Quando o espírito de maio de 1968 começou a morrer...

Novo filme francês tenta entender os rumos do período revolucionário e nos aponta o caminho para a Europa atual: racista e neoliberal

Depois de Maio poderia ser mais um filme sobre as revoltas que uniram estudantes e operários franceses em maio de 1968 por um novo mundo, distante das amarras dos grandes dogmas. A preocupação do diretor francês Olivier Assayas, no entanto, não é com o passado, mas sim com o mundo que nasceu dessa efervescência revolucionária.

Seu próprio título enuncia e a legenda de abertura nos avisa: o filme se passa nos arredores de Paris em 1971, três anos depois das greves massivas que pararam o país. Conhecemos o contexto cambiante e os novos rumos que se delineiam por meio da história de um grupo de jovens no último ano do Ensino Médio.

O movimento estudantil já não era mais o mesmo, a aliança entre as fábricas e as universidades se rompeu e a reação conservadora fortaleceu as forças contra as quais o movimento se ergueu: apenas um mês depois da revolta, em junho de 1968, o partido conservador de Charles De Gaulle ganhou as eleições parlamentares com maioria esmagadora, conquistando 353 dos 468 assentos; grupos de esquerda foram colocados na ilegalidade; e as tropas de choque da polícia se fortaleceram. Por outro lado, a luta revolucionária se radicalizava em direção aos grupos terroristas da década de 1970 e voltava a se aparelhar nos moldes contestados pelos jovens em maio de 68.

Gilles (Clément Métayer) e seus amigos não chegaram a participar das lutas de maio de 1968, mas são fortemente influenciados pelo seu espírito contestador, que combina tão bem com a juventude. Eles não querem seguir a vida burguesa de seus pais, desejam mudar o mundo e experimentar uma nova forma de existência. As opções com que se defrontam refletem o momento histórico: uma hora se é da luta armada; na outra, um artista preocupado com suas obras; e, em seguida, se está em busca de novas respostas ao desencanto ocidental no misticismo do Oriente e nas drogas que surgem.

A sensação de que são jovens perdidos pode ser pela idade dos personagens, mas também pelo começo do fim da exaltação de maio de 1968. Como o trailer oficial do filme explica: “depois das palavras, depois das utopias, depois dos sonhos e depois das lutas”. Não são tanto os indivíduos que aparecem, mas os erros e caminhos que levaram ao mundo de hoje.

Quais foram os destinos das pessoas envolvidas no maio de 1968 e, mais importante ainda, de suas ideias contestadoras? Essa parece ser a pergunta que coloca Assayas, ele mesmo um membro dessa geração “perdida”. Como o próprio diretor, Gilles deve decidir entre o engajamento político e a carreira artística. “Você sempre foge do combate”, “E você, faz melhor que eles?” e “Não se trata do que você arrisca, mas de ser coerente consigo mesmo” são apenas algumas das críticas dirigidas ao personagem que teme “perder sua juventude” por não viver o presente intensamente.
É o momento das descobertas da vida aliado a um período turbulento de muitas novidades que se impõem com força aos jovens, e seu professor já lhes avisou, profeticamente, no início do filme, que “entre o inferno e o nada, há apenas a vida, que é a coisa mais frágil do mundo”. Entre escolhas radicais e o medo, os personagens traçam caminhos que não levam à ruptura nem à construção de um “homem novo para um mundo novo”.

Lendo uma das edições da Internacional Situacionista durante viagem de trem, Gilles constata que a revolução, muito diferente daquela idealizada por Marx ou Lenin, é inevitável desde os eventos de 1968. Apesar de perceber os problemas e dilemas da esquerda pós-1968, que ainda não admite os massacres ocorridos na Revolução Cultural na China de Mao Tse Tung, o personagem não sabe o que estaria por vir. Mas nós e o diretor sabemos: a revolução não só não aconteceu como os sonhos da esquerda se esfacelaram ou estagnaram.

Acreditava-se que maio de 1968 marcaria o início de uma nova era, de novas respostas aos problemas enfrentados tanto no capitalismo quanto no socialismo soviético. Jovens e operários juntos se negavam a aceitar o autoritarismo do governo, dos partidos e dos sindicatos e diziam “é proibido proibir”. As aspirações revolucionárias deram lugar às tentativas de reformas por vias democráticas e uma onda de conservadorismo varreu as juventudes por todo o mundo.

Assayas parece querer entender como acabou o sonho de transformar o mundo, um esforço que Daniel Cohn Bendit, uma das principais figuras do movimento estudantil de maio de 1968 na França, também se dedicou no aniversário de 20 anos das revoltas em seu livro Nós que amávamos tanto a revolução. Os jovens revolucionários ou morreram ou envelheceram demais para procurar novas alternativas. "Hoje em dia, perdemos a fé em transformar o futuro", afirma o diretor francês, de 56 anos, à AFP.

