2010 @ 120 Anos ASTROJILDO PEREIRA ***** depoimento Ivan Alves Filho, Historiador RJ

Relembrando Astrojildo Pereira

O que mais impressiona na trajetória de Astrojildo Pereira, a meu
juízo, é a união que ele soube cimentar entre o homem de pensamento e o
homem de ação. Uma combinação rara. Talvez por isso, o escritor e homem
público Afonso Arinos de Mello Franco tenha se referido a ele como "a maior
aventura intelectual" do Brasil em seu tempo.

Vamos tentar entender melhor o motivo disso. Nascido em 1890, em Rio dos
Índios, localidade de Rio Bonito, na velha província fluminense, Astrojildo
Pereira vivenciou, em 1908, um episódio que o marcaria para o resto da vida.
Foi assim. Ao ler nos jornais que o romancista Machado de Assis agonizava,
ele pega imediatamente uma barca em Niterói, atravessa a Baía de Guanabara e
desce na Praça Quinze, no centro do Rio de Janeiro. Lá chegando, se enfia em
um bonde e vai bater com os costados no Cosme Velho, aprazível bairro onde
vivia o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas.

Profundo admirador da obra machadiana, o rapaz, de apenas 17 anos, queria se
despedir do velho mestre. Expõe sua intenção às pessoas que se encontravam
na casa e é autorizado a entrar no quarto do escritor. Ajoelha-se, beija-lhe
as mãos e logo depois se retira. Na belíssima crônica A última visita,
Euclides da Cunha, que presenciara a cena, escreveu: "Naquele momento, o seu
coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo
em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino
foi o maior homem de sua terra."

Dois anos após esse acontecimento, civilista convicto e já começando a se
impregnar de ideias anarquistas, Astrojildo Pereira desembarca no cais da
Praça Mauá, no Rio, e vai conhecer algumas das principais capitais
européias. Perambula seis meses pelo Velho Continente e retorna ao Brasil.
Em 1911, já colaborava com o órgão anarquista Guerra Social, trabalhava como
gráfico e linotipista e militava no movimento anarquista. Em 1913, integra,
com um grupo de aguerridos companheiros, a primeira central operária
brasileira, a COB, da qual se tornaria o secretário-geral. Em 1917 e 1918,
lidera uma série de greves operárias que abalam o Rio de Janeiro. É preso e
barbaramente espancado pela polícia no final de 1917 e novamente preso no
ano seguinte. Não esmorece. Em 1922, sob inspiração direta da revolução
bolchevique na Rússia, faz a opção definitiva pelo marxismo e ajuda a formar
o Partido Comunista no Brasil. Em 1924, viaja para Moscou, já investido na
condição de secretário geral do PCB. Nesse mesmo ano, assiste, na Praça
Vermelha, aos funerais de Vladimir I. Lênin - o arquiteto da revolução
bolchevique e também do Estado soviético. Ainda em Moscou, por essa época,
divide um alojamento com um líder comunista que seria considerado um dos
grandes estadistas do século XX: Ho Chi Minh.

De volta ao Brasil, vive como um revolucionário profissional. Com efeito,
Astrojildo não para. Dedica-se a organizar o PCB clandestino e se interna em
seguida na Bolívia, em 1927. Sua missão: contactar Luiz Carlos Prestes, o
chefe da Coluna Invicta, em nome do Partido. Entrega a Prestes uma mala com
livros marxistas e tenta convencê-lo da necessidade de revolucionar as
estruturas da sociedade - e não apenas derrubar este ou aquele governo.
Consegue atrair Luiz Carlos Prestes para as fileiras do PCB.

Uma vez acertado o ingresso do Partido na Internacional Comunista,
Astrojildo Pereira passaria a compor sua Comissão Executiva, a instância
máxima da organização, em 1929, quando parte novamente para a capital
soviética. Com menos de 40 anos de idade, ele já se apresentava como um dos
líderes da revolução mundial.

Mas não tardaria muito e Astrojildo Pereira teria sérias divergências
políticas com o Partido no Brasil. Assim, é afastado da organização em 1932,
sob a acusação de tentar barrar a linha dita de "proletarização" de sua
política e de simpatizar, ainda, com as ideias de Nikolai Bukharin, opositor
de Josef Stalin na direção do Partido Comunista da União Soviética.

Reintegrado ao PCB no bojo da redemocratização do país em 1945, Astrojildo
colabora, nesse meio tempo, com o jornal carioca Diário de Notícias e
escreve ensaios primorosos sobre Machado de Assis. Sua reputação como
crítico se consolida. Tampouco abandona a reflexão política, debruçando-se
sobre a análise do fascismo e sua influência no Brasil. Publica então vários
livros de ensaios. E ainda se dedica de corpo e alma à organização do I
Congresso Brasileiro de Escritores, realizado na sede da Associação
Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, em 1945. O Congresso lançaria,
praticamente, a pá de cal sobre o Estado Novo de Vargas. Dele participam
Jorge Amado, Caio Prado Júnior, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e outros
nomes de primeiríssima linha da literatura, da historiografia e da
ensaística brasileira.

