Villa-Lobos, o Dia Nacional da Música Clássica e a ditadura Vargas


O apaixonado brasileiro é o nosso músico mais executado no exterior, incluindo-se os da MPB. Esta materia publicada no caderno de fim de semana pelo jornal Valor Economico discute um aspecto ainda pouco ventilado sobre a vida do grande maestro.

Valor Econômico | Sexta feira, 27 de fevereiro de 2009
Elizabeth Lorenzotti

Ao reger um coro
de 40 mil vozes
adolescentes no
estádio, ele “era a
fúria organizando-se
em ritmo”, escreveu
Drummond


A História escreve-se devagar. Em novembro, completam-se os 50
anos da morte de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), o compositor
contemporâneo brasileiro mais executado no exterior (incluindo os de música popular), criador da obra mais talentosa e provocadora do século XX. Na quinta-feira, data de nascimento do carioca de Laranjeiras, será comemorado, pela primeira vez, o Dia
Nacional da Música Clássica, instituído por decreto presidencial de janeiro. Apaixonado pelo Brasil, determinado a educar musicalmente seu povo, Villa-Lobos teve intensa participação pública à época do Estado Novo de Vargas (1937-1945): foi seu diretor
musical.
Teria se tornado um burocrata de gabinete, um colaborador da ditadura?

Villa-Lobos organizou concentrações orfeônicas,grandes concertos de música em campos de futebol. Em 1931, em São Paulo, pela primeira vez no país e na América Latina, realizou no campo da Associação Atlética São Bento o evento Exortação Cívica, sob o patrocínio do interventor paulista João Alberto. O projeto do maestro tinha o objetivo de aproximar da música pessoas de diferentes classes sociais.

Carlos Drummond de Andrade certa vez disse: “Quem o viu um dia comandando o coro de 40 mil vozes adolescentes, no estádio
do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão
mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber.”

A participação no governo ditatorial é um aspecto polêmico da vida do maestro e ainda pouco esclarecido. Vargas contou com a
colaboração de artistas e intelectuais e sua política cultural implementou-se basicamente a partir da atuação de Gustavo Capanema Filho, que, em 1934, assumiu o Ministério da Educação e Saúde Pública, órgão responsável pela condução dos assuntos culturais, com edifício-sede assinado por Lê Corbusier. Capanema foi assessorado, entre outros, por figuras do porte de Mário de Andrade, Candido Portinari, Lucio Costa e Drummond, seu chefe de gabinete.

Villa-Lobos foi o idealizador do ensino de canto orfeônico nas escolas. Na década de 30, já com uma carreira internacional de sucesso, visionariamente afirmava que, com a difusão do que então chamava de música de repetição, “se o brasileiro não estivesse preparado, poderia tornar-se refém da máquina da comunicação — esta seguramente mais preocupada com o sucesso de seus negócios do que com a possível qualidade artística ou importância cultural do objeto criado e comercializado”, como conta o maestro Julio Medaglia.

Inicialmente, ele elaborou uma metodologia de ensino musical para jovens que resultou na inclusão do Canto Orfeônico no currículo escolar e na criação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, em 1942, para formar professores especializados.
Villa-Lobos entendia que o uso da voz seria a forma mais prática de levar a informação musical ao jovem em todo o país. Assim, criou o “Guia Prático”, com 137 canções harmonizadas e instrumentadas, dois volumes de canto orfeônico e dois de solfejos.
É preciso entendê-lo, diz Medaglia. “Villa- Lobos tinha plena consciência do papel da música nas escolas. Ele percebeu a importância que Vargas dava à cultura para alcançar seus objetivos e o procurou várias vezes, com ajuda do grande educador Anísio Teixeira. Mas teve liberdade, trabalhou um projeto de tecnologia do ensino musical. Ele usou a força da ditadura para ensinar música em beneficio do povo brasileiro.”

