Usamos mesmo 10% do nosso cérebro ou a questão é que talvez, esteja ele, sendo mal utilizado?

Viventes na chamada era da informação e ao mesmo tempo com números crescentes dos acometidos pelo estresse mental, hiperatividade, depressividade e a enormidade de doenças degenerativas cerebrais (males de Parkinson, Alzheimer para ficar nas mais comuns e conhecidas) e dos AVCs. De acordo com pesquisa, o profissional da área de TI (tecnologia da informação ) sofrem mais com os efeitos do estresse, do que os de qualquer outra área (97%) - http://info.abril.com.br/aberto/infonews/052006/29052006-4.shl ou http://www.administradores.com.br/noticias/carreira_profissionais_d...

 

Hoje se tem disponível na grande rede mundial de computadores, uma enormidade de dados e informações. O que ilude a muitos, é que informação por si só, não significa conhecimento (mesmo porque, muitos dos dados ofertados, são conflitantes e conflituosos - veja-se apenas, a questão do clima global como é tratado de forma aterrorizadora por muitos cientistas, políticos, ONGs e mídias) e mesmo o conhecimento bem estruturado, não nos garante sabedoria, senão basta ver que muitos dos estressados e/ou depressivos, são dos grupos dos intelectualizados em demasia.

 

Talvez até, com vistas para isto, a BBC britânica exibirá o documentário: "The Virtual Revolution – H*** Interneticus" onde indica entre outras questões, que "overdose" de internet está comprometendo a capacidade, já dos mais jovens em manter concentração.

 

Matéria no UOL tecnologia, o divulga assim:

 

'Overdose' de internet diminui capacidade de concentração dos adolescentes, diz documentário

 

Estudantes britânicos estão perdendo capacidade mental para assuntos acadêmicos, devido ao uso exagerado da internet para pesquisas, de acordo com o documentário inédito “The Virtual Revolution”, produzido pelo canal BBC2.

Especialistas no assunto apontam que o fato de os usuários navegarem por vários sites faz com que eles não se concentrem em um objeto de estudo, como por exemplo a leitura de um livro. As informações são do site britânico “Daily Mail”.

Esta nova forma de associar as idéias, que a internet proporciona, faz com que a maioria dos estudantes tenha dificuldades em disciplinas lineares como leitura e escrita.

Segundo psicólogos, em menos de três anos, milhares de adolescentes britânicos necessitarão de tratamento médico causado pelo uso excessivo da internet.

O documentário, produzido pela rede britânica, foi feito em parceria com o professor David Nicholas, da University College of London, que fez um estudo sobre o impacto da internet em nossos cérebros.

O estudo consistiu em fazer uma série de perguntas para serem respondidas no computador a 100 voluntários. Os mais jovens (com faixa etária entre 12 e 18 anos) responderam às perguntas consultando metade das páginas que pessoas mais velhas levaram para responder as mesmas perguntas.

Outra constatação do Profº Nicholas é que 40% dos jovens nunca revisitaram a mesma página da internet. Em contraposição, pessoas que nasceram antes da era da internet costumam consultar as mesmas fontes de pesquisa.

“A grande surpresa é que as pessoas acessam sites como se fossem paisagens virtuais. Ficam pulando de uma página para outra e ninguém fica por muito tempo”, concluiu o especialista.

O documentário “The Virtual Revolution – H*** Interneticus” será exibido na íntegra na BBC2, no dia 20 de fevereiro.

 

http://tecnologia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2010/02/10/in...

 

No site BBC - http://www.bbc.co.uk/virtualrevolution/makingofprog4.shtml

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Do site FOCO em Gerações (http://www.focoemgeracoes.com.br/)

Cérebro: como o uso da internet afeta nossa mente? (18/set/2009 - Ines Schinazi)

Imagem 1: Áreas do cérebro ativadas na leitura de um livro
Imagem 2: Áreas do cérebro ativadas numa pesquisa no Google



A tecnologia está claramente modificando o modo como falamos, nos comunicamos, interagimos e nos relacionamos uns com os outros. Mas será que ela também está mudando nossos cérebros? É o que pensa o Dr. Gary Small. É lógico que a extrema plasticidade do cérebro não é novidade. Mas a expansão da influência tecnológica em quase todos os aspectos de nossas vidas é sim algo novo.

Dr. Small é um ilustre expert mundial em memória, envelhecimento e cérebro. Ele é atualmente diretor do Centro de Estudos da Memória & da Idade no Instituto Semel de Neurociências e Comportamento Humano, da Universidade da Califórnia, LA (UCLA). Seu livro mais recente é inteligentemente intitulado como “iBrain”.

A tecnologia contribuiu enormemente para tornar possível a pesquisa do Dr. Gary Small. De muitas formas, ela despertou seu pensamento.

Ele explica. “Foi realmente em minha vida pessoal, observando aquelas tecnologias, que senti que desejava entender isso melhor. Fiquei espantado pelo fato de haver tão poucos estudos focados na função cerebral, enquanto nossos cérebros estão usando essas novas tecnologias.”


Enquanto a tecnologia nos leva adiante, permitindo a alguém como o Dr. Small explorar essas questões, ela paradoxalmente nos retém.

Por meio de sua pesquisa, Dr. Small também revela o grande “gap cerebral” que ocorre entre os “digitais nativos” e os “digitais imigrantes”, afetando assim a família, o ambiente de trabalho, e a sociedade em escala maior.

Sua pesquisa, extremamente inovadora, esteve nas primeiras linhas dos jornais “The New York Times,” “The Wall Street Journal,” e “USA today”, entre outras publicações. A revista “Scientific American” o nomeou como um dos maiores inovadores do mundo em Ciência e Tecnologia.

Seu recente estudo na UCLA intitulado “Seu cérebro no Google” nos faz questionar se nossos próprios cérebros estão sob a influência do Google. Em uma entrevista exclusiva, Dr. Small compartilha alguns de seus pensamentos.

Ines: Você pode contar um pouco sobre o estudo “Seu cérebro no Google” que fez na UCLA?
Dr. Small: Nós queríamos verificar como era a aparência do cérebro na primeira vez em que realiza uma busca online. Para isso, precisávamos encontrar pessoas (mais velhas) que fossem “nativas” na Internet. Aquela era provavelmente a parte mais difícil do estudo. Então, encontramos essas pessoas, e as conectamos com outras que tinham experiência em buscas pela Internet.

Nós as colocamos num scanner funcional MRI, no qual podemos medir a função cerebral de momento a momento.

Simulamos uma busca pela internet e a leitura de um livro no scanner. Descobrimos que, quando as pessoas buscavam online, havia um aumento em mais de duas vezes na ativação do cérebro. Concluímos que aquilo tinha a ver com as redes neurais percebendo como buscar online e mostrando uma melhor ativação.

Também descobrimos, e apresentaremos os resultados no próximo mês, que se você pegasse aquelas pessoas nativas em Internet e deixasse que fizessem buscas online por apenas uma hora por dia durante uma semana ou duas, seus cérebros se pareceriam idênticos aos de alguém que realizou essa tarefa durante anos. Isso nos demonstra que um cérebro mais velho realmente pode se adaptar muito rápido.
Ines: Você é considerado um dos maiores experts do mundo em memória, idade e cérebro. Especificamente, como você começou a explorar a conexão entre a tecnologia digital e o cérebro? O que despertou o interesse?
Dr. Small: Meu trabalho se baseou primeiramente na doença de Alzheimer, na memória, e em como o cérebro age. Passei grande parte da minha carreira desenvolvendo tecnologias para mensurar o cérebro, como as técnicas em solução PET, e assim por diante.

E isso me levou a pensar, nos últimos anos, que toda a tecnologia que estávamos desenvolvendo, e que melhora nossas vidas, poderia também causar efeitos no cérebro. Foi realmente na minha vida pessoal, observando aquelas tecnologias, que senti que desejava entender isso melhor.

Foi por isso que escrevi o livro “iBrain.” Durante o percurso de escrita, fizemos um estudo na UCLA denominado “Seu cérebro no Google”. Porque eu fiquei espantado pelo fato de haver tão poucos estudos focados na função cerebral, enquanto nossos cérebros estão usando essas novas tecnologias.

