideia de felicidade, passa uma sensação fatalista.

Difícil discordar do quase consenso de que o Por Toda a Minha Vida gravado por Elis Regina em Elis & Tom, acompanhada por uma orquestra de cordas arranjada por seu marido à época, Cesar Camargo Mariano, é “A” interpretação. Aliás, esse disco gravado em 1974, em pouco mais de duas semanas, é uma coleção de “melhor das melhores” das composições de Jobim.

Elis & Tom transformou alguns paradigmas da interpretação do repertório jobiniano, mas nem por isso alguém vai deixar de gravá-lo. Ouvindo a brasileira radicada em Londres (não sei se continua lá) cantando Por Toda a Minha Vida, faz-me pensar que standards de qualquer classe ou categoria podem (e até devem) ter um “quê” de transgressão, algo como um ato psicanalítico de ruptura criador/criatura.
Cibelle no encarte do segundo CD
O percurso de Cibelle, como o de alguns músicos e intérpretes brasileiros que estão na “bem falados”, passaram pelas mãos do produtor sérvio Suba, trágica e precocemente morto. Foi a principal vocalista de São Paulo Confessions, lançado pela Crammed Discs. A cantora, que foi modelo também, chamou a atenção e foi convidada a continuar a trabalhar com a gravadora. No primeiro, de 2003, já mostrava ao que veio. Fez um belo disco e desvela a candura de sua voz; e a parte bacana: resgata Johnny Alf do esquecimento (sobre ele leia: http://bit.ly/q2KkEw) em que toca teclados (Fender Rhodes) e canta Inútil Paisagem com Cibelle.
O segundo, de 2006, é um álbum de nome meio psicodélico e intrigante: The Shine of Dried Electric Leaves. É apenas o título do disco; não tem nenhuma música com esse nome. Mistura músicas compostas por Cibelle, só ou em parcerias com Apollo Nove e Mike Lindsay, conta com participações de Seu Jorge e Lany Gordin, e canta composições de Jobim, Caetano Veloso (London London, Cajuína), e Tom Waits (a belíssima Green Grass, a primeira do CD). A de Jobim é, exatamente, Por Toda a Minha Vida, que você ouve a seguir.

Seu último CD é puro estilo. Cibelle se traveste de Sonia Khalecallon, um trocadilho com os nomes da artista mexicana cult Frida Khalo e da artista conceitual Sophie Calle, que resulta em sonoridade que traz à memória a expressão “canecalon”. Gerações mais recentes devem não conhecer as famosas perucas femininas de canecalon, que eram feitas de material sintético imitando cabelos naturais. Apesar de todo o conceito e do nome impactante do CD – Las Vênus Resort Palace Hotel –, não é tão bom quanto o anterior.


Cibelle canta Por Toda Minha Vida.


Será a versão de Por Toda Minha Vida, de Elis & Tom, a definitiva?

Exibições: 222

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Respostas a este tópico

Um registro instrumental - Duo Gisbranco (Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco)

Monica Salmaso

Pode ser interessante. Que pena. Bom, mas você vai ver o Ron Carter. Vale mais, com certeza. Abraço

bom, eu fico com a parte da chuva...

e com a nana e césar camargo mariano:

 

ah, a parte filosófica do início do texto é matéria complicada.

melhor deixar prás coxias da vida!

Três registros em vozes masculinas:

Ed Mota



Caetano Veloso



 

Pelo autor




Maysa

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