Sinais de Fumaça - Dialogando com todo mundo e o mundo inteiro

Segue o texto integral de reflexão formulada pela coordenação política MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), que, ao lado de outros movimentos legitimamente nascidos de carências concretas dos totalmente desassistidos de políticas públicas, e totalmente apartados de estatísticas economicistas fragmentárias, transita o dificil, porem firme terreno da arregimentação política a oferecer renitente resistência ao avanço predatório do capital, construindo práxis diária apoiada na busca de unidade, na consolidação teórica e no enfoque realista, pragmático, do que há para se combater e construir, desatrelado mas não apartado de instâncias partidárias, governamentais, organizativas. Explicitam-se claramente os caminhos convergentes de movimentos de base com organizações trabalhadoras, partidos de esquerda e sindicatos. Clama por unidade, não antagonismo.

São sinais de fumaça a sinalizar aos caras-pálidas que a história ainda está em pleno andamento - a despeito do inconformismo dos muitos candidatos a coveiro - e que o processo econômico nada representa, ou representa tudo, face ao imprescindivel engajamento político, à necessidade cada vez mais presente de transformar estruturalmente, e não apenas retocar.

Cosméticas já não servem aos que subitamente estão identificando suas próprias faces diante da imensa vitrine das relações sociais; e não se envergonham mais de sua própria imagem.

É um texto longo, porque havia que ser longo, detalhado, explicativo. Mas merece ser lido e pensado por cada palavra e cada vírgula.

Saudações e viva!



O MOVIMENTO POPULAR E OS DESAFIOS DA CLASSE TRABALHADORA NO BRASIL
Guilherme Boulos,
membro da coordenação do MTST


A Crise como desafio de organização

A crise econômica coloca novos problemas e recoloca os velhos. Crises são sempre momentos de ataques aos trabalhadores; ao menor sinal de perda, o capital quer logo socializar os prejuízos. Reza uma cartilha bem conhecida: demissões em massa, aumento da precarização, cortes de salários e gastos públicos. Abre-se então um período onde a resistência e a luta aparecem como cada vez mais urgentes e necessárias. As organizações da classe são levadas a sair da inércia e responder aos ataques. Numa crise, quem não é capaz de oferecer respostas rápidas aos problemas fundamentais é atropelado pelos fatos novos que a conjuntura apresenta num ritmo intenso. É, portanto, um momento em que o debate da organização de classe adquire outro significado: menos abstrato, mais dinâmico e urgente.

A atual crise é, por um lado, velha. Remete à própria lógica de produção do capitalismo, ao que Marx chamou de “contradição em processo”. Ou seja, o movimento em que a fome do capital de produzir mais em menos tempo se converte em diminuição da rentabilidade de seu investimento. Estimulado pela concorrência, o capital introduz sem parar inovações tecnológicas, que aumentam a produtividade e o grau de exploração do trabalhador, mas que encarecem o investimento em meios de produção – gerando uma tendência de queda nas taxas de lucro – e levam a crises periódicas de superprodução. Historicamente, o capitalismo “solucionou” estas crises com a abertura de novos mercados, criando mais necessidades de consumo e desbravando mais territórios, não sem antes descarregar sobre o trabalhador o peso de suas perdas. E numa fuga para frente reinicia seu movimento alucinado de valorização. Mas a cada crise, ao lançar mão de seu expediente padrão, o capital afunila suas possibilidades futuras.

Neste sentido, a atual crise é também nova, trazendo elementos que não existiam em crises anteriores ou que nelas apareciam bem menos desenvolvidos. Não é por acaso que os trilhões de dólares injetados nos mercados – que em outros tempos seriam um tanto desproporcionais – não têm evitado o aprofundamento dos sintomas. São muitas as “novidades”. Assistimos nas últimas três décadas a um direcionamento inédito de capitais para os investimentos financeiros. O encarecimento dos custos do processo produtivo, expresso em meios de produção e serviços necessários à realização do valor, levou a uma profunda seleção e concentração do capital, fazendo com que muitos capitalistas migrassem seus investimentos para a especulação, à espera de uma maior rentabilidade. Pela mesma razão ocorreu um aumento de dependência da esfera produtiva em relação ao crédito, alimentando a expansão de uma estrutura financeira complexa e gigantesca.