As centenas de milhares de alunos da escola pública brasileira tiveram, entre 1932 e 1971, acesso às noções básicas da música, que dificilmente conheceriam sem essa iniciativa. Um deles foi o polêmico jornalista e hoje historiador da cultura urbana José Ramos Tinhorão, que estava no grande concerto do estádio do Vasco em 1942.
Na década de 70, articulista famoso do “Jornal do Brasil”, ele escreveu ‘Villa-Lobos, o maestro da ditadura’. “Eu me arrependi de ter escrito esse artigo. Claro que ele foi um funcionário da ditadura, era publicado pelo DIP [Departamento de Imprensa e Propaganda]. Mas cheguei à conclusão de que Villa- Lobos não colaborou com a ditadura, ele a usou”, revela Tinhorão.
O embaixador aposentado e pesquisador Vasco Mariz, autor da biografia mais conceituada do compositor, “Villa-Lobos, o Homem e a Obra”, publicada em vários países, conta que, há cerca de dez anos, fez parte de uma comissão da Academia Brasileira de Música “para preencher alguns vazios na vida dele, um dos quais a sua verdadeira participação na ditadura”. Relata o pesquisador: “Falamos com várias pessoas ligadas a ele e nenhum insinuou uma associação próxima a Vargas.” Mariz crê que o interesse foi recíproco e tanto Villa-Lobos usou a máquina de propaganda da ditadura Vargas para divulgar a música como o governo o incumbiu
de organizar as grandes manifestações corais no Rio e em São Paulo.”
O jornalista, crítico de música erudita e escritor Lauro Machado Coelho segue a mesma linha de raciocínio. Ele lembra o caso de Richard Strauss, na Alemanha nazista: “ Convidado para a direção da Reich Musik Kammer, aceitou e foi criticado e tachado de tudo. Mas é preciso entender sua situação: a nora de Strauss era judia, e, portanto, seu neto também. A intenção foi protegê-los. Antes da Segunda Guerra, ele perdeu o cargo porque seu libretista era judeu. Strauss acreditava que poderia
proteger os músicos alemães, criou o festival de Salzburgo, que existe até hoje, e a primeira legislação de direito autoral alemã.
Villa-Lobos não tinha esse problema; aceitou pela possibilidade que o cargo lhe ofereceu de divulgar a música.”
A disciplina de música, obrigatória nas escolas brasileiras, foi extinta em 1971, época da ditadura militar, pelo então ministro Jarbas Passarinho. Recentemente foi aprovado um projeto para a volta do ensino de música na escola. Villa-Lobos ficaria feliz. Entretanto, segundo Julio Medaglia, o problema é a questão do currículo. “O grande perigo é cair na mão de pedagogos burocratas horrorosos
que ficarão anos planejando, quando o que se precisa é de um currículo prático.”
Villa-Lobos certamente aprovaria. Aos que afirmam que sua produção musical no período não foi relevante, Medaglia responde que o melhor período do compositor foi entre a segunda e a terceira décadas do século XX. “No entreguerras, toda a música
erudita do mundo era neoclássica, fazia- se uma releitura dos clássicos para estabilizar a modernidade, estavam apavorados com tanto experimentalismo. A Europa levou um susto com as primeiras décadas do século, tantas as transformações.”

Entre 1930 e 1945, o compositor criou a série “Bachianas Brasileiras”, que está entre suas obras mais queridas e executadas, “uma simbiose entre a linguagem bachiana, o nosso folclore e a música de nossos chorões”, diz Medaglia.
Villa-Lobos deixou mais de 2mil títulos e a qualidade do legado suplanta qualquer dúvida sobre sua importância. As gerações da escola pública que tiveram acesso ao ensino musical atestam o acerto de sua paixão. Como na vida não é possível enxergar
apenas em preto-e-branco, pois há matizes de cinza, e como a história se escreve devagar, Machado Coelho lembra a resposta do líder do PC chinês no maoísmo, Chu En-Lai, ao ser questionado sobre a Revolução Francesa: “Ainda é muito recente.”

