Texto postado no Blog-mae, pelo participante Johnnygo, de que gostei muito: 

"São Paulo convive com manifestações há um bom tempo. Quem trabalha na Avenida Paulista, por exemplo, vê passeatas e carreatas com razoável frequência. Tem espaço para todos os gostos naquela colméia. Sem-terra, sem-teto, funcionários públicos, professores, GLBT, sindicatos, cada um defendendo a sua causa. Isso é lindo, ainda que provoque transtornos irritantes. Nesse sentido, as atividades do Movimento Passe Livre também são lindas, a despeito de qualquer análise mais aprofundada do mérito das reivindicações. Ou seja, protesto hoje é normal e saudável, quanto a isso não há motivo para temores.

   Há algumas semanas, quando começou a se falar em aumento das tarifas de transporte, o preço que inicialmente surgiu nos jornais foi de R$ 3,45. Como as tarifas não haviam sido reajustadas nos últimos dois anos, os "especialistas" dos jornais fizeram o cálculo da inflação no período e chutaram os tais R$ 3,45. No entanto, o prefeito Haddad prometera reduzir o valor das tarifas durante a campanha eleitoral. Seu esforço de negociação conseguiu obter uma tarifa menor que a estimada pelos "especialistas" da mídia. Daí chegamos aos tão discutidos R$ 3,20. Um reajuste de 20 centavos, ou 6,7%, percentual bastante inferior à inflação acumulada nos dois anos anteriores ao reajuste, que foi de uns 15%. Podemos supor que as reivindicações estejam relacionadas ao reajuste das tarifas de transportes, caso contrário teriam ocorrido em qualquer época do ano, e não somente agora que houve o reajuste. E, por este caminho, do ponto de vista material, a reivindicação não mereceria tanta atenção. Ou seja, se for pelos 20 centavos, convenhamos, é muito pouco para tanto alarde.

   No entanto, o espectro da demanda é mais amplo: pedem que o transporte público seja gratuito. Isso não acontece em nenhum lugar do mundo, pelo menos que eu saiba. Se houver algo assim em uma democracia capitalista, merece ser objeto de estudo. Se fosse implantado, demandaria completa reformulação dos gastos do Estado e do Município. Talvez uma carga tributária nórdica, na faixa acima dos 50%, permitisse tal façanha. Assim, se enveredamos pela estatização e gratuidade do transporte público, convenhamos também que temos um pleito discutível e com poucas chances de realização, pelo menos a curto e médio prazo.

   Nem 20 centavos, nem gratuidade. Observamos que os manifestantes parecem reunir-se em torno de um ideal difuso que, em si, tem pouca relação com o discurso estabelecido. As manifestações parecem movidas por palavras de ordem que simplesmente procuram servir de bandeira, quase uma desculpa, para algo maior que talvez não estejamos vendo. Aí me vem a pergunta: o que querem estes jovens que se manifestam? O que mobiliza estes jovens é algo menos concreto que um reajuste de salário ou um pedaço de terra. Não são os 20 centavos nem a estatização e gratuidade. Tanto pela idade dos manifestantes, quanto pelos tempos nos quais todos vivemos, é natural que eles se sintam inquietos. Algo meio indefinido os perturba, uma insatisfação disforme, um pulsar de desconfiança em relação ao mundo que vão conhecendo. Isso é normalíssimo. Essa mistura energética de indignação e insubordinação faz parte de uma fase de nossas vidas. Seria até bom que sustentássemos ao menos uma faísca desse sentimento pela vida afora, mas isso normalmente não acontece. E, para completar o quadro, a insubordinação e a indignação existencial dos jovens podem ser reforçadas por um mundo que valoriza o hedonismo, o consumo e a captação fragmentada da realidade.

   Quando jovem, no primeiro ano da universidade, participei de passeatas e frequentei reuniões políticas. As causas eram imensas. Por exemplo, gritávamos pelo fim da ditadura, pela liberdade de expressão. Hoje, em geral, discutem-se causas materiais e pontuais. Os professores querem aumento de salário, os sem-teto querem casa. Não quero com isso dizer que havia mais nobreza em minhas batalhas da juventude. Eu era bem inexperiente e bem limitado, e ainda sou, embora menos. O mundo tornou-se multipolar, mais complexo, mais interligado, menos preto-e-branco. Ficou difícil encontrar uma causa abrangente. Para combater as causas abrangentes, a polícia da ditadura militar batia para valer. A gente via os olhos injetados do Coronel Erasmo Dias na TV, em sua expressão de ódio e ameaça aos "baderneiros". Ai de quem chutasse a porta de um ônibus. Apanhava, ia preso e podia sumir do mapa. Hoje, há grosseirões que chamam Dilma de sapatona e Lula de cachaceiro, sem que nada lhes aconteça. Os policiais de hoje são umas doçuras se comparados ao aparato da ditadura militar que então estrebuchava. Hoje temos uma democracia, com todas as qualidades e defeitos que lhe são inerentes. Evoluímos. É normal que ocorram protestos. No meio deles, contudo, aparecem uns extremados que depredam e tocam fogo. Estes precisam ser identificados e punidos, pois desqualificam um movimento que poderia ser uma semente fértil. Dizem que a melhor maneira de destruir um bom argumento é defendê-lo de maneira errada.