Paralelamente a esse inchaço financeiro ocorreu um processo de liberalização e desregulamentação do movimento internacional de capitais. As fronteiras se dissolveram e o capitalismo se aproximou como nunca da consolidação de uma economia mundial, onde os Estados nacionais passam a ser simples pólos, com maior ou menor fragilidade e influência, o que resulta na redução de seu poder de controle e intervenção sobre o movimento do capital. Junto a isso, o papel desempenhado pelas instituições internacionais, blocos e grupos de Estados tem se demonstrado no mínimo insuficiente, a todo o momento limitado por contradições entre uma intervenção planejada em nível internacional e os interesses nacionais. Ademais, a atual crise – além de brotar deste contexto de hipertrofia financeira e internacionalização desregulamentada do capital – nasceu no principal centro econômico mundial. Diferencia-se por isso de todas as crises vivenciadas nas últimas décadas, nas quais os EUA terminavam por ser o garantidor em última instância da liquidez do mercado. O problema é quem garantirá agora. Estamos, portanto, diante de uma crise capitalista profunda e grave, com desdobramentos e alcances muito difíceis de prever.

Este quadro coloca para a esquerda socialista – muito mais do que respostas – uma série de questões no campo da ação política. Sabemos que as crises econômicas trazem em geral um potencial de intensificação da luta de classes, de ascenço nas mobilizações da classe trabalhadora. É certo, porém, que nem toda crise realizou de fato este potencial, inaugurando um período de grandes lutas e enfrentamentos. Mas é também certo que as grandes lutas e revoluções tiveram quase sempre uma crise econômica entre seus desencadeadores. Enfim, nem toda crise gera ascenço de massas e revoluções, mas, no mínimo, as crises criam condições mais favoráveis para que ocorram. Isto porque nos momentos de normalidade e crescimento, os trabalhadores – por mais explorada e subordinada que seja sua condição – permanecem integrados ao processo de valorização do capital, o que permite sua sobrevivência. A crise abala profundamente os laços e contratos entre trabalho e capital, abrindo caminho para o novo.

Neste momento é central o papel do elemento organizativo, das formas e níveis de organização da classe trabalhadora. É o velho debate das condições objetivas e subjetivas, ambas indispensáveis; só do raro encontro entre elas é que nascem as grandes transformações. O preparo político-organizativo é decisivo para o aproveitamento de uma circunstancia histórica favorável. Apresentar uma saída socialista para a crise do capitalismo não é somente proclamá-la. É preciso ter organizações de classe politicamente capazes e com condições de ampla mobilização para conduzir o processo de ascenço e – no limite – obstruir a reprodução do processo de valorização do capital. Estar à altura desta necessidade é o grande desafio das organizações da classe trabalhadora para a construção do socialismo.

Esse desafio envolve duas tarefas fundamentais. A primeira é, naturalmente, o acúmulo de força social pelas organizações. A capacidade de potencializar identidades coletivas a partir das demandas específicas da classe, convertendo-as em organização e mobilização, é algo essencial para a luta dos trabalhadores. Construir força social implica o desenvolvimento contínuo e progressivo deste trabalho – o trabalho de base – articulando ação reivindicativa com uma estratégia política. A possibilidade de direcionar estrategicamente ascenços de mobilização se define não no próprio momento de ascenço e nem apenas com a apresentação de bons programas, mas no dia-a-dia da organização da classe. A essa tarefa está ligada uma segunda: a construção da unidade organizativa. A fragmentação e divisão da esquerda socialista – tanto no sindicalismo quanto no movimento popular – dificulta muito o desenvolvimento de uma referência política classista, efetiva e simbolicamente. A possibilidade de nossas lutas reivindicativas permanecerem limitadas em si mesmas e do poder de mobilização que temos perder-se na dispersão é muito maior com a divisão. Só a disposição à unidade permite um enfrentamento vitorioso – especialmente neste momento de crise – do desafio de organizar uma classe desestruturada pelo capital. Assim, acumular força social e unificar forças organizativas são nossos desafios.

