Pôxa, bem que eu queria que nos meus tempos de estudante houvesse kit anti-homofobia.

Por que os maiores interessados, os adolescentes, não são consultados? Tanto os gays e lésbicas como seus colegas? Por que a discussão passa pelo fundamentalismo religioso se quem tem mais chance de entender sobre assédio e preconceitos em escolas são pedagogos ou psicólogos?

Antes desse auê todo eu já tinha visto um filme lindo, de uns 15 minutos, que não faz parte de kit nenhum, com patrocínio do Min. da Cultura:

http://www.advivo.com.br/blog/gunter-zibell-sp/curta-metragem-anti-...

Voltando ao kit. Recentemente, segundo matéria do iG

http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/veja+videos+do+kit+antihomo...

haveria vídeos que, pela produtora ECOS, fariam parte do kit:

Medo de quê / Encontrando Bianca /Boneca na mochila

Segundo a Secad, os vídeos para análise do MEC seriam

Encontrando Bianca / Probabilidade / Torpedo

“Medo de quê” deve ter ser citado por engano como componente do kit. É longo, a meu ver um pouco sem graça, em desenho, aborda diversas sexualidades, patrocinado pelo Min. da Saúde e tem a ver com prevenção à AIDS e divulgação do uso de preservativo. De anti-homofobia mostra uma cena que é corriqueira no mundo real : gays serem expulsos de um ambiente, contrariamente à lei  10948/01 (de SP.)

https://www.youtube.com/watch?v=8Xvagl7m4ws

https://www.youtube.com/watch?v=zwcfMR_pugQ

Para “Boneca na mochila” não há vídeo completo no Youtube, mas parece interessante:

http://www.ecos.org.br/videos/boneca.asp

“Encontrando Bianca” é muito bacana e sensível, vale a pena ver. O que pode haver de errado nas pessoas saberem que transgêneros existem, têm problemas e merecem respeito e possibilidades?

https://www.youtube.com/watch?v=fVGSrP-W3OM&list=PLAAE3D3CE4E15...

“Torpedo” é muito legal também, a luta das duas moças pelo final feliz deve acontecer com frequência na realidade.

https://www.youtube.com/watch?v=TP_OjE_Fi2o&feature=related

 

“Probabilidade”, por ser também desenho, pareceu-me com menor “probabilidade” de ficar na memória. A tendência dos críticos ao projeto é apresentarem apenas este último. Leonardo poder se enxergar/perceber bissexual agora é apologia? É só um fato da vida. https://www.youtube.com/watch?v=TEcra9BBOdg&feature=related

 

Toda estória que parece mal-contada, revela-se, ao final, realmente mal-contada. É necessário aguardar o posicionamento oficial do MEC. O programa anti-homofobia prosseguirá? O material será reelaborado? Se não for agora, será em algum momento. Os problemas reais da sociedade continuam e as demandas para se trabalhar com isso igualmente continuarão. A história e a antropologia mostram que retrocessos são exceções em algumas questões.

Usar mentiras, como atribuir os vídeos ao ensino primário, não prospera. O que parece uma vitória de segmentos fundamentalistas nem chega a ser um retrocesso é apenas um não-avanço. Um amparo que poderia acontecer aos jovens, mas que infelizmente não ocorrerá, não neste momento. Gays e lésbicas estão acostumados a isso e não vão perder a esperança na humanidade, só em alguns políticos.

Mesmo sem sabermos qual foi o vídeo que Dilma viu, difícil dizer que há algo “não adequado”, como disse Gilberto Carvalho. Só se for pela incompletude ou algo assim. Todos os filmes são apenas auxílio para que os adolescentes que se percebem fora da heteronormatividade possam se reconhecer e melhorar sua auto-estima. O projeto é de muitos meses, envolve vários ministérios e consta que foi apoiado pela Unesco. Pega mal tentar passar uma borracha como se nada tivesse acontecido.

Na minha opinião tais filmes poderiam – e deveriam – ser mostrados em sala de aula, em conjunto com longa-metragens, debates. Do mesmo modo que as escolas mostram filmes – ou recomendam livros - sobre problemas sociais, história, violência, ecologia, etc. Em 1978, aos 14 anos, li “A Rosa dos Ventos”, de Odette Mott. Por que eu lembraria de um livro paradidático após 33 anos? Porque pedagogia existe.

Se esses são os melhores curtas que poderiam ser feitos para o projeto não sei, consta que ainda se estava em análise quando vazaram, mas lembro de como “me ver” no cinema foi muito bom:

http://muitopelocontrario.wordpress.com/2010/05/17/o-cinema-e-a-aut...

No fim, sobrou a mesquinharia : os vídeos, material, etc seriam destinados às escolas públicas. Como a questão é tratada hoje nas escolas privadas? (Alguns desses filmes estão à venda por quê mesmo?) Os adolescentes em algumas escolas atentas aprendem/rão a viver em um mundo com diversidade, com o conhecimento de como lidar com isso, sem se tornarem homofóbicos. Aqueles jovens que eventualmente não são heteronormativos passarão um período escolar melhor. E isto está sendo negado a quem?

Nenhum adolescente homossexual deixará de sê-lo por não ver esses vídeos. Mas ficarão por mais anos convivendo com dúvidas em ambientes intolerantes. Mas talvez tenhamos subprodutos positivos desse episódio:

- Quase nenhum adulto, que não professor, iria ver os vídeos, agora muitos irão ver. Pais esclarecidos poderão inclusive ver com os filhos no Youtube. É mais ou menos o que aconteceu com “Je Vous Salue, Marie”, muita gente viu porque a igreja disse pra não ver...