Ines: Sua pesquisa revela a grande disparidade entre os digitais nativos e os digitais imigrantes, o que você chama de “Gap Cerebral”. Como você percebe que esse gap entre cérebros está afetando a família?

Dr. Small: Eu penso que isso afeta definitivamente a família. Eu vejo na minha própria família. Os mais jovens, os adolescentes, estão usando mais a tecnologia, eles são melhores nisso, mas não estão passando tempo face a face com o contato humano.

Temos uma regra em nossa casa que proíbe o uso de tecnologia na hora do jantar. Mas é uma situação estranha. Outro dia, eu disse ao meu filho, “Pare de jogar esse videogame e venha assistir à televisão comigo!”

Isso traduz a minha preocupação sobre o uso repetitivo de tecnologia, e a falta de socialização. É um assunto que está passando por mudanças. É um tema complexo, e eu não tenho todas as respostas. Escrevendo “iBrain” eu esperava gerar certa discussão, criar algumas questões e levar as pessoas a estudarem isso um pouco mais.

Ines: Como esse gap afeta o ambiente de trabalho? Os digitais nativos e os imigrantes precisam agora colaborar para realizar as mesmas tarefas?Dr. Small: No ambiente de trabalho, em que as pessoas precisam se adaptar, elas se adaptam. Um exemplo é meu pai, que já estava em seus 80 anos, e ainda trabalhando. Ele não usaria um computador de forma alguma. Mas quando eles mudaram para um sistema de arquivamento eletrônico no escritório, ele foi forçado a usar o computador, e se adaptou prontamente.

Eu acho que algumas pessoas mais velhas terão vantagens por causa da habilidade no “contato face a face”. Mas os mais jovens terão vantagens por causa de suas habilidades tecnológicas no ambiente de trabalho. As pessoas que se destacarão ao máximo serão aquelas que conseguirem unir ambas as habilidades.

Ines: Quais são os passos que podemos seguir para minimizar o “gap cerebral” no ambiente de trabalho e na família?
Dr. Small: Eu penso que eles precisam primeiro estar cientes dos assuntos, e ter discussões. Acredito que o jeito de suprir o gap seja expandir as habilidades tecnológicas das gerações mais velhas, e auxiliar os mais jovens em suas habilidades de contato humano face a face.

Ines: Há sempre um bom campo de discussão sobre o lado esquerdo e direito do cérebro, que determina as aptidões naturais das pessoas. Você acha que o uso da tecnologia é comparável a outras habilidades como Artes, Matemática e Literatura? Algumas pessoas têm mais aptidões naturais ou talentos? Ou as habilidades tecnológicas das pessoas são diretamente proporcionais à sua exposição à tecnologia?
Dr. Small: Essa é uma questão complexa. Não estudamos isso diretamente. Minha opinião é que alguns de nós são melhores de forma inata. Mas também é algo que pode ser aprendido. Então não é apenas um ou outro. O cérebro é plástico e responde muito bem a esses tipos de exposição. Percebemos em nosso estudo “Seu cérebro no Google” que um cérebro mais velho realmente se adapta muito rápido.

Ines: Você diz que os nativos digitais geralmente não possuem “habilidades pessoais” básicas para lidar com pessoas, como ler expressões faciais ou sentir empatia. No futuro, os nativos digitais correm o risco de perder suas “habilidades pessoais” completamente?
Dr. Small: Sim. Este é um tema importante. As pessoas vêem isso como piada o tempo todo. Os mais jovens não mostram contato visual quando estão tendo uma conversa. Eles realmente não conseguem ler os gestos não-verbais enquanto conversam. Então eu penso que é um risco, e uma razão pela qual tento ampliar a atenção das pessoas para isso.

Ines: Vivemos no mundo do iPod, do iPhone, do iMac, e agora do “iBrain”. Como você chegou a esse título criativo para seu último livro?
Dr. Small: Eu devo o crédito à nossa editora, Mary-Ellen O’Neill. Foi uma idéia muito boa. É um título magnífico. O livro é a respeito do cérebro, e sobre o efeito da nova tecnologia no cérebro.

Então, você estava brincando com as palavras quando disse “iBrain, iPhone, etc.” Por causa do significado do “I” você podia dizer que tem a ver com “inteligente” ou “interativo”. É interessante porque no estudo “Seu cérebro no Google” percebemos que o lobo frontal estava particularmente ativado, e essa é a parte interativa do cérebro. Então pesquisar online é algo interativo. Você está tomando diversas decisões. Você está indo adiante e voltando. Isso realmente ativa os circuitos neurais no lobo frontal do cérebro.

Ines: Sua pesquisa insiste nos aspectos positivos do uso da Internet. Você pensa que a Internet ajuda a desenvolver habilidades importantes como multi-tarefas, raciocínio complexo e tomada de decisões, tanto nos jovens quanto nos mais velhos. Isso nos traz a idéia de que os efeitos somente são positivos se as pessoas usam a tecnologia com responsabilidade, sem transformar isso num vício.

Sabemos que o vício pela Internet é um problema crescente em todo o mundo, então há uma série de centros de reabilitação sendo recentemente abertos para tratar esse problema. Os cérebros dos que apresentam o vício têm conexões diferentes?

Dr. Small: Sabemos que algumas pessoas possuem predisposição para o vício. Então, suas conexões cerebrais podem ser um pouco diferentes, e pode haver uma determinação genética para isso.

Mas eu acredito que todos nós temos a capacidade de nos tornar viciados às coisas. Depende do montante de exposições, da situação e de diferentes fatores. Eu penso que em qualquer condição, há uma combinação da genética com os fatores ambientais.

Você percebe que as pessoas que se viciam em tecnologia são geralmente as mesmas que possuem uma tendência a se tornarem viciadas em álcool, às drogas e à comida. É o mesmo sistema recompensador de dopamina. O sistema primitivo do cérebro dirige esses vícios. Falamos sobre isso de certa forma no “iBrain”.

Ines: Quais são as suas sugestões para evitar o problema de vício na sociedade?
Dr. Small: Eu acho que há muitas controvérsias sobre isso. Nem tanto na Ásia, e em alguns outros países. Mas, nos EUA, a Associação Americana de Psiquiatria ainda não decidiu o que fazer. Eu penso que há muito o que fazer, e que devemos levar isso seriamente e tentar ajudar as pessoas.

Ines: Quais sua opinião sobre as redes populares de relacionamento via web, como o Facebook e o Twitter? Eles são bons para o cérebro?

Dr. Small: Eu penso que qualquer coisa pode ser boa. Mas quando se passa do limite, tudo pode ser negativo. Eu falei com muitas escolas, e com muitas crianças que estão passando muito tempo no Facebook.

Um ponto negativo é que eles estão perdendo suas habilidades de comunicação face a face. Mas eles estão se tornando bons em suas habilidades “de Facebook para Facebook”.

Você sabe, é maravilhoso ter diversos relacionamentos com isso. Mas eu acredito que precisamos usar com moderação e não passar dos limites. Eu sempre recomendo um balanço, que você passe tempo offline, para balancear o tempo online.

Ines: E esses sites de redes sociais parecem particularmente viciantes…
Dr. Small: Sim, todo mundo que se envolveu com os sites de relacionamento social realmente entende o quadro. Para mim, não é o Facebook, mas eu tenho muitos negócios de trabalho no e-mail que é difícil sair dele. Ajuda. Mas muito de uma coisa boa pode se tornar algo ruim. Eu penso que você precisa ter um balanço e saber quando usar a comunicação eletrônica e quando usar a comunicação à moda antiga.

Ines: Muito de sua pesquisa se direciona a ajudar os mais velhos a se tornar o mais jovem possível. Vejo que sua pesquisa é um esforço para reconciliar a boa saúde com a idade avançada. Porém, você acredita que um pouco da enorme atração para esse tipo de pesquisa vem do medo generalizado de nossa sociedade em envelhecer?
Dr. Small: Sim. Nós queremos nos manter jovens. Queremos estar saudáveis. Há certamente uma ênfase na juventude. O que estamos aprendendo por meio da ciência é que temos mais controle do que imaginamos. A genética apenas dá conta de parte do que determina quão bem e quanto tempo nós viveremos. Então estamos tentando ajudar as pessoas a entenderem isso, e descobrirem o que podem fazer hoje para viver mais e melhor.