   Há dois elementos novos nessa parada. Primeiro, a repercussão desproporcional que os atos têm obtido na mídia, que lhes confere notoriedade e serve de incentivo à construção de um momento-primavera, na esteira de acontecimentos recentes em várias partes do mundo. Temos uma Europa em crise, um mundo árabe em ebulição, os pobres dos EUA mostraram a cara no Occupy Wall Street. Aqui no Brasil, passamos por um bom momento econômico. Por mais que os pessimistas de plantão queiram reclamar, temos salários em alta, desemprego em baixa, inflação sob controle (!), câmbio subindo para um nível mais atrativo às nossas exportações, investimentos em alta, atividade industrial subindo, desonerações tributárias, excelentes reservas, juros razoavelmente baixos, relação dívida/pib tranquilizadora. Tudo isso enquanto o mundo passa pela maior crise econômica desde 1929. Mesmo assim, o clima dos noticiários é de que vivemos no Brasil uma hecatombe. Um cidadão que lê todas as matérias políticas do UOL durante uma semaninha apenas vai ter vontade de estourar os miolos. O clima de eleição foi antecipado. Para reforçar este clima, um simples movimento de protesto ameaça se transformar em nossa "primavera", nossa redenção contra todas as tiranias do universo. Nunca vi nenhum movimento reivindicatório receber tanta atenção da mídia. O Movimento Passe Livre conseguiu o estrelato. Na TV, imagens das manifestações são transmitidas em linha direta, horas a fio. Abre parêntesis: pelo menos a Globo adotou como referência o termo "passagens de ônibus", embora estejam em questão os preços das tarifas de ônibus, metrô e trens. Jornalismo suspeito, que busca associar a revolta ao recém-empossado prefeito Fernando Haddad - de fato, aquele que tomou a dianteira para reduzir as tarifas. Fecha parêntesis. Há uma disseminação do pessimismo pelos "velhos do Restelo", mas nada é tão simples, o preto-e-branco acabou. Os meios de comunicação estão numa situação complicada. Evidentemente, a pauta da redução de tarifas de transporte não é relevante para eles. Causas populares não interessam a jornais, muito pelo contrário, a tradição tem sido combatê-las. Se trabalhadores do campo paralisam o trânsito da Consolação por uma tarde, recebem alguns parcos segundos e severas admoestações da TV. Assim, embora o discurso de agora criminalize os jovens, repetindo a palavra vandalismo como um mantra, não chega a defender abertamente uma repressão mais dura. Por trás disso mora um detalhe: a segurança pública em São Paulo é responsabilidade do governador Geraldo Alckmin, que será o candidato da grande mídia concorrendo à reeleição para o governo do Estado. Um imprevisto ou uma tragédia na condução da PM, como um estudante morto (oxalá isso nunca aconteça), pode comprometer definitivamente a já combalida gestão de Alckmin na segurança pública. E aí a eleição do chuchu vai para o espaço.

   O segundo novo elemento na parada prende-se ao fato de que assistimos ao parto de uma nova era da informação. Em termos históricos, creio que vivemos uma gigantesca mudança, cujos desdobramentos, tanto para o bem quanto para o mal, são imprevisíveis. A internet no Brasil começou a se disseminar nos anos 90. É muito recente, coisa de duas décadas apenas. Estamos no olho do furacão e não conseguimos enxergar o todo. Só o futuro nos dirá, isso se ainda estivermos vivos quando os fatos atuais puderem ser vistos em perspectiva. Se a população turca protesta na praça Taksim de Istambul, assistimos o evento quase que instantaneamente aqui no Brasil. A notícia se distribui por vasos comunicantes e filtrantes nas redes sociais. Formam-se numerosos grupos de interesse, estabelecem-se identificações entre as pessoas, que tentam se agrupar. O funcionamento deste novo sistema é baseado em quantidade de acessos e multiplicidade de interesses. Não sabemos ainda quais as implicações políticas desse tipo de organização da sociedade. Se temos passeata em São Paulo pela qualidade do transporte, elas também são convocadas em outras capitais, mesmo que as realidades sejam bastante diferentes em cada lugar. A informação flui pelo facebook, pelo tweeter, msn, e cria um sentimento de unidade e de pertencimento que atenuam o desconforto com o individualismo geral. Este fenômeno começa a produzir uma nova maneira de participar, ainda incipiente, é verdade, mas já capaz de surpreender. Não sabemos no que tudo isso vai dar, mas tenho a convicção de que a mudança será grande. O momento que vivemos é muito auspicioso. Auspicioso e perigoso, todo cuidado é pouco."

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Respostas a este tópico

http://cidadedeminas.blogspot.com.br/2013/06/coincidencia-nao-creio...

"O que chama atenção é o cartaz usado por manifestante na odienta Marcha da Família em 1964."

http://4.bp.blogspot.com/-8Nvs7C7eVXA/UcVanWkMM0I/AAAAAAAAD-Y/YiyuM...

Acrescento texto do meu blog - mais uma exortação do que uma análise propriamente dita - com uma pitada de Tai Chi Chuan:

http://www.advivo.com.br/blog/johnnygo/contragolpe

  Contragolpe

  Muitos brasileiros foram às ruas para exigir mudanças. De início, houve uma estupefação geral. Seguiram-se muitas análises políticas, que nos fizeram sentir um misto de esperança e medo.

  O Governo reagiu. Dilma garantiu ouvir os manifestantes. Reuniu-se com o MPL. Chamou ministros, governadores e prefeitos. À tarde, diante de uma mesa que deve ter mais área que meu apartamento, propôs a união em torno de 5 itens. Com seu pentagrama político, que adquire a força momentânea de um plano de governo, assumiu o protagonismo em meio a um clima de incertezas.

  Considerando a dimensão e o foco das propostas, o Executivo foi rápido e certeiro. Usou a força do inimigo para neutralizar seu ataque, num movimento digno de arte marcial. Se o povo (perdoem-me se exagero na palavra) quer mudanças, se o povo levantou temas importantes, então, o povo obteve uma resposta. Tudo bem, ao tratar da corrupção, o governo quase resvala na demagogia, mas deixa um monte de gente feliz sem causar grandes danos. De resto, há um arranjo bem equilibrado de disposição realizadora e pressão política. Quem, entre os que protestam, vai negar apoio a medidas tão positivas?

  Muito hábil o contragolpe. Haverá ranger de dentes, milhões de questiúnculas jurídicas serão erguidas, mas a luta, a partir de agora, assume um novo contorno.  O povo e os representantes do povo foram instados a participar. É preciso se engajar, para o bem de todos, é preciso exibir na ágora o rosto daqueles que vão se omitir, que vão se opor. Envergonhar-se-ão? Oxalá não haja perdedores, que todos nós possamos aprender com este presente agitado e avançar na direção de um futuro melhor.

