Data: 15/03/2011
Veículo: O ESTADO DE S. PAULO - SP

As universidades brasileiras continuam fora das primeiras 200 posições nos rankings mundiais. Há várias entidades internacionalmente respeitadas que fazem anualmente rigorosas avaliações comparativas do setor e, nelas, nem mesmo a Universidade de São Paulo (USP) - a maior e mais importante universidade brasileira - aparece em posição de destaque.

No ranking mais recente, elaborado pela organização inglesa Times Higher Education, a USP ocupa apenas a 232.ª posição. A pesquisa foi feita com mais de 13 mil professores de 131 países, que destacaram os pontos fortes de suas respectivas universidades. Em termos de desempenho escolar, de produtividade científica e de reputação acadêmica, a liderança ficou com a Universidade Harvard, que obteve a pontuação máxima em todos os itens da pesquisa, seguida pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e pela Universidade de Cambridge. Das 20 melhores universidades, 13 são americanas, 4 são britânicas, 2 são japonesas e 1 é canadense.

Das universidades da América Latina, a USP continua sendo a mais bem classificada. Contudo, no âmbito dos Brics - o bloco de economias emergentes, integrado pelo Brasil, Rússia, Índia e China - o Brasil é o único membro que não tem nenhuma universidade entre as cem melhores do ranking da Times Higher Education. Já a Rússia aparece em 33.º lugar, com a Universidade Lomonosov; a China, ocupa as 35.ª, 42.ª e 43.ª posições, com as Universidades de Tsinghua, Hong Kong e Pequim; e a Índia está em 91.º lugar, com o Instituto de Ciência.

O ensino superior no Brasil cresceu significativamente nas duas últimas décadas para acolher o crescente número de formandos do ensino médio. No entanto, a maioria tem bibliotecas desatualizadas e laboratórios defasados. O nível médio de preparo e informação do corpo discente também é baixo e a maioria das universidades adota critérios lenientes de avaliação. Elas permitem que alunos reprovados façam provas de reavaliação. E, se forem reprovados outra vez, ficam em "dependência" - com isso, não perdem o ano.

Além disso, os trabalhos de conclusão de curso de graduação - os TCCs, no jargão estudantil - estão se convertendo em compilações de artigos extraídos da internet. Como os professores não cobram nem rigor metodológico nem um mínimo de originalidade, os alunos não se sentem estimulados a fazer pesquisa. Nas cem melhores universidades mundiais, alunos reprovados num exame não têm direito a nova oportunidade - perdem o ano e, em alguns casos, não podem continuar na instituição.

Para os especialistas, se quiser classificar pelo menos uma instituição de ensino superior num ranking com as 200 melhores universidades mundiais, o Brasil terá de adotar uma estratégia com quatro objetivos. O primeiro é aumentar o intercâmbio de alunos e professores, para internacionalizar a universidade brasileira. O segundo é ampliar o número de trabalhos de docentes e cientistas brasileiros publicados nas mais prestigiosas revistas acadêmicas e científicas mundiais. O terceiro objetivo é dar plena autonomia às instituições, permitindo-lhes abrir novos cursos sem depender de autorização governamental e libertá-las da ditadura do chamado "currículo mínimo". O quarto objetivo é estimular a formação de universidades de elites, que formam os docentes para lecionar nas demais instituições e conduzir pesquisas de ponta.

Nos últimos anos, corporações e partidos políticos pressionaram as universidades a democratizar seus órgãos colegiados e o MEC chegou a patrocinar um projeto com esse propósito, entre 2003 e 2005. A questão, porém, não é política, mas pedagógica - e, quanto mais eficiente e produtiva for a universidade, melhor para a sociedade.

Segundo os especialistas, uma política voltada à consecução desses quatro objetivos demora de dois a três anos para dar resultados. Na prática, isso significa que tão cedo as universidades brasileiras não subirão de posição nos rankings mundiais de reputação acadêmica.

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Respostas a este tópico

O corporativismo na forma mais negativa age e mora em nossas instituições e a USP não fugiu a regra.

Com uma infraestrutura mostruosa e uma produção científica pifia , sem interesse na produção de conhecimento os cientistas são capturados e exportados.

A China, Índia e Rússia estão á frente em progressão aritimética e a gente esta perdendo o bonde, onde estão os centros de excelência.....

Ainda assim temos centros de referência. O Centro de Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas é reconhecido como um desses centros pela própria Organização Mundial de Saúde. Isso quer dizer que, mesmo com as condições existentes, existindo vontade, capacidade, organização e trabalho.

Vamos por partes.

1. O primeiro é aumentar o intercâmbio de alunos e professores, para internacionalizar a universidade brasileira.

Se temos um ensino médio fraco, temos universitários fracos. Poucas são os institutos (não as universidades!) que formam pessoas aptas a participarem de intercâmbios sérios. 

 

2. O segundo é ampliar o número de trabalhos de docentes e cientistas brasileiros publicados nas mais prestigiosas revistas acadêmicas e científicas mundiais.

