O repertório jazzístico do cancioneiro americano possui uma atração irresistível e se espalhou pelos lugares mais recônditos. Provavelmente, num barzinho em local improvável como Papua-Guiné, Oceania, há um cantor ou uma cantora distraindo seus clientes com My Way ou I’ve Got You Under My Skin. Num local menos distante do continente americano, em Bombay, Índia, nasceu Christine Correa. Não fosse o fato de ter gravado com Ran Blake, pianista que passei a admirar depois de conhecer You Stepped Out of a Cloud (Owl, 1989) com a gloriosa Jeanne Lee, jamais teria tomado conhecimento dessa cantora que, pelo jeito, deve ter raízes em Goa, antiga possessão portuguesa.

A cosmopolita Jacintha
Num ponto entre Papua-Guiné e Bombay, mais exatamente em Singapura, nasceu, em 1957, Jacintha Abisheganaden, filha de pais de origem chinesa e do Sri Lanka. Jacintha (assina apenas com o primeiro nome) é contratada da Groove Note Records desde 1999. Sem ser excepcional, possui voz agradabilíssima. Sem querer ser maldoso, é uma daquelas cantoras que chamo de “roda-presa”: cantam “straight” e não ousam muito. Escaldado por comentários, até agressivos, por ter, uma vez, critiicado a brasileira Eliane Elias (é proibido criticar brasileiros; senti-me um sacrílego, um profanador de reputações) pelo fato de fazer parte desse rol. Não ousarei falar mal de Jacintha, até porque, se não gostasse dela, não teria três CDs dessa moça; assim como em relação a Elias: tenho sete discos dela. Não seria tão masoquista e idiota de ficar gastando meu dinheiro com coisa de que não gosto.
Um mérito de Jacintha é o de, apesar do repertório previsível, escolher bem o que cantar. E não é só isso: os músicos que a acompanham são do primeiro time (Larry Goldings, Anthony Wilson, Teddy Edwards, Joe LaBarbera, dentre outros). O pianista japonês Kei Akagi é sideman em vários discos e dá muito bem conta do recado. Em outro CD – Lush Life –, cabe ao pianista Bill Cunlife acompanhá-la. É responsável também pelos arranjos das cordas, aliás, belíssimos, que valorizam interpretações de clássicos como Boulevard of Broken Dreams, The Shadow of Your Smile, Black Coffee, Summertime, Lush Life, Smile, e September Song. Sem arroubos vocais e scats como os de grandes damas do jazz como Ella Fitzgerald ou Sarah Vaughan, propicia momentos intimistas e evocativos com uma voz que acaricia nossos ouvidos.

Devido ao estilo straight e pelo repertório, é considerada por alguns críticos como “easy listening”. Nas lojas há um setor separado com esse nome e é onde você encontra os discos de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr, Matt Monro, Doris Day e uma infinidade de cantores e cantoras. Convenhamos, Jacintha não está em má companhia.


Para quem não a conhece, alguma coisa que está no Yutube.
Here’s to Life. Essa belíssima música tem em Shirley Horn como sua maior intérprete. A de Jacintha não fica muito atrás. A de Horn tem como arranjador orquestral o fabuloso Johnny Mandel.



Wave.


Midnight Sun. Adoro essa música de Johnny Mercer. Leia sobre ela em
http://bit.ly/pbDrTV), e http://bit.ly/pjaiGi

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Respostas a este tópico

jacintha.

gosto do nome.

e é como você disse, uma voz singela, bem acompanhada e um repertório daqueles "clássicos" entre os pops. eu gosto demais.

mas o que me surpreende é seu talento, o seu mesmo, guen: o de descobrir estas pessoinhas todas! parece um paleontólogo musical (contemporâneo, claro)

ah, trago esta contribuição, onde ela se arrisca, e bem, pelo francês.

 

 

E ela canta Manhã de Carnaval em português. Pra não ficar chovendo no molhado (é que adoro “Manhã…), botei outra.

não achei ela, não, cantando a manhã... nossa, guen, fala a verdade: existe música mais linda do que esta? olha, não sei... prá mim, não!

como não achei com a jacintha (no youtube) deixo esta interpretação, linda demais:

 

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