Ines: Nós sabemos que, com o uso excessivo da tecnologia, os indivíduos estão desenvolvendo mais “laços virtuais” e “relacionamentos virtuais” que os da “vida real”. A tendência aos relacionamentos virtuais é também um produto da mudança cerebral? Ou isso diz mais sobre a sociedade e a socialização em geral?
Dr. Small: Eu acho que isso fala do quão tentadoras essas coisas são. Eu amo a tecnologia. Ela é realmente fantástica. Penso que é algo que realmente pode melhorar nossas vidas, e melhora. Mas acredito também que isso nos fez progredir tão rápido que não pensamos nos pontos positivos e negativos. É sobre isso que o “iBrain” trata. Sobre tentar equilibrar isso, e pensar de forma inteligente para agregar em nossas vidas, controlar a tecnologia e tornar as coisas melhores.

Ines: Um estudo afirma que as mulheres são naturalmente melhores em fazer múltiplas tarefas porque, desde os tempos antigos, enquanto seus maridos estavam fora, caçando, elas sustentavam a família e desenvolviam diversas atividades ao mesmo tempo. Esse mesmo contexto histórico também fez com que o homem se desempenhasse melhor quando focado em uma tarefa de cada vez. Em sua opinião, como a era digital, com suas constantes multi-tarefas, irá impactar nas futuras gerações e seus papéis de acordo com o gênero?
Dr. Small: Eu acredito que há um tipo de “redução” da divisão de gênero como um resultado disso. Curiosamente os homens parecem entrar na tecnologia mais cedo, mas agora não há uma grande barreira nisso. Mas há algumas diferenças em termos de “testes padrão”, voltando ao desenvolvimento evolutivo, definindo os papéis do homem e da mulher, onde os homens caçavam e as mulheres procriavam. Isso é interessante, o pensamento das multi-tarefas e as mulheres sendo melhores nesse papel. Eu acho que há certa verdade nisso. Eu posso me focar em uma única tarefa, considerando que minha esposa leva menos tempo fazendo isso, e observará outras coisas acontecendo. Eu penso que todas as apostas estão fechadas com a tecnologia de hoje. Estamos vendo menos diferenças entre homens e mulheres.

Fonte: http://www.focoemgeracoes.com.br/index.php/2009/09/18/i-cerebro-com...
Na sua edição de nº 406, de 27/02/2006 - com texto no site, atualizado em 10/07/2009, a Revista Época (Ed. Globo) trazia a matéria de capa questionando, "Somos todos hiperativos?", onde estudos indicavam, apesar de suposições anteriores, nem jovens e nem adultos, homens ou mulheres tem a primazia em ser de maneira efetiva e eficiente, multitarefa.

A matéria é:

Socorro

Saia da internet, desligue o celular e leia com atenção: sua concentração pode estar em risco

- 78% dos profissionais têm a concentração comprometida, mas apenas 30% deles são multitarefeiros assumidos

- A cada 10 tarefas, 7 sofrem interrupções

- O volume de e-mails nas empresas aumentou 200% no último ano (2006)


No princípio, dizia o grego Hesíodo, era o caos. Até que inventaram o telefone. O aparelho tocava, você pedia um momento, atendia e voltava a fazer o que tinha interrompido. Depois criaram o e-mail. Mais um momentinho para ler a mensagem urgente, enquanto alguém esperava do outro lado da linha, e o trabalho continuava parado. Aí foi a vez do celular, chacoalhando no bolso com aquela inconfundível musiquinha. Dá para esperar só mais um pouquinho? Hoje, com jornais, revistas, blogs, rádio, TV, computadores de bolso e uma barafunda de bugigangas tecnológicas, as interrupções se tornaram ininterruptas. Somem-se a isso todos os papéis que todos temos de cumprir. Somos filhos, pais, cônjuges, irmãos, funcionários, chefes, subordinados - e precisamos estar sempre disponíveis para exercer cada uma dessas funções. Em casa, no trabalho, em qualquer lugar do planeta. Estamos mergulhados num oceano de informações e atividades que, a todo tempo, demandam nossa atenção e exigem decisões. Como reagir? Dá para não morrer afogado? Será que o cérebro humano está preparado para conviver com tanta coisa, para coordenar tantas tarefas ao mesmo tempo e para tomar as melhores decisões em meio a um caos hoje bem diferente daquele de Hesíodo?

A quantidade de estímulos cerebrais produzidos pelo mundo moderno é absolutamente avassaladora. Mais informação foi produzida nas últimas três décadas que nos últimos 5 mil anos. Mais de mil livros são publicados diariamente pelo mundo. Uma única edição do jornal The New York Times contém mais informação do que um leitor médio encontrava durante toda a vida no século XVII.

O número de filmes quintuplicou nos últimos 50 anos. Só na última década, a quantidade de minutos falados ao telefone praticamente dobrou. Como o dia continua com as mesmas 24 horas de sempre, a vida moderna tem tudo para se tornar um jogo de malabarismo. Veja o dia-a-dia da juíza federal carioca Paula Nogueira, de 37 anos. Quando chega em casa, às 7 horas, depois da corrida matinal, diz que nem consegue tomar banho. Precisa cuidar dos dois filhos e resolver os problemas domésticos. 'Outro dia, estava lutando ao telefone para consertar minha televisão e, ao mesmo tempo, procurando uma chupeta desaparecida em casa', diz ela. 'Tudo isso ainda com a roupa do cooper e duas crianças grudadas nas minhas pernas.' A maratona continua no trabalho, onde Paula divide seu tempo entre o assistente, livros, celular e computador. À noite, diz precisar arranjar tempo para o marido e a mãe, que está se recuperando de uma cirurgia. 'É comum eu jantar enquanto repasso processos no computador com uma das crianças no colo. Fazer várias coisas ao mesmo é o único meio que tenho para dar conta de tudo', diz ela.

O caso de Paula impõe de imediato uma questão: o ser humano está preparado para essa carga? 'São tantos livros e canais de televisão, tantas possibilidades de escolha para tudo, que nosso cérebro acaba exausto. A multiplicidade de opções restringe nossa capacidade de decisão, de escolher', diz o professor de sociologia Barry Schwartz, autor do livro The Paradox of Choice (O Paradoxo da Escolha). Lidar com uma agenda sobrecarregada é uma questão que ocupou tempo de sábios tanto orientais como ocidentais (leia artigo à página 60). A sabedoria oriental, do hinduísmo ao budismo, recomenda com insistência, basicamente, que você faça uma coisa por vez. Quando estiver comendo, coma apenas. Quando estiver caminhando, caminhe apenas. Quando estiver conversando com alguém, faça isso apenas. É uma receita simples, tradicional e de comprovada eficácia para evitar o congestionamento da mente - e suas conseqüências, como ansiedade, exasperação, dispersão e estresse. Na Era da Hiperatividade, na qual a tecnologia mantém você plugado o tempo inteiro, seguir essa receita pode exigir doses poderosas de perseverança e disciplina. Os filósofos ocidentais, a começar pelos pioneiros gregos da Antiguidade, também se detiveram intensamente sobre esse assunto. Demócrito, do século V a.C., cunhou uma frase repetida posteriormente por gigantes da filosofia, como o imperador romano Marco Aurélio, autor das clássicas Meditações, e Sêneca, expoente do estoicismo. 'Ocupe-se de pouco para ser feliz', escreveu Demócrito. Dá para ocupar-se de pouco numa sociedade que demanda tanto como a de nossos dias? Talvez não. Mas é inegável que, no estado de agitação permanente do mundo em que vivemos, todos fazemos muitas coisas desnecessárias. E sem se dar conta. Parar e refletir sobre o real sentido das tarefas que consomem nosso tempo e energia pode ser um grande passo para uma vida menos desgastante.