 

Da mesma forma que as igrejinhas dominam aqui, elas também existem lá fora. O corpo editorial dessas revistas de ponta não querem saber de publicar trabalhos de cucarachos, a menos que eles estejam associados aos pesquisadores estrangeiros. Além disso, a publicação internacional só aceita trabalhos que apliquem tecnologia de ponta, inexistente na maioria das universidades. Assim retomo a crítica que fiz em outra mensagem: precisamos mesmo de um acelerador de partículas?

 

3. O terceiro objetivo é dar plena autonomia às instituições, permitindo-lhes abrir novos cursos sem depender de autorização governamental e libertá-las da ditadura do chamado "currículo mínimo".

 

DEUS ME LIVRE!! Sem autonomia as universidades criam cursos exdrúxulos para enganar - enganar mesmo!! - os pobres e iludidos vestibulandos! Imagine o que será se tiverem liberdade para criarem cursos. Cada especialidade da Medicina será uma graduação! Basta a criatividade dos engenheiros para criar graduações. O problema é que tornaram a graduação um curso de nível técnico. 

 

4. O quarto objetivo é estimular a formação de universidades de elites, que formam os docentes para lecionar nas demais instituições e conduzir pesquisas de ponta.

 

Jamais haverá universidades de elite com o esquema montado de "concurso" de docentes, com a falta de cobrança de ensino de qualidade. Professores preferem prestar consultoria (ganham muito dinheiro com isso!!) para empresas, colocando os pobres estagiários para fazerem o serviço todo. Cansei de ver isso! Professores montam bancas de teses com amigos do peito, que não os farão passar vergonha durante a defesa. E finalmente editam um concurso para docente ou pesquisador conforme o currículo do candidato que lhe é mais agradável, ou dócil.

 

Bilhões de reais são jogados na sarjeta com a manutenção da farsa acadêmica brasileira. Sei que a generalização não é a forma mais adequada de apresentar o quadro, mas quem nunca ouviu falar desses problemas que citei? Até mesmo o caso de um professor que se aposentou e prestou concurso para sua própria vaga. Claro que passou! 

 

Por essas e outras sou muito mais pessimista que otimista. Antes de injetar recursos na universidade para o desenvolvimento de pesuqisas de ponta, devemos nos perguntar como dar emprego para tantos pós-doutores egressos do exterior. Não basta criar cursos se não houver trabalho. Eu me canso de ver engenheiros das diversas graduações atuando em administração, ou em áreas que nada têm com a sua formação. Parece que basta ser engenheiro de qualquer coisa. Isso já não acontece com médico ou com advogado, as outras duas principais formações profissionais da sociedade. O resto é secundário, não tem trabalho mesmo. Então para que tantas universidades? 

 

Segundo os especialistas, uma política voltada à consecução desses quatro objetivos demora de dois a três anos para dar resultados.

 

DUVIDO!

Paro por aqui.

Sr. Alexandre, obrigado pela matéria. Quanto à posição das Universidades brasileiras já era do meu conhecimento. Acho peculiar senão absurda a minha situação, aonde tendo voltado ao Brasil (2010) com um projeto de colaboração entre uma Universidade Italiana (a 3º mais importante) e a UFPR (a qual não se entra em qualquer "ranking das Universidades" publicado) fui excluido do mesmo e não encontro vaga de pesquisador (só bolsista carregador de pianos), some-se a isto que obtive o meu Ph.D. na University College of London (entre as 10 melhores no mundo) e quatro pós-doutorados em Países como Holanda, Itália e Inglaterra. Os problemas não se limitam a instalações e equipamentos, o principal problema é a falta de cultura de pesquisa.

As minhas sugestões para melhorar a ciência no Brasil são:

http://hadriano66.blogspot.com/2011/04/tres-medidas-para-melhorar-c...

http://hadriano66.blogspot.com/2011/04/arcaica-estrutura-administra...

http://hadriano66.blogspot.com/2011/03/ue-cade-universidade-federal...

 

 

Concordo com a sugestão do Hadriano de fazer avaliações periódicas dos docentes. Mas é preciso lembrar que eles também cumprem a função de lecionar. Nem sempre o melhor professor é o melhor pesquisador. Há pessoas que se realizam mais na primeira função que na segunda (cito meu pai, um professor venerado pelos seus ex-alunos). 

A formação de futuros profissionais não depende exclusivamente de grandes pesquisadores, mas principalmente de grandes educadores. E nas universidades brasileiras encontramos de tudo, inclusive gente que não presta nem para fazer pesquisa, nem para ensinar. Como não existe avaliação, e o emprego tem uma suposta estabilidade (apesar de todos serem celetistas e poderem ser demitidos a qualquer hora), não há cobranças.

Ainda assim, mesmo que tenhamos as melhores universidades do mundo, haveria migração contínua - e talvez ainda maior - dos melhores profissionais, simplesmente porque não existe mercado para absorvê-los. A grande maioria de nossas empresas não é brasileira, mas multinacionais que usam nossa mão de obra para a produção de bens planejados e desenvolvidos no exterior. Para que a indústria farmacêutica montaria um centro de pesquisa aqui? Quanto do desenvolvimento de um automóvel é feito por nossos engenheiros? Para onde vão as patentes e os royalties de descobertas realizadas aqui no Brasil? O caso da fibra ótica é emblemático, assim como muitas outras invenções nascidas aqui dentro.