 

  A propósito, sobre artes marciais e o atual instante político:

 

  Dez princípios essenciais do Tai Chi Chuan (conforme Yang Chengfu, retirados da Wikipedia)

 

01. Suspender a cabeça pelo topo com leveza e sensibilidade (xu ling ding jin)

02. Esvaziar o peito (han xiong) e alongar as costas (ba bei)

03. Relaxar a cintura (song yao)

04. Distinguir entre o cheio e o vazio (fen xu shi)

05. Relaxar os ombros [Chen Jian] e soltar os cotovelos (zhui zhou)

06. Usar a mente e não a força muscular (yong yi bu yong li)

07. Interligar os movimentos da parte superior e inferior do corpo (shang xia xiang sui)

08. Unir o interior e o exterior (nei wai xiang he)

09. Mover-se com continuidade, sem rupturas (xiang lian bu duan)

10. Buscar a quietude dentro do movimento (dong zhong qiu jing)

   Johnn, teu texto é muito bom. Me devolver até o humor.rsrsrs

voltando, 

trago um video,

Stella, que maravilha, aqueceu meu coraçao. 

Primavera Brasileira, ou Golpe de Direita? 

130623-ManifsRio

Perguntas e respostas sobre um movimento que está mudando a cena do país – e cujo futuro, aberto, será decidido também por você

Por Antonio Martins Imagens: Ninja (fotos) e Pirikart (quadrinhos)

“O Brasil não é para principiantes”, disse certa vez o compositor Tom Jobim. A sabedoria destas palavras está ecoando de novo a cada dia, nas duas últimas semanas. Entre 6 e 19 de junho, uma onda avassaladora de protestos de rua resgatou a ideia de que as lutas sociais valem a pena e marcou a emergência de uma cultura política de autonomia, redes sociais e horizontalidade. Um dia depois, as manifestações que deveriam celebrar este resgate foram em parte capturadas. Resvalaram para episódios de autoritarismo e intolerância, depois que a crítica às injustiças e à ausência de direitos foi direcionada contra os governos de esquerda e seus limites (vale ler este texto do repórter Tadeu Breda). Muitos dos que haviam se manifestado desde o início chocaram-se e recuaram. Foi inteligente, mas é hora de um novo passo. As ruas não se calarão, se quem luta por justiça estiver afastado delas. É preciso – e é possível – disputá-las. Este texto tentará explicar por quê e como, na forma urgente e imperfeita das perguntas e respostas.

1. É possível falar em Primavera Brasileira?

Ainda não, mas há sinais muito animadores de uma grande onda de mobilizações por direitos sociais, capaz de expandir em muito as conquistas – importantes, porém limitadas – dos dez anos de governos de esquerda. Em torno de um tema catalizador (os transportes urbanos e sua tarifa), claramente associado às desigualdades e a um modelo de metrópoles cada vez mais rejeitado, milhões de pessoas foram às ruas, em centenas de cidades. Outras reivindicações do mesma natureza, como o direito à moradia, emergiram.

Uma das grandes novidades das manifestações é que tiveram perfil completamente distinto do que marcava as lutas sociais brasileiras. Não foram convocadas nem pelos partidos de esquerda, nem pelos movimentos sociais tradicionais. A partir do chamado de um pequeno grupo, o Movimento Passe Livre (MPL), as multidões autoconvocaram-se, usando as redes sociais. Esta cultura política de autonomia não é inteiramente nova. Foi ela que suscitou, no início do século, grandes eventos, como os Fóruns Sociais Mundiais. Porém, é a primeira vez que se torna realmente popular, praticada por multidões. Este fato pode ter enorme importância. Sacode um cenário político que tende à estagnação, já que esquerda no governo tem grandes compromissos com o poder econômico e avança muito devagar; mas a alternativa institucional viável a ela é muito pior: os partidos conservadores e neoliberais.

A partir de 15 de junho, este movimento sofreu uma interferência que pode paralisá-lo ou inverter seu sentido. A mídia e os partidos à direita do PT, que até então o demonizavam e reprimiam, fizeram um grande giro tático. Passaram a turbiná-lo, ao mesmo tempo em que tentam capturá-lo. Procuram esvaziar a reivindicação de direitos e igualdade (ou seja, seu caráter “perigoso” de crítica social) e suscitar, em seu lugar, a luta genérica “contra a corrupção”. Ao fazê-lo tentam, ao mesmo tempo, voltar o movimento contra os governos de esquerda. Tirá-los do poder, seja de que modo for, é algo que, nos últimos dez anos, nunca saiu da agenda da direita.

Esta tentativa de captura é poderosa, porque a mídia de massas, embora desgastada e em declínio, ainda tem enorme influência no Brasil. Por isso, o futuro do movimento está em aberto. Vai depender de nossa capacidade de compreender o cenário e agir com sagacidade.

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2. Há no ar uma tentativa de golpe antidemocrático?

Diversos sinais indicam que sim. Desde terça-feira (18/6), o jornalista Jânio de Freitaschamou atenção para a presença intensa de provocadores, em episódios como a tentativa de invadir a prefeitura de São Paulo. A ação que eles desenvolvem – radicalizar artificialmente os movimentos, para justificar a “restauração [autoritária] da ordem” – é típica em golpes de Estado na América Latina, como o do Brasil (1964) e Chile (1973). Além disso, as manifestações de quinta-feira (20/6) tiveram a presença ostensiva deskinheads e de grupos que agrediram militantes de esquerda. Neste dia, a TV Globo quebrou um tabu e deixou de transmitir todas as suas novelas, para “cobrir” as manifestações de maneira distorcida, em seu esforço para capturá-las. Já na sexta-feira (21/6) à noite, pequenos grupos cortaram, simultaneamente o tráfego de quase todas as rodovias que ligam São Paulo ao resto do país. Houve saques na Via Dutra e na Barra da Tijuca. São táticas totalmente estranhas aos movimentos sociais, adotadas para gerar medo e pedidos de intervenção.

