==continuação da postagem anterior.

 

 

 

(Im)possíveis Clubes da Esquina ?

 

Termino de ler um livro maravilhoso: “Os sonhos não envelhecem”, de Marcio Borges, uma espécie de relato confessional do Clube da Esquina de Minas Gerais em seus primeiros e vitais 15 anos. É 2009 e estou no Bairro Petrópolis de Porto Alegre, o mesmo bairro onde Marcio “deu um tempo” com sua esposa no final da década de 1960. Nesse livro, emotivo e sincero, a gente percebe o processo de gestação de um movimento musical maravilhoso na sua criação poética e sonora, nos seus intérpretes, na sua postura cidadã, na síntese do universal com o regional, do moderno com o tradicional. Como um pequeno grupo de amigos de bairro, na verdade moradores de quase um só prédio, imersos na mesma atmosfera inquieta e contestadora em que gravitava a juventude brasileira em cada uma de suas regiões, pode gerar todo um universo criativo, popular, desafiador, belo, sutil e singelo para presentear nossos corações sedentos. A pergunta salta aos meus lábios: poderíamos ter tido e sido um clube da esquina, um clube da lomba, da várzea, mas enfim algum “clube”?  Poderíamos ter tido essa chance, poderíamos ter sabido ser aquele clube?  Nossa música, nosso sentimento regional e cívico, nossa geração, tinha asas para voar essa viagem encantadora que viajaram Marcio, Wagner, Milton e demais associados do Clube?

 

 

Na linha do pênalti

 

Em diferentes momentos e com distintos graus de possibilidade, alguns nomes da nossa moçada, na segunda metade dos anos 60, estiveram perto de colocar sua música no “grande palco” da MPB. Sucesso em toda a cidade, recebeu o Grupo Canta-Povo, com suas canções autorais, a visita da direção da Philips carioca, decidida a contratá-lo. Clandestino em São Paulo, cruzo com Carlinhos Hartlieb, Lais Marques e Hermes Aquino que acabam de vencer um festival  paulistano, junto ao grupo Liverpool. Piscamos os olhos em silêncio ao cruzarmos na Av. São Luis; é mais prudente que não se fale comigo. Túlio Piva e eu estivemos em pleno Maracanazinho, ao lado de consagrados compositores. Minha canção está classificada para o Festival da Record. Elis grava canções de Mutinho, Napp, João Palmeiro. Erica Norimar é contratada por um selo nacional. Nossas canções se destacam em todos os festivais.

Mas alguma coisa não funciona, fica-se sempre no “quase”. Qual será o problema?

 

 

A cereja podre

 

Na Folha da tarde de 27 de abril de 1968, há um longo artigo de “Apresentação” da Frente Gaúcha da MPB, assinado por mim: diz ali que “[...] universitários, profissionais liberais, profissionais da música, trabalhadores e poetas se unem para em definitivo lançar as bases de um novo centro da música brasileira, em condições de equiparação com os demais pólos musicais do país”. Em dezenas de recortes, vou descobrindo o potencial dessa turma alegre e atrevida. No quinhão que me toca, leio expressões como “música vigorosa”, “segurança total”, “em sua música nada é gratuito”, “Raul surgiu como um furacão”, às quais tem que ser dado o desconto do momento,  mas de qualquer modo indicam a boa aceitação do meu trabalho. Tendo ficado de fora do movimento musical por uns dez anos (entre clandestinidade, condenação pela Lei de Segurança Nacional e exílio), sempre pensava em qual teria sido o destino dessa nossa grande turma. No retorno a Porto Alegre, gravei meu primeiro LP e comecei de novo do ponto onde tinha parado, 10 anos antes. Descobri o pior: tudo tinha parado por dez anos. Medo, exílio, perseguição,... alternativas místicas, muito baseado e LSD, cooptação, “pra-frente-brasil”, família, trabalho, desinteresse e temores da mídia, foram fatores que ceifaram o movimento. A cereja podre e perversa desse bolo é o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968.

Como em quase tudo no Brasil, o AI-5 cortou pela raiz aquele movimento musical, aquele ímpeto criativo, aquele ânimo participativo.

 

 

Viajando no som...

 

