O artigo "A Internalização da Exclusão", de Luiz Carlos de Freitas, publicado na Revista Educação e Sociedade de setembro de 2002, é uma das análises mais pertinentes sobre a progressão continuada.

Infelizmente o candidato ao Governo do Estado de São Paulo, Geraldo Alckimim, continua defendendo essa proposta que atenta não só contra a qualidade da Educação no Estado, mas sobretudo, contra a dignidade dos principais envolvidos no processo educativo: professores e alunos da rede pública de ensino.

O artigo pode ser acessado através do link abaixo:

 

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-73302002008000015&scr...

 

Luiz Carlos de Freitas é professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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Respostas a este tópico

Reproduzo abaixo texto da filósofa Viviane Mosé, que subscrevo inteiramente (e que já reproduzi no tópico Mais Sobre a Progressao Continuada":

EDUCAÇÃO: A BRIGA NO RIO ESTÁ ERRADA

Por Viviane Mosé (*)

Acabar com a aprovação automática parece ser uma evidência no atual momento político no Rio de Janeiro. Mas o que ficou conhecido como aprovação automática é a má aplicação do que se chama progressão continuada, uma das medidas essenciais quando queremos sanar as dificuldades da escola. Ao invés de anos, ciclos de aprendizagem, que avaliam, mas não reprovam, ao contrário, acompanham o desenvolvimento de cada aluno, ajudando-o em seu pleno desenvolvimento. A aprovação automática, como ficou conhecida aqui no Rio de Janeiro, não reprova, mas também não consegue acompanhar os alunos com dificuldade.

O sistema educacional que ainda predomina no Brasil foi inspirado no modelo industrial. Nossa escola é como a linha de montagem de uma fábrica: as diversas disciplinas, sem conexão umas com as outras, são partes de um mundo que está distante do aluno. A vida, o contexto ficou afastado da escola, que mais parece um presídio de alunos. A educação moderna não tem como alvo o ser humano, sua formação integral, intelectual, física, estética, existencial etc., mas busca, através de um sistema excludente, produzir as diferentes peças de uma engrenagem social estratificada.

Aliado à industrialização tardia, convivemos ainda com as marcas de um regime militar que tratou como subversivo todo tipo de pensamento crítico, toda atitude corajosa e reflexiva. E hoje temos uma educação essencialmente passiva, fundada no acúmulo de dados; uma escola que, além de isolada do mundo e da vida, nomeia de "grade" o currículo e de "disciplina" os conteúdos.

O sistema de reprovação que ainda vigora no Brasil é um dos mecanismos mais excludentes e cruéis de nossa sociedade. Quando reprovamos um aluno estamos afirmando que ele é o único responsável por seu mau desempenho. Nem os professores, nem a diretora, nem a família, nem o sistema de ensino serão reprovados, apenas ele. E isto se deve, entre outras coisas, ao fato de que a escola está historicamente centrada no ensino, não na aprendizagem. Os professores, o corpo técnico, os gestores se sentem responsáveis pela transmissão de conteúdos, mas não se sentem comprometidos com a aprendizagem; se o aluno aprende ou não é problema dele, não da escola.

Em alguns municípios brasileiros 60% das crianças ficam reprovadas na primeira série. Eles têm em geral seis ou sete anos, e vão pagar por essa não aprendizagem. A reprovação faz com que, multo cedo, as crianças sofram a exclusão, a segregação social que tanto massacra nossa sociedade adulta. Uma mulher que abordei na rua, em um bairro muito pobre da cidade, disse-me que seus filhos tinham saído da escola porque não conseguiam aprender. "A escola só gosta de quem sabe", ela disse. E deveria ser o contrário, a escola deveria se dedicar de um modo especial a quem não aprende no tempo estipulado.

Hoje, no Rio, temos crianças na escola que não sabem ler, aos 12 anos de idade; antes da progressão continuada elas também não sabiam, mas estavam fora da escola, das estatísticas. O objetivo da progressão continuada é manter crianças e jovens na escola, e isso ela tem conseguido. Mas, se as crianças, mesmo na escola, não estão aprendendo, então devemos brigar por uma escola que ensina, em vez de reivindicar uma escola que reprova.

O sistema seriado de ensino que temos, dividido em anos, com diversas disciplinas Isoladas umas das outras e distante da vida, permanece porque está centrado no poder do professor. Um novo modelo de escola se dedica menos ao ensino e mais à aprendizagem, não se satisfaz em ministrar conteúdos, mas acompanha e estimula os alunos no exercício de suas diferenças, monitorando suas dificuldades e aptidões.

Não é de reprovação que precisamos, mas de uma escola que se comprometa com qualquer aluno, que se dedique a cada um deles, que trabalhe em prol do seu sucesso, e, para isso, promova situações de aprendizagem cada vez mais elaboradas e integradas entre si. Precisamos de uma escola disposta a se transformar e crescer para atender às necessidades das diferentes crianças e jovens, em seu processo de desenvolvimento. Uma escola que estimule a participação, a pesquisa e o pensamento crítico, uma escola democrática, que possa existir realmente para todos.

(*) Viviane Mosé é filósofa.
Olá Anarquista Lúcida!
Obrigada, primeiro por ler e responder meu post; em segundo lugar, por me informar que já existe um tópico sobre "Progresão Continuada" aqui no Portal e, finalmente, por ser uma Anarquista Lúcida.
Também sou licenciada em Filosofia (pela UNESP) e, nos créditos que cursei na pós em Educação (na Unesp também), fiz um trabalho sobre a Educação Anarquista nas décadas de 1910/1920. Apaixonei-me pelo tema e acho que as propostas educacionais dos Libertários da época continuam válidas nos dias atuais.
Quanto ao assunto "Progressão Continuada", parece-me que se confunde a progressão com a aprovação automática dos alunos e esse equívoco transformou a rede pública de ensino do Estado de São Paulo em uma rede de incompetências, onde todos saem prejudicados: professores, alunos e a sociedade.
Penso que as Secretarias Estaduais de Educação, antes de formularem projetos, deveriam criar mais salas de aula, pois é impossível para um professor "se dedicar de um modo especial a quem não aprende no tempo estipulado", em classes com 45/50 alunos. Em classes menos numerosas o professor teria melhores condições de trabalhar, não só atitudes e habilidades (Educação), mas também conteúdos (Ensino e Aprendizagem). Não fossem os conteúdos, creio que, dificilmente, eu, você e Viviane pudéssemos estar agora comentando a Progressão Continuada.
Abraços.
Oi, Marisa

Desculpe a demora nessa resposta, mas é que comentei e esqueci de acionar o comando Seguir. Concordo com você; só refresquei o artigo da Viviane porque muita gente, confundindo Progressao Continuada com Aprovação Automática, está indo contra a Progressao Continuada, nao percebendo que a situação anterior era ainda pior (expulsao de cerca de 50% dos alunos da escola). O que é necessário é lutar para a efetiva implantação da Progressao Continuada, e nao pelo fim dela (quando na verdade nunca foi realmente implantada).

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