Peguei meu pendrive/discoteca , abri a pasta ANOS 60 e botei o Windows Media Player para reproduzir tudo. São 411 faixas escolhidas quase que a dedo, iniciando com “Aquarius”, na interpretação do Fifth Dimension e que, na época, foi um sucessão. “Hair” só foi chegar aqui dez anos atrasado e não fazia mais a cabeça. Valia a pena ser vista, só e somente só. O se e somente se tinha perdido seu prazo de validade lógica, ainda mais naqueles anos iniciais de censura plena.
A segunda faixa do listão é mais condizente com a realidade em que eu vivia, repleta de grupinhos, guitarras e sonhos de ser astro de rock. Brigávamos na escola e na faculdade com a turminha que gostava de Bossa Nova e seu lixo gravitacional. Nós usávamos jeans e camiseta. Eles usavam camisa de ban-lon e calça de tergal. A faixa que tocou? “All day and All of The Night”, com um Kinks raivoso na guitarra de estúdio de Jimmy Page e na letra irônica de Ray Davies, uma espécie de Evandro Mesquita/Patrícia Travassos da época, cortante feito faca.
Falando em jeans, mais tarde- no meio dos ano 70- um grupo de MPB recusou meus serviços de baterista/ percussionista, simplesmente porque eu usava “Calça Lee” e isso era coisa de colonizado. Cmo eu era colonizado mesmo e sabia disso, mandei eles a merda e fiquei no meu som, rockando e rolando com as garotas que pintavam. Prá mim, o que valia era Tim Maia, Gilberto Gil e Raul Seixas. Bossa Nova? Continuava a ser lixo para mim.
Sempre achei João Gilberto qualquer nota, ainda mais depois que ouvi o célebre disco do Barney Kessel com a Julie London e descobri onde é que ele havia aprendido a tocar do jeito que ele toca. Ouvindo Chet Baker descobri onde ele havia aprendido a cantar. Nunca vou chamar aquele chato de gênio. Parafraseando Paulo Francis, Tá com saudade da Bahia? Volta prá lá, uai?
Quando eu terminei de escrever o parágafo acima, a guitarra de Jeff Beck comia solta, acompanhada de Tim Bogerty e Carmine Appice na célebre regravação de “Superstition” de Stevie Wonder, que na sequência teve “Blue Moon”, na interpretação dos Marcels e que ficou célebre na trilha sonora de “American Grafitti”, com Wolfman Jack e tudo o mais o que o filme teve direito. Na época, o fime não foi nenhuma novidade, pois vivi uma história semelhante ao roteiro ao estudar numa escola Americana ( American School, do Rio de Janeiro) e passar por quase tudo aquilo, menos os pegas e carro na estrada, já que sempre gostei de moto, até perder parcialmente os movimentos do braço esquerdo, num acidente sério, já nos anos 80.
Agora o que está tocando é um Elvis(Can´t Help Falling in Love), que nunca fez minha cabeça. Tive discussões homéricas com Raul Seixas e Edith( sua primeira mulher) a respeito do assunto, já que Raul não vivia sem um Elvis. Tinha toda a discografia, além de plagiar algo em suas músicas e nos seus maneirismos. Na sequência, entrou um Chacrinha cantando “Eu Quero Mocotó” de Jorge Ben, numa das poucas gravações que o Velho Guerreiro fez emdisco. O compacto é de 1970 numa gravação ODEON. Indo um pouco mais além, a faixa me trouxe à memória a lembrança de Erlon Chaves, um dos músicos nacionais mais injustiçados da história da cultura Brasileira, que foi obrigado a aceitar ser jurado do programa de Flávio Cavalcanti para poder sobreviver, já que não conseguia ganhar algum com seu talento.
Se eu for usar injustiça como sequência de cena em minha tomada de memória, vários músicos e intérpretes me vêm na lembrança: Roberto e Wilson Simonal, Angelo Antonio(parceiro de Carlos Imperial), Regininha, Orlann Divo, Pedrinho Rodrigues, Ed Lincoln, Sonia Delfino, Peri Ribeiro, Leni Andrade, Don Salvador, Dom Nei, Luiz Antonio, Ed Maciel, Ion Muniz, Vitor Assis Brasil e toda uma cena esquecida e espezinhada por alguns que, vitoriosos, escreveram um registro cultural falho e incompleto do que aconteceu nesses últimos 40 anos. Como é sabido desde o julgamento de Nuremberg, a História é escrita pelos vencedores. Alguém duvida disso?

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Comentário de Helô em 2 outubro 2008 às 16:23
Eu não duvido de nada!
Só sei que estou ADORANDO suas crônicas.
Bjs.

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