Mostrar a falência do “espírito de Maio de 68” nem sempre é bem-recebido pelo público. Como lembrou o crítico de arte Luiz Zanin, Depois de Maio foi criticado no Festival de Veneza por não recuperar “aquela aura febril e poética” do período e apenas denunciar seu colapso. Ainda assim, o filme recebeu os prêmios de melhor roteiro no Festival de Veneza de 2012 e de melhor filme francês em 2013 (Prix Louis Delluc).

No longa, nós, espectadores, já identificamos como essas ideias foram eclipsadas. A França que se desenha é a França contrária à aprovação do casamento gay, que elegeu Nicolas Sarkozy e que quer banir os imigrantes e seus descentes. É o prelúdio da apatia conservadora e da vitória da direita neoliberal.

Depois de Maio mostra aos jovens, como eu, que nossas liberdades atuais vieram de lutas e escolhas radicais de pessoas como nós e que, de certa maneira, regredimos muito nesses anos em relação aos jovens de outrora. As práticas de nossa geração, dita como “sem bandeiras” por ter nascido em um mundo – fruto de 1968 - onde “tudo já é permitido”, parecem ter se descolado das ideias e do espírito que embasaram a liberalização do uso de entorpecentes, do sexo e da experimentação. Talvez tenha sido por isso que o diretor decidiu escolher trabalhar apenas com não atores, escolhidos enquanto passeava nas ruas, - a única exceção foi Christine, interpretada por Lola Creton.

A partir da vivência dos personagens do longa de Assayas, podemos nos perguntar: somos tão livres e contestadores como eles? Até onde nossas relações e nossas vidas não acabaram por recuperar valores tradicionais tão contestados e identificados com os “velhos” da época? “É preciso matar o polícia que existe dentro de cada um de nós”, já diziam os muros de maio de 1968.

http://youtu.be/MoumsQyiJ2o

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/28715/quando+o+espiri...

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Respostas a este tópico

A guidada à direita que muitos países ao redor do mundo deram, nos últimos anos.....é uma pergunta que muitos fazem, eu inclusive!!  Vejo os jovens de hoje e não encontro neles aquela disposição de antigamente para carregar bandeiras, lutar, sair às ruas.......acabamos aceitando tudo.....todos nós meio que nos conformamos!!  O que aconteceu??  

Nada Dê, é cíclico.

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Acho que nos dias atuais há um início de recomposição de um movimento de contestação. O problema que como a esquerda não soube adaptar seu discurso para uma geração de sociedade de consumo, este impasse ainda resistiu mais do que deveria resistir.

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Também temos que convir que maio de 68 não primou por propostas objetivas, esta aliança de estudantes e trabalhadores chegou de mãos vazias de propostas, não vi nada de inovador no maio de 68, além da própria aliança. O discurso era até certo ponto liberador em termos pessoais do que em termos de sociedade como um todo.

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Talvez esta falência tão rápida do maio de 68 deva-se principalmente por ser ele um movimento de contestação de jovens, jovens que já tinham o dentro do seu próprio DNA uma tendência para o futuro, logo estes jovens envelheceram e algo que tem mais uma característica de movimento de uma geração contra outra, quando esta uma geração passa a ser a outra talvez a que a suceda não queira cair no mesmo.

CONCORDO  com Rogério,

Aprendo muito quando ando pelo interior,

conversando com mulheres semi alfabetas, mas, sábias,

outro dia uma me disse; se referindo a pessoas que mudam de partido, religião( aqui , quando ficam intolerantes)

----- fia, essa gente já tinha sangue pra ser assim, tava só de passagem, e pegando  a onda dos outros, firmeza mesmo não é pra todo mundo, que aguenta trancos e barrancos, nunca vi dizer que luta tem fim....

Pois é ,hoje vejo com tristeza companheiros, falarem cada barbaridade, tão conservadores, que fico pasma.

TALVEZ ATÉ PIOR DO QUE OS DIREITISTAS. TRANSMITINDO SUAS IDÉIAS E CONSUMISMO AOS FILHOS.

Stella e Rogério, temos vários exemplos de políticos dito de esquerda que viraram casaca...talvez o mais famoso seja Roberto Freire e seu discurso próximo do fascismo!!  

O que me chama atenção, nos dias de hoje, são os jovens que não demonstram ter o menor interesse por política.  Talvez a propaganda que todo político não presta......finalmente encontrou morada.  As pessoas hoje, mesmo sendo parte, as mais interessadas, não se manifestam.....alguns posts, uns prós outros do contra, ainda encontram guarida nos FB da vida mas movimento, de sair às ruas, panelaços etc....não temos mais.  

É VERDADE  Dê

Sinto falta.

Quando saímos às ruas aqui se conta nos dedos os jovens... 

Recentemente vimos O LEVANTE   POPULAR, não tenho mais noticias

Talvez as nossas críticas estão sendo meio eurocêntricas, estamos esperando de um continente envelhecido, e que décadas de um assistencialismo extremo tenha tirado da juventude a força para brigar.