- Este episódio todo e o do Código Florestal  foram ruins para a comunicação do governo. Ou se passa por reacionário ou por chantageado ou por sem apoio. A forma como o governo cede às bancadas será mais e mais questionada, assim como os motivos para isso. Daí poderemos ter que essa experiência não se repita tanto daqui para a frente, permitindo maior transparência no trato das questões.

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Respostas a este tópico

como disse meu amigo Da Lama, sangue bom prá combater sangue ruim...


O fascismo se globaliza. e se renova. Aux armes, citoyens. Caboclinhas neles.

Gunter,

Como o MEC não se posiciona claramente sobre a questão, fui nos sites dos realizadores dos vídeos para ver o que eles tem a dizer sobre o projeto Escola sem Homofobia. O que me parece claro é que a notícia dada ontem pelo Stanley Burburinho é correta. Neste parágrafo:

"Além disso, os vídeos publicados na Internet como parte do kit nunca haviam sido aprovados pelo grupo que estudava a produção do material. Os filmes em questão --produzidos pela ONG Pathfinder-- se tratavam de alguns dos exemplos sob análise."

Fui no site da ECOS, e eles explicam de maneira clara como funciona a Escola sem Homofobia. Nesta página encontram-se os vídeos do projeto, sem barriga:

http://www.ecos.org.br/projetos/esh/esh_kitaudiovisuais.asp

Boneca na Mochila, Medo de quê, Torpedo, Encontrando Bianca e Probabilidade, todos esses vídeos fazem parte do projeto. Segundo a ECOS: "Os materiais estão no Ministério da Educação, especificamente o Departamento de Direitos Humanos da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), aguardando o parecer final. Uma vez aprovados, o compromisso assumido pela SECAD é de imprimir/copiar e distribuir kits do material educativo para 6.000 escolas do ensino médio."

Ou seja, o material vazou para a internet antes de aprovado. Dá pra dizer que ele faz parte do "kit", embora não tenha sido aprovado.

O kit é composto de:
• Um caderno
• Uma série de seis boletins (Boleshs)
• Três audiovisuais e dois DVDs com seus respectivos guias
• Um cartaz
• Cartas de apresentação para a gestora ou o gestor e para educadoras e educadores.

O que a Dilma suspendeu? Não foi o kit inteiro, mas os videos promovidos pelas ONGs, passando por cima do SECAD. Não vejo razão nenhuma para suspender o projeto. No entanto, o que a Dilma fez é inédito: Mandou suspender um material educacional sem que o mesmo fosse sequer aprovado pelo governo, para apagar um incêndio.
Efeito Palocci, para ganhar o apoio da bancada evangélica, queimou o Kit!

O problemão é que o MEC estava tentando atender a constituição e o estatuto do adolescente. Há a necessidade de proteger as pessoas de discriminação, de bullying. Se não for esse o material, será colocado algo no lugar?

Gostaria de saber como as melhores escolas privadas lidam com a questão. Sei que há empresas que editam livros e videos para esses fins, mas não tenho mais informações.

Tirando toda a excrescência fundamentalista, nossa sociedade está mudando o perfil. Já conseguimos discutir o assunto sem que haja fogueiras e nem cadafalsos em praça pública.
Mas as negociações ainda continuam obscuras!
Hehe. Intendessi, né?

muita fumaça pra pouco fogo..

vamos aguardar mais  informações...

e sem fundamentalismo!!!!

é o minimo que se possa esperar de um ESTADO dito LAICO

Posted: 26 May 2011 12:20 PM PDT

Ana Cláudia Barros


Os vídeos que motivaram a suspensão do kit anti-homofobia do Ministério da Educação pelo Executivo não têm ligação com o projeto, afirma o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transexuais (ABGLT), Toni Reis.

Reis contou ao Terra Magazine que o material apresentado a presidente Dilma Rousseff era antigo, direcionado a adultos e confeccionado com o propósito de tratar de temas como prostituição e redução de danos para usuários de drogas.

Nesta quarta-feira (25), ao anunciar o cancelamento do projeto "Escola Sem Homofobia", o secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, declarou que Dilma havia considerado o material inadequado.

- Creio estar havendo um grande equívoco, uma vez que os materiais apresentados à Presidente pelos homofóbicos mal intencionados não eram do kit. Parece que estamos revivendo o segundo turno da campanha eleitoral presidencial de 2010 - afirmou, numa alusão às pressões dos religiosos aos então presidenciáveis para que se posicionassem contrários ao aborto.


ABGLT: Vídeo mostrado a Dilma não é do kit anti-homofobia

"Quero ressaltar enquanto integrante de uma das organizações idealizadoras do kit, que o mesmo não contém cenas de sexo explícito, nem sequer um beijo e não foi editado nenhum material do kit com a logomarca do governo federal", acrescenta.

Foi justamente este detalhe, a logomarca, que chamou a atenção de Reis. "Aí que pegamos o erro. Penetração anal, sexo oral, vaginal. Sem dúvida não é um material para distribuir em escolas. Sou professor, meu doutorado é em educação e homofobia. Eu vetaria se fosse presidente", argumenta, lembrando que o kit passou pelo crivo da Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (Unesco), Conselho Federal Psicologia, Procuradoria Geral da República, Ministério Público, entre outros.


-Não precisamos de um País onde haja guerra santa. Temos que ser éticos. Nunca vi um material ser tão discutido. Está parecendo uma quadrilha de aloprados homofóbicos que não têm o que fazer. Deveriam se preocupar com pobreza, por exemplo - critica.


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