Uma classe mais complexa

Definir, entender e organizar a classe trabalhadora hoje é algo bem mais complexo do que foi em outros momentos do capitalismo. No princípio de seu desenvolvimento, o capital concentrou os meios de produção com a formação da grande indústria e, com isso, concentrou também os trabalhadores. Produziu condições comuns de existência, o enfrentamento no espaço de trabalho dos mesmos problemas e do mesmo adversário (o patrão), possibilitando a formação de uma identidade de classe. Os trabalhadores, vivenciando esta identidade e percebendo-se coletivamente como classe, criaram desde cedo seus instrumentos de organização para a luta, associando-se em sindicatos. O sindicato consagrou-se como a principal forma organizativa da classe para o enfrentamento direto e imediato ao capital, não só na indústria, mas também nos serviços, construção civil, comércio, etc. A classe trabalhadora se valeu das condições criadas pelo próprio capital, transformando a concentração no espaço de trabalho em identidade, organização e luta.

Mas ao longo do século XX o capitalismo passou por profundas transformações. As mudanças na produção, especialmente a partir das últimas décadas, alteraram de forma decisiva as relações de trabalho, a condição do trabalhador e a configuração da classe. Uma parcela cada vez maior da classe trabalhadora está empregada no setor de serviços (e não na indústria), cujo inchaço representa o aumento da complexidade do processo produtivo e da infra-estrutura necessária para sua reprodução. Segundo dados da OIT, em 1990, 53% dos trabalhadores brasileiros estavam empregados em serviços; e, segundo o IBGE, o percentual de trabalhadores empregados na indústria no Brasil caiu de 28,5% em 1980 para 21% em 2004. Uma tendência mais recente é a perda de espaço da relação assalariada tipicamente capitalista para o trabalho por conta própria, principalmente em serviços e comércio: em 1980, 82% dos trabalhadores brasileiros eram assalariados, número que caiu para 72% em 2004 (IBGE). E nas relações assalariadas houve um movimento profundo de precarização, com o aumento dos contratos temporários, a terceirização de parte das funções, a explosão da informalidade e outros ataques à estabilidade do emprego. Mesmo o trabalho industrial, em seus postos com menor exigência de qualificação, tem sido duramente atingido pela instabilidade. A isso se soma ainda o aumento do desemprego crônico, com a exclusão sem perspectiva de retorno ou simplesmente a não inclusão de grandes massas de trabalhadores, seja por fatores de idade (muito jovem ou muito velho) seja pela maior exigência de qualificação formal mesmo para as funções mais simples.

Assim, um segmento importante da classe não consegue mais envolver-se nas relações regulares de trabalho, alternando períodos de desemprego com trabalhos temporários, informais e de baixo rendimento. Ocorre, portanto, um movimento de diversificação nas relações de trabalho e na própria condição do trabalhador, sob o signo da instabilidade. Este fato é decisivo e tem conseqüências profundas na configuração e organização da classe trabalhadora.

A instabilidade na relação de trabalho tem como conseqüência uma instabilidade nas condições de identificação e organização de classe através do espaço de trabalho. A formação de uma identidade coletiva dos trabalhadores exige um mínimo de regularidade e estabilidade na relação com o trabalho. O desempregado ou o trabalhador temporário tem condições muito menos favoráveis de se perceber enquanto classe e tomar consciência da exploração no espaço de trabalho do que o operário que mantém uma relação regular e formal com este espaço. Sem falar no trabalhador por conta própria, muitas vezes sem colega nem patrão, que é levado por sua condição a perceber os problemas e soluções como particulares e individuais. Não é por acaso a imensa dificuldade do movimento sindical em organizar estes segmentos. Assim como não é por acaso que os elementos mais ativos de grandes lutas sindicais sejam muitas vezes os trabalhadores com relação mais estável com o emprego, exemplo dos ferramenteiros nas grandes greves metalúrgicas do ABC. É claro que a instabilidade que se expressa no desemprego e no trabalho precário não é um fato novo, mas acompanhou todo o desenvolvimento capitalista A diferença hoje está na dimensão que este problema adquiriu, tornando-se um traço marcante da condição do trabalhador.