Como o sonho é livre, e já vi um pouco desse filme em outras paragens, deixo correr a fantasia. Vejo o Canta-Povo gravar seus três primeiros discos, arrasando em todo o país, motorizado por uma multinacional de disco. Seus compositores afinam a criação, melhoram arranjos, testam junto ao público. Muitos intérpretes estão gravando canções desse “Clube da Lomba” ficcional, com outros sotaques e abordagens, Laís e Wanderley fazem sucesso na voz de Agostinho dos Santos e Gal Costa. Paulinho do Pinho grava discos com sua levada inigualável ao violão, com um sexteto de craques da Rua Caldas Junior, esquina Riachuelo. Homerinho incrementa sua parceria com Zé Rodrix. Arranjos de Paulinho, Paulo Dorfman, Paulo Coelho, Telminho vão colorindo os discos. Alguns estudam com Armando Albuquerque, Ester Scliar, Zé Gomes, Alda Gomes, Bruno Kiefer, no Seminário Livre de Música. Erica Norimar estoura na televisão nacional, Sabino Loguércio grava discos lindos com nossas canções. Elis Regina é nossa embaixadora, coloca nossas canções no disco e televisão. Odeon e Philips contratam nossos artistas, investem pesado na promoção. Carlinhos Hartlieb, Bicho-da-Seda, Liverpool e Hermes estão na cena tropicalista-roqueira. Convidados para o programa de Roberto Carlos, sábado à tarde na TV Record, gravam um disco coletivo que será histórico. Faço bonito no Festival da Record. Gravo meu primeiro disco, algo “esquerdoso”. Devo até curtir um exílio suave na Europa, que aproveito para criar  parcerias com Gilberto Gil. Mutinho deslancha na parceria com Toquinho e Vinicius. Sua “Valsa dos Compositores” é sucesso na voz de Dorival Caimy. Guilherme Araújo apaixona-se pela música do sul e passa a empresariar artistas daqui. Novos programas de TV, novos xous e projetos por todo o país, alguns convites para a América Latina, músicas gravadas na Espanha e Portugal. Entrevistas na Revista do Rádio, fofocas, briguinhas, namoros e casamento mediáticos, críticos bacanas e críticos babacas. Ciúmes, plágios, novas parcerias e melhores canções. Tranquilidade profissional, boas turnês, direitos de autor em dia.

            Bom, estou fantasiando livremente, mas essa é uma fantasia bem pobre e tola, pois este delírio que aqui esbocei, com sabor algo paródico e um jeito algo absurdo, seria o “normal” que deveria acontecer, mas que virou “anormal” e terminou por não acontecer mesmo. Na real. Sinto muito.

 

 

Milonga dos vencidos

 

Aquele cidadão que faltou no palco da UFRGS, que não apareceu no festival da TV Record já deu para perceber que sou eu mesmo. Muitas outras coisas aconteceram das quais eu nada sei, pois fui o mais ausente na continuação. Quero contar a minha parte. Ao se comemorar 30 e 40 anos dos Festivais e da Frente Gaúcha da nossa grande música que poderia ter acontecido, o que se ouviu na cidade, pasmem, foi um grande e (in)sonoro silêncio. Chama a atenção a omissão dos músicos que participaram da época, eu incluído. Chama a atenção o mutismo dos grandes interessados, os Grupos Caldas Jr. e RBS, desmotivados  talvez por critérios comerciais. Chama muita atenção o silêncio da UFRGS e seus vários departamentos (Música, História, Letras, Extensão), que têm por objeto esta documentação e resgate. Se o AI-5 correu um telão de silêncio sobre nossas canções, a omissão atual é como uma continuação daquela repressão, é uma  mesma espada que cortou a vida musical e segue cortando a memória daquela vida musical. Não interessa saber-se de um grande movimento popular e cultural que houve aqui, na nossa aldeia, no botequim da esquina. A versão que fica é a dos vencedores, a versão da ditadura revigorada em 1968, a versão do silêncio. Espero ter contado aqui um pouco da milonga dos vencidos: “[...] afasta de mim este... cale-se !”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Respostas a este tópico

Oi Raul,

Acho que você, como tantos dessa geração à qual pertenço também, foi arrastado pelo furacão dos anos de chumbo e agora, que está pronto mostrar tudo, se encontra sem chão com as mudanças de valores éticos e estéticos, no mínimo.
Estou certa? Beijos,

Ana de Hollanda
Acho que creditar o esquecimento e o 'nunca acontecer nacionalmente' apenas aos anos de chumbo seria simplificar demais, até por que outros artistas e movimentos floresceram justamente neste período. Talvez seja mais uma questão mercadológica, de lobby cultural, quem sabe até um certo bairrismo.
A realidade é que até hoje o que se faz de música no RS, com raras exceções, é olimpicamente ignorado pela mídia mainstream. Mas vocês não estão sós, o que é feito musicalmente em 90% do país passa igualmente batido.
Eu não credito essa crise toda aos anos de chumbo, de forma alguma. Eu falei da mudança de valores éticos e estéticos, superficialmente, sem me aprofundar nessas questões que você tocou, assim como em tantas outras mais, como o empobrecimento da música executada e conseqüentemente, a falta de acesso da população à diversidade musical, sem dúvida, a manifestação artística mais rica que o Brasil produz e o desistímulo do criador em se dedicar à busca de novos caminhos, que não os que a máquina da mídia e das indústrias culturais investem.
Eu estava, no caso, me referindo à geração que sonhou antes dos anos de chumbo e esperou que depois tudo ficasse melhor. O que veio depois foi uma ditadura econômica muito bem estruturada, mas sem tréguas para a inventividade.

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