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Respostas a este tópico

Luzete, não sabe o bem que em fez reecontrar o Walter Franco. Já roubei pro Babel............rs
merciii
Muito boa essa afanação...
Beth, depois eu e o henrique vamos te cobrar os direitos de afanação, certo. mas acho que vai dar empate, pois esta aí eu me apropriei a partir de uma dica dada pelo zezinho, o da china. e ele nem sabe, nem vou dizer, pois não apareceu aqui prá dizer que gosta de villa-lobos.
ahahaha, será que na China conhecem o Villa? Mas calro, é o brasileiro mais executado no mundo...
elizabeth,
Lamento mas você roubou postagem com um erro meu! Pow, e ninguém me corrigiu. No vídeo a Bibi anuncia que vai cantar a "Floresta do Amazonas". Muito que bem. Eu postei escrevendo que ela canta a Melodia Sentimental. Errado. Só agora reparei. Ela canta a "Canção de Amor" movimento anterior a Melodia Sentimental. Vou tentar corrigir o título.
abraço,
Henrique Marques Porto
elizabeth e amigos,

Sempre achei que os solos mais conhecidos compostos por Villa-Lobos para soprano -as Bachianas Brasileiras n. 5 e a Floresta do Amazonas- são na verdade mais adequados para as nossas vozes populares. Em 1968 Elizeth Cardoso cantou as Bachianas no Teatro Municipal com a orquestra da casa regida por Henrique Morelembaum. Foi uma apresentação memorável. Infelizmente não foi documentada. Procuro há anos e jamais localizei uma única gravaçãozinha amadora sequer deste que para mim foi um evento histórico para a nossa música. Um caso de falta de cuidado que dou como perdido.
Apurando a pesquisa no YouTube descobri Bibi Ferreira cantando a "Melodia Sentimental" da Floresta do Amazonas regida pelo mesmo Henrique Morelembaum, desta vez a frente da Sinfônica do Rio de Janeiro no show "Bibi in Concert I". Bibi, que é grande cantora, confirma a minha tese. Essa canção fica mais bonita numa voz popular. Já existem postagens com essa música, mas não creio que seja demasiado acrescentar a versão em vídeo da Bibi Ferreira. E fico pensando como seria com a Elizeth, com a Elis, com a... Bom, confiram.
Abraços
Henrique Marques Porto

Bibi Ferreira - Canção de Amor de A Floresta do Amazonas

perdoado pelo erro.
e pode continuar errando, desde que traga coisas bonitas prá gente.
manda aí, outro erro!

ps. claro, brincadeira à parte. importante a gente sempre estar atrás da correção e da fonte daquilo que registramos aqui.
mas olha só, a pessoa rouba uma coisa e ainda por cima tava errada, pas possible....rs
já corrigi
Este pessoal fala, fala e nenhum brinde.

fica aqui um regallo. mas sei que o henrique teria gravação melhor.

mas aqui está o brinde 0800
luzete,
Claro que tenho! Aliás, você também porque está no YouTube, essa espécie de enciclopédia musical aberta e informal. David Russell é bom violonista mas a versão de Julian Bream é várias vezes superior. Tocar nossa música é especialmente difícil para músicos americanos e europeus. Eles costumam tropeçar sobretudo no fraseado e no rítmo. Embora, a meu juízo, sem a leveza dos nossos violonistas, Julian Bream constrói um fraseado correto e deixa o violão "cantar" explorando as pequenas pausas e acentuando os vibratos. Os Choros de Villa-Lobos são um passeio pelos subúrbios do Rio de Janeiro. São um painel da alma carioca, que tem no choro talvez a sua melhor expressão. Do violão seresteiro desses Choros n. 1 à explosão rítmica de "Rasga o Coração" nos Choros n. 10. Em Villa-Lobos tudo é no plural -Choros, Bachianas...Confira a versão de Julian Bream.
abraço
Henrique Marques Porto

Julian Bream - Choros n. 1

E aqui uma ótima versão de Turíbio Santos para a mesma peça. Frases e notas mais ligadas, violão cantando mais solto como se tocado embaixo de uma mangueira ou em mesa de botequim. Reparem na euforia do maestro Diogo Pacheco no fim da execução.
abraços
Henrique Marques Porto

Turíbio Santos - Choros n. 1

Lindo, não é?
e o Paulinho Nogueira? Vocês não o amam?
Aqui interpretando a Bachianas n.1

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