A sabedoria dos antigos filósofos tem sido comprovada pelas mais recentes pesquisas científicas. A psicóloga e pesquisadora Yuhong Jiang, da Universidade Harvard, comparou imagens do cérebro de estudantes submetidos a múltiplas tarefas às de outros que reagiam a um único estímulo. O resultado foi desolador. 'O cérebro humano é incapaz de processar duas coisas ao mesmo tempo. Além de não ter essa capacidade, ele forma uma 'fila' de tarefas que atrapalha a execução geral, provocando erros e atrasos', diz ela. O cérebro até consegue receber diversos estímulos simultâneos. Mas não é capaz de tomar decisões simultâneas. 'Dá para assistir à TV e ouvir música ao mesmo tempo', afirma Yuhong. 'Mas, se você tiver de julgar a performance do ator e lembrar o título da música, haverá atraso na resposta.' Essa opinião começa a se tornar um consenso entre os especialistas. 'Ninguém pode prestar atenção a duas coisas simultaneamente', afirma o psiquiatra Edward Hallowell, também médico de Harvard e estudioso do déficit de atenção. 'O que as pessoas fazem é ir e vir. Balançam entre uma coisa e outra. Assim você sempre acaba prestando menos atenção em alguma delas.'
O estudo científico das interrupções na mente foi iniciado há cem anos, quando começaram a trabalhar os primeiros operadores de telégrafo. Eles representam a primeira categoria de profissionais ligados a informação e tecnologia, e viviam sob estresse. Psicólogos descobriram que, quando alguém falava com um operador enquanto ele digitava uma mensagem, o operador cometia mais erros. Em 1920, a cientista russa Bluma Zeigarnik estudou as diferentes fases da interrupção. Aplicou testes com quebra-cabeça a estudantes e profissionais. Descobriu que aqueles que eram interrompidos quando começavam a montar o quebra-cabeça demoravam mais ou tinham dificuldades para completá-lo. Como não haviam tido tempo suficiente para investir mentalmente na tarefa, tinham mais dificuldades para recuperar o foco depois de uma distração. Já aqueles que estavam terminando o quebra-cabeça quando foram interrompidos, conseguiram manter melhor o foco. Os especialistas depois confirmaram, em estudos sucessivos, que, depois de um indivíduo ser interrompido ou alternar-se entre diferentes ações, tem sempre mais dificuldade de recuperar a concentração na tarefa anterior. De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Michigan, a interrupção constante diminui em até 40% a eficiência dos profissionais. Em alguns casos, pode até causar uma espécie de cegueira momentânea. Psicólogos da Universidade Yale observaram que, depois de submetidos a uma imagem de violência, a percepção de alguns pacientes ficava tão comprometida que eles não enxergavam nada por um breve espaço de tempo.

Muita gente afirma, paradoxalmente, ser capaz de coordenar diversas atividades simultaneamente. Um exemplo é Yolande Pineda, diretora de comunicação da Nokia para a América Latina. Aos 37 anos, sua rotina é cheia de imprevistos e interrupções. Responsável pelo planejamento de todos os eventos e coletivas de imprensa da empresa no continente, Yolande diz jamais recusar um chamado ou pedido de entrevista. 'Estar viajando ou em reunião não é desculpa para nada. A expectativa é que atendamos às urgências', afirma. Para atender a tantas demandas, ela diz responder ao correio eletrônico pelo celular enquanto balança a cabeça numa reunião. E afirma ser capaz de manter os olhos no computador enquanto fala ao telefone - sem perder uma palavra da conversa. Essa habilidade de coordenar várias tarefas graças à tecnologia pode custar caro. São tantos os casos de pessoas que dizem não trabalhar bem sem estar plugadas na internet que os psicólogos americanos acreditam estar diante de um novo tipo de distúrbio, a desordem compulsiva on-line. Um estudo em 17 países divulgado pela empresa Symantec afirma que 21% das pessoas entram em pânico quando não têm acesso ao e-mail. No último ano, diz o estudo, o volume médio de e-mails nas empresas aumentou 200%. Alguns funcionários chegam a enviar 350 e a receber 450 mensagens por dia. Metade dos entrevistados gasta duas horas por dia só no entra-e-sai da caixa de correio.

Quando alguém manda uma mensagem urgente, ela precisa ser lida. Se o celular toca enquanto você está resolvendo uma tarefa, talvez seja para ajudá-lo. As interrupções não são uma praga da tecnologia - em geral, elas são o próprio trabalho. Será possível manter o foco com tanto estímulo? Dá para fazer a tecnologia trabalhar a favor - e não contra? Alguns especialistas acham que sim. O neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto de Neurociência de Natal, afirma que a capacidade de se concentrar em uma tarefa só ou de alternar-se entre várias sem perder o foco depende dos diferentes estímulos que uma pessoa recebe ao longo de sua formação e durante seu cotidiano. 'Converse com um jovem ligado em mídia digital e televisão e veja como ele muda de assunto o tempo todo', diz Sidarta. 'Já uma pessoa mais velha é capaz de perseverar horas no mesmo assunto. Eles foram treinados de maneiras diferentes. Daí reagirem em formas e ritmos distintos.' Sidarta criou uma imagem para explicar os mecanismos do cérebro em ambos os treinamentos: as portas da percepção. Ao se concentrar na formulação de um texto, por exemplo, um indivíduo abre apenas uma porta. Concentra toda a sua percepção naquele objeto. Quando atende o telefone enquanto responde a um e-mail, está se alternando entre diferentes portas. A idéia de Sidarta é que ambas as atividades exigem prática. Quem só exercitar uma terá dificuldade na outra. No dia-a-dia, porém, nem sempre é fácil arranjar um tempo para esse treinamento. 'Ao exigir que um funcionário tenha a atenção dispersa em 50 pontos diferentes, posso gerar alguém incapaz de se concentrar numa coisa só', diz Sidarta.
Para tentar decifrar as aflições dos profissionais multitarefeiros, uma equipe da Microsoft acompanhou o cotidiano de vendedores, técnicos de informática, professores e corretores de ações. Uma das autoras da pesquisa, Mary Czerwinski, havia antes ajudado a Nasa a elaborar mecanismos de comunicação que interrompessem da maneira menos traumática possível os astronautas no espaço. Na pesquisa para a Microsoft, Mary verificou que 13% dos dias de trabalho ficam comprometidos pela necessidade de alternar-se entre tarefas. A cada dez ações, sete costumam ser interrompidas. Os mais prejudicados são os projetos que exigem maior elaboração intelectual. O que mais chamou a atenção da equipe de Mary foi a quantidade de post-its com lembretes grudados nas telas. O motivo: mesmo com o computador, os recados no papel ajudam a recuperar o foco depois de uma interrupção. Pensando nisso, Mary está desenvolvendo um novo tipo de interface entre o ser humano e a máquina, com uma tela de 42 polegadas. Os resultados foram surpreendentes. O tempo de execução das mesmas tarefas diminuiu em até 44%. Os voluntários mostraram melhores resultados em exercícios de memória. Outra possibilidade em testes são os programas que usam inteligência artificial. Com o auxílio de uma webcam e um microfone, o computador poderia descobrir o melhor momento para interromper o usuário. Um programa de e-mail pode analisar o conteúdo das mensagens e criar uma lista de acordo com a urgência.



Esse tipo de resposta tecnológica pode até ser útil para a geração que está crescendo na frente da internet. 'Estamos na era da ansiedade', diz o médico psiquiatra Geraldo Possendoro, professor da Unifesp. 'O cérebro humano não está preparado para lidar com as situações que ele mesmo criou e, em termos de evolução, levaria milhares de anos para ele adquirir a capacidade de processar duas decisões em paralelo. Pode ser que as novas gerações desempenhem a multitarefa com maior eficiência.' Algumas das funções cerebrais estimuladas pela tecnologia, segundo ele, seriam a memória visual, a capacidade de categorizar - pela necessidade de usar pastas e arquivos - e a atenção seletiva - pela necessidade de localizar links em listas. Mas, por enquanto, só há uma certeza quanto aos limites do cérebro: fazer coisas demais pode levar ao colapso. A história do empresário gaúcho Ricardo Malcon é um exemplo. Responsável pela presidência de um grupo financeiro e imobiliário, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Líbano, vice-presidente de três associações empresariais e diretor de uma sociedade de pesquisa, ele chegava a passar 14 horas por dia no escritório. As jornadas exaustivas foram somadas ao trauma de um divórcio. Há três anos, Ricardo sofreu uma forte depressão e começou a apresentar problemas cardíacos. Ele diz que mudou sua rotina seguindo as orientações de um tratamento para estresse. Uma das lições que ele considera ter surtido mais efeito foi 'respeitar a fila'. 'Aprendi a priorizar. Resolvo logo o que é urgente sem deixar pendências além de 48 horas', diz Ricardo.