O desafio de organizar a classe trabalhadora no mundo atual passa inevitavelmente pelo enfrentamento desse problema. É insustentável para um projeto socialista desconsiderar todas essas transformações e complexidades. Se pretendemos organizar os trabalhadores devemos partir de sua condição, do lugar onde estão e da forma como se reproduzem e não esperar que a classe se adéqüe a nossas formas de organização. Organizar esta imensa massa precarizada e dispersa, atirada à própria sorte pelo capital, não é um fator secundário. É uma necessidade estratégica. A idéia de que o operariado industrial, por sua posição na produção, é o portador histórico da causa socialista e o único segmento indispensável para sua vitória não responde à situação da classe trabalhadora. O que não deve nos levar a uma inversão equivocada. É claro que sem o envolvimento de uma parte ativa do operariado – especialmente dos setores mais estratégicos da economia – não se faz revolução num país como o Brasil. Mas o operariado sozinho tampouco tem condições nem força para fazê-la. A maior parte da classe trabalhadora não está no chão da fábrica e, além disso, grande parte dela está fora das relações regulares e formais de trabalho. A organização da classe em seu conjunto exige, portanto, a combinação de formas organizativas diferentes. É nessa necessidade de dar resposta organizativa às mudanças no mundo do trabalho que os movimentos populares ganham um novo significado.

A importância do movimento popular

A questão que precisamos colocar é a seguinte: como organizar este vasto segmento de trabalhadores que está fora do raio de ação do sindicalismo? E, a partir dela, duas outras: onde está esta parcela da classe que mantém uma relação mais frágil e distante com o trabalho? De que modo vivencia as condições de exploração e forma sua identidade coletiva? O capitalismo, como de hábito, criou o problema e apresentou caminhos para a solução. Ao mesmo tempo em que fragmentou e diversificou o mundo do trabalho, o capital concentrou estes trabalhadores em imensas periferias urbanas. Criou, com isso, condições para a reconstrução de identidades e para o desenvolvimento de organizações de resistência nos territórios periféricos.

A segregação social capitalista determina uma segregação espacial. A divisão de classes se materializa no espaço e marca a formação dos centros urbanos. Apesar de apresentar-se como caótico e desordenado, o processo de urbanização responde à lógica do capital e define fronteiras internas. Por vezes fronteiras muito bem demarcadas, como no caso das “cidades paradisíacas” no meio de concentrações de pobreza (ex. de Alphaville, em São Paulo) ou nas iniciativas de murar as favelas. Forma-se um território periférico, que não é simplesmente o bairro como local de moradia do trabalhador, diferenciado de seu local de trabalho. E que não é necessariamente periferia no sentido geográfico, mas no sentido social. É um território socialmente moldado, que concentra trabalhadores e desempregados e define-se por uma série de características: forma de ocupação do solo geralmente irregular; condições de vida precárias; carência de serviços públicos e infra-estrutura básica; relação com o Estado marcada por clientelismo e repressão; coexistência com formas de poder informais e ilegais; dentre outros elementos. O território periférico não é, portanto um espaço qualquer, mas o resultado de um processo social que determina identidades econômicas, políticas e culturais. É, tal como a fábrica, um espaço de concentração de trabalhadores criado pelo capitalismo e que possibilita a formação de identidades coletivas.

O que dá sentido e potencializa o território periférico como espaço de identificação de classe é o fato de que aquela parcela mais duramente atingida pela instabilidade nas relações de trabalho mantém relações sociais mais regulares e estáveis a partir do território. É aí que vivencia uma parcela importante de seu tempo, antes vivido no espaço de trabalho, tempo marcado por condições comuns de opressão e pelas mesmas carências e problemas. Isso possibilita a percepção da identidade, como primeiro passo para uma consciência de classe. A identidade real e simbólica da periferia não pode ser subestimada no desafio de organização da classe trabalhadora. É claro que contém em si uma série de limites, sendo o principal deles o fato de que não se forma no coração do conflito entre capital e trabalho, isto é, no processo de produção. A percepção da natureza da exploração do trabalho e a definição do capital como adversário é aqui mais difícil e cheia de mediações. Mas mesmo este limite não descaracteriza seu potencial de organização e luta contra o capital. Basta notarmos que, ao longo das últimas décadas e principalmente na América Latina, surgiram inúmeras expressões de movimentos populares territoriais, organizando os segmentos mais espoliados da classe trabalhadora em enfrentamentos de grande radicalidade e por vezes com claro caráter anticapitalista.