No ano passado estava falando com um geólogo inglês sobre o desemprego na Europa e o mesmo me fez uma observação importante. Na Inglaterra e no resto da Europa não há desemprego em geologia, engenharia e outras áreas técnicas, áreas estas que os jovens europeus não tem vontade de estudar porque são muito árduas. Ou seja, nas áreas mais leves e divertidas está cheio de profissionais formados com as mais diversas denominações, áreas estas que só há emprego em economias de abundância.

Talvez isto, tirando a perspectiva de pensar numa nova sociedade, tira também o caráter revolucionário de uma nova geração.

Agora se verificarmos quantos movimentos surgem na África, que são logo conduzidos e suprimidos pelos países dominantes, temos que pensar que talvez o eixo tenha mudado de direção.

Certo ROGÉRIO,

Mas que diminuiu um bocadão as revindicações isto sim tá ocorrendo a toda hora,

bom, talvez a gente queira  gente nas ruas... hoje o negócio fica mais na NET,

Ontem tava relendo um livro  sobre o feminismo no BRASIL , e pensei  ;

  __ Puxa! QUANTAS LUTAS!! DESTAS  MULHERES.

Hoje pode até pensar que elas estão acomodadas, mas não é bem assim.

BOM, MAS O FORUM AQUI É SOBRE A JUVENTUDE( já tava mudando o foco)

Vc. falou nos empregos. Concordo.

Quando meu milho passou pra FISICA muitos me disseram que ele só ia quebrar cabeça, dinheiro mesmo não se ver nesta área.

Só muito estudo!

Hoje ele tá fazendo doutorado ( 26 anos) e já foi  a varios países apresentar trabalhos.

ESTUDA PRA CARAMBA!!!

Sei que tem uma carreira de estabilidade, mas RICO nós sabemos que não, e nem queremos....

Então  é na correria pelo dinheiro mesmo , ensinada pelos pais,

DIGO SEMPRE JOVENS SEM COMPROMISSO COM O SOCIAL.

Pois é amigos.....vivemos um tempo bem esquisito, o tempo individualista.  A sociedade parou de pensar no todo para pensar na unidade, no eu!!  Não se dão conta que é preciso melhorar o todo para se poder melhorar individualmente.  O mais engraçado é que vejo gente "estudada, letrada" falando muita abobrinha.  Um discurso com uma guinada à direita é o que mais escuto hoje.  Fico pensando aonde foi e como foi que viemos parar aqui?  Jovens com pensamentos fascistas, discurso de direita....como que pode?  Nesta idade, normalmente, a grande maioria é de esquerda até por osmose mesmo!!!  Fico pensando, será que a ditadura nos marcou tão profundamente assim que hoje não conseguímos sequer lutar pelos nossos interesses?  Nos vendamos por conforto, gadgets?  Enfim.....é uma dúvida que tem me atormentado muito!!

Dê.

Os pensamentos sempre foram fascistas e de direita em grande parte dos que hoje expressam suas opiniões, não mudou o discurso, MUDOU O PUDOR.

Mas por quê??? Nunca fez sentido isto para mim!  O pensamento de esquerda é que deveria ser o reinante uma vez que há bem mais explorados que exploradores...muito mais pobres que ricos. OK, os exploradores detém as riquezas e portanto investem pesado na mídia  na propaganda etc....mas como que as pessoas não enxergam isso??  Plagiando Tim Maia.....pobre ser de direita.....é realmente um contrassenso total!!  E como podemos explicar?  Veja Maestri, e nem falo daquele comunismo da URSS.....que não existe mais nem em Cuba.  Um  povo mundial espoliado e que  mesmo depois de perceberem o erro que é o neoliberalismo e alguns governos de direita, na primeira oportunidade, votam na direita de novo.  Um exemplo.....a Islândia, recentemente. Não faz mais sentido temer o comunismo, veja a China comunista como exemplo....nada te faz lembrar do comunismo convencional.  Mas ainda assim persiste o sonho de uma falsa liberdade......que não existe e nem nunca existiu.  Mesmo depois de termos conhecimento de países que adotaram um socialismo mais "moderno" mesmo assim, discursos de esquerda não "pegam" mais!!!  

Dê.

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São duas coisas diferentes, pertencer a uma classe social e se identificar com a mesma.

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Talvez isto seja o grande erro da esquerda dos dias atuais, achar que todos os proletários ainda trabalham com foice e martelo.

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Hoje em dia um pequeno funcionário de uma empresa, que trabalha na frente de um computador e está comprando um carrinho financiado, ele se identifica mais com o patrão do que com o sujeito que está abrindo uma valeta para colocar um cano na rua, mesmo que o operário braçal ganhe mais do que ele.

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Há uma ruptura entre o real e o imaginário.

RAFLA Maestri, sim...e aí que vem a outra parte.  A primeira coisa que a grande maioria dos que ascenderam socialmente fazem , é  adotar um discurso de direita sendo que foi justamente um discurso de esquerda que os tiraram da condição eterna de miseráveis. 

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