Na visão do psicólogo Esdrass Guerreiro Vasconcellos, professor da Universidade de São Paulo e especialista em estresse, o caso de Ricardo é clássico. Trata-se do tipo que atrai para si todas as responsabilidades. Os multitarefeiros, diz Esdrass, conhecem seu bom desempenho e tendem a forçar mais seus limites, por isso têm 38% a mais de chance de sofrer um infarto. Segundo um estudo inédito que ele realizou em parceria com pesquisadores do Instituto de Psicologia Ser, 83% dos executivos brasileiros administram múltiplas demandas. 'Um executivo consegue mudar de uma ação para a outra com grande capacidade adaptativa', afirma Esdrass. 'Eles apresentam um nível de inteligência maior, mas correm mais riscos.' Foi o excesso de tarefas que custou a saúde e o emprego de Alessandra Fernandes, de 31 anos. Alessandra conta que chegava cedo ao escritório da multinacional em que trabalhava e tarde em casa. Dizia não ter tempo para bater papo com os colegas e nunca deixar serviço por fazer. Estafada, diz ter passado uma noite inteira no escritório, para não prejudicar o serviço, no mesmo dia em que recebeu licença médica para descansar. Recebeu uma ordem para diminuir o ritmo. 'Me senti desmotivada', afirma. Depois de passar 12 anos em uma multinacional, foi demitida por trabalhar demais.
Raramente as pessoas reconhecem os primeiros sintomas de estresse como seqüelas das múltiplas tarefas. Distrações e dificuldades de concentração são incorporadas como se fizessem parte da personalidade ou como se fossem conseqüência da idade. Em pesquisa da Isma Brasil, uma associação internacional que estuda prevenção e tratamento de estresse, 78% dos entrevistados admitiram ter a concentração prejudicada, mas apenas 30% se reconhecem como profissionais multitarefeiros. Num ambiente de trabalho em que as ordens chegam por e-mail, como não se tornar um refém da máquina? De acordo com o pesquisador Ciro Marcondes Filho, da Universidade de São Paulo, o primeiro passo é parar de idealizá-la e de querer ser tão eficiente quanto ela. 'As pessoas estão rodeadas de aparelhos diversos e tentam acompanhar o ritmo deles. Mesmo sabendo que o computador trava e o celular fica fora de área, elas se apegam ao conceito da máquina infalível, que realiza dezenas de tarefas simultâneas com exatidão. E tentam aproximar-se desse ideal', afirma Ciro. Em termos físicos, o cérebro humano pode até parecer uma máquina. Para estudá-lo, os pesquisadores costumam compará-lo a um computador. Mas é bom não esquecer que a mente não é uma máquina. E, de vez em quando, é fundamental desligar o celular, a TV e esquecer o e-mail. Siga os ensinamentos dos filósofos: uma coisa de cada vez. E nessa ordem. Senão, é o caos.

Alguns dos sintomas da exaustão

O corpo libera hormônios ao receber uma tarefa e, depois, precisa de um tempo para reabsorvê-los. Ao receber múltiplas demandas, ele altera sua atividade orgânica e pode entrar em exaustão


Alguns dos sintomas da exaustão

Perda de concentração e 'brancos'
Acidentes fora do escritório, como bater o carro no caminho para casa
Doenças físicas como gastrite, diabetes e hipertensão
Doenças mentais como depressão, fobias e síndrome do pânico


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Entrevista com a pesquisadora Yuhong Jiang

'Fila de espera'

A pesquisadora Yuhong Jiang estudou cérebros em multitarefa

ÉPOCA - O cérebro tem um 'multiprocessador'?
Yuhong Jiang - Não. Se fôssemos capazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo, seria possível ver um aumento na atividade do córtex pré-frontal nas imagens de ressonância magnética. O cérebro processa uma tarefa de cada vez e segura as demais na memória.

ÉPOCA - Essa memória tem um limite?
Yuhong - Sim, nossa memória de trabalho é muito limitada. Podemos guardar até quatro objetos visuais e sete unidades verbais. Além disso, nosso 'executivo central', que é responsável pela distribuição dos recursos de acordo com as tarefas, também é limitado.

ÉPOCA - Quanto tempo se leva para recuperar a concentração na ação anterior depois de uma interrupção?
Yuhong - Na pesquisa, os participantes chegaram a levar 37% do tempo total da tarefa só para recuperar a concentração.

Mapa cerebral

Ressonância comprova que nós não somos multitarefeiros

Em estudo no Massachusetts Institute of Technology, a psicóloga Yuhong Jiang comparou imagens de ressonância magnética de cérebros em multitarefa com cérebros que processavam uma ação de cada vez. Além de confirmar que nós não temos um 'multiprocessador', ela identificou uma quantidade maior de erros e atrasos quando o cérebro recebia tarefas simultâneas. Em um dos casos, a resposta às demandas feitas ao mesmo tempo foi 53% mais lenta do que a resposta às demandas feitas separadamente

1 - O córtex pré-frontal é a região responsável pela capacidade de concentração, de percepção e de alternar o foco entre diferentes tarefas
2 - O hipocampo é a porta de entrada para as informações que devem ser retidas por algum tempo na memória, como a localização espacial de onde estamos e a tarefa que estamos executando

Como se organizar


O método GTD (Getting Things Done/Faça as coisas acontecer), de David Allen, ajuda a sobreviver ao excesso de demandas

• Identifique o que pode ser passado para outra pessoa e delegue

• Faça logo o que exigir menos de dois minutos

• Coloque tudo em pastas. Não deixe pendências espalhadas em mesas ou gavetas

• Organize suas tarefas nessas pastas. Divida entre ações imediatas, tarefas para breve, informações para o futuro e missões com data certa

• Revise suas listas de ações uma vez por semana. Elimine o que foi feito e reordene o que não foi finalizado

• Reúna todos os seus números - conta de banco, senhas - em um único arquivo, ao qual só você tenha acesso

• Faça listas de possíveis presentes para as pessoas próximas. Quando o aniversário chegar, fica mais fácil ir às compras

• Mantenha uma lista de desejos para você: CDs, livros, aparelhos eletrônicos. Guarde também informações sobre aquele restaurante ou cidade que gostaria de conhecer

• Guarde telefones, endereços e datas de aniversário das pessoas que você conhece em um único lugar de fácil acesso

• Vai viajar em uma semana? Faça ao longo dos dias uma lista de tudo o que precisa levar

As principais causas das interrupções

O QUE CAUSA AS INTERRUPÇÕES
As pessoas passam 13% do dia alternando-se entre tarefas.
Por que elas param?

iniciativa própria 40%
partiram para outra tarefa 19%
o telefone tocou 14%
saíram para um compromisso marcado 9%
voltaram para a tarefa inacabada 7%
precisaram verificar uma informação 3%
receberam aviso de chegada de e-mail 3%
tinham de entregar um material 2%
recebeu aviso de um compromisso marcado 1%
foi resolver uma emergência 1%
outra pessoa chamou 1%
Fontes: A Diary Study of Task Switching and Interruptions/Microsoft

24 horas
O que faz quem sempre tem acesso aos e-mails através de laptop ou celular
34% checam logo que acordam
30% checam pouco antes de dormir
38% checam até quando afastados por doença
40% checam em feriados
43% acham que ficam mais eficientes ao poder verificar o e-mail em qualquer lugar
27% consideram que a prática tem um efeito negativo para o trabalho e para a vida
Fonte: Dynamic Markets/1.700 funcionários ouvidos na Europa, África e Oriente Médio/divulgação Symantec

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Dicas de como manter o foco da atenção
Como manter o foco