Podemos levantar dois importantes e recentes exemplos: o movimento piqueteiro na Argentina e as organizações de bairro na Bolívia. A formação e ascenço do movimento piqueteiro se deu com o aumento do desemprego e a desestruturação das relações de trabalho. Sua marca, principalmente dos movimentos da região metropolitana de Buenos Aires, é a organização dos desempregados e trabalhadores precários a partir dos bairros. Demonstrou a capacidade de uma massa desagregada pelo capital em organizar-se e tornar-se protagonista de grandes lutas sociais. As organizações piqueteiras desempenharam um papel decisivo quando, com o aprofundamento de uma crise econômica em 2001, ocorreram mobilizações que derrubaram presidentes e converteram-se em luta política com reivindicações de classe avançadas. É certo que não foram os únicos agentes deste processo e que mostraram nele muitos de seus limites, mas isso não diminui o valor do potencial organizativo que demonstraram. No caso boliviano, a Fejuve de El Alto, junto a outros movimentos populares, levou seu poder de organização e mobilização a um nível de radicalidade capaz de enfrentar o Exército e isolar a capital do país, gerando uma crise de abastecimento, tendo grande responsabilidade para a queda do presidente Sanchez de Lozada. São apenas exemplos, que, como qualquer outro, carregam as particularidades das situações em que se desenvolveram, mas que mostram as possibilidades da organização da classe nos movimentos populares, a partir do território.

A atuação do MTST e de outros movimentos urbanos no Brasil, apesar de ainda muito limitada, também traz elementos para considerar este potencial: capacidade organizativa em ocupações e comunidades, formação de militantes para a luta de classes e um poder de mobilização que – considerando a situação das lutas sociais no país – não é insignificante. E é interessante reforçar que o que está em jogo aqui é exatamente a organização dos segmentos mais precarizados da classe: um cadastro realizado em uma ocupação do MTST na zona sul de São Paulo, com mais de 5.200 pessoas, mostrou que 71% delas eram trabalhadores temporários, informais ou desempregados, enquanto somente 26% eram trabalhadores formalizados e com emprego regular.

Os movimentos populares, por não organizarem os trabalhadores no local de produção, dificilmente têm condições de desempenhar um papel importante na obstrução do processo produtivo e, pela mesma razão, não têm o patrão como adversário direto e imediato. Esses elementos negativos ajudam a pensar o que seria o eixo de uma estratégia socialista de atuação dos movimentos no território. Se os movimentos não têm condições de parar a produção de mercadorias, já demonstraram ter condições de parar a circulação. Da mesma forma, se não lutam diretamente contra os patrões, têm grande potencial de luta contra o Estado capitalista. A formação do valor das mercadorias se dá na produção, no processo de trabalho, mas a realização deste valor depende da circulação e da venda da mercadoria. Ou seja, obstruindo-se a circulação da unidade de produção ao mercado de consumo obstrui-se o processo de reprodução do capital. A forma como essa circulação acontece no Brasil e em outros países é principalmente através de rodovias, o que faz da capacidade de bloquear rodovias um horizonte importante para a luta contra o capital.

Além disso, a luta por direitos básicos dirigida contra o Estado, embora não tome o capital como adversário direto, pode se desdobrar em uma luta anticapitalista. Reivindicações como a moradia, serviços públicos e infra-estrutura urbana são aparentemente inofensivas, por não tocarem na estrutura produtiva e nas relações de trabalho. Mas, mesmo a mais limitada das reivindicações, quando não pode ser atendida adquire um caráter geral. Ou seja, se o capitalismo não se mostra capaz de resolver o problema crônico da falta de moradia, ou qualquer outro, a luta por essa demanda – quando levada às últimas conseqüências – ganha um sentido de enfrentamento ao capitalismo. E podemos afirmar que o conjunto dos problemas urbanos (moradia, assistência de saúde, etc.) – por sua articulação interna com a lógica do capital e pela perda estrutural da capacidade integradora do Estado – dificilmente poderão ser solucionados por este sistema em países como o Brasil. Portanto, o afastamento da relação direta entre capital e trabalho não inviabiliza uma estratégia socialista para o movimento popular.