A tentativa de golpe vai se intensificar nos próximos meses, porque uma série de fatores colocará em xeque as políticas que os governos de esquerda adotam há dez anos (Outras Palavras tratará do tema em breve). Será preciso fazer uma opção entre ampliá-las (redistribuindo riqueza a questionando privilégios) ou deixá-las para trás. Exatamente por isso, as ruas não podem ser abandonadas por quem luta por uma sociedade justa e liberta.

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3. Como foi possível converter manifestações autônomas por direitos em territórios de preconceitos e violência?

A guinada tática que a mídia e as forças conservadoras fizeram, no final de semana passado, está extremamente nítida na “autocrítica” de Arnaldo Jabor na TV Globo, e nas capas de Veja desta semana e da anterior. O caráter desta ação – que consiste em turbinar as manifestações e ao mesmo tempo esvaziar ou mesmo inverter seu sentido – está debatido na questão 1 deste texto. A forma mais eficaz de executá-la é difundir a bandeira “contra o corrupção”, que deriva para “contra a PEC-37”. Poucos a conhecem, mas ela aciona automaticamente a ideia de que punir – os corruptos, os menores infratores ou os que adotam atitude sexual “desviante” – é a solução para os problemas nacionais. Uma frase que circulava ontem (22/6) no Twitter, associada à tag “#calabocadilma”, ilustra de forma caricatural este tipo de associação . Perguntava: “Os médicos cubanos já chegarão sabendo fazer a ‘cura gay’, ou terão de aprender aqui?”…

Para enfrentar esta tentativa de captura é importante compreender de onde ela tira sua força. Os manifestantes, em sua esmagadora maioria, têm menos de 25 anos. Além disso, estão apenas iniciando sua participação formação política. Conhecem ainda pouco do contexto e história dos governos de esquerda e da história institucional do Brasil antes deles. Veem, com toda razão, que o país é muito injusto e há enorme promiscuidade entre política e poder econômico. Mas não enxergam que a bandeira “contra a corrupção”, genérica e difusa, poupa, ao invés de colocar em xeque, aqueles que se beneficiam de nossas desigualdades. Também não se dão conta que o “fora Dilma”, claramente insinuado pela mídia, significaria, nas condições da política institucional de hoje, abrir espaço um governo diretamente ligado às elites.

A manobra dos conservadores é, contudo, extremamente arriscada. Ao engrossarem as manifestações, eles permitem, aos que queremos mudanças reais, dialogar com um público muito mais amplo. Também por este motivo, a saída não está em “deixar as ruas”, mas em abrir, nelas e nas redes sociais, uma disputa profunda de projetos.

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4. Por que a tentativa de capturar os protestos é frágil e pode ser vencida?

Os conservadores não desejavam, nem convocaram os protestos. Apropriaram-se momentaneamente deles, usando seu peso e poder. Mas têm muito a temer. Se a agenda dos direitos continuar a se difundir, e se o espaço horizontal das ruas continuar a ser experimentado pelas multidões, logo entrarão em pauta temas que exigirão as mudanças sociais “perigosas” – muito mais profundas que as realizadas nos últimos anos.

Para isso, é necessário um esforço: romper a barreira da crítica genérica à “corrupção” e ao “poder”. Passar deste discurso ingênuo e inofensivo para a concretude das mudanças sociais; das cidades (e sociedades) para todos; da redistribuição de riquezas. É um passo árduo: exige enfrentar a avalanche da mídia em favor de conceitos massificantes e mistificadores, como “o gigante acordou”. Implica propor questões incomuns, porém de extrema potência: “quem é o gigante”? “quem se apropria da riqueza que ele produz”? “como torná-las de todos”?

É preciso notar que a dinâmica do debate nacional mudou. Nos últimos dez anos, nos acostumamos a uma disputa de visões de país permanente, porém de baixa intensidade. De repente, isto ficou para trás. A agressividade que os conservadores demonstraram, sua disposição de convocar tanto a violência policial extrema (como em São Paulo, em 14/6) quanto os skinheads não deve deixar dúvidas sobre o que está em jogo. Ao menos nesse momento, o antídoto eficaz contra o golpismo não é a moderação – é tornar mais concreta, e mais profunda, a agenda de direitos para todos.

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5. Que temas permitem retomar uma pauta de direitos e mudanças sociais?

Um dos motes mais traiçoeiros que circulam nas manifestações é “o gigante acordou”. Seu apelo ao nacionalismo embrutecedor (“nação” é um conceito que pode servir tanto para unir contra a opressão externa quanto para mascarar nossas próprias desigualdades) é claro. Pior: repetido quase sempre por ingenuidade, ele contrabandeia para dentro do movimento uma ideia despolitizadora. Sugere que as lutas para mudar o Brasil estão começando hoje. Procura ocultar o esforço de décadas, feito pelos movimentos sociais e sociedade civil, para formular pautas ligadas à garantia de direitos para todos. Todas estas reivindicações são importantes, para romper a barreira mistificadora da mídia e das elites.

Porém talvez valha a pena, neste momento de disputa aguda de sentidos, concentrar energia naquelas que, por dialogarem com o sentimento das ruas, provocam e fazem refletir. Defini-las é algo que precisaremos fazer em conjunto. Eis a seguir algumas sugestões.

O primeiro alvo, quase óbvio, é a Rede Globo e os barões da mídia. Slogans contra a emissora da família Marinho espalharam-se e tiveram ressonância em todas as manifestações. Eles tocam numa grande encruzilhada do período em que estamos. O oligopólio das comunicações mantém enorme influência e age de modo ostensivo para disputar o sentido do movimento. Mas tem telhado de vidro fino: nunca foi tão amplo o setor da sociedade que compreende sua ação manipuladora.