Priorize sem piedade - sobretudo na vida profissional

Dedique 30 minutos de seu dia para meditar ou relaxar

Faça pequenos intervalos durante o dia - para ir ao banheiro, tomar água ou café. Aproveite esses instantes para se concentrar no que é preciso ser resolvido quando voltar para a sua mesa. Deixe o resto para depois

Não faça tudo por meios eletrônicos. Resolva algumas coisas em contatos pessoais

Mantenha sua criatividade. Não aja como um computador tomando sempre os caminhos previstos

Quando estiver chegando em casa - no trânsito, na garagem ou no elevador -, desligue o celular. Pense nas pessoas que vai encontrar, no programa que quer ver na TV ou no cardápio do jantar

À noite, leia algo sem relação com o trabalho ou a vida pessoal. Assim, vai dormir sem ficar pensando nos problemas - e acordará com a mente descansada


Fontes: CraztBusy: Overstretched, overbooked and about do snap,
de Edward Hallowell

Preguiça agitada
O que os filósofos recomendam a quem faz muita coisa

'Ocupe-se de pouco para ser feliz.' Foi essa a primeira frase de um livro de Demócrito, filósofo grego do século V a.C. O livro se chama Sobre o Prazer, e não chegou à posteridade senão por citações de outros pensadores. A palavra grega para tranqüilidade da alma é euthymia, e sobre ela se debruçaram intensamente os sábios. A recomendação básica de Demócrito, sob diferentes enunciados, é encontrada sempre. Sobrecarregar a agenda equivale a sobrecarregar o espírito, e traz inevitavelmente angústia. Ninguém que tenha muitas tarefas, ou que se atribua muitas, pode ser feliz.

Um homem sábio da Antiguidade não abria nenhuma correspondência depois das 4 horas da tarde. Era uma forma de não encontrar mais nenhum motivo de inquietação no resto do dia, que ele dedicava a recuperar a calma que perdera ao entregar-se ao seu trabalho. Se olharmos para nós, nos veremos com freqüência abrindo mensagens no computador alta noite, e não raro nos perturbando por seu conteúdo. O único resultado disso é uma noite maldormida.

O fato é que fazemos muitas coisas desnecessárias. Coloque num papel as atividades de um dia. Depois veja o que realmente era preciso fazer e o que não era. Já fiz isso. A lista das inutilidades suplantou sempre a das ações imperiosas. O imperador filósofo Marco Aurélio, do começo da Era Cristã, louvou a frase de Demócrito em suas clássicas Meditações. Acrescentou, com sagacidade, que devemos evitar não apenas os gestos inúteis, mas também os pensamentos desnecessários. Marco Aurélio recomendava o formidável exercício de conduzir a mente, quando desviada, para pensamentos relevantes. Isso conseguido, à base de perseverança, controlamos a mente, esse cavalo selvagem, em vez de sermos controlados por ela.

Ninguém escreveu com tanta graça sobre o tema como Sêneca, pensador romano também dos primórdios da Era Cristã. Sêneca usou as expressões 'agitação estéril' e 'preguiça agitada' ao tratar dos atos que nos trazem apenas desassossego. 'É preciso livrar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos homens', escreveu Sêneca. 'Eles vagam ao acaso, mendigando ocupações. Suas saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo, para nada. Quantas pessoas levam uma existência semelhante, que se chamaria com justiça de preguiça agitada?'

Agimos como formigas quase sempre, subindo e descendo sem razão o tronco das árvores, e pagamos um preço alto por isso: ansiedade, aflição, fadiga física e mental. Nossa agenda costuma estar repleta. É uma forma de fugir de nós mesmos, como escreveu sublimemente um poeta romano. O resultado é inquietação. Eliminar ao menos algumas das tantas tarefas inúteis que nos impomos a cada dia é vital para a euthymia da qual falavam os sábios gregos. Quem busca a paz fará bem em refletir na frase com a qual Demócrito iniciou um livro que, tamanha era sua força, sobreviveu aos séculos, ainda que com base apenas em citações.

Matéria completa com fotos e imagens: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI53246-15228-1,00-...
Ney,

Talvez esteja me adiantando nas intenções que existem por trás deste tipo de questionamento. É que a internet está desbancando muitos tipos de conhecimentos estáticos que apenas alguns especialistas guardavam e recebia por isto.

A internet está nos dando a opção de verificar em várias fontes se aquela informação é verídica ou se é apenas uma falsa ideia para propósitos dirigidos. Tal como aquecimento global por culpa da ação do homem.

Nada como deixar os indivíduos livres para que haja uma evolução e melhoras para todos. Sem contar que desmonta conluios que de outra forma fica muito difícil de conhecimento. Os mensalões no Brasil.

Com a Internet, não existe mais verdades de culto que não se auto-destrua, ou pelo menos seja demolida em menor tempo. Veja a antiga cortina de ferro.

Mas precisamos ter cuidados, porque existirá muitos ninhos de poder e previlégios feridos que vão se reunir para cercear a liberdade que com certeza os destronará.

Falou....
Como está, sr. Cristovam? Saudações.
O sr. está certo em suas indicações e colocações. O que está colocado é que, talvez até por esta "necessidade" de que muitos mais opinem, aumenta-se a carga de dados e informações na rede e será que não seria também este um dos senões que nos provocam confusões: a enormidade de opiniões e versões sobre o mesmo tema?
Ney,

Me desculpe, o atraso, mas é que tive alguns percalços de ordem particular e não tenho visto minhas inserções.

Mas Ney, claro que as informação neste volume vertiginoso, produz uma espécie de zig-zag no cérebro em princípio, mas quando passamos a perceber os vínculos e suas interseções, entendemos quão poucas são as reais informação.

Conheço algumas pessoas que parecem adivinharem o futuro, mas são apenas lógicos e claro, tem muito conhecimento sobre a natureza humana e suas necessidades. Assim, prevêem com um grau de acerto muito alto, fatos que possivelmente acontecerão. Claro que não são os economistas no geral. Alguns poucos também fazem isto.

Essa capacidade dos indivíduos em filtrar o que interessa, é percebida entre duas ou mais pessoas que convive quando postos frente a outros desconhecidos. Se alguma coisa lhes soa diferente, automaticamente nota-se que eles se olham como que para se firmarem.

Falou Ney, abraço
Que tudo lhe esteja ok, sr. Cristovam. Saudações.
Também creio ser por aí o melhor caminho. Que filtremos a esta enormidade de conteúdos, opiniões e versões que nos impõem os diversos meios. Conhecimento não é determinado pelo simples fato de haver dados em demasia. É usarmos a eles para uma finalidade benéfica e para tanto, não precisamos de saber a todos eles. Apenas o suficiente e necessário. Que sejamos sensatos para escolher ao que importa.
Sucesso.

Esta questão do excesso de dados "soltos" hoje em dia, aliado à complexidade desta modernidade, que se tornou confusa, também através de reduzir a vida e o ser humano em partes, desconsiderando ao todo, recebe uma luz através de um psiquitra brasileiro de renome internacional, que depois de seis anos na OMS, em entrevista, condena laboratórios por excesso de ganância e governos por falta de ação, além da criação de novas formas de análise clínicas.

"Se o indivíduo não se cuidar, ao passar pela porta de um psiquiatra sai de lá com um tratamento"

O psiquiatra carioca Jorge Alberto da Costa e Silva tem, como poucos de seus pares, uma visão global de seu ofício. Durante os últimos 22 anos, ocupou os cargos mais altos de sua especialidade. Foi presidente da Associação Mundial de Psiquiatria e, por seis anos, dirigiu a divisão de saúde mental, comportamento e toxicomanias da Organização Mundial de Saúde (OMS). Nesse período, visitou 142 países, nos quais tinha de, entre outras incumbências, ouvir os relatos sobre o funcionamento dos sistemas de saúde locais. Desde que deixou a OMS, há aproximadamente um ano, tem preferido falar. Nesta semana, estará em Paris, num congresso da Unesco, dissertando sobre os avanços no estudo do cérebro no século XXI. Será o único brasileiro ouvido por uma platéia que terá, entre outras autoridades, o presidente francês Jacques Chirac e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Antes, porém, Costa e Silva resolveu abandonar o tom diplomático das últimas décadas. Recebeu VEJA em seu consultório no Rio de Janeiro e, sem alterar a voz serena, disparou críticas à organização dos sistemas de saúde em todo o mundo.