Essas formulações não têm como objetivo propor uma prioridade da atuação do movimento popular em relação ao movimento sindical ou da organização territorial em relação ao espaço de trabalho. Mas sim defender a idéia de que o movimento popular é, como o sindicato, uma forma de organização da classe trabalhadora, que pode ter um importante papel estratégico para luta contra o capitalismo. Entender esta questão como uma oposição entre sindicalismo e movimento popular seria profundamente equivocado. Trata-se, ao contrário, de uma relação complementar. A organização da classe trabalhadora em seu conjunto passa pela unidade e complementação desses diferentes pólos. O desafio é precisamente este: construir a unidade de uma classe fragmentada, partindo das diferenças nas formas de organização e de luta, para chegar ao seu encontro no objetivo histórico do socialismo.

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Respostas a este tópico

Bom... Concordo que parece ficção científica... Aliás, parece muito... E além disso, e os outros problemas? Mesmo sendo possível energia a custo zero, os latifundiários quereriam desistir de seus latifundios? Os grandes monopólios de suas fábricas? Os produtores de guerra de seus lucros? Economia nao é tudo.
Ana Lú

Não seria uma questão de querer ou não desistir de algo, é uma questão de "ter que".

Exemplificarei melhor, com transporte a custo zero, qualquer coisa produzida em qualquer parte do mundo poderia ser disponibilizado em qualquer local. Teríamos a última crise de superprodução do capitalismo, que teria uma só solução, o socialismo.

Se constatarmos, por exemplo, que o custo do aço, do alumínio, cimento, vidro e de outros insumos é 90% transporte (retirada do material da mina, transporte até a usina, fundição, transporte até o consumidor,....) podemos ver que algo muda.

É meio fantasioso, mas é real. A maioria das pessoas ignora totalmente os ganhos provocados pela evolução tecnológica, pensando que esta é um produto espúrio do sistema capitalista. Estamos acostumados a fazer comparações dentro da própria época, esquecemos que um operário que ganhe um salário relativamente razoável tem um nível de vida superior a um Imperador da Idade Média (acesso à saúde, a meios de comunicação, ....) vamos atribuir isto a que? Lembre-se que a nobreza da Idade Média tinha um nível de vida que não se compara a nenhum assalariado de nível médio.

Os mais atentos poderão dizer, com razão, que temos milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza, não sei quanto, mas poderíamos dizer uns 30% da população mundial, se compararmos com duzentos anos atrás esta proporção seria uns 90%, ou seja há uma melhora.

Não estou preconizando soluções reformistas, o que estou dizendo é que independente da vontade das classes dominantes o nível de vida progride a partir da evolução tecnológica (poderia ser bem mais rápido), mas é uma observação inquestionável.
Sabia do quão difícil seria responder ao meu questionamento, mas acho que vc sintetiza bem a caminhada...

e Liu, acho (é muito acho mesmo...) que, até onde minha vista alcança... vejo que a história vai se fazer de transição em transição... incorporando mais gente, mais gente... não sinto (veja só, falo em sentir... algo absolutamente intuitivo, portanto) que não existem ímpetos de outra ordem, como mudar tudo o que está aí...

onde vejo algo mais radical é lá mesmo onde vc já apontou, ao trazer para cá o debate: no interior dos movimentos sociais e... sem nenhuma grande ilusão...
Um grupo de integrandes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), e da Via Campesina, ocupou na manhã desta terça-feira (11) o saguão do Ministério da Fazenda, em Brasília. A assessoria do ministério informou que o ministro Guido Mantega não está no local.

O MST informou que a manifestação conta com cerca de dois mil participantes. Estimativas da Polícia Militar são de que, em toda Esplanada dos Ministérios, o ato contou com a participação de 4 mil pessoas. Entretanto, nem todas participam da ocupação do saguão do Ministério da Fazenda. Além de invadir o saguão, e impedir o acesso dos servidores, os manifestantes também permanecem do lado de fora do prédio.

Segundo a assessoria do MST, o ato é pacífico e os manifestantes exigem que o governo invista na promoção da reforma agrária no país, além do desenvolvimento dos assentamentos já instituídos.

fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL1262425-5601,00-MST+OCU...
Está certo, Analú,

Partes de partes, certo?

Entendo sua preocupação, natural pelas nóias produzidas por uma guerra-fria avassaladora, pela propaganda efervescente de ambos os lados, e pela experiência de um socialismo “real”, que, se você leu aqui e ali, nunca deixamos de olhar de forma crítica e analítica (dentro das nossas modestas capacidades).