A Globo precisa ser alvo de campanhas na internet, manifestações de rua, boicotes. Denunciar seu poder, símbolo do oligopólio, abre caminho para a bandeira dademocratização das Comunicações, já expressa numa campanha. Denominada Para expressar a liberdade, construída em conjunto por ativistas e organizações, ela formulou e oferece, em sua página na internet, propostas concretas, argumentos e até um projeto de lei sobre o tema.

Também os que foram capturados pelas bandeiras “contra a corrupção” e “contra a PEC-37” voltam-se, no fundo, contra os privilégios e desigualdades. É preciso dar materialidade a estes sentimentos, mostrando que a direita não oferece alternativa alguma para eles . “Contra a corrupção” precisa desdobrar-se, por exemplo, em “Fora o Poder Econômico da Política”. É uma forma popular de abordar a Reforma Política –outra bandeira estratégica para mudar o país e indispensável neste momento decisivo. Diversos movimentos têm trabalhado em torno deste tema. Alguns deles já construíram, inclusive, uma Plataforma comum. Ela desenhou propostas (entre outras, ampliação do poder de plebiscitos e referendos; fim do 14º e 15º salário dos parlamentares; proibição do financiamento das empresas aos partidos). Reúne farta documentação: artigosvídeos, programas de rádiobiblioteca. A riqueza deste material, construído coletivamente, evidencia como é primária e vazia a bandeira “contra a corrupção”.

O alcance que a luta contra o aumento das tarifas assumiu mostra como a agenda doDireito à Cidade toca a população brasileira. Dezenas de milhões de pessoas, que vivem nas periferias das metrópoles, deixaram de se sentir inferiores nos últimos dez anos. Percebem-se injustiçadas: sem elas, não se produziria uma imensa riqueza, da qual são excluídas. Querem igualdade e direitos (examine, por exemplo, estaconvocatória, do Periferia Ativa). Além disso, a classe média é muito mais que os “coxinhas” da “luta contra a corrupção”. Ela inclui um setor criativo, libertário, defensor de um país para todos e disposto a participar de sua construção.

O Direito à Cidade – que talvez deva ser traduzido em conceitos como Reforma Urbanaou Cidades Livres – pode ser desdobrado em propostas que dialoguem com estes dois grupos sociais. Direito à moradia (inclusive no centro das metrópoles). Penalização da especulação imobiliária. Mobilidade urbana, com transportes públicos rápidos, confortáveis e baratos (The Economist, talvez a revista de maior repercussão no mundo, acaba de publicar uma matéria muito simpática à tarifa zero). Limitação do uso dos automóveis. Despoluição dos rios. Exigência de descarte apropriado do lixo. Ciclovias.

Não será possível abrir o leque da pauta dos direitos sociais sem falar em Reforma TributáriaComo frisa o economista Ladislau Dowbor, num texto recente, é preciso desfazer a crença segundo a qual o Brasil tem uma das mais altas cargas tributárias do mundo. A verdade é outra: as maiorias pagam muitos tributos, porque uma pequena minoria, que tem altíssimo poder de contribuir, é pouco exigida e tem muitas brechas para sonegar.

A Reforma Tributária merece textos à parte. Mas precisamos nos preparar para propormais e não menos impostos. Tributos inteligentes e progressivos, com claro sinal redistributivo. Tributos que corrijam a injustiça típica dos mercados, que transformem serviços dignos num direito (não numa mercadoria acessível a quem pode pagar) e que garantam cidades e um país para todos.

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Belo Horizonte, 23/6

6. Que são as Assembleias Populares e como elas podem preparar uma nova fase da mobilização?

Elas surgiram neste domingo (23/6): três em São Paulo, por iniciativa do Movimento Passe Livre; em Fortaleza, Brasília e Belo Horizonte (esta, com mais de 2 mil pessoas:textovídeo). As Assembleias Populares permitem que a população se encontre e converse horizontalmente, livre da massificação da TV. Estabelecem um ambiente propício a debater a situação do país e, em especial, a desenvolver a consciência dos direitos e a mobilização por eles. Se continuarem a se espalhar, é provável que desencadeiem, muito em breve, uma nova onda de manifestações, agora mais potente.

Não há receita para as Assembleias: podem reunir moradores de uma região ou pessoas interessadas em discutir coletivamente um tema específico; ocorrer numa praça, num salão, numa casa ou mesmo nos pontos de ônibus (veja o que o Periferia Ativa prepara para 25/6, em São Paulo).

Também não é preciso esperar por ninguém, para organizar uma Assembleia. Qualquer organização, ou grupo de pessoas, pode e deve fazê-lo. O importante é não desperdiçar um momento raro, em que as multidões deixaram a passividade e sentem-se empoderadas para debater seu futuro coletivo.

Outras Palavras participa, com outros coletivos e movimentos, da organização de uma assembleia nesta terça-feira (25/6, às 19h), na Praça Roosevelt, em São Paulo. Debaterá a Ditadura da Mídia e as formas de enfrentá-la. Já está difundida no Facebook (com mais de 500 pessoas confirmadas, ao meio-dia de 24/6). Estamos prontos para divulgar outras iniciativas. Para comunicá-las, basta escrever paramobilizacao@outraspalavras.net

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7. Qual o sentido do discurso de Dilma e como os movimentos podem tirar proveito dele?

Mais uma singularidade brasileira: diante dos protestos das últimas semanas, a postura da presidente da República foi distinta das adotadas, desde 2011, por todos os governantes que enfrentaram revoltas similares. Os ditadores árabes reagiram a bala. Em toda a Europa, os dirigentes mantêm as políticas de ataque aos direitos sociais, mesmo diante de manifestações gigantescas e do descontentamento da opinião pública. Obama ignorou o Occupy. Sob intensa pressão das ruas, Dilma, ao contrário, saudou as manifestações (“Elas mostram a força de nossa democracia”). Em seu pronunciamento de 21/6 (vídeo | texto), sugeriu que “o impulso desta nova energia política” pode ajudar a “fazer, melhor e mais rápido, muita coisa que o Brasil ainda não conseguiu realizar por causa de limitações políticas e econômicas”.