Veja – Um número cada vez maior de pessoas está se tratando de males como depressão, pânico, fobias. A que se deve essa onda?
Costa e Silva – Há uma psiquiatrização ocorrendo na sociedade. Já existem quase 500 tipos descritos de transtorno mental e do comportamento. Com tantas descrições, quase ninguém escaparia de um diagnóstico de problemas mentais. Se o sujeito é tímido e você forçar um pouquinho, ele pode ser enquadrado na categoria de fobia social. Se ele tem uma mania, leva um diagnóstico de transtorno obsessivo-compulsivo. Se a criança está agitada na escola, podem achar que está tendo um transtorno de atenção e hiperatividade. Coisas normais da vida estão sendo encaradas como patologias. Hoje em dia, se o indivíduo não tomar cuidado e passar desavisado pela porta de um psiquiatra, pode entrar numa categoria dessas e sair de lá com um diagnóstico e um tratamento na mão. Até eu, se não me cuidar, acabo me enquadrando em quatro ou cinco casos. Às vezes atendo clientes que saem muito chateados porque eu digo que eles não têm nada.

Veja – Como se deu essa explosão de novos diagnósticos?
Costa e Silva – Aconteceu com o desenvolvimento das neurociências, a partir das décadas de 70 e 80. A Associação Psiquiátrica Americana lançou o DSM-3, manual estatístico dos distúrbios mentais. Essa publicação serviu de modelo para o capítulo sobre doenças mentais na Classificação Internacional de Doenças, feita pela Organização Mundial de Saúde. Esses trabalhos foram importantíssimos. Foi um grande progresso unificar a linguagem diagnóstica. Isso facilitou o lançamento de novos medicamentos no mercado de psicotrópicos, possibilitou a organização da assistência psiquiátrica e os estudos epidemiológicos das doenças mentais.

Veja – Então qual foi o problema?
Costa e Silva – Houve excesso de diagnósticos psiquiátricos. Essa variedade atende mais aos interesses e à saúde financeira da indústria que à saúde dos pacientes. À medida que as patentes dos medicamentos foram vencendo, seus detentores originais tiveram de indicá-los para outros transtornos. Senão perderiam mercado para os demais laboratórios, que passaram a ter o direito de também fabricar o remédio. Assim, o laboratório continua a fazer o mesmo produto, só que com dosagem diferente e, às vezes, com outro nome. O caso do Prozac é clássico. Para depressão, o paciente devia tomar 20 miligramas ao dia. Indicado para bulimia, a dosagem passou a ser de 80 miligramas.

Veja – Num mundo de tanta escassez de medicamentos existe excesso de remédios para o tratamento de doenças mentais?
Costa e Silva – O curioso é que não. O que há é uma fartura de categorias para enquadrar os transtornos. Muitas vezes os remédios são os mesmos para tratar quatro ou cinco diagnósticos, o que é mais uma evidência do excesso. Isso ocorre também por uma estratégia da indústria. Para remunerar o investimento, o mesmo medicamento fica sendo indicado para diferentes situações. Enquanto ele não se pagar e der lucro, não se lança uma nova droga, mais específica para este ou aquele mal. Você começa a tratar bulimia, que é um transtorno alimentar, com antidepressivo. Da mesma maneira, trata-se o pânico com antidepressivo. Algo está errado. Eu, por exemplo, não gostaria de ser tratado de uma febre com antiespasmódicos, que são medicamentos para dor de barriga.

Veja – No cenário que o senhor descreve, a indústria farmacêutica parece reinar absoluta no país, administrando seus interesses sem nenhuma interferência do governo. Não há algo errado aí?
Costa e Silva – Em primeiro lugar, é preciso lembrar que, quando falo da indústria e do mercado, não estou me referindo apenas ao Brasil. Estou falando de coisas que vivenciei nos 22 anos em que estive à frente de organizações internacionais. Mas é certo que os governos em todo o mundo, e nesse caso também falo do Brasil, deixaram a indústria mandar sozinha. A minha crítica é ao fato de os governos e as organizações intergovernamentais terem permitido que um progresso tão importante ficasse apenas nas mãos do setor privado. É ela quem decide que linha de pesquisa vai adotar, que moléculas vai pesquisar e de que forma colocará no mercado. No final, só apresenta uma planilha relatando suas intenções. E os governos, depois, ficam brigando para baixar o preço lá na farmácia, que é a ponta final. Ora, querer que a indústria não tenha lucros é uma insanidade. Os laboratórios têm naturalmente um olho no doente e outro em Wall Street, na bolsa de valores.

Veja – Qual deveria ser a ação governamental?
Costa e Silva – Os governos deveriam ser parceiros na elaboração dos projetos e na definição das linhas de pesquisa. Até para determinar prioridades. Se o governo atua no início do processo, habilita-se a discutir o preço no final. Pode influir no peso das patentes sobre o custo. Além disso, garante que a pesquisa contemple as reais necessidades de saúde da população. Como isso não acontece, não se tem hoje medicamentos eficazes contra a malária e muitas verminoses, que são doenças do Terceiro Mundo, onde o mercado é pobre e não oferece compensações financeiras ao investimento dos laboratórios. É uma lógica simples. Se os governos não cuidarem do que está sendo lançado, são as indústrias que vão decidir.

Veja – Como lida com essa questão o FDA (Food and Drug Administration), o departamento que cuida de alimentos e medicamentos nos Estados Unidos?
Costa e Silva – O FDA é um organismo do governo americano e, portanto, tem de defender os interesses do governo dos EUA. Já vi muitos casos em que a própria comunidade científica daquele país questionou atitudes do FDA. Eu não caio nessa de que é um órgão interessado em defender a saúde no mundo. É um absurdo que países como a Rússia baseiem sua política de medicamentos nas decisões do FDA. Até porque seus métodos têm sido muito questionados nos Estados Unidos.

Veja – O senhor está dizendo que o Brasil não deve orientar-se pelos critérios da principal entidade de avaliação e liberação de medicamentos do mundo?
Costa e Silva – Estou querendo dizer que o FDA não é um sistema infalível. Ele serve aos interesses do governo e do povo americano. É muito bem equipado e com grandes cientistas, mas não pode ser um parâmetro internacional, porque o mundo não é os Estados Unidos.

Veja – Essa situação que o senhor descreve significa o risco de estarmos consumindo medicamentos ineficazes?
Costa e Silva – Não é bem assim. A psiquiatria teve avanços importantíssimos para a qualidade de vida dos doentes nos últimos cinqüenta anos, mas todos os medicamentos se concentraram no controle dos sintomas. O sujeito estava lá, ouvindo vozes, achando que era Napoleão, dava-se o remédio e ele parava com aquilo. Isso não é ruim. As pessoas estruturam sua vida em torno dos sintomas das doenças. É evidente que, cessados esses sintomas, a personalidade pode estruturar-se melhor. O sujeito deixa de achar que o estão perseguindo e começa a ter uma vida praticamente normal, volta a sair às ruas. Nesse ponto, foram passos fundamentais. Mas isso não basta. O que queremos é a cura.

Veja – Qual é o próximo passo?
Costa e Silva – É preciso chegar à causa da doença para tratá-la. Ninguém quer simplesmente conviver de forma confortável com a esquizofrenia. As pessoas querem curá-la, mas até agora só se conseguiu diminuir os efeitos colaterais e dar mais conforto e qualidade de vida aos doentes. O que não é pouco, aliás. Nesse aspecto, houve uma revolução. Graças ao uso dos medicamentos que temos, hoje conseguimos reduzir drasticamente os casos em que a internação dos doentes mentais em manicômios é inevitável. Hospital psiquiátrico asilar não cura, faz doentes. Mas uma nova luta se inicia. A sociedade continua estigmatizando e não aceitando o doente mental. O trabalho daqui para frente é investir o dinheiro que era colocado nos hospitais em projetos educacionais para eles. A sociedade civil tem de se organizar com a ajuda do governo. Muita gente saiu comemorando como se tivéssemos ganho o jogo. Esse foi apenas o primeiro tempo.