Pode nos negar razão, mas não irrealismo.

A sua ponderação sobre a “pureza” conceitual e o rigor lógico de coerência das idéias, transparecido nos seus dois últimos comentários, podem, aí sim, levar ao paradoxo e ao romantismo teórico frente a comprometimentos reais diante da prática política.

Você critica um socialismo “puro”, aparentemente pelo caráter utópico, impossível, ao mesmo tempo maneja retórica pós-moderna, ironizando a busca a um tempo perdido (como se isso possível fosse); à parte considerações sobre um socialismo que exigiria uma etapa de transição.

Vamos esclarecer, sem brigas?

1) Na conceituação marxista, socialismo representa justamente essa etapa de transição, que é o objetivo político central em relação ao capitalismo, mas é fase transitória em relação ao comunismo; que representa a forma verdadeiramente nova de organização da sociedade.

Como etapa de transição, a ideia de socialismo incorpora as qualidades da contemporização, por qual você de preocupa; só que com conteudo e valoração distintos: socialização e planejamento da economia sob controle geral do Estado; permanência ainda, a se extinguir gradualmente, da luta de classes contra a burguesia e sua ideologia desalojadas do poder e da hegemonia; tecnologias produtivas burguesas, alienação do trabalho, produção de mercadoria, dinheiro... ; que só podem desaparecer de modo progressivo, dependendo das possibilidades econômicas do lugar onde se processa a experiência revolucionária.

Essas características da transitoriedade ajudam a explicar (exorcisar?) conceitos, como “ditadura revolucionária e democrática do proletariado”, enquanto continuação da própria estrutura do Estado; enquanto aparelho dominador e repressor.

2) Quanto à “pureza” desse conceito de socialismo, acho que está se referindo ao seu caráter utópico, à impossibilidade de realizá-lo de modo integral (embora não tenha deixado claro).

Se for isso, discordamos respeitosamente, inclusive porque o conceito de socialismo pode ser flexível o suficiente pra comportar as especificidades das exigências e condições das variadas experiências históricas, preservando-se traços essenciais.

O seu argumento do ponto de vista da metodologia: Quando se trata de um objetivo futuro, não tem como prever ou antecipar como se dará nos pormenores, nas particularidades concretas. Neste sentido, o futuro é mesmo imprevisível (a Deus pertence?), dependendo de múltiplos fatores que já existem e que virão a existir.

De modo que tal objetivo só pode ser intelectualmente elaborado de forma genérica, flexível, resguardando acima de tudo características elementares e o seu significado fundamental. Deve (o conceito) obedecer principalmente a um critério de clareza e coerência lógica; que você denomina “pureza”. É o mesmo principio metodológico que rege a investigação científica do passado e do presente, que foi explicitamente formulado pela teoria weberiana, como “tipo-puro”, ou “tipo-ideal”.

O famoso comentário (lembra?) de Weber (um crítico do marxismo), sobre o valor que as concepções utópicas podem carregar: “O homem não teria conquistado o possível se com tanta freqüência não tivesse tentado o impossível”. Bonito, hein?

Além disso, seu comentário (pré)supõe o ideal de uma sociedade constituída de pequenas comunidades com controle de pequenos meios de produção, que pudessem ser governados de modo “anarquista”, com um mínimo de poder para o Estado, através da democracia direta, em substituição à democracia representativa, que você diz “fajuta”.

Taí um ótimo exemplo teórico do ecletismo anarquista que junta, sem critérios, elementos pertencentes ao presente, passado e futuro da história humana.

- Pequenas comunidades que controlam pequenos meios de produção são imagem típica da visão idílica de antigas cidades medievais, com suas corporações de ofício, controle municipal da produção e comercialização dos produtos, seus artesãos e jornaleiros, donos dos próprios meios de produção.

Para o socialismo marxista, o desenvolvimento da produtividade, o avanço da tecnologia, a produção em larga escala, a internacionalização do regime capitalista, o cosmopolitismo, a ruptura das fronteiras nacionais, a comunicação e dependência recíproca dos diferentes povos, enfim, o avanço civilizatório que foi promovido pela sociedade burguesa, são condições sine qua non pra se pensar revolução socialista: que tem como mote final, e ápice ideológico, a construção de uma única comunidade.