Em 24/6, deu dois novos passos. Passou a receber os movimentos que iniciaram os protestos (ontem, o Passe Livre; hoje – 25/6 – o PeriferiaAtiva e os sem-teto ligados ao MTST). E lançou, em reunião com governadores de Estado e prefeitos das capitais, um movimento inesperado. Sugeriu pactos pela Educação, Saúde, Mobilidade Urbana e Responsabilidade Fiscal. Mais importante: defendeu a ideia de um plebiscito, para que a população decida sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte, encarregada de reformar o sistema político.

A última proposta despertou reação imediata. Políticos conservadores e ministros do Supremo Tribunal Federal opinaram que ela é inconstitucional (o que parece esdrúxulo, pois sugere que as instituições são irreformáveis). Tudo indica que, se levada adiante, a iniciativa enfrentará enorme resistência – tanto entre as elites quanto no próprio Congresso Nacional. O poder econômico não quer rever um sistema que lhe dá enorme influência sobre as decisões políticas. Os detentores de mandato preferem não mexer nas regras que os elegeram.

Mas como os movimentos sociais, e os que foram as ruas, podem enxergar a iniciatva de Dilma?

Concentrar atenção apenas na proposta de Constituinte pode levar à paralisia. É um tema árido, pouco debatido entre a sociedade. E embora haja ampla consciência sobre a necessidade da reforma política, há muitas controvérsias sobre algumas das mudanças que ela implica. O risco é que, ao se dedicarem a resolvê-las, os movimentos dividam-se e dispersem a energia necessária para manter e ampliar a grande maré de reivindicações.

Porém, talvez valha considerar uma resposta dupla. Por um lado, manter o foco na luta por direitos. Continuar estimulando as assembleias populares, a formulação de demandas, a presssão em favor delas. Lembrar que elas não virão sem lutas (embora tenha recibido o Passe Livre ontem, Dilma não sinalizou vontade de agir em favor de suas reivindicações).

Ao mesmo tempo, não seria inteligente desprezar a proposta estratégica da Constituinte e da Reforma Política. Também o Brasil tem instituições que “não nos representam”. Arcaicas, extremamente corrompíveis, fechadas à participação direta dos cidadãos, pouquíssimo transparentes, elas são um dos alicerces que sustentam a injustiça social, a desigualdade e o modelo de “desenvolvimento” hostil à natureza.

Para mudar o país, será preciso sacudi-las. Por isso, a luta pela Constituinte pode ser uma bandeira paralela às reivindicações por direitos. Quanto mais multiplicarem-se as lutas reivindicatórias, mais ficará claro que o sistema político é um obstáculo a elas; e que é preciso reinventar também a democracia. E quanto mais os atuais poderes estiverem sob ameaça de uma vasta reforma, mais seus ocupantes tenderão a ceder às pressões populares…

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8. Por que o Brasil estará diante de uma encruzilhada, nos próximos meses? Que papel jogará a mobilização social ?

Alcançar a redução simultânea da tarifa de ônibus nas duas maiores metrópoles do país, além de diversas outras capitais e grandes municípios, é provavelmente um feito inédito. Para tanto, centenas de milhares de brasileiros venceram as bombas da polícia e as botas de chumbo da passividade. Ao pagar a passagem com desconto, dezenas de milhões estão refletindo que “é possível”… Mas os vinte centavos conquistados são ínfimos, diante da importância que a vitória poderá assumir nos próximos meses. Ela introduz, no período de turbulências que o Brasil tende a atravessar, a potência rebelde das mobilizações sociais.

Nos últimos dez anos, os conflitos pela riqueza social no país foram relativamente amenos. As maiorias – em especial os economicamente mais pobres – tiveram algum alívio. É algo que vai bem além do Bolsa-família. O valor dos benefícios sociais cresceu, em termos reais. O salário-mínimo subiu bem acima da inflação. O desemprego caiu para um dos patamares mais baixos do mundo (5,5%, segundo o IBGE). O percentual de assalariados com carteira assinada – e, portanto, direitos trabalhistas reconhecidos – cresceu de 46% para 54%. Com as quotas, as Universidades deixaram de ser território exclusivo das elites.

Mas do ponto de vista econômico, os muito ricos também não tiveram motivos de queixa. O consumo ampliado dos que eram antes muito pobres movimentou os negócios e lucros. Como o Estado retomou as grandes obras de infraestrutura e abriu programas como o Minha Casa, Minha Vida, setores como o das empreiteiras voltaram a sorrir. Mineração e agronegócio surfaram na onda de uma alta internacional do preço das matérias-primas. Os ganhos dos grandes aplicadores com os juros pagos pelo Tesouro (e, portanto, por nós) caíram bastante, mas ainda estão entre os mais altos do mundo.

Este cenário – que criou uma zona de conforto e inibia questionamentos e transformações mais profundas – está se desfazendo rapidamente, a partir de duas mudanças importantes no panorama internacional. As cotações de bens primários – hoje, cerca de 54% das exportações do país – voltaram a cair. Uma provável alta das taxas de juros nos Estados Unidos está atraindo parte maior da riqueza monetária que circula no planeta e tornando mais difícil, para outros países, captá-la. Como a economia brasileira internalizou-se e se desindustrializou, estes fenômenos têm impacto. Estão na raiz, por exemplo, da alta do dólar e da inflação – duas tendências que já passaram a dominar o noticiário da velha mídia (as manifestações os afastaram momentaneamente) e serão explorados com intensidade crescente, nos próximos meses.

Como de costume, os conservadores buscam, diante das dificuldades, convocar o moralismo e os impulsos (auto-)punitivos de uma sociedade majoritariamente cristã. A causa estaria na “incompetência” dos últimos governos. A saída “natural” seria “apertar os cintos”: partir para políticas de corte de serviços públicos e direitos sociais, como fazem os países europeus. O Brasil deveria mostrar “bom comportamento”, para reconquistar a “confiança” dos mercados internacionais…

Também na política, o moralismo procura impedir que se enxergue o que é atraente e proibido. O impasse das reformas sociais limitadas dos últimos dez anos não precisa revertê-las Pode, ao contrário, estimular mudanças muito mais profundas. Já não se tratará, neste caso, apenas de uma redistribuição superficial da riqueza, comandada pelo Estado.