Durante o Estado Novo, Astrojildo Pereira sobrevive vendendo frutas em um
depósito em Niterói, o que motivou Manoel Bandeira a escrever um poema sobre
ele. E de 1945 até o dia do Golpe de 1964, realiza pesquisas sobre a obra de
Machado de Assis e a trajetória do PCB. Ao lado de sua companheira Inez,
essas são as grandes paixões de sua vida, desde a juventude. Daí ter escrito
certa vez que seu ideal de vida encorporava "um doce amor de mulher em meio
a uma bravia luta política". Seja como for, Astrojildo edita, nessas duas
décadas, publicações da importância de Literatura e Estudos Sociais.
Trabalha na célebre Editorial Vitória, do PCB, e passa a ditar, na prática,
a política cultural do Partido. Intelectual refinado, contribui para revelar
alguns valores que brilhariam na cultura e na política, como Armênio Guedes
e Leandro Konder.

Astrojildo conviveu com figuras altamente representativas da cultura
brasileira, como Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti, Monteiro Lobato, Alberto
Passos Guimarães e Nelson Werneck Sodré - pelo lado comunista - e Otto Maria
Carpeaux e Hélio Silva, intelectuais católicos. Hélio Silva, inclusive, era
um um querido companheiro desde os tempos do anarquismo. Mais de uma vez, eu
o ouvi - fascinado - discorrendo sobre isso, em meados da década de 80, no
Rio de Janeiro.

A explicação para esse trânsito junto a personalidades dos mais diferentes
horizontes políticos e filosóficos reside no fato de que Astrojildo Pereira
defendia seus pontos de vista sem qualquer traço de sectarismo. É bem
verdade que nos momentos mais duros dos embates ideológicos travados pelo
PCB, o velho revolucionário se alinhou, daqui e dali, com posições que, a
rigor, contrariavam sua própria visão de mundo. É que, por formação, jamais
iria contra uma diretriz do Partido. Mesmo assim, era, basicamente, um homem
avançado em relação à sua época. Escrevendo de Moscou, em 1925, por exemplo,
reconheceu que "a democracia, ainda que burguesa, é vista como um bem pelas
massas".

Era, de fato, um homem raro, desses que aparecem a cada meio século. Sua
primeira prisão política, que eu saiba, se deu em 1917; a última, em 1964.
Em 1965, devido aos rigores da prisão, onde sofreu um infarto, morreu
Astrojildo Pereira. Foi perseguido a vida inteira, mas nunca perseguiu
ninguém. Lutou todos os combates possíveis pela liberdade. Afonso Arinos
tinha razão: Astrojildo Pereira levou uma existência que honra a
inteligência brasileira. Sua vida é um desafio permanente lançado à
imaginação dos melhores romancistas.

Eu o conheci em nossa casa, no Rio de Janeiro, quando estava para fazer 13
anos. Foi logo após sua saída da prisão. Meu pai, militante do PCB, tinha
por ele um um grande respeito. Guardo até hoje na memória sua semelhança
física com meu avô paterno. Em ambos, eu percebia a mesma candura nos
gestos, a mesma doçura no olhar, a mesma calma ao lidar com as pessoas. Como
Astrojildo, vovô era um admirador do camarada Prestes, o Cavaleiro da
Esperança. Como ele, vovô nascera na velha província. Ao conhecer Astrojildo
Pereira, foi como se eu passasse a ter mais um avô só para mim.

Pouco depois, soube de sua morte. Seu enterro foi uma corajosa manifestação
pública de repúdio à ditadura militar então instalada no Brasil. Inez Dias,
desafiando os esbirros do regime, gritou, à beira do túmulo: Viva Astrojildo
Pereira! Naturalmente, fiquei abalado com tudo aquilo que estava
acontecendo. No país do final da minha infância, prendiam e maltratavam
homens com mais de 70 anos de idade. Seu pecado? Ter permanecido fiel às
suas ideias de juventude. Era mesmo assustador.

O velho Astrojildo Pereira foi o primeiro herói da minha vida.

Ivan Alves Filho, historiador RJ

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Comentário de Delcio Marinho em 26 fevereiro 2010 às 7:57
Comentário de Delcio Marinho em 26 fevereiro 2010 às 7:59
Comentário de Delcio Marinho em 26 fevereiro 2010 às 8:00
Comentário de Delcio Marinho em 26 fevereiro 2010 às 8:02

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