- Pequenas comunidades autogovernadas anarquicamente através de uma democracia direta: retirando da consideração o caráter anárquico que tal governo poderia ter (difícil imaginar como seria isso), essa imagem de pequenas comunidades à base de democracia direta remeteria não mais à época medieval, mas à antiguidade?

Lembra a configuração política da democracia das Cidades-Estado da Grécia antiga? Pensar atualmente na possibilidade de uma regressão, com pequenas comunidades autônomas do ponto de vista político e econômico significa utopia com sentido francamente reacionário, que deve pregar obrigatoriamente a destruição da maior parte das conquistas econômicas e materiais conferidas pela evolução histórica.

O problema da democracia burguesa representativa não é a sua qualidade de representação, mas a sua qualidade burguesa.

A democracia burguesa alardeia, de um lado, a falácia do suposto regime meritocrático, que afirma a igualdade de oportunidades para todos e identifica o sucesso com o talento, a vontade, as aptidões naturais; de outro lado, escamoteia a predominância do fator plutocrático, que faz do dinheiro o fator determinante de dominação.

E mais, a burguesia nunca permite que seu regime democrático-representativo viva todas as suas possibilidades, pois sempre que a sociedade radicaliza no sentido da revolução, os grupos burgueses restauram o autoritarismo.

- Por fim, você estabelece a oposição entre autogoverno comunitário e poder do Estado, que demandaria a construção de mecanismos de defesa da sociedade contra o Estado.

O que atesta a dificuldade de se pensar claramente um objetivo de sociedade nova.

O seguinte: de acordo com a conceituação weberiana, Estado não se deixa definir pelos seus fins, que sempre foram os mais múltiplos e variados. Ele só pode ser definido pelo meio que lhe é próprio: o uso legitimado e exclusivo da força, da violência, da coação.

Isso se explica sempre no contexto da vida social dividida por interesses distintos (antagônicos), necessidades e desejos de classe, que, conflitivos, são solucionados pela dominação de uma classe sobre a outra através do aparelho do Estado.

O Estado é produto histórico da luta de classes, forma política de dominação e opressão de classe; mesmo que signifique às vezes a satisfação de certos desejos da classe dominada; bem como sua incorporação condicionada ao poder político (a inclusão social, Arkx); como atesta a moderna democracia representativa burguesa.

Por isso tudo, Analú, pensar (sem pré-conceitos) a construção de uma sociedade em que vá desaparecendo a divisão de classes, até se extinguir, significa pensar o gradual desaparecimento, ou a profunda mudança qualitativa da estrutura que hoje conhecemos como Estado, nada mais que um instrumento pertencente ao corpo social, contra o qual não haverá mais a necessidade de se defender, nem se temer.
Olá Liu,

Como seria possível implementar uma sociedade nesse molde se, o Estado, a cada dia que passa, torna-se um simples executor das vontades do capital?
Rogério, vim responder por aqui porque lá já nao havia mais link para a resposta. Continuo dizendo que nao é isso. Para haver Socialismo, além de novas relações de produção vao ser necessárias novas formas políticas e de organização social. Deixar tudo por conta do Estado levaria à mesma tragédia que já levou. Nao é para ter pequenos restaurantes estatizados, táxis estatizados, coisas assim. Quanto mais coisas puderem ser pequenas e controladas a nível local, por democracia direta ou quase direta, melhor. Evita a formação de uma casta burocrática e de um regime ideológico de verdade única. E tb nao poderia haver "superprodução" no Socialismo, porque o planeta nao aguenta mais.
Ana Lú

A sustentabilidade depende da reciclagem e processos de reciclagem dependem basicamente de energia (metais, papel, AGUA, plásticos,.....).
Isso é continuar na mesma lógica produtivista e consumista. Nao resolve. Nao muda o mundo. Se é para sonhar, sonhemos direito... Manter o mesmo tipo de vida, só que sem propriedade privada? Só mudam as moscas, a m... continua a mesma.
Ana Lú

A maior parte das pessoas compram porque é sinal de status!!!
Esta é a lógica.
E daí? O que tem isso a ver com o que estávamos discutindo? Nao entendi nada...
Ana Lú
Deixa para lá, não é relevante, de qualquer forma o assunto tem mais a haver com ficção científica do que outra coisa.

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