130625-Perifa

Campo Limpo, periferia de S.Paulo, 25/6. (Foto: Marcos Bezerra / Futura Press)

O sinais de Primavera vividos nas últimas semanas sugerem que, numa época marcada por crise civilizatória e busca de novas perspectivas, o Brasil pode estar pronto a se rever e reinventar a partir de baixo. O melhor deflagrador é a luta por direitos. A transporte rápido, bom e barato. A viver no centro das cidades. A uma revisão completa de prioridades do investimento público nas metrópoles, que assegure serviços públicos de qualidade nas periferias. À redução da jornada de trabalho para 44 horas semanais, que o Congresso Nacional engaveta há anos. Para compreender a diversidade de pautas ligadas à garantia de vida digna – e seu potencial de mobilização – vale espiar asérie de fotos que registra a passeata realizada por movimentos da periferia de São Paulo, em 25/6, ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado.

Mas também é hora de suscitar os direitos ligados à sociedade da informação. Internet gratuita e universal. Quebra do oligopólio da mídia e efetiva liberdade de expressão. Livre circulação do conhecimento e cultura, com revisão das leis retrógradas de propriedade intelectual. Retomada de projetos paralisados, como os Pontos de Cultura.

A pauta dos direitos aciona, imediatamente, a do combate à desigualdade e aos privilégios. São Paulo tem a maior frota de helicópteros civis do planeta (mais de 500, à frente de Nova York e Tóquio…), enquanto 6 milhões de pessoas chacoalham, às vezes três ou mais horas por dia, em ônibus lotados, sujos e desconfortáveis. O Brasil, que ocupa o 85ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, e cujas ferrovias permanecem sucateadas, é o segundo do mundo, em número de jatos executivos.

Mas a consciência da desigualdade não precisa conduzir a um distributivismo primário. Não se trata de “democratizar” o padrão atual de consumo, mas de recriar as lógicas de produção e distribuição de riquezas. Também neste aspecto, as jornadas das últimas semanas são inspiradoras. Lutou-se pelo transporte coletivo, um bem comum. Abriu-se caminho para debater, por exemplo, cidades livres da ditadura do automóvel ou da poluição dos rios. Educação e Saúde públicas de excelência e inovadoras. Um uso de eletricidade menos voraz e alienado, para permitir uma matriz de fontes energéticas mais limpa. Um modelo de desenvolvimento do campo que valorize e estimule não a produção de commodities em latifúndios “modernos”, com uso maciço de agrotóxicos – mas o pequeno produtor e a diversidade de nossas culturas alimentares.

Um reexame do país, há muito adiado, foi aberto. Como se viu, nada está assegurado. Os próximos dias e meses serão cheio de surpresas, novas possibilidades e riscos. Mas estamos em muito melhores condições de viver estas nova fase agora, quando as ruas mostraram seu rosto – e sua voz rouca…

analu,

este texto tá otimo, já tinha lido, e repassei pra amigas

estamos circulando entre todos.

Analu, gostei deste texto. 

( estamos entre as amigas , lendo tudo o que seja de positivo, para que possamos ajudar no que nos for possivel, e ter mais argumentos.. , pois o golpe tá preparado cruz credo!!!!

Sobre Pecado, Moral, Felicianos e Malafaias – breve exercício retórico
Marcos Jungmann
Adital

O professor Dr. Oneide Bobsin, reitor das Faculdades EST, em um encontro de formação pastoral da Pastoral Popular Luterana em São Leopoldo, levantou para os presentes a necessidade de, hoje em dia, desmoralizarmos o pecado. Certo das diversas interpretações que tal sugestão pode levar, fiquemos com a aparentemente mais simples: a de desassociar a prática do pecado de espectros morais, ou vice-versa. Pois, se bem atentarmos, é sobre essa ligação entre pecado e moral que se fundamenta toda a discussão evangelical sobre homossexualidade. O argumento é simples: homossexualidade é imoral e, logo, é pecado e, logo, deve ser combatida. Não se trata de doença! –Feliciano e Malafaia destacam muito atentamente esse ponto– não sendo passível de se sugerir uma "cura gay”, como os opositores oportunistas da mídia insinuam!

Pelo contrário, ambos os pastores/especialistas no assunto –um deles, inclusive, psicólogo– trabalham com a ideia de que a homossexualidade é um comportamentoe, sendo assim, pode ser modificado. De fato, na clínica de terapia cognitivo-comportamental, é possível seguir um tratamento breve e focal com o objetivo de abandonar certos vícios, transtornos de ansiedade, compulsões e, por que não, práticas homossexuais? Assim, não se é necessário conceber homoafetividade como doença para haver um tratamento, mas simplesmente como um conjunto de comportamentos indesejados pelo cliente que podem ser aos poucos abandonados. O que haveria de errado nisso?

De fato, o projeto popularmente denominado "cura gay”, reforça tais posições. Seu parecer, aprovado pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal em 18/06/2013, sustou o parágrafo único do artigo 3º e integralmente o artigo 4º da Resolução do Conselho Federal de Psicologia 1/99. Estes vetavam os psicólogos de colaborarem com "eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades” e de participarem ou se pronunciarem publicamente "nos meios de comunicação de massa de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica” (ver Resolução 1/99 de 23/03/2013 do CFP).

Duas posições são mobilizadas para justificar tal legitimidade. Em primeiro lugar, o direito inalienável da pessoa de, livremente, procurar um "tratamento”. Em segundo, o pressuposto de que tais comportamentos gerariam uma angústia interna no indivíduo. Segundo o vídeo de Marcos Feliciano(1), presidente da referida Comissão, seria essa angústia interna, essa dor que o homoafetivo carrega dentro de si que o moveria à procura da ajuda psicológica. E atenção: a busca pelo tratamento seria em decorrência da angústia e não pela homossexualidade ser uma doença! Tratar-se-ia, ainda, poderiam argumentar, de uma questão de direitos humanos. Seria correto lhe negar tratamento?