Os brasileiros têm uma criatividade invejável, mas não existe estrutura que permita que as idéias e os frutos dessas idéias permaneçam aqui. Quando um brasileiro descobre algo, aparece uma multinacional e compra a patente por uma bagatela. Quando uma invenção é criada no seio da universidade, a patente tem que ser da instituição, não do pesquisador, principalmente se a instituição é pública. Quem trabalha numa instituição pública está lá para servir o país, não para enriquecer às custas dele. 

Para tentar evitar a venda de patentes deveríamos vincular as descobertas às instituições, afinal são elas que financiam as pesquisas. Mas aí há o risco do boicote internacional. Cito um exemplo:

há mais de 20 anos uma equipe de brasileiros desenvolveu uma idéia inovadora para a prevenção da cárie: adicionar um determinado antibiótico ao chiclete. As empresas disputaram furiosamente a patente, mas a equipe decidiu cedê-la a uma empresa nacional, que logo fez um contrato vultuoso de fornecimento do chiclete para um país pouco populoso chamado CHINA! Imaginem a repercussão disso no mercado internacional! O chiclete se chamava Dem-Dem. Pois não se passaram dois meses, uma discutível universidade americana apresentou uma suspeitíssima pesquisa acadêmica que provava que o tal antibiótico (em doses 200 vezes superiores à quantidade presente no chiclete) causava câncer! Nossa gloriosa ANVISA, sem qualquer receio, proibiu a produção do chiclete e a idéia morreu. 

Voltando ao tema, uma alternativa para a fixação de bons profissionais no país poderia ser a criação de centros exclusivos de pesquisa, em que os pesquisadores estariam livres de função docente e de funções burocráticas. Pós-graduação em administração voltada para as peculiaridades desses centros forneceriam a mão de obra qualificada para gerenciá-los.

Esses centros produziriam tecnologia de ponta em diversas áreas, e resultados efetivos seriam cobrados. Nada de pesquisas enganosas, de replicação de coisas já desenvolvidas no exterior. Nada de estabilidade também. Seriam contratos de risco, sem necessidade de concursos, como as farsas montadas hoje. 

Tudo isso seria ótimo, mas nossas empresas estariam prontas ou dispostas a jogar as novas tecnologias no mercado?  Até isso precisa ser trabalhado.

 

E resta uma última questão, que já fiz em mensagem anterior: quais seriam as propostas para o desenvolvimento de pesquisas em áreas que não produzem desenvolvimento tecnológico de curto prazo? Cito algumas áreas da Biologia e praticamente todas as áreas sociais. Que revolução seria possível para elas?

 

As interessantes considerações feitas por Rodrigo refletem um problema que ao invéz de diminuir aumenta em todo o mundo. Gostaria de sugerir o seguinte recente editorial da Nature abordando esta mesma questão: Give postdocs a career, not empty promises (Dê uma carreira ao posdoc, não promessas vazias).

http://www.nature.com/news/2011/110302/full/471007a.html

E a autora dá uma sugestão muito parecida a de Rodrigo e outros, senão idêntica: "we should professionalize the postdoc role and turn it into a career rather than a scientific stepping stone." (Nós deveriamos profissionalizar o papel do posdoc e transformá-la em uma carreira ao invéz de "um passo na carreira científica").

 

A Revista PESQUISA RIO, editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro, em sua edição de março, traz algumas matérias importantes para o contexto dessa discussão. É interessante porque aborda matérias sobre tecnologia para a produção de peixes e rãs; desenvolvimento tecnológico para aprimoramento de cronometragem esportiva; pesquisas sobre análise da exposição de pacientes e profissionais a tratamentos radiológicos; ferramentas para auxiliar o ensino de música e de ciências; tecnologia para a produção de novos fármacos; para o aproveitamento de resíduos de laticínios para a produção de ração animal e aprimoramento da fertilidade de solos aproveitando o bagaço de cana.

Parte dessas pesquisas é desenvolvida em parceria com o setor privado, outra parte busca o setor privado para a produção em larga escala dos produtos. 

O que vejo de relevante nisso é que nem tudo é tecnologia de ponta, mas cujo resultado pode reverter rapidamente em benefícios econômicos, sociais e ambientais se praticadas em larga escala.  

Abre-se aí mais um tópico para nossa discussão: a pesquisa de que o país precisa para resolver grande parte de seus problemas crônicos é de fato a que depende de grandes investimentos?

Cito um exemplo de minha área: meio ambiente. Durante um seminário, perguntei a um emérito pesquisador por que até hoje nossos cientistas ainda não conseguiram revelar os segredos de nossos peixes migradores, e por que os órgãos fomentadores de pesquisa não financiavam esse tipo de estudo ainda tão básico e tão necessário para a discussão sobre a utilização dos recursos hídricos. A resposta foi: esse não é o tipo de pesquisa "PUBLICÁVEL".

Concluam como quiserem. Eu não me atrevo a escrever o que de fato penso sobre isso.

 

 

 

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