Veja – O senhor fala em caminhos para a cura. Existe essa possibilidade no que se refere a distúrbios mentais? Em que se avançou efetivamente nessa direção?
Costa e Silva – Sigmund Freud abriu uma porta para o universo, com suas teorias da psicanálise, mas os que vieram depois dele só conseguiram chegar à Lua. Ficou todo mundo relendo Freud, e ninguém trouxe uma contribuição revolucionária. A psicanálise não possui ainda um material científico que possibilite avançar. Esse trabalho vai ficar a cargo, agora, das neurociências. São elas que nos vão trazer mais conhecimentos sobre o consciente e o inconsciente, graças a uma coisa chamada patologia molecular. Os neurocientistas estão descobrindo a importância da célula na formação do psiquismo. Eles já constataram que a interação do neurônio com o ambiente é real. Vai vir daí a grande revolução.

Veja – E como é que o senhor avalia o atual estágio de desenvolvimento da psicoterapia?
Costa e Silva – As psicoterapias têm de evoluir muito. Elas são ainda limitadas. Ficam apenas ao nível da linguagem verbal. Pouco se explorou de outras linguagens, como a corporal, a intuitiva e a empática. Já se sabe que essas são formas de comunicação tão poderosas quanto a linguagem verbal. E elas podem, muitas vezes, dizer mais sobre o paciente do que ele próprio consegue relatar. Existem estudos bastante interessantes nessa área sendo feitos nos Estados Unidos.

Veja – O que falta para que a psicoterapia seja vista como um tratamento eficaz pelo sistema de saúde?
Costa e Silva – As companhias de saúde precisam deixar. Hoje o sistema de saúde no mundo inteiro obriga o médico a fazer a psiquiatria do sintoma, em consultas só de cinco a quinze minutos. Não se dá atenção ao paciente propriamente dito ou à doença. Só aos sintomas. Elas não remuneram as consultas adequadamente, não pagam ao médico para escutar o doente. Não se pode fazer psiquiatria sem ouvidos. Para piorar, agora querem limitar os tratamentos a doze ou quinze consultas por ano. É o mesmo que dizer que uma cirurgia cardíaca tem de durar apenas 35 minutos, senão elas não pagam. Não se pode precisar quanto tempo vai durar um ato terapêutico.

Veja – E em relação ao funcionamento do cérebro humano? Quais são os principais avanços?
Costa e Silva – O cérebro funciona organizando circuitos neuronais. Quando nasce, o ser humano tem 200 bilhões de neurônios. O fantástico não são eles, mas a capacidade que têm de se ligar uns aos outros. Chama-se a isso de plasticidade cerebral. É graças a esse mecanismo que nós aprendemos a falar, a fazer tudo na vida. Os neurônios vão fazendo ligações entre si, chamadas de sinapses. Na adolescência, o organismo promove uma limpeza nelas. Elimina as anteriores e forma novas. Esse fenômeno, descoberto há apenas seis anos, é chamado de poda. As sinapses começam a ser literalmente podadas para que surjam novas ligações. Tudo que surge no cérebro nesse momento a pessoa leva para o resto da vida. Na Universidade de Nova York, onde dirijo um centro de pesquisa, gosto especialmente da busca de um tratamento para a esquizofrenia, que estamos empreendendo com resultados fascinantes até agora. Estamos provando que, se a doença for tratada na fase da adolescência, quando ocorre uma remodelação das ligações neurais do indivíduo, as chances de cura são enormes. O mesmo acontece com a dependência de drogas ou o alcoolismo.

Veja – O Brasil tem chance de participar dessa revolução científica na área do conhecimento do cérebro humano?
Costa e Silva – É difícil, mas não por falta de competência dos profissionais. São necessários investimentos muito altos. Basta ver a verba operacional do Instituto de Saúde Mental dos Estados Unidos. É de 1,8 bilhão de dólares. E veja bem: isso é o investimento de um órgão de governo. Se somar as universidades e os centros de pesquisa, é de muitas vezes mais. Para se ter uma idéia do que isso representa, o orçamento anual da OMS é de 1 bilhão de dólares para o mundo todo, e para lidar com todas as doenças. No Brasil, o setor do Ministério da Saúde dedicado à saúde mental tem apenas dois funcionários. Essa é a medida da importância que nós temos dado ao assunto.


Entrevista concedidada ao repórter Ronaldo França - Revista Veja - Edição 1 706 - páginas amarelas - 27 de junho de 2001
Ney, muda esse título, que essa história de que só usamos 10% dos nossos cérebros é balela.
Como vai cara AnaLú? Saudações.
Também considero balela, mas é mito persistente. Assim como a de que o cérebro é usado os lados, separadamente. Hoje, através de Pet Scanners com tomografias em tempo real, se observa que a rede neural trabalha como um todo. Mas a questão não é esta, minha cara colega. É só a chamada. O fato é que o instrumento está sendo forçado, sem trazer grandes benefícios (pelo contrário, ao observar as doenças e desajustes). Mudando de assunto, como você é estudiosa e retransmissora dos assuntos do ensino, acabei de ver algo e ia colocar em sua página. No mesmo momento (crês em telepatia?) recebi e-mail de seu comentário e vou aproveitar. Estava vendo no site da revista Mente & Cérebro:

Histórias “reais” podem prejudicar aprendizado de matemática

Pesquisadora afirma que exemplos verdadeiros distraem estudantes

Jane tem R$ 3,05 em moedas de R$ 0,25. Se ela tem 13 moedas de R$ 0,05 a mais do que de R$ 0,25 quantas moedas ela tem no total? Segundo o senso comum, exemplos do mundo real como esse são a melhor maneira de ensinar matemática. No entanto, quando pesquisadores da Universidade de Ohio testaram essa hipótese, descobriram que o oposto era verdade. Eles mostraram a um grupo de universitários um padrão matemático que seguia um exemplo concreto (nesse caso, medir copos cheios de água) e, a outro grupo, deram um exemplo abstrato que envolvia símbolos. Propuseram, então, que todos os voluntários participassem de um jogo no qual deveriam utilizar o que haviam aprendido pouco antes. Os participantes que tinham recebido o exemplo abstrato tiveram um desempenho significativamente melhor no jogo em comparação com aqueles que aprenderam o padrão com a medição de copos. A coordenadora do estudo, Jennifer Kaminski, formula a hipótese de que exemplos do mundo real podem distrair estudantes da matemática. E, a propósito, Jane tem 29 moedas.

http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/historias_-reais-_podem_...

Sucesso e contentamento
Ney, em primeiro lugar é impossível ter R$3,05 em moedas de 0,25... 12 moedas seriam 3,00, 13 seriam 3,25...

Quanto ao estudo, eu teria que lê-lo inteiro (as fontes, nao só o resumo da revista), mas penso que nem A nem nao-A: os exemplos concretos e reais ajudam o entendimento, mas deve-se chegar à formulação abstrata e simbólica (se nao necessariamente com o uso de símbolos matemáticos, pelo menos à expressao dos princípios envolvidos em linguagem corrente), para que o conhecimento seja mais facilmente transferível para outros casos. Mas isso é uma opiniao a priori, eu teria que ler o estudo para avaliar melhor.
Cara AnaLú, você está certa e melhor atenta que eu. Nem me ocupei com a conta, pois o que me chamou atenção foi o título.

Encontrei mais sobre o assunto em:
http://www.profcardy.com/artigos/noticias.php?rg=50

http://www.mundovestibular.com.br/articles/3368/1/Professores-devem...

http://www.portaldascuriosidades.com/forum/index.php?topic=58590.0

Provável que o estudo original, se lhe interessar, só em inglês.

Mas uma nota para ti. Estes dias andando na cidade (São Carlos/SP) vi numa fachada de prédio comercial escrito (eschola.com). Agora vejo propaganda em site da cidade. Se prepare que a concorrência vai ser dura e com gente interessada em que o povo seja bem ensinado. Dizia: chega na cidade a escola do Luciano Huck. Tá duvidando?

http://www.eschola.com/saocarlos/default.asp

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