Mas, como chegamos na moral e no pecado? Pensemos em um eventual interessado em não mais desempenhar comportamentos homossexuais por serem impuros, sujos, desprezíveis e, finalmente, pecaminosos. E a pessoa, reconhecendo-se como pecadora ou suja, procura ajuda –o pastor, por exemplo– que o admoesta a procurar acompanhamento psicológico para tratar esses comportamentos e desejos que tanto lhe causam angústia.

Contudo, será que tais angústias, de que fala Feliciano, ainda existiriam se ele, Malafaia e outros expoentes do evangelicalismo simplesmente parassem de dizer que ele está em pecado, que, segundo a Bíblia, ele não herdaria o Reino dos Céus; ou cessassem de promover, por meio de processos muitas vezes difusos e indiretos, sua exclusão da comunidade da qual faz parte?

No final das contas, o que fica é o papel normativo da sociedade e da Igreja quanto à homoafetividade. Não é doença e, logo, não se trata de cura gay; mas, é pecado, e pecado deve ser eliminado, combatido... E o argumento teológico-cognitivo-comportamental de Silas Malafaia e Marcos Feliciano é o de combater a angústia individual do pecado em posse do jovem através do tratamento psicológico. Esquecem-se, contudo, que o gerador dessas angústias foram as mesmas instituições que formaram esse jovem: igreja, escola, família. Todas essas, quando não promovem a aceitação integral e radical de seus jovens/membros homoafetivos ou em processo de formação de sua identidade homoafetiva, são as verdadeiras pecadoras. Pois excluem e geram dor e depois, hipocritamente, lutam pelo direito ao acesso ao tratamento psicológico para resolverem a angústia que eles mesmos introduziram.

Nota:

(1) http://www.youtube.com/watch?v=LcClBBNeczc

Bom isso. Mas, para o Conselho de Psicologia, o argumento de que nao é doença, logo nao pode ser tratado, é melhor, porque entrar na questao de se gera ou nao angústia, e qual a causa, é mais nebuloso. 

Relato do magistrado Sílvio Mota ao enfrentar a Polícia em Fortaleza

Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!” Era isso que eu ia cantando quando avancei contra a PM do Sr. Cid Gomes. Por que avancei?
Em primeiro lugar, porque a polícia não se manteve nas barreiras e avançou para acabar com a manifestação. Uma manifestação pacífica, de cara limpa, em que tremulavam bandeiras dos movimentos sociais e até de partidos políticos.
Não é verdade que os manifestantes provocaram o enfrentamento.
A PM do Ceará mentiu, e a Rede Globo também.
A maior manipulação da Globo foi a de não seguir a linha do tempo, e apresentar imagens do final do conflito sem nada dizer das horas de bombardeio que sofremos.
Tenho 68 anos e limitações de locomoção, e estava sentado quando eu e minha esposa, também com 68 anos, fomos atingidos por artefatos de gás lacrimogêneo. Estávamos longe da barreira, com vários trabalhadores, professores universitários, profissionais da saúde, e até militantes das Pastorais da Igreja Católica.
Minha esposa foi levada por jovens manifestantes para longe, a fim de ser tratada dos efeitos do gás. Eu fiquei, inclusive porque peso mais de 100 quilos. Estava aplicando uma esponjinha molhada de vinagre para poder respirar, mas vi uma jovem tão apavorada que passei minha esponja para ela.
Levantei-me indignado e avancei contra os escudos da barreira, de cara limpa, com a camisa contra a PEC 37. Os PMs ficaram confusos, mas logo avançou um oficial superprotegido por escudos e asseclas que mal podia falar.
Foi logo dizendo que eu não podia fazer aquilo, mas respondi que estava no meu direito de manifestar-me sem armas. Ele alegou que eu podia ser atingido por pedras, mas nenhuma foi arremessada contra mim. As poucas que havia no chão eram pequenas, e nenhum risco causavam a seus escudos e coletes. Disse-lhe que dispensava sua proteção, pois quem tinha me agredido era ele, e não pedras.
Ele voltou para sua linha de escudos.
Os jornalistas presentes logo me perguntaram se eu era promotor, e lhes disse que era juiz aposentado e meu nome. Até defendi o plebiscito proposto pela Presidenta Dilma.
O garboso oficial com seus escudos laterais saiu da linha de novo e disse que iria prender-me.
Disse-lhe que não podia fazer isso porque eu era um magistrado vitalício e não estava cometendo nenhum crime. Exibi-lhe minha carteira funcional, e ele disse que não ia me prender, mas que ia prender a um senhor militante do MST que tinha avançado para meu lado para proteger-me e estava usando a camisa do movimento. Disse-lhe então que iria com ele, e na confusão o camponês correu e o garboso oficial não teve coragem de abandonar a linha para persegui-lo.
Dei-lhe as costas e voltei para a meninada, que já estava mais calma, mas então ele teve coragem de mandar dísparar pelos menos cinco artefatos de gás nas minhas costas. Os meninos apagaram quatro deles em baldes de água, e um quinto me atingiu no meio das costas. Caiu no chão e chutei para o lado. É bom saber: nunca dê as costas para uma hiena.
Depois de voltar para a manifestação encontrei minha mulher, ficamos ainda algum tempo aguentando gás lançado contra nós sem motivo, em trajetórias de longo alcance e ainda deu tempo para sair com nosso carro e almoçarmos em um restaurante (o que tinha que fazer com urgência, pois já eram duas da tarde e sou diabético).
Só então tivemos notícias dos confrontos mostrados nas imagens da Globo, por celular.

Sílvio Mota
Magistrado Federal

E ai dele se nao fosse magistrado... 


Veja que piada ótima